Notas iniciais
Testando, 1, 2, 3... q
Boa leitura. ~

Eu não devia ter deixado isso chegar a esse ponto.

— Certo, por que eu comeria isso? – Perguntou o pequeno enquanto me via montar uma torta de morango. Não pude deixar de rir, ele levava aquilo mesmo a sério. Mordi a fruta enquanto o encarava. Aminha cozinha não era das melhores, para um doceiro famoso não era mesmo, mas eu gostava do conforto que ela me trazia.

- Qual o problema? O morango vai te comer Matsumoto-san? – Ri debochadamente, e ele é claro não pode deixar de fazer aquele gracioso bico de desgosto. Takanori realmente odiava morangos. E era por causa deles que estávamos há essa hora ali.

Matsumoto Takanori, empresário, rico, muito rico. E com uma namorada fora do comum. Caras como ele namoravam garotas como ela, modelos. Eu não o teria conhecido se não fosse por causa dela. Eu a vi apenas duas vezes até então e não pude deixar de notar o quanto Inoue-san significava para ele, significava muito, mas era visível que a troca de carinho não era correspondida. Muito estranho para um casal típico de holofotes que se dizia apaixonado. Eu já os tinha visto em três.

Começou a quatro semanas, e apenas para tornar a história viável, devo me apresentar: Chamo-me Suzuki Akira, vulgarmente conhecido como Reita. Sou dono de uma das docerias mais conhecidas de Tókio, chamada Sweet Shop, e como todo renomado doceiro preciso conservar minha identidade civil, exatamente como um super-herói faz, por isso tenho minha marca registrada. Uma noseband.

O outono havia começado e a doceria ia muito bem, geralmente nessa época do ano alguns casais resolvem sair juntos para aproveitar o tempo que tem. Eu estava ciente disso quando resolvi trabalhar rodeado de açúcar, e acreditem esse foi um dos motivos para escolher essa profissão, eu sabia bem que ganharia muito dinheiro à custa de pessoas românticas que se dispõe de pouco tempo com a pessoa amada, e por que não compensar isso com algum chocolate ou tortas com chá?

Ironicamente eu discordo da minha própria teoria.

Eu odeio doces e isso que é muito irônico.

Era cerca de 11h40min, e eu só sei disso por que eu havia deixado alguns croissants no forno. Havia cerca de vinte ajudantes em minha cozinha e cinco balconistas, geralmente eu fecho por volta das onze e só torno a abrir meio-dia, e nesse momento, quando conheci Matsumoto-san, eu me encontrava com as balconistas, algo que eu geralmente não faço. Passo horas lendo sobre receitas e recheios, mas especialmente nesse dia eu estava entediado e desanimado. Conversávamos quando ele entrou.

Durante o horário de almoço.

Emburrado.

- Com licença. — Pediu dando um leve toque na campainha, olhamos para ele enquanto eu me punha mais atrás das garotas, não atrapalharia o trabalho delas, mesmo sendo o chefe, mesmo a doceria estando fechada. Devo admitir que para um homem ele se vestia de uma forma estranha. Não, não é bem isso, ele usava roupas um pouco femininas. Esse deve ser o resultado de ter uma namorada modelo, eu já o conhecia, lembram-se? Os holofortes. — Eu quero fazer a encomenda pra. . . Tipo, daqui a um mês.

Em momento algum ele olhou para elas, era apenas a mim que ele fitava. Chiharu, a mais nova, parecia que ia pular sobre Matsumoto-san, ela era extremamente ligada nas notícias, típica adolescente, era disso que a Sweet Shop precisava, um ar experiente e juvenil. Eu a via dar leves pulinhos por detrás do balcão e seu sorriso aumentar a cada palavra dita pelo baixinho.

- Reita-san, você vai ficar famoso. — Disse-me ela juntando as mãos.

- Eu já sou famoso, Chiharu-chan. — Ela riu. — Então senhor, o que vai querer?

