Syurga
2 Capitulo 2 - Isaac Vorl
— A essência da mente humana é a fantasia — Isaac disse em seu sotaque carregado, enquanto dava seu sorriso mais cordial e apanhou a mão da bela mulher a sua frente e sentiu-se satisfeito ao vê-la arquear. — A magia está presente até nos mais simples sentimentos e quando bem explorado se transforma na mais linda das coisas beirando a perfeição.
O jovem de 21 anos aprendera desde jovem que seu maior poder era o dom da palavra. Quando bem ditas poderia fazer um homem adulto derramar lágrimas, quando sussurradas podia fazer até a mais casta das mulheres abrir as pernas. Seu charme era sua força e sua voz era sua arma mortal. Mas não fora para isso que ela fora feita, fora para fazer o que fazia de melhor: conjurar.
— Não existe magia seu bobo! — a senhora Lennor riu. Ela era uma mulher bela em seus 30 anos, de pele morena e cabelos cacheados. A senhora Lennor era casada com um homem que não amava e vivia uma vida que não a agradava. Uma presa fácil para alguém como Isaac, que carregava uma aura de mistério e encanto.
— Creio que a senhora não esteja olhando com atenção o bastante. — ele estalou os dedos e na ponta do indicador ganhou vida uma chama esverdeada e logo em seguida desaparecendo — Ás vezes a fuga da realidade é muito bem-vinda — ele a puxou para perto de si e acariciou seus cabelos. Seus dedos param na nuca e a trouxe para um beijo longo e terno.
Apenas algumas horas depois a senhora Lennor se daria conta da carteira que desaparecera de sua bolsa. Isaac desapareceu pelas sombras da noite no bairro Hugor Brens, o lugar dos excluídos e vagabundos. Era o lugar perfeito para golpistas e prostitutas. O coração do submundo de Syurga era repleto de oportunidades, era onde as coisas aconteciam e onde destinos eram traçados.
Aquela era uma noite fria, final de inverno. Seus ossos doíam, o casaco que vestia não era o suficiente para afastar o frio além de estar bem puído e remendado algumas vezes. O rapaz passou a mão pelos cabelos acobreados e suspirou. Como odiava aquele lugar.
Até um tempo atrás sonhava em vir para Syurga. Um rapaz do interior que fantasiava com a vida na cidade, não possuía nada além da mente sagaz e o antigo livro de feitiços de seu avô. Isaac queria entrar no Colégio, onde os maiores simpatistas do mundo se reuniam para trocar conhecimento e ensinar a nova geração nos segredos da magia. Isaac sabia que nascera com o dom, era inteligente e esforçado, além de muito inocente na época.
Mas nunca chegou a realmente a entrar no Colégio pois sua família não possuía prestígio na comunidade mágica e seu sangue era considerado ruim. Banido e sem ter para onde ir, o rapaz caíra no desespero e só sobrevivera por causa da Irmandade do Silêncio, um grupo de rejeitados pelo Colégio que se ajudam quando necessário. Com eles aprendeu que a magia era algo bem conveniente para os humanos que não enxergavam através da Bruma e não conhecia o outro mundo.
A Irmandade do Silêncio era formada principalmente por aspirantes que ganhavam a vida como ilusionistas de rua, uma mistura de mágicos e ladrões. Eram mau vistos pelos estudantes do Colégio e eram a párea de ambas as sociedades, sofrendo várias perseguições de extremistas do Colégio e adeptos do Deus Vermelho, a seita que crescera na cidade nos últimos anos.
Vivendo como um cão na sarjeta Isaac tivera que se adaptar à sua nova realidade da melhor forma possível fosse roubando ou se prostituindo para sobreviver sonhando com uma vida melhor que nunca chegaria. Já não lhe restara nenhuma esperança, provavelmente viria um dia em que sua vida chegaria a um fim prematuro naqueles mesmos becos sem que ninguém nunca soubesse que ele foi, seria apenas mais um cadáver para alimentar os ratos.
