Survivor
5 Capitulo 5
Já estive em muitos lugares abandonados, mas preciso admitir que essa cidade me da uma espécie de calafrio na espinha que raramente sinto. Acho que o mais estranho por aqui é falta da sensação de caos. Geralmente, em todo lugar, é possível ver as casas abandonadas, os carros em fila com as portas escancaradas, malas, bolsas e objetos largados na ânsia de fugir. Aqui quase nada é assim. Se não fosse por algumas poucas portas entreabertas e janelas trincadas ou batendo com o vento eu poderia jurar que ninguém jamais passou por aqui.
Os poucos carros estão perfeitamente estacionados nas garagens ou em frente às calçadas, com seus alarmes devidamente acionados. Nas ruas, não há nenhum sinal de que alguém tenha saído desesperado. Há apenas as folhas das árvores, a poeira se acumulando e o gramado que um dia deve ter sido bem cuidado se tornando uma relva selvagem ao redor das pequenas casas cuja pintura começa a descascar.
O dia esta começando a clarear e meus pés doem. Miah e eu passamos a noite toda caminhando, caladas, lado a lado. Em geral, o silêncio não me incomoda, afinal, passei tempo demais sozinha e aprendi a apreciar apenas minha própria companhia, mas os olhares que Miah vem me lançando a cada dez segundos nas últimas horas já estavam começando a me tirar do sério.
– Algum problema? – finalmente perguntei. Minha voz soou um pouco rouca devido ao tempo em silêncio.
Miah balança os ombros de forma indiferente antes de responder.
– As coisas que você faz, não fazem muito sentido para mim.
– O que exatamente não faz sentido pra você?
–Muitas coisas, mas, deixa pra lá.
Respiro fundo e depois solto o ar todo de uma vez.
– Como era esse grupo com o qual vocês cresceram? – pergunto, mudando drasticamente de assunto.
Ela me olha desconfiada.
– Matt me disse que vocês cresceram em um grupo – digo, balançando os ombros – como era?
Ela permanece em silêncio por alguns segundos antes de começar a falar.
–Não vou dizer que era normal, porque nada nessa situação é normal. Mas, entre todos os males, eu ainda tinha meus tios. E as pessoas no grupo eram bem legais. Eles contavam histórias e faziam piadas, mesmo quando as coisas estavam realmente ruins – ela suspira – nos ensinaram a sobreviver, sabe? E como pequenas coisas, como um sorriso, mesmo em meio ao caos, são necessárias pra manter a gente são.
–E o ataque? – pergunto, estimulando-a a falar.
–Ah, isso foi bem ruim. Havia três vigias naquela noite e, era a primeira vez que eu falava com Kenny em meses, escapamos da barraca e nos afastamos um pouco para olhar vagalumes e conversar – ela faz uma pausa um pouco longa demais – De repente ouvimos uma série de gritos e tiros e corremos de volta, mas o Matt veio em nossa direção, puxando a Laura pelo braço e nos mandando correr, Kenny quis ir até lá pra buscar os pais, mas não dava, havia errantes demais e fogo havia se espalhado pelas barracas. Matt deu um soco no Kenny e disse que estavam mortos, depois nos arrastou para longe. Corremos a noite toda até finalmente não aguentarmos mais...
Ela para de falar e aumenta um pouco o ritmo de seu passo. Eu a acompanho repetindo mentalmente que não falta muito até a farmácia indicada no mapa.
–Mas, não sabemos nada sobre você, Lizzie. – diz ela, pronunciando meu nome especialmente devagar — Onde estava quando tudo começou, como ficou sozinha...
–É uma longa história – respondo instantaneamente.
–Faça um resumo rápido, afinal, você sabe bastante sobre nós, enquanto tudo o que temos sobre você é seu nome.
Respiro fundo novamente escolhendo o que contar e como contar.
