Survive
1 Rafa
Notas iniciais
Rafa
Meu nome é Rafa, não sou o cara mais forte, ou o mais esperto, muito menos o mais atlético, tampouco corajoso, se cheguei até aqui foi graças á pessoas que morreram e outras que ainda lutam pela vida, meu instinto de sobrevivência ferve a cada instante, cada vez mais quero estar vivo e voltar à velha rotina de que tanto reclamava.
Tudo começou na manhã de quinta feira, meu despertador tocou agredindo não só a mim como todos os que viviam no prédio, meu irmão Carlos gritou para que eu o desligasse o mais rápido possível, evitando uma discussão logo de manhã , o obedeci sem luta. O banho gelado fez meu corpo tremer e também acabou com o cansaço, entre bocejos e espreguiçadas vesti a camisa branca, a calça vermelha, virei uma xícara cheia de café e segui em direção ao ponto de ônibus.
Para variar o ônibus que eu costumava pegar estava vago, algo que só acontece nos finais de semana. As poucas pessoas ali, olhavam silenciosas pela janela. Sentei-me ao fundo, puxei o fone por dentro da camisa e toquei uma música de Guns n’Roses, esperando deixar meu percurso mais animado, encostei a cabeça no vidro ainda frio e manchado pela madrugada. O ônibus fez seu percurso diário, passando por ruas cheias de pessoas vazias, carros cheios homens e mulheres indo para os trabalhos e crianças desanimados com a escola .
Eu Estava sem duvidas acostumado com a monotonia de fazer as mesmas coisas todo dia, sempre foi assim, deixar o mundo me levar, queria que algo acontecesse, uma coisa que desse sentido a minha vida, uma aventura como aquelas que eu via nos livros e filmes.
A uns cinco minutos da escola o motorista freia bruscamente, e a inércia que nunca me perdoa fez com que eu batesse meu tórax contra o banco na frente do que eu estava, olhei para a rua procurando o problema, o semáforo estava piscando descoordenadamente, e não era apenas o daquela rua, e sim todos que eu conseguia enxergar, as buzinas e xingamentos cobrem o ambiente, fazia frio naquela manhã, o que não é tão comum em Teresina, uma leve garoa desceu, uma sensação horrível percorreu minha espinha e alojou-se na nuca, um mau pressentimento. Os sinais voltaram a funcionar num baque, todos de uma vez, o ônibus seguiu ferozmente.
Quando cheguei à sala, apenas metade da turma estava lá, ao fundo umas meninas conversavam, entre elas vi Marília, uma garota que me teve desde o primeiro dia de aula, era inteligente, bonita e eu adorava os três brincos em cada uma de suas orelhas, os cabelos louros estava soltos aquela manhã, ela era o centro da roda, uma líder nata. Marília percebeu meu olhar petrificado e acenou, ainda bobo, acenei de volta.
Do meio das meninas surge a figura baixa e magra da Lita vindo até mim, ela chegou me cumprimentando e me perguntando sobre as atividades de física, claro que eu não tinha feito, como se já estivesse esperando essa resposta ela jogou seu caderno na minha mesa nas paginas para que eu copiasse e voltou para o meio da meninas.
Baixei a cabeça e comecei a xerocar as páginas de cálculos, graças a Lita eu não perderia pontos na matéria, ela me ajudava nas matérias de exatas as quais nunca fui bom, nos tornamos amigos assim, esse é meu primeiro ano na escola, e é graças a ela que estou me adaptando.
Já estava na última questão quando alguém dá um tapa em minhas costas me viro e me deparo com a imagem branca de cabelos loiros e encaracolados, Arthur. É basicamente aquele que eu posso considerar de melhor amigo naquele ambiente, juntos somos insuportáveis como diria a lita, seus cabelos estão cobertos de pingos da garoa. Ele senta ao meu lado e toma a atividade para copiar.
— E ai, já estudou pra prova de sábado?- A voz de Arthur entregava seu medo.
Eu assenti, mas era mentira ainda não havia aberto o capítulo da prova. O sinal tocou e lita puxou o caderno das mãos dele, ele berra e eu empresto o meu.
Seguiram-se então as aulas de química e história sem nada incomum. Então entrou o professor de física, Beto, um gordinho baixinho que vive fazendo piada e citando poemas aleatórios. Ele entrou pulando e rindo. Falando sobre o jornal da manhã, sobre notícias de tempestades inexplicáveis pelo mundo, e do quanto coisas bizarras estavam acontecendo na última semana.
— Alguém sabe o que tá rolando “fessor”?- Lita levanta a mão mas não espera a permissão pra perguntar.
— Ainda não Lita, mas são todos fatos incomuns, nunca registrados antes.
Um ador apertou o meu peito, exatamente onde eu havia batido no ônibus, eu apertei forte o local e nesse instante um trovão gritou assustadoramente, fazendo todos saltarem das cadeiras. As pessoas se olhavam, o professor pediu calma e fez algumas piadas tentando fazer com que a gente relaxasse. Outro trovão rugiu, dessa vez mais alto e mais próximo, todos trocam olhares, aquilo estava muito estranho para ocorrer numa simples garoa.