Gastava todo o dinheiro que conseguia com bebidas e mulheres. Quando não estava em orgias estava em algum bar com seus amigos que, na maioria das vezes, acabavam levando toda sua grana quando caia desmaiado. Isaac sabia que sua família não aprovaria a forma como vivia mas não ligava, o que mais lhe restara? Ninguém daria uma chance a um simpatista fracassado, privado da sua única paixão ele não tinha outra escolha a não ser o preencher o vazio com o pudesse.
Aquela noite algo estava errado. Quando voltava para seu apartamento pelos guetos do distrito sentiu que alguém o seguia. Um feitiço bem simples mas muito útil para a vida que levava era o de sonar que detectava a presença hostil, técnica que todo simpatista que se preze sabia usar, principalmente os do distrito que tinham suas vidas em risco todos os dias.
Isaac tentou despistá-los se esgueirando por alguns becos escuros, mas seus perseguidores pareciam bem persistentes. Sem outra escolha, ele pulou um muro e subiu pelo telhado de uma loja, mas logo seus perseguidores estavam novamente em seu encalço. Isaac continuou a pular pelos telhados agora em velocidade máxima, saltou sobre outro muro aterrissando com um rolamento e virou em uma esquina que dava para uma antiga casa abandonada e aguardou.
Os perseguidores vieram em sua direção e pararam poucos metros de onde estava. Estavam em dois e possuíam uma altura incrível, quase como se não fossem humanos. Ok. Isso é estranho, ele disse a si mesmo.
— Quem são vocês? — ele perguntou
Mas não veio resposta.
— Digam para o Desh que estou com a grana dele. Vou paga-lo amanhã...
Mas não pareceram se importar. Algo estava muito errado.
— Ok...
Foi então que um dos perseguidores sussurrou algumas palavras e um circulo mágico vermelho surgiu da mão erguida. Não fosse pelo tempo de ativação, Isaac poderia estar morto, mas em um movimento ágil, o rapaz ativou seus próprios círculos pré-preparados nas solas do tenis. Ele dobrou os joelhos e deu impulso num instante sua velocidade dobrou e já não estava lá quando a esfera de energia se chocou onde ele estava um segundo atrás.
Ofegante, Isaac tentou fugir mas o segundo já preparava um feitiço. Outra vez ativou os círculos e desviou por um tris do ataque atravessando a janela estilhaçada deixando a casa abandonada que agora desabava e queimava com chamas verdes. Ainda no ar sacou o canivete que trazia na jaqueta e caiu desajeitado sobre o capô de um carro velho sentindo uma pontada nas costelas.
Mas os inimigos já o cercaram outra vez. Dando outro impulso ele se jogou contra um inimigo lhe esfaqueando o ombro direito. Aumentando a intensidade e diminuindo o tamanho Isaac criou o circulo mágico do tamanho da palma da mão se virando bem a tempo de atirar um contra-fetiço no inimigo que lançara uma esfera de energia.
Os poderes se chocaram e se anularam. Esgotado, Isaac correu, pulou um muro e não olhou para atrás. Enquanto corria ouvia disparos de energia explodindo sobre sua cabeça quase o acertando, destruindo telhados e vidraças e começando pequenos incêndios verde fluorescentes. Mas nem por isso parava.
Sua mente disparou a mil tentando entender o que estava acontecendo, em que furada se metera dessa vez! Por que estavam atrás dele? Ou melhor ainda por que estavam tão empenhados em conseguir pega-lo?
Antes que pudesse chegar a uma conclusão, uma esfera incandescente explodiu a sua frente abrindo uma cratera fumegante no asfalto. Ativou mais uma vez os círculos nos tenis e deu impulso saltando para uma casa acertando o joelho numa telha quebrada cambaleando antes de continuar a correr deixando para trás seus perseguidores.
Ou foi o que pensava.
Quando finalmente parou para respirar sentiu uma mão gélida subindo pelo pescoço. Uma mulher surgida das sombras lhe ergueu pelo pescoço. Seus olhos brilhavam em um tom púrpura intenso. Ele tentou se debater mas a mão o agarrara com uma força assombrosa.
Depois tudo escureceu...
Fale com o autor