O sorriso cresceu no rosto do meu mais novo cliente que em um movimento vagaroso e debochado, retirou os óculos escuros do tipo “besourão” do rosto e moveu-se incoerentemente do outro lado do balcão, as mãos passeavam pelos bolsos traseiros da calça até encontrarem um papel rosa fosforescente, e abri-lo de suas cinco dobraduras. Assustei-me com o tamanho daquilo.

- Vejamos, — Pigarreou. — Trezentos docinhos de coco. . .

E eu anotava em um caderno de capa dura e preta.

- Quer saber, — Concluiu após dar mais uma olhada sobre o discreto papel. — Pode ficar com esse papel, não vou precisar dele mesmo.

Eu já estava na terceira folha, já havia se passado meia hora.

Bufei inconscientemente e ele riu debochado.

Maldito nanico.

- Não quero fazê-lo copiar muito, é uma grande encomenda.

Ele parecia muito a fim de falar sobre o que se tratava, e eu não ligava nem um pouco. Quero que entendam, já passava do meio dia e enquanto eu copiava aquela lista enorme de doces que eu nunca tinha ouvido falar, e que tinha números horrendos de quantos ele queria exatamente, minhas funcionárias incluindo alguns assistentes já estavam indo para o seu horário de almoço e eu permanecia preso ali com um anão que estava me fazendo de trouxa.

Eu teria lhe dado uma boa resposta.

Irônica.

Mas eu não queria perder um cliente que me daria um bom cachê.

Ele é rico, se lembram? Matsumoto Takanori-san, o empresário.

- É o aniversario da minha namorada. — Sorriu tornando a dobrar a folha de cartolina rosa.

Perguntei?

- Perguntei?

Subconsciente.

- O que? — Matsumoto-san usou um tom tão avantajado que minha reação de arquear uma das sobrancelhas em desgosto foi automática. Eu podia ler nas entrelinhas que aquela vontade de iniciar uma discussão não vinha apenas de minha parte. Era quase uma química, junte um debochado com um baixinho de pavio curto (todos os baixinhos tem) e terá como consequência a terceira guerra mundial.

Isso era uma das coisas que eu aprenderia sobre ele.

Takanori-san era e sempre será pavio curto, mas terá sempre a capacidade de se controlar.

Seus olhos encontraram os meus naquele momento e fiquei me perguntando se havia mesmo dito aquilo ou fora apenas imaginação minha, mas pela expressão facial dele eu tinha mesmo aberto à boca. Olhei para baixo fingindo anotar algo de muito importante apenas para evitar o constrangimento do momento e ele deu-se por satisfeito. Mas pude ver o sorriso cínico em seus lábios.

- Perguntei se quer também a equipe de decoração.

- Ele só pode tá zoando com a tua cara Reita.

Takashima Kouyou, sincero como sempre.

Estudei com Kouyou-chan durante o Ensino Fundamental. Kou era um garoto curiosamente estranho quando o conheci com o tempo me acostumei, mas algumas curiosidades me batem quando o encontro ainda hoje. Contar essa curiosidade sobre ele é muito importante para essa história, afinal isso explicara algumas atitudes dele que serão narradas.

Kouyou-chan é adepto ao visual kei.

Kou em muitas situações parece com uma garota, e age como uma às vezes.

- Certo, e se não estiver Uruha?

Uruha é Publicitário.

Assim como eu ele usava um codinome para “manter sua identidade civil”. Essa era a desculpa que ele usava, mas a verdade é que ele era cheio de si, queria ser uma celebridade, lembro-me quando ele fugiu de casa dizendo que ia ser um guitarrista famoso. Dez horas depois ele tinha voltado por que não conseguia viver sem o videogame.

Estávamos mais uma vez na cozinha.

Liguei para Kou me trazer um almoço e ele veio de bom grado, trabalhávamos perto um do outro então acesso não nos faltava. Almocei sobre um dos balcões de alumínio dando mais uma olhada naquela imensa lista enquanto o abusado do Uruha devorava uma fatia das minhas Tortas Geladas, aparentemente ele estava atordoado, e não diria nada a respeito nem sob tortura.