–Bem – começo — meu pai, minha irmã e eu estivemos em grupos grandes também, mas nenhum deles durou muito tempo. Houve uma época em que as crianças que estavam conosco começaram a aprender a se defender, sabe, com armas e essas coisas e foi ai que aprendi a atirar e coisas assim. Mas, bem, meu pai morreu, houve uma grande invasão onde estávamos e o grupo todo se separou. Eu atirei em uma pessoa pra salvar a vida de um cara que era do nosso grupo e depois disso ele cuidou de mim e da minha irmã, junto com a mulher que nos ensinou a atirar e tudo o mais e tinha também uma bebê que ele salvou.
–E ai? – Miah pergunta.
–Aconteceram umas coisas ruins, minha irmã morreu por causa de... Uma falha e, logo depois acabei sozinha na floresta.
Miah ergue uma sobrancelha.
–Mas como...
Antes que ela possa concluir sua pergunta aponto para a farmácia que vejo logo à frente. Corremos até lá e paramos em frente às portas duplas de vidro; O lado direito está estilhaçado enquanto o lado esquerdo permanece intacto e com uma placa de “Fechado para o almoço” pendurada na maçaneta, como se as pessoas que passaram por ali tivessem decidido manter o aspecto de pureza do lugar.
Trocamos um rápido olhar antes que eu me aproxime e passe meu corpo pela abertura feita no vidro. Miah me segue de perto observando tudo ao redor.
Praticamente todas as prateleiras estão vazias. Damos algumas voltas e reviramos pilhas de caixas largadas no chão, porém, não há muito o que se encontrar além de medicamentos vencidos para dor e alguns pacotes com gaze.
Uma hora depois Miah joga sua mochila com força no chão, apóia as costas contra a parede e desliza por ela até se sentar.
–Não adianta! Não tem nada útil para a Laura aqui e mesmo que tenha... – ela deixa a frase no ar.
–Vá olhar as casas – digo – vou verificar aquelas caixas lá atrás de novo. Te encontro em dez minutos em frente aquela casa cor de rosa com a cerca verde ridícula.
Ela ri e se levanta.
–Aquela cerca era mesmo horrível – diz – Bem, espero que tenha alguma coisa lá. Se algo acontecer por aqui, é só gritar.
Balanço a cabeça.
–Claro, o mesmo pra você, pode gritar.
Ela assente, pega a mochila e sai.
Volto para o local onde aparentemente o estoque de medicamentos costumava ser guardado. Retiro uma série de caixas da pilha que eu havia montado enquanto olhava dentro delas e, na última encontro o que estava procurando.
Pego a caixa amassada que contém um vidro rotulado como antibiótico e o passo de uma mão para a outra. Encontrei o remédio no meio de um bolo de bulas e receitas e, enquanto Miah estava distraída com sua própria pilha eu o escondi em meio as caixas vazias.
No momento não pensei muito bem sobre o que estava fazendo, mas agora, olhando para o vidro em minhas mãos, percebo exatamente quais são minhas intenções; Não quero levar nada de que Laura precise.
Me ofereci para vir até aqui porque sei que é o que eles... Ou pelo menos o que Matt esperaria de mim. Eu tinha uma solução e a apresentei, embora no fundo, eu só quisesse me afastar daquela choradeira pelo maior tempo possível sem precisar, ao mesmo tempo, deixá-los de vez.
Kenny me lembra minha irmã, Matt é simplesmente uma boa pessoa e, no momento, até mesmo Miah não parece tão entediante assim. Mas quando penso em Laura, ela aparece apenas como um empecilho, sempre agarrada aos braços de Matt, sempre reclamando, sempre choramingando... Ela não sabe o que é ser forte e agüentar firme, porque mesmo com tudo o que lhe aconteceu sempre houve alguém em quem ela pudesse se apoiar, mas ou menos como Kenny, só que de uma forma bem mais irritante.
Amasso a caixa do remédio um pouco mais e o jogo no fundo da mochila, embaixo da jaqueta que acabei de colocar ali dentro, afinal, o fato de que não quero dar a Laura o remédio que pode ajudar a salvar sua vida não significa que uma hora eu não vá precisar de um antibiótico.
