Syurga

1 Capítulo 1 - Jacob westmont


Notas iniciais
Essa história foi escrita com carinho, espero que gostem

O rapaz respirou fundo para manter a mente em foco. Enquanto espirava permitiu seus instintos de caçador lhe mostrassem o caminho correto a seguir. Houve um movimento rápido das mãos até o estojo e uma seta foi apanhada, o som da corda do arco tencionando. Jacob avaliou friamente sua presa: um alce grande de pelagem marrom-avermelhada. A mão soltou a corda e a seta zuniu pelo ar e se alojou no coração do alce, mas não o suficiente para uma morte imediata. A massa pesada do animal tombou de lado sobre os últimos resquícios de neve que antecediam a primavera.

O rapaz jogou o arco pelo ombro e escorregou pelo tronco da árvore e se aproximou sem pressa de sua caça. Olhos marrons lhe encararam quando deslizou a lâmina para fora da cinta, quase como se lhe implorasse pela vida. Mas o que encontrou fora apenas uma máscara sem expressão. Jacob Westmont afagou o pelo, sentiu sua respiração fraca em seus últimos momentos...

Então apunhalou seu coração.

Não houve guincho de dor. O animal apenas estremeceu e morreu. Jacob não sentiu nada, afinal de contas era para isso que fora criado, para caçar. Ele ouviu passos em sua direção, mas soube antes de ver, que pertencia ao seu velho.

— Hora de ir Jay. Seu primo está lhe esperando — disse seu mentor como se não se importasse com o animal abatido — Já está na hora de ser apresentado à Ordem.

Jacob não tirou os olhos de alce — Kirke nunca teve muita paciência não? Já deveria saber disso Leo — ele disse se virando para o homem

— Pensei que aguardasse com expectativa por esse dia — seu velho deu de ombro — O dia em que receberá sua "sina". Pensei que quisesse caçar...

— E ainda quero — completou Jacob alcançando a corda na cintura e laçando as patas do animal morto — Mas ainda não acredito que o dia finalmente chegou.

Novamente Leo apenas acenou com a cabeça e indicou a caminhonete. E jogou as chaves para o rapaz, que a apanhou com a mão livre. — Syurga fica há vinte quilômetros ainda. Você dirige, estou com uma dor forte na lombar. Juro que se tiver que pegar naquela maldita caminhonete de novo eu estouro meus miolos.

Jay sorriu. — O preço da velhice, meu caro. Sabe como dizem: ou se morre cedo ou vive o suficiente para se ver seu pau enrugar!

A viagem foi rápida sem muito papo. Uma atmosfera de apreensão pairava entre os dois, uma calmaria antes do que estava por vir. Em seus 19 anos jacob Westmont se sentia tão despreparado como nunca, sentia-se uma criança de 9 anos novamente que perdera a mãe cedo e tivera de ir morar com o pai que mal conhecia viajando de cidade em cidade sem nunca parar ou fixar residência. Fazia agora 10 anos que iniciara seu treinamento, tudo para aquele momento: o dia em que se tornaria membro da 13° Ordem

A luz pálida da manhã aos poucos deu lugar ao calor maçante da tarde quando deixaram para trás a auto estrada 31 e desceram a encosta que levava ao seu destino. Syurga surgiu no horizonte e Jay sorriu, estava em casa. A cidade cintilava com o brilho do sol nas águas dos rios que cortavam a cidade em três direções destacando assim o distrito conhecido por Éden, uma ilha que era o coração de Syurga e lar dos mais ricos e o paraíso cobiçado pelos pobres. Os rios desembocavam nas docas da cidade, onde centenas de barcos iam e vinham todos os dias.

Em contra partida, meio que rivalizando com o esplendor do Éden, as periferias às margens dos rios davam um aspecto de contraste social. Mas infelizmente essa era a realidade, apenas os fortes e aptos sobrevivem em Syurga.

Jacob guiou a caminhonete por uma estrada de terra batida até os portões de ferro da mansão dos Vermonth. Dois seguranças armados com fuzis de assalto faziam a guardas nos portões. Seus aspectos não lembravam em nada profissionais, usavam calças jeans e jaquetas de couro, lembrando mais mercenários do que seguranças.

