Survivor

3 Capítulo 3


O céu está coberto por nuvens carregadas.

Estamos caminhando há algumas horas e ainda não vi mais nenhuma construção. Desde que saímos da casa tenho ouvido as irritantes e insistentes reclamações de Laura e Miah. Penso sinceramente que minha cabeça está a ponto de explodir e, no momento em que Laura recomeça a choramingar sobre termos deixado muitas coisas úteis para trás, sinto que não sou mais capaz de me conter sem atirar uma faca em sua garganta e vê-la sangrar até a morte sem poder pronunciar mais nenhuma palavra sequer.

–Cale a boca! — grito, as palavras saem de minha boca antes que eu tenha tempo de pensar.

Todos param e me observam cuidadosamente. Laura me encara mais que os outros e aguarda alguns segundos antes de falar novamente.

–Só estou dizendo — ela começa, devagar — que estávamos relativamente seguros naquela casa e que podíamos ter ficado mais um pouco.

–Sabe, as pessoas se acomodam — retruco ao mesmo tempo em que tento me acalmar — e acomodação não é uma coisa com a qual possamos lidar diante de nossa presente e prolongada situação. Além do mais, a melhor opção para vocês é estar em um grupo maior de pessoas, portanto, pare de reclamar e apenas ande!

Não espero que ela tenha uma resposta, apenas me viro e volto a andar contando uma sequencia de números primos em minha cabeça para me manter mentalmente ocupada.

Após mais algumas horas caminhando paramos perto de uma pequena nascente. Abro um pacote de batatas, pego um punhado e o passo para Matt que esta sentado mais próximo de mim. Ele pega um pouco e passa para o lado novamente, bebemos um pouco de água e descansamos, mas permanecemos todos quietos.

Olho para o céu e não é preciso ser uma meteorologista para prever que não vai demorar muito para chover.

–Vamos para a estrada — digo me levantando e colocando a mochila nas costas — o tempo vai ficar bem ruim esta noite e teremos mais chances de encontrar um lugar para ficar se sairmos da floresta.

...

Caminhamos entre mais um daqueles engarrafamentos de carros que foram deixados para trás. Como sempre, dentro de alguns deles há corpos em decomposição, parados para sempre no momento em que a vida deixou seus corpos.
Isso costumava me incomodar no inicio mas, hoje, é uma visão comum.

Os primeiros pingos grossos começam a cair como uma goteira chata, acertando o topo de nossas cabeças e, não demora muito para que a chuva realmente caia, nos molhando por completo.

Puxamos a porta de correr meio enferrujada de uma vã de vidros escuros, e um corpo ressecado com os braços esticados cai para fora. Dentro do veículo há mais um cadáver, de uma criança. Matt o puxa do cinto ao qual estava preso e o joga no asfalto sem muita cerimônia.

Os assentos traseiros da vã foram retirados o que nos dá um pouco mais de espaço e há algumas coisas espalhadas pelo chão. Por sorte, encontramos uma espécie de coberta de retalhos embolada perto dos pedais e duas latas de sopa. O resto são apenas algumas fotos e acessórios irrelevantes.

Matt se senta com as costas apoiadas no fundo da vã e não demora muito para Laura se aninhar em seus braços. Miah tenta torcer os cabelos molhados sem muito sucesso, porém, antes que eu mesma possa dizer alguma coisa, Kenny reclama sobre o fato de que a água que cair dos cabelos dela só irá deixar o interior mais úmido.

Eu me sento perto da porta e tiro a jaqueta, que está encharcada, jogando-a sobre o banco do carona e amarro os cabelos em um nó. Abrimos a coberta, que felizmente é grande o suficiente para aquecer a todos nós, e ficamos em silêncio, escutando apenas o barulho da chuva do lado de fora.

...

Não sei exatamente quando foi que cai no sono, mas, sei que quando abro os olhos está escuro do lado de fora. Aparentemente a chuva diminuiu um pouco e agora só é possível ver e ouvir um leve chuvisco.