- E mesmo se não estiver Reita, como é que você vai conseguir fazer tudo isso em um mês?

- Eu tenho um nome a zelar.

- Só quero ver.

- Reita-san eu posso ajudar se quiser. — Kai.

Um dos motivos para ter contratado Kai e tê-lo aceito como meu ajudante pessoal era que ele tinha um grande talento para qualquer tipo de doce. E não só para isso, salgos e pratos culinários também eram o seu forte. Para alguém que tinha uma família de classe média alta, que poderia ser o que quisesse, Kai tinha um sonho muito distante do que lhe era oferecido.

Chefe de cozinha.

Lembrei-me de quando fiz o curso preparatório, e o aceitei ali.

Não pude deixar de sorrir a oferta do meu pupilo e lhe dei um leve soco no braço. Ele riu. Tínhamos quase a mesma idade, o que me permitia ficar mais a vontade. Uruha suspirou do outro lado enquanto encarava o prato lambuzado de chantili e brincava com o garfo sobre ele. Aquilo já estava me deixando preocupado e Kai em gesto singelo apontou para ele com a cabeça antes de sair da cozinha deixando-me com uma frase silenciosa: “Vai lá.”.

- Certo Kouyou, chega de indiretas, o que aconteceu?

- Nada Kira, não aconteceu. . .

- Tudo bem, eu vou escovar os dentes e já volto. — Dei de ombros.

- Tá! Eu conto. — Me agarrou pela camisa, o movimento foi tão inesperado que quase caí sobre ele, tive que manter o equilíbrio para evitar qualquer acidente. Encostei-me ao lado dele que ainda mantinha-se sobre o balcão. — Tem um cara. . .

- Ele te fez alguma coisa?

- Não ele não fez nada. Na verdade eu nem falei com ele. — Outra coisa que se deve saber sobre Uruha é que ele tinha uma coleção de relacionamentos que não deram certo. Todos, de algum modo, o magoavam fossem as mulheres fossem os homens. Ele era uma pessoa sensível e facilmente poderia ser magoado. — Eu o vi pela vitrine de uma loja.

- Que loja?

- “Gama”, é uma loja de instrumentos musicais, eu pensei em praticar um pouco de guitarra e precisava de uma palheta nova. . .

- E. . . Como ele era? — Infelizmente ele havia se apaixonado, isso acontecia muito, geralmente ele via um cara bonito e pronto, estava amando. Foi nesse momento que eu rezei para todas as entidades cósmicas do universo para que não fosse quem eu estava pensando, não podia ser quem eu estava pensando. Por que além de ter os meus problemas eu teria os de Uruha também.

- Moreno, alto. . .

- “Moreno, alto, bonito e sensual...” — Nunca gostei dessa música, mas para ver Kou sorrir eu fazia de tudo. - “... Talvez eu seja a solução do seu problema...”.

- Cala boca Reita! — Disse antes de me dar um soco no braço. O importante foi que o fiz rir, e mais importante ainda, infelizmente era quem eu temia. — Hunf. Mas sim, ele é muito sensual e tem um piercing na boca. E aquela boca. . .

- Kou, já chega, eu acabei de almoçar. — Rimos daquilo.

- Shiroyama Yuu. . . Foi assim que uma das garotas da loja o chamou. — Disse passando os quatro dentes do garfo pelos lábios, o velho olhar felino surgiu em seu rosto e foi então que eu vi o quanto aquela história iria render. — Acho que me apaixonei por ele Akira.

— Com licença, vou esconder as minhas trufas de chocolate, e tudo que envolva cacau.

- Obrigado pela parte que me toca.

- “Carinhoso, bom nível social, inteligente e a disposição pr'um relacionamento íntimo e discreto. Realize seu sonho sexual...” - Cantarolei enquanto saia porta a fora, caso Kouyou tivesse uma boa mira, ele teria realmente acertado o garfo que atirou em mim.

E que ficou fincado na porta.

Notas finais
E aí, gostaram? Odiaram? Exijo Reviews, para postar o próximo capítulo! q Kissus~