— Estamos aqui em nome do Comandante — Leo disse enquanto erguia a manga do blusão exibindo uma tatuagem de uma cruz com uma única lágrima vermelha de sangue. — Meu garoto está aqui para a "passagem".

Um dos guardas acenou com a cabeça e fez sinal com o indicador para o segundo que abriu o portão para deixar passar. A mansão dos Vermonth era uma construção antiga, erguida durante o século XVIII, era tão elegante quanto impenetrável. Uma atmosfera tensa envolvia a construção e causava arrepios em Jacob, como se algum tipo de magia estivesse gravada nas paredes. A residência contava com dois hectares de campos verdejantes e um alojamento para criados onde fizera travessuras com seu primo durante as raras visitas à cidade.

A caminhonete parou em frente a porta central onde uma dúzia de outros carros estavam estacionados. Novamente Jacob notou mais homens armados na entrada como se esperassem por algum incidente. Ele respirou fundo mais uma vez e depois ambos entraram na mansão.

Um criado os levou até uma sala onde estavam reunidos outros 7 homens e 9 jovens mais ou menos da sua idade, todos sentados à mesa a sua espera. Todos tão assustados quanto ele para a "passagem". Sentado na cabeceira um homem de cabelos negros e olhos castanhos jazia com os pés sobre a mesa concentrado no anel no dedo. Ele vestia uma camiseta preta regata e calças jeans folgadas azuis. Seus braços eram repletos de tatuagens exóticas e carregava um colar com o brasão da Ordem estampado.

O homem estava tão concentrado no que fazia que demorou alguns instantes até notar os recém chegados. Kirke deu um sorriso jovial.

— Leo! Seu velho desgraçado! — ele se levantou e abraçou seu tio e deu uma boa olhada para sua cara e depois se virou para Jacob — Hey Jay! Quanto tempo moleque. Espero que esteja preparado para o que virá hoje. Sente-se já vamos começar.

O líder da 13° Ordem era jovem, não mais do que quatro anos mais velho que seu primo. Alto e esbelto, Kirke a primeira vista não era uma figura impressionante como era esperado de alguém em sua posição. Kirke tomou novamente seu lugar à cabeceira e Jacob e Leo sentaram-se com os outros.

— Brindemos à essa nova fase de suas vidas. Em pouco tempo farão o ritual de passagem e logo se tornarão membros da 13° Ordem. Vou ser bem franco: poucos de vocês vão conseguir a "sina". Alguns podem até vir a encontrar seu fim nesse desafio. – ele deu uma pausa para encará-los um por um examinando seus espíritos — Mas, essa é a vida que escolhemos, podemos morrer a qualquer minuto. Esse é o preço pelo que fazemos, somos caçadores! Para atirar devemos estar preparados para levar um tiro! Livrar o mundo dessas coisas terríveis que caminham entre nós é nosso dever, se não nós, que irá defender os inocentes? Quem irá impedir esses monstros?

— A decisão que estão prestes a tomar é um caminho sem volta. Uma vez que carreguem a "sina" deverão obedecer às Leis Supremas até o dia em que o último sopro de vida deixe seus cadáveres! Não há lugar para fracos e indecisos ao meu lado! Ou você é o caçador ou é a caça! Sabem onde estamos, não? Aqui é Syurga! Aqui é a selva de pedra. Suas mortes não serão honrosas, e certamente não haverá estatuas ou agradecimento pelo serviço prestado, vocês serão guiados apenas por um propósito: servir.

Ninguém se manifestou. O líder ergueu a taça e todos imitaram o gesto e ele completou:

— Um brinde ao futuro de merda que os espera!

Ele ficou a observar enquanto todos bebiam. Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios e já era tarde demais para Jacob. Ele olhou para seu pai, ele não bebeu. Na verdade nenhum dos adultos bebeu. Jacob praguejou e sua visão oscilou

A última coisa que viu foi seu primo lhe encarando com um olhar decidido no rosto. Depois tudo escureceu.