Survivor
4 Capitulo 4
Minha cabeça continua latejando. Os últimos dois dias foram simplesmente péssimos com Laura tendo crises convulsivas de choro a cada dois minutos, Miah tentando se manter afastada do ferimento recém costurado de Laura, Matt segurando sua namorada e dizendo que tudo ia ficar bem e Kenny vivendo continuamente em sua bolha de inércia.
No fim da tarde do segundo dia decido que me recuso a me manter recostada aquela árvore, mordiscando pedaços murchos de um pacote de batatas e olhando ao meu redor.
Levanto e começo a andar, adentrando na floresta. Respiro fundo algumas vezes, apreciando o silêncio e deixando o ar frio despertar meus pulmões. Não me importo com as folhas que roçam meu rosto enquanto caminho e só me ocupo em deixar minha mente vagar para bem longe daqueles quatro que agora eu imaginava que deveria ter deixado morrerem assim que os vi.
Infelizmente minha solidão não dura muito tempo. Ouço alguém pigarrear atrás de mim. Quando me viro dou de cara com Matt. Seus braços estão cruzados em frente ao peito e seu rosto está anormalmente pálido.
–Você não deveria estar dizendo palavras anestésicas para sua namorada? — pergunto ao mesmo tempo em que me viro para a frente e volto a andar.
Matt da alguns passos mais largos e me alcança, começando a caminhar ao meu lado.
–Laura está dormindo. — ele responde — Miah e Kenny concordaram em ficar de olho nela por alguns minutos enquanto eu, hm, ia tirar água do joelho.
Ergo uma sobrancelha.
–Ok, eu só queria ver aonde você estava indo. — ele suspira e não preciso dizer nada estimulante para que continue a falar por conta própria — Eu... eu amo a Laura mas, já fazem dois dias. Aquela costura... aquela coisa que fizemos no ferimento dela está horrível e ela não aguenta um minuto sem chorar de dor. Isso está me matando tanto quanto a ela. Mas, além de precisar respirar um pouco, eu queria mesmo é saber... Porque, ou como, não tenho certeza, você cortou a mão dela?
Paro de andar e imagino as palavras se formando em minha mente.
–Foi preciso — digo. Presto atenção a meu tom para ter certeza de que minha voz soa clara e sem vacilações — Não havia tempo e ela estava presa de uma forma estranha. Me desculpe se não pude pensar em nada melhor, mas, era a mão ou ela, imagino que seja melhor perder a mão.
Os olhos de Matt não estão exatamente focados nos meus e seus ombros se curvam para a frente. Leva alguns segundos até que ele finalmente balance a cabeça e volte a falar.
–Tudo bem. Eu sei que se houvesse outro modo você não teria feito isso.
Comprimo os lábios por um instante e depois solto o ar de uma só vez deixando transparecer um pouco de emoção. Rapidamente minha voz fica um pouco embargada e meus olhos se enchem de lágrimas, não o suficiente para que eu comece a chorar, apenas o necessário para parecer que eu realmente sinto muito.
–É claro que eu teria feito diferente se pudesse.
Dessa vez os olhos de Matt vasculham meu rosto. Ele se aproxima e põe seus braços ao redor da minha cintura.
Vacilantemente ergo meus braços até seus ombros e pouso minhas mãos ali. Ele fica com o rosto escondido em meus cabelos por quase um minuto até finalmente me soltar.
Eu lhe lanço um meio sorriso e volto a caminhar. Matt continua ao meu lado.
–Mas então — diz ele tentando mudar de assunto — você tem alguma noção de onde esta indo?
Balanço a cabeça negativamente.
–Não sei. Só pensei que ninguém estava precisando de mim lá e que, talvez, eu pudesse encontrar um pouco de proteína para restabelecer nossas forças.
–Ei — ele empurra meu ombro levemente — acho que nos tornamos meio dependentes da sua presença — ele abre um pequeno sorriso — E, hm, você é boa nessa coisa de caçar, não é?
Retribuo seu sorriso e balanço os ombros.
–É preciso aprender algumas coisas quando se passa um tempo sozinha, e caçar é uma das mais importantes.
Andamos em silêncio por mais algum tempo até que vemos um filhote de cervo se alimentando de capim alguns metros a frente. O animal é frágil e pequeno, fácil de ser caçado e, por sorte, ainda não ouviu nossos passos. Faço um sinal para que Matt fique quieto e puxo a faca presa em minha bota, se eu for certeira posso derrubar o cervo.
Me preparo para arremessar a faca mas Matt põe sua mão sobre a minha e faz um sinal para que eu observe. Com um sorriso fraco ele pega a faca de minha mão, olha fixamente para o cervo por alguns segundos e lança a faca.
A lâmina, que eu havia afiado apenas algumas horas antes, passa pela pata direita traseira do animal e faz um talho profundo o suficiente para desprender a pele e os nervos que ali se encontram e derrubar o cervo no chão. Ele tenta se levantar, porém seus esforços são inúteis.
Matt pega agora sua própria faca presa ao cinto e se aproxima do filhote com passos largos mas, dessa vez, sou eu quem tira a faca das mãos dele com um sorriso.
–Me permita, senhor. — digo.
Seguro sua faca firmemente. O cervo faz alguns barulhos que indicam sua dor devido ao ferimento na pata traseira e seus olhos se estreitam.
Matt se aproxima e envolve o pescoço do cervo com as mãos, eu me abaixo a seu lado e afundo a lâmina no local onde o coração do animal deveria ficar até que ele finalmente pare de se mexer. Em seguida, faço um corte reto tento por sobre a ferida onde a faca havia entrado e puxo o coração do pequeno cervo morto e o jogo na direção de Matt que segura o órgão desajeitadamente enquanto me encara de uma forma assustada e impressionada ao mesmo tempo.
