Syurga

3 Capitulo 3 - Jacob Westmont


Quando acordou sentiu uma forte dor de cabeça. Sentiu um estranho cheiro salgado da maresia. Tentou se mexer, mas descobriu as mãos amarradas por correntes presas ao teto tilintando com o esforço. Não conseguia ver nada, um saco preto cobria o rosto. Foi então que o desespero subiu a cabeça e sentiu o ar escapar dos pulmões e a mente girar desgovernada enquanto se debatia nas correntes.

Lembre-se do treinamento. O último resquício de consciência gritava, Mantenha a calma, recupere a razão e pense. O medo é uma ilusão.

Embora na teoria fosse mais fácil que na prática, levara uns bons 15 minutos até estar razoavelmente de volta ao controle. O primeiro passo foi erguer-se o suficiente para arrancar o saco preto da cabeça. Como fora estúpido para cair no truque mais velho da história! A raiva e o medo assumiam as rédeas da sua mente e o deixavam impotente e vulnerável, fizera exercícios como aquele milhares de vezes nos últimos dez anos.

Respirou fundo e examinou o local. Estava em algum tipo de armazém utilizado para guardar armas, ele pode sentir o cheiro de pólvora embora não pudesse avistar qualquer caixote. A única luz vinha da lua entrando pelas janelas em grade do lugar, Jay logo determinou que estava sozinho e passou ao segundo passo e analisou a situação das correntes.

Velhas e já enferrujadas eram as palavras que as definiam. Jay enrolou as correntes nos ante braços e começou a puxá-las para baixo. Os pinos presos no teto já eram gastos e com a forte maresia do oceano já se degradara o suficiente para que fosse quebrada com a quantidade certa de força...

Alguns minutos depois Jay finalmente conseguiu romper os pinos e cair com um estrondo em cima de alguns caixotes vazios. O rapaz sacudiu a cabeça e se ergueu imaginando onde diabos viera parar. Foi quando notou uma pequena caixa de madeira a seus pés. Ela trazia o símbolo da ordem.

Jay a abriu e encontrou uma faca de caça e um bilhete negro com palavras brancas:

Caçador ou caça?

Um guincho grutal ecoou pela noite. Mas o som não vinha de humano algum, não, o que caçavam era algo totalmente diferente: aquele era o som de monstros. Jacob deslizou a faca para o cinto, passou pela porta do armazém e deixou as sombras das docas lhe esconderem enquanto traçava o próximo passo a tomar.

Sentiu o suor descer frio quando outro guincho respondeu ao primeiro, dessa vez bem próximo de onde estava. Engoliu em seco e respirou fundo afastando uma onda de pânico que começava a se forma dentro de si. Ele observou o lugar ao redor: totalmente deserto. Iluminado apenas por alguns postes de luz amarelada aleatórios que tornavam a escuridão mais densa do que irradiava luz.

Outro guincho. Estava se aproximando rápido. Jacob recuou até uma antiga construção de madeira decadente e escalou por sua lateral praguejando pelos ruídos que fazia. Tentou avistar alguma coisa. Nada. Seja lá o que estivesse ali fora não encontraria dessa forma. Ele então arrancou uma lasca solta do telhado do tamanho do antebraço e segurou firme.

Um vulto veloz passou pela luz deixando um rastro de ansiedade no ar. Jay murmurava freneticamente imaginando com o que diabos estava lidando. Rezou para que seu palpite estivesse correto e atirou o pedaço de madeira em uma pilha de latões que jazia ali perto fazendo um estrondo na escuridão. Imediatamente uma massa volumosa se atirou contra a pilha tentando rasgá-la com suas garras.

Por um momento Jacob ficou estático, quase que hipnotizado com o tilintar do metal sendo destroçado. O ser que os destruía era de forma humanoide, sua cabeça ostentava poucos fios de cabelos. De pele retorcida vermelha e enrugada, seus olhos leitosos fitavam a pilha mas não a enxergavam, eram brancos e opacos. Seus enormes dentes saltavam de sua boca em três fileiras afiadas e mortais, evoluídas para triturar a carne de suas presas.

— Puta merda! Um carniçal... — Jay murmurou para si. Ele respirou fundo e passou a mão nervosamente pelo cabelo enegrecido desejando matar o seu pai com as próprias mãos.

Ele agarrou com firmeza a faca e fez seu caminho pelo telhado rezando para fazer o mínimo de barulho possível. Mas o carniceiro havia parado o que estava fazendo e ergueu a cabeça encarando o vazio, parecia estar escutando alguma coisa. Recorrendo aos seus outros instintos ele pressentiu o perigo.

No entanto ai já era tarde demais.

Jay saltou com toda a força em cima da criatura cravando a faca em um corte diagonal pelo peito da criatura que urrou de dor. Em frenesi o carniceiro atirou suas garras contra o rapaz, que escapou por pouco com um rolamento para o lado. Desarmado, Jay se viu obrigado tomar uma distancia segura, mas seu inimigo não deixaria isso acontecer tão facilmente e investiu em sua direção. Jacob agarrou o antebraço da criatura na altura do cotovelo e o destroçou com um golpe de palma aberta expondo os ossos para fora da pele. O carniceiro urrou de mais dor e se virou para fugir emitindo sons estridentes.