Puxo os fios de cabelo que caíram sobre meu rosto e os prendo atrás da orelha e, só então olho ao redor. A porta de correr está com uma brecha que não me lembro de termos deixado e as únicas pessoas que vejo ali dentro são Laura, encolhida contra os fundos da vã dormindo, e Miah, também encolhida, com as mãos agarrando firmemente sua ponta da coberta.

Me levanto, confiro se a arma ainda está presa à minha cintura e puxo a porta tentando fazer o minimo de barulho possível.

Do lado de fora o vento é forte e faz com que eu me arrependa de ter tirado a jaqueta. Posso sentir os pelos dos meus braços e da minha nuca se arrepiando. Olho ao redor mas não consigo ver os meninos, fico imaginando o que os dois foram fazer.

Ando em círculos há alguns metros de distância de onde a vã está e então, de repente, ouço vozes alteradas que vem das árvores a minha esquerda. Me aproximo com cuidado e paro para ouvir.

–Você só pode estar brincando! — é a voz de Matt.

–Você não deveria ter vindo até aqui! — agora quem fala é Kenny e é possível ouvir o tremor em sua entonação — não estava mais chovendo eu só queria... — ele hesita e sua voz falha.

–Você é um idiota Kenny! Estou cansado de tomar conta de você!

–Então não tome conta de mi...

A frase fica pela metade e ouço Kenny gritar. Logo em seguida um som de coisas se chocando preenche o ar. Abro espaço por entre as folhas mais próximas e vejo os dois; Kenny rola no chão com um errante cuja mandíbula está a poucos centímetros de seu rosto e vejo uma massa escura um pouco mais a frente se movendo naquela direção. Antes que eu possa intervir Matt puxa sua arma.

–Matt, não! — grito

Mas é tarde demais. A arma dispara com um estrondo e acerta a cabeça do que um dia foi uma mulher. Kenny joga o corpo imóvel para o lado e se levanta. A massa escura se desloca em nossa direção com mais rapidez.

Não tenho tempo para perguntar o que estava acontecendo ou para repreendê-los, apenas olho para os dois e digo:

–Corram!

Corremos de volta para a estrada, tropeçando em nossos próprios pés, sem conseguir enxergar muita coisa.

Quando alcançamos a beira da estrada vejo que outra massa escura e barulhenta também se arrasta descompassadamente pelo outro lado. Estamos cercados.

Deito no asfalto e arrasto meu corpo para baixo de uma caminhonete. Kenny e Matt me imitam e ficamos os três espremidos um contra o outro embaixo do veiculo. Embora seja aparentemente desnecessário, sinalizo para que os dois façam silêncio.

Não demora muito para que um mar de pés comece a passar se arrastando por nós. Seus ruídos juntos chegam a ser ensurdecedores e, conforme observo-os caminhando mais à frente me lembro de algo e parece que Matt também se recorda da mesma coisa que eu.

Trocamos um olhar e ele aponta as rodas da vã alguns metros a frente de onde estamos. Laura e Miah estão lá dentro e a porta não estava necessariamente trancada.

Levanto minha mão e peço para que ele espere, o tempo parece se arrastar. Observo que a maioria dos errantes já passou da vã e, no momento em que quase respiro aliviada ouço um grito fino e agudo.

Não consigo impedir Matt de se arrastar para fora, ele se levanta agilmente e corre. O rosto de Kenny está lívido e ele simplesmente não se mexe.

Reviro os olhos.

–Fique aqui — sussurro

Não sei se ele me ouve ou se teria ficado ali independente de qualquer circunstancia, mas, rolo para o lado e me levanto. Matt já está perto da vã onde um grupo disperso de 4 errantes força a porta e bate com a cabeça contra o vidro.
Dentro do veículo Laura e Miah gritam a plenos pulmões e o barulho começa a chamar atenção de outros errantes do grupo que está mais a frente.