...
Laura me espera em frente a casa cor de rosa. Sua mochila parece mais pesada e ela segura uma nova arma nas mãos.
–Parece que você teve sorte.
Ela balança os ombros.
–Nenhum remédio, mas, pelo menos encontrei algumas blusas limpas que parecem do nosso tamanho – diz atirando um punhado de tecido em minha direção – e tem algumas coisas como band-aids e álcool também. Sem contar essa arma, parece que as pessoas daqui não eram assim tão pacíficas afinal.
Olho rapidamente para as peças de roupa que Miah me deu e depois as coloco na mochila.
–Bem, então é melhor irmos andando. Pelo menos conseguimos gaze o suficiente para um novo curativo. E, me de a arma, por favor.
Miah me encara por alguns segundos, com a arma ainda parada em sua mão ao lado do corpo.
–Eu atiro melhor – falo estendendo a mão em sua direção – e a minha já não é tão boa assim.
Ela permanece do mesmo jeito por alguns segundos, mas finalmente põe a arma em minhas mãos.
Prendo a nova arma do outro lado do cinto enquanto Miah ajeita a mochila em suas costas. Em seguida voltamos a andar.
...
Ainda não saímos dos limites da pequena cidade quando ouço um som arrastado vindo de todas as direções.
–O que é isso? – Miah pergunta, interrompendo seus passos.
Paro ao lado dela e apuro meus ouvidos, prestando atenção. O vento trás uma onda de gemidos e arrastar de pés e, ou estou ficando louca ou não teremos nenhum lado para onde correr.
Puxo Miah pelo cotovelo, arrastando-a de volta pelo caminho que havíamos acabado de percorrer. Subo os degraus da casa mais próxima e descubro que para nosso azar é uma das que ainda não foram arrombadas.
Pulo da varanda de volta para a rua e corremos mais um pouco. Posso ouvir os sons nitidamente agora e vislumbrar alguns contornos não tão longe assim.
Enquanto corro imagino qual a probabilidade de isso realmente acontecer agora. O que traria tantos errantes ao mesmo lugar e ao mesmo tempo? Não é hora de descobrir.
Miah tropeça e cai no chão. Ela faz uma careta de dor quando tenta se levantar. Eu a ajudo, porém, ela não consegue correr, está apenas mancando. Droga!
Os primeiros errantes já se aproximam. Forço mais uma porta trancada. Só pode ser brincadeira.
Miah está apoiada no corrimão da varanda e eu estou com as armas. Cinco errantes vêm em nossa direção com os braços estendidos. Pulo os degraus e apoio Miah para que ela possa andar mas sei que não teremos tempo de nos esconder antes que os cinco nos alcancem.
Meus olhos se enchem de lágrimas quando levo a mão ao cabo da arma junto a minha cintura. Começo a contar... Um... Dois...
Bam!
Ouço um tiro e em seguida sons parecidos com um assovio bem leve. Largo o braço de Miah e ela quase tomba para a frente e me viro para trás.
Um garoto alto, com cabelos castanho escuro bagunçados caindo sobre a testa, empunhando uma arma está parado na porta da casa que acabei de tentar abrir.
Vindo em nossa direção, uma garota um pouco mais baixa que eu, com os cabelos pretos presos em um rabo de cavalo, segura um arco um pouco grotesco e trás uma aljava presa às costas.
–Venham! – ela fala quando se aproxima.
A garota passa um dos braços de Miah por sobre seu ombro e a ajuda a sustentar o peso. Não há muito tempo para perguntar quem são eles, apenas sigo a garota para dentro da casa ao mesmo tempo que o garoto com a arma atira mais duas vezes.
Logo em seguida ele fecha a porta atrás de nós e a escora com um sofá pesado. A garota larga Miah, que se apóia no braço do sofá e tudo o que fazemos é ficar nos encarando e ficar – mutualmente – imaginando quem os outros são.
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