Jay se arrepiou quando ele foi respondido. Ciente de que reforços chegariam em breve, a criatura tentou tomar distancia, mas Jay agarrou o pedaço de madeira da pilha de destroços e arremessou. A madeira pontiaguda perfurou-a no peito e ela tombou de joelhos no chão antes de cair em um ataque de espasmos. Sem perder tempo o aspirante a caçador arrancou a faca do corpo sem vida do inimigo e aguardou em alerta no circulo de luz.

O primeiro saltou em sua direção em uma velocidade assombrosa abocanhando seu ombro lhe arrancando uma torrente de sangue. Jay tentou afastá-lo do corpo mas seus dentes se cravaram ainda mais na carne. Jacob gritou de dor se debatendo até libertar a mão e enfiar a faca no pescoço do carniçal, que só afrouxou os dentes após não lhe restar mais forças.

Nesse momento outro saltou sobre os dois caídos. Sem pensar duas vezes, Jay deixou seus instintos lhe guiarem e ergueu o corpo enrugado do inimigo morto evitando que o novo lhe acertasse a jugular. No entanto a força da criatura era assombrosa e lhe esmagava os ossos e arrancava o ar dos pulmões. Já vermelho, Jay enfiou o dedo nos olhos da criatura até que o sangue arroxeado escorresse pela face avermelhada do ser infernal.

O carniçal apenas ficou mais irritado. Vendo a visão escurecer, Jacob viu-o se jogar para trás e preparar para dar o bote, mas no último instante o rapaz agarrou a faca do cadáver e a ergueu quando o ser infernal investiu com toda sua força, sendo atravessado pela garganta. Jay se remexeu entre o morto chutando para se libertar enquanto o que restara engasgava com o próprio sangue e tombava.

Ainda arfando e com a adrenalina a mil, Jacob virou a cabeça de um lado para o outro como se esperasse mais um ataque. Mas tudo o que viu foi a figura de seu pai e Kirke se aproximando, ambos muito sérios. Quando chegaram Kirke lançou um olhar avaliador por debaixo do capuz para as criaturas mortas.

— Foi bem ousado em saltar de cima do telhado — ele comentou quase com certo tédio — Mas errou o ataque. O que permitiu que ele pudesse chamar por reforços e você se viu em uma posição crítica cercado por dois inimigos. Devo dizer que muitos caçadores experientes não teriam sobrevivido ao que acaba de acontecer e por um instante também duvidei que pudesse sair dessa.

— Ah qual é Kirke, o garoto tem fibras! — seu velho disse em sua defesa — Você viu como ele lançou a estaca, ele tem talento para a coisa. Se você der a chance de ele aprender e ganhar experiência sei que pode se tornar um caçador poderoso no futuro.

Kirke balançou a cabeça ponderando. Não desejava aquela vida a ninguém, o que faziam não era para pessoas fracas, tinham de estar dispostos a sujar as mãos e fazer muitos sacrifícios pela causa. Deixar alguém tão jovem assim entrar nesse mundo de sanguenolência... ainda mais alguém da família.

— Tem certeza que quer isso Jay? Quando receber a sina não há mais volta, tudo o que você conhece vai se desfazer a sua frente. Vai fazer coisas horríveis e testemunhar seus companheiros morrerem ao seu lado. Não será uma vida longa, muito menos normal, o trabalho vem a cima de tudo, nem poderá criar raízes. Se apegar o torna fraco, vulnerável e possivelmente morto.

Jacob se levantou com esforço e o olhou nos olhos

— Estou ciente disso e estou pronto, primo.

Kirke apenas concordou com a cabeça com respeito .

Quando voltaram para a mansão trataram dos ferimentos de Jacob e costuraram a carne praticamente arrancada de seu ombro. O médico dissera que iria sarar sem maiores problemas que ficaria uma cicatriz terrível, um preço baixo a se pagar por sua vida. Mais tarde, ele foi chamado à sala de reuniões onde haviam sido feitos os brindes mais cedo naquele dia.

Ao entrar percebeu os olhares dos veteranos em suas costas. Poucos dos jovens que encontraram mais cedo haviam voltado, todos tão cansados e feridos quanto ele e igualmente determinados. Jay assumiu seu lugar na fila enquanto Kirke entrava vestido em roupas formais: um bleizer e calças pretas que nitidamente lhe incomodavam. O líder fitou os jovens, cada um deles, lembrando dos rostos que breve seriam de seus irmãos.

— Hoje cada um de vocês provou seu valor. Enfrentaram batalhas individuais e as venceram sem nada mais do que a própria inteligência e artimanhas, como verdadeiros caçadores. Hoje, já não são mais crianças mas sim nossos irmãos em armas.

Kirke estalou os dedos e um ajudante foi até ele trazendo uma bandeja repleta de cordões.

— Essas dogtag são o símbolo de que pertencem a nossa causa. Usem com orgulho e cuidado, pois isso os tornará alvos de muitos. — ele disse enquanto os entregava a cada um dos jovens. — Agora meus novos irmãos, sejam bem-vindos à minha casa!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.