–Matt — chamo, mas ele não me da atenção.

Matt atira contra os errantes e antes que eu possa me aproximar o suficiente ouço outro grito.

Dois errantes se arrastam para baixo da caminhonete onde Kenny está.

Mordo o lábio sem ter certeza do que fazer.

Puxo uma faca presa em minha bota e me junto a Matt. Acerto a cabeça de dois dos errantes enquanto ele atira no outro. Infelizmente uma nova horda deu meia volta e vem em nossa direção.

–Ajude o Kenny! — grito

Dessa vez ele presta atenção em mim e me encara por um segundo.

–Mas, Laura... — Matt começa a discutir

Olho fixamente para seus olhos.

–Vai, ele precisa de você, vou tirar a gente dessa!

Uma mistura de medo e incerteza atravessa seu rosto, porém ele assente e corre de volta para Kenny.

Empurro a porta da vã e Laura e Miah saltam para fora, ambas com expressão de terror no rosto.

–Peguem as mochilas! — grito para as duas.

Juntas, pegamos tudo o que conseguimos carregar o mais rápido possível. Chuto uma errante que se aproxima e a jogo no chão, murmurando um pedido de desculpas inaudível. Laura choraminga enquanto Miah prende a mochila de modo que não caia.

–Vamos logo — digo, prendendo minha própria mochila e e já andando na direção onde Kenny se encolhe enquanto Matt soca a cabeça de um errante.

Miah está logo atrás de mim e tenho consciência disso mas, como aparentemente as coisas nunca podem ser fáceis para pessoas como nós em um mundo como este, ouço algo pesado cair no chão.

–Me ajudem! — É a voz de Laura.

Olho para trás e vejo que o gancho pendurado em sua mochila se prendeu em uma fenda na porta da vã e ela caiu, ficando firmemente presa no lugar pelas tiras de couro reforçadas da mochila.

Miah corre até ela e tenta puxar a tira, porém, suas mãos nervosas não conseguem resolver o problema.

Tic Tac, meu cérebro diz. Errantes voltando de um lado, Kenny encolhido do outro, Matt nervoso espancando o que deveria ser um homem, Miah com as mãos trêmulas, Laura enganchada à vã. Registro tudo ao mesmo tempo. Eu não deveria estar nessa situação, não deveria precisar estar nela. Não preciso defendê-los, não preciso.

Os gritos frustrados de Miah me tiram de meu torpor momentâneo. Balanço a cabeça recobrando uma linha coerente de pensamento.

–Vai — digo me agachando perto dela.

Miah me olha e pisca algumas vezes com lágrimas escorrendo dos olhos.

–Distraia os errantes — completo — vou tirá-la daqui!

Sei que ela não abandonaria uma amiga, ou pelo menos imagino isso. Mas preciso que ela saia. Preciso que Matt, Kenny e Miah estejam ocupados o suficiente para que eu possa pensar.

Laura chora enquanto pede ajuda continuamente como se já não tivéssemos entendido. Miah me obedece, pega sua faca e corre até o errante mais próximo, tentando acertá-lo.

Kenny e Matt passam por nós, eles perceberam que algo está errado, mas sabem que a maior necessidade é manter os errantes longe.

–Shii — digo para Laura, meus olhos e minha mente focados na mesma tarefa, porém de formas diferentes.

–Eles vão nos alcançar, vão nos alcançar — ela fala entre seus gemidos.

–Calma, vou distrai-los e vou tirar você daqui. Vamos todos sair daqui.

Observo o modo como ela está presa. A tira que prende a mochila ao corpo se apertou ao redor dela prendendo o braço esquerdo e, sinceramente, não sei como aquilo aconteceu, mas não há tempo para pensar nos comos e porques. O gancho que pende da ponta da tira esta firmemente seguro em uma abertura diagonal no metal da lateral da vã de modo que quanto mais ela se movimenta mais presa fica.