Um terceiro trovão, que nem parece mais um trovão, explodiu, as luzes da sala piscavam descoordenadas. As luzes se se estabilizam, mas beto não tenta fazer outra piada.
Décio, um dos alunos da classe, levanta e corre em direção ao corredor.
— ei, vejam isso! Alguma coisa caiu na Praça Saraiva.- Ele grita.
Todos largaram a sala, e quando digo todos, não me refiro apenas a nossa sala, todo o corredor do segundo ano havia saído, eles se exprimiam para alcançar a janela, depois de muito lutar a alcancei. Primeiro tudo que se via era uma densa fumaça, mas aos poucos ela se dissipou, e em vez de um asteroide pude ver cinco coisas, pareciam homens no início, mas olhando bem, percebi que eles eram bem mais altos que homens comuns, o menor parecia ter mais de dois metros. Os cinco ficaram parados alguns segundos até que eles começaram a marchar de um jeito nada normal.
— Que tipo de fantasias são essas?- era Marília, ela estava ao meu lado e eu nem havia notado.
— Eu não sei, deve ser alguma apresentação.-respondi sem conseguir desviar os olhos dos homens gigantes
Eles se dividiram em três grupos, dois marcharam na direção lateral direita da praça, onde ficava nossa escola, um seguiu pela frente e os outros dois pelas costas, as pessoas olhavam curiosas para os homens fantasiados, filmavam e tiravam fotos sem parar, os dois que vieram em direção a escola pararam em frente ao posto de polícia que ficava em baixo da nossa janela.
Um deles sacou uma espécie de arma gigante das costas.
— Acha que vai sair confete daquilo?- Arthur surgiu do meu lado, juntamente com lita. Ele sorria enquanto perguntava a Lita, mas ela não parecia feliz, me olhou com medo e eu fiz o mesmo, ela já havia entendido que aquilo não era algo normal.
Dois policiais saíram apontado armas para os homens, gritavam para eles falarem o que queria ou quem eram, contudo nenhum dos dois respondiam. Beto e os outros professorem puxavam-nos para as salas, mesmo diante do perigo insistíamos em ver como tudo ia acabar, acabar? Mas aquilo era só o começo.
O homem cinza com a arma a levantou e mirou em direção ao posto, um dos policiais ficou nervoso e começou a dar tiros, mas nenhum pegou no sujeito, que sem tremer ou se mexer ficou parado lá como uma pedra, seu dedo puxou o que devia ser o gatilho daquela arma, por instinto minhas mãos foram levadas aos ouvidos, a delegacia se tornou uma imensa bola de fogo, o vácuo derrubou todos os curiosos parados no corredor, o barulho estrondoso me deu a pior dor de cabeça da minha vida, um brilho branco ficou na frente dos meus olhos e um zunido gritante preso ao meus ouvidos. Como eu havia sido o único a proteger os ouvido era o menos zonzo, me levantei ressentido, e tive certeza de ver um filme de guerra, ou melhor, massacre. Onde estivera a delegacia agora era uma chama laranja, os caras gigantes agora carregavam armas menores e atiravam em todas as pessoa que passavam, elas gritavam desesperadas e incrédulas enquanto seus corpos eram perfurados, homens e mulheres que não iam mais para o trabalho e também, crianças, todos sendo mortos. Meu corpo ficou imóvel e estúpido, corro minhas mão a boca enquanto observo tamanho terror, até que alguém me puxa pela camisa.
Todos correram em um amontoado desorientado, eu seguia a multidão se ter certeza do que fazia, até perceber que era Lita que me puxava pela camisa, enquanto levava Arthur pelo braço. Me lembro da voz de algum professor gritando sobre reunir todos no terraço suspenso, que era uma espécie de pátio alternativo que ficava na parte de cima da escola, junto com as salas. Quando chegamos o primeiro ano já estava lá, estavam curiosos, mas nada abalados, provavelmente o seu andar não tinha a visão da praça, no máximo se assustaram com o barulho.
Sentei-me numa mesa com Arthur e Lita, nos entreolhamos sem dizer nada, Décio apareceu gritando e pedindo ajuda, um de seus ouvidos sangrava sem parar, um professor apareceu e o arrastou para enfermaria.
O diretor apareceu guiando a sétima e oitava séries, as outras turmas ficam do outro lado da escola, por isso deviam ter se reunido em lugares diferentes.
-Silêncio!- grita o diretor Sérgio, todos param e o olham perplexos. — tem algo estranho acontecendo na rua, algo perigoso e desumano, não se preocupem eu prometo cuidar de todos, fiquem na escola, já estamos trancados, a policia chegará em breve.
— que policia?- Marília se levanta- aquela policia que eles acabaram de destruir?
— Acalme-se garota.
— ela esta certa, estão matando pessoas lá fora e quer que fiquemos aqui esperando eles entrarem?- não sei como, mas uma única vez na vida consegue gritar e dizer o que eu penso, Marília me olha e agradece com os olhos pelo apoio.
— o que querem fazer?- sua voz treme, mas o diretor se recompõe- querem que eu jogue vocês na rua? Eles estão lá! tudo que podemos fazer por hora é esperar. — o diretor cabisbaixo saiu, juntamente com o coordenador.
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