–Você é o caçador da Branca de Neve? — ele pergunta olhando do coração morto em suas mãos para mim e depois de volta para o coração.
–O que?
–O caçador. Você sabe, né? Que retira o coração de um cervo na floresta pra não ter que matar a Branca. — Matt responde, como se devesse ser obvio — Você seria esse tipo de pessoa, eu acho — ele completa, agora encarando seus pés — Sabe, você é durona mas, ao mesmo tempo, jamais conseguiria fazer uma coisa ruim se não fosse extremamente necessário. Jamais iria ferir alguém se tivesse a escolha de não fazer isso.
Pisco algumas vezes, me sentindo confusa. Não estamos falando de contos de fadas, nem de corações de cervos. É sobre Laura, mais uma vez.
Balanço a cabeça, não quero voltar aquele assunto. Sei que ele estará presente em todos os momentos, mas não agora que estou aqui para esquecer dele.
Me aproximo e pego o coração das mãos de Matt e o coloco dentro da bolsa vazia que trouxe comigo.
–Me ajude a cortar os pedaços — digo — e vamos voltar, logo vai escurecer.
Ele se abaixa e começa a mover sua faca.
–O que vai fazer com o coração? — ele pergunta sem me olhar.
–Vou comer — respondo — como a madrasta fez.
Ele me olha e há algo em sua expressão que não consigo identificar. Abro um sorriso, o mais largo que consigo.
–É só brincadeira — acrescento — eu sou o caçador, lembra?
...
Andamos vagarosamente de volta para nosso acampamento improvisado carregando pedaços da carne do cervo enrolados na jaqueta de Matt. Quando nos aproximamos Miah corre em nossa direção.
–Já estávamos ficando preocupados! Lura demorou tando a acordar e depois ficou tão quente, não sabíamos bem o que fazer — ela despeja tudo sem respirar — mas ela acordou alguns minutos atrás e começou a perguntar por você e a chorar de dor e a mã... O braço dela ao redor dos pontos está muito vermelho, deve ter algo errado.
Nos apressamos um pouco e deixamos a carne perto da barraca, indo em seguida ver Laura.
Laura está encostada a uma árvore e Kenny coloca uma faixa de tecido encardida e molhada sobre sua testa.
Matt se senta ao lado dela.
–Lau? — ele fala baixo enquanto passa os dedos pelos cabelos dela.
Laura semicerra os olhos e vira a cabeça para olhar Matt. Ela diz alguma coisa mas sua voz não soa mais alta que um sussurro.
–Ela está queimando em febre — ele diz para ninguém em especial.
Em seguida ele segura o cotovelo do braço que teve a mão recém amputada por mim e observa os curativos. Aquilo estava realmente ruim. O kit de primeiros socorros que havíamos levado não era muito preparado para amparar esse tipo de ferimento, então, tudo o que pudemos fazer foi costurar a ferida com agulha e uma linha não muito forte, enrolar alguns pedaços de gaze e dar a ela dois ou três comprimidos para a dor. Mas, agora, a pele ao redor da costura estava realmente vermelha e a temperatura de Laura estava muito elevada. Ela provavelmente estava começando a ter uma infecção.
Vou até o local onde uma das mochilas esta apoiada e reviro seus vários compartimentos até finalmente encontrar um mapa antigo e amassado. Abro-o sobre o chão e aponto para ele enquanto falo com os outros.
–Esse mapa diz que há uma cidadezinha bem pequena e não é muito longe daqui...
–Isso não é hora para turismo! — Miah diz rispidamente.
Reviro os olhos e prossigo.
–Há uma farmácia... Pode até não ter mais nada mas não custa dar uma olhada.
–Acha que pode ter alguma coisa útil lá? — Matt pergunta sem tirar os olhos de Laura.
–Acho — respondo — e mesmo que não tenha, da pra ver aqui que era mais uma comunidade do que uma cidade, não deve ter passado tanta gente assim por lá, as casas podem ter algo útil... curativos, faixas, até mesmo algumas roupas limpas.
–Então vamos lá nos certificar — Matt diz, já se levantando.
–Não — digo, me levantando também — Não podemos ficar arrastando a Laura por ai. Fique aqui com ela, eu vou até lá e a Miah pode me acompanhar.
–Mas...
–Nada. Você é o único que pode mante-la calma e vai ficar preocupado o tempo todo e o Kenny... Bem, sem ofensas — olho para ele — mas você nem consegue se defender sozinho.
Kenny baixa o olhar e não pronuncia uma palavra sequer.
–Então podemos sair assim que amanhecer — Miah fala.
–Saímos agora, não há tempo a perder.
–Está escuro, algo ruim pode acontecer — ela emenda.
Encaro Miah, com seus cabelos ruivos caindo sobre a testa e a aparência frágil.
–Vamos agora e, não se preocupe, não vou deixar nada acontecer com você a menos é claro, que seja impossível evitar. — lanço um sorriso de lado em sua direção e ela me encara com desconfiança.
Felizmente depois disso Miah não discute mais. Pegamos nossas armas e duas mochilas quase vazias. Antes de sair Miah fala alguma palavras de consolo para Laura e afaga rapidamente seus cabelos antes de passar por Kenny e dizer para que ele não faça nenhuma besteira.
Começamos a andar e, enquanto damos passos vacilantes sem enxergar bem o que há a frente, deixo meus pensamentos se perderem junto com a escuridão.
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