Ouço seus lamentos e gritinhos como se fossem uma coisa distante. Quanto mais ela fala e grita e se contorce e pede por ajuda mais minha pulsação acelera. Puxo minha faca. Minha mente vira um turbilhão novamente.

Posso cortar a tira. Preciso de tempo. Ela não fica quieta. Deixe-a aqui. A tira. Errantes. Distração. Choro. Preciso me apressar.

E...

–Aaaaaaaaaaaaaah!

O grito parece penetrar em tudo ao redor. Alto, tão alto que me traz de volta. Olho para minhas mãos. Sangue. Vejo dedos imóveis e um pedaço de couro no chão e um olhar aterrorizado no rosto de Laura.

Não penso, apenas apanho a mão decepada do chão e a atiro para o lado. Com sorte acertei algo que fez um leve som, porém o suficiente para distrair alguns errantes mais distantes.

Tapo a boca de Laura com a mão e a puxo para as árvores. Ela tropeça e chora contra minha mão que a impede de fazer barulho.

Kenny, Matt e Miah acertam os últimos errantes em seu campo de visão e correm em nossa direção.

Empurro o corpo de Laura contra as raízes expostas de uma árvore e me encolho junto dela ali. Tiro meu cinto e o coloco ao redor do lugar onde antes ficava sua mão.

–Você... Você cortou — ela gagueja enquanto olha o torniquete — cortou... — as lágrimas escorrem por seu rosto sujo — minha mão! MINHA MÃO!

Atrás de mim Miah chora convulsivamente e posso sentir os olhares de Matt e Kenny queimando minha nuca.

Tento esquecer que estão ali e me concentrar em estancar o sangramento de Laura.

–Shii. Eu nos tirei de lá, foi preciso — digo e estou tentando me convencer que sim, mas, preciso reprimir um sorriso que teima em brotar em meus lábios — Vai ficar tudo bem, você não precisa de uma mão.

Ela encosta a testa contra a casca da árvore e soluça. Matt se agacha ao lado dela e segura seu rosto com as mãos, levando-o para sua camiseta molhada de suor e manchada de sangue.

Termino o curativo improvisado e dou a eles alguns minutos antes de fazê-los se levantarem e andarem para um pouco mais longe da estrada.

Encontramos o que parecia ser os restos de um acampamento improvisado com uma barraca abandonada e alguns utensílios de cozinha espalhados pelo chão ao redor.

O zíper da barraca está enferrujado e não funciona e no interior há apenas uma mochila vazia e um velho lampião.

Laura desaba no chão e os braços de Matt a envolvem instantaneamente. Pela primeira vez ele olha horrorizado para o braço de Laura, que não termina mais em uma mão, e depois me encara de uma forma intensa, mas não consigo decifrar sua expressão.

Balanço a cabeça e sinalizo que estou tão cansada e abalada quanto ela. Kenny também encara o vazio onde a mão de Laura costumava estar, entretanto, ao mesmo tempo, parece ser o único a se preocupar comigo.

Ele se aproxima de forma cautelosa e deixo que me envolva com os braços, estou cansada demais para repelir essa tentativa de aproximação. Deixo minha cabeça descansar no ombro dele por alguns minutos enquanto Miah se arrasta de um lado para o outro tentando acender uma fogueira e pendurando os utensílios velhos em uma fita ao redor do espaço que usaríamos para dormir.

Algumas horas mais tarde me livro cuidadosamente do braços de Kenny e me recosto em uma árvore. Encaro o braço de Laura pousado sobre o abdômen de Matt enquanto ela dorme e reprimo novamente a vontade de sorrir. Sei que não cortei sua mão por ser necessário, fiz porque... Bem, fiz porque sim. Não é maldade. Talvez ela aprenda a reclamar menos se perceber como sua vida era relativamente boa.

Fecho os olhos com aquele pensamento pulsando em minha cabeça, com aquela escolha que fiz, e deixo meu corpo descansar.