Survive
2 Lita
Notas iniciais
Lita
Eu me arrependo de ter passado a maior parte do tempo me segurando, se eu soubesse por um segundo que o mundo ia acabar, teria me jogado de cabeça antes. Tudo que eu quero agora é uma segunda chance.
Meu braço esquerdo doía tanto que mal podia mexê-lo, na minha testa um pequeno corte sangrava, mas nada sério, pra falar a verdade, eu estava muito bem em comparação aos outros que me cercava. Estavamos no pátio suspenso, as mesas estavam completamente lotadas, alguns alunos estavam deitados no chão com osso quebrados, outros estavam até mesmo inconscientes. O semi silencio é o que mais me deixa desesperada, dezenas de pessoas e nenhuma voz clara, apenas choros, cochichos e adolescentes digitando mensagens. Lembro da cena que havia visto. como aquilo era possível?Aquilo só acontecia em filmes, ainda dá pra escutar tiros e gritos distantes, lá fora. Graças a Deus eles não entraram na escola, quem seriam eles? Melhor, oque? Sem duvidas não são humanos, sinto que vieram dos céus, do espaço, o que eles querem aqui?Tantas perguntas corroíam a minha cabeça que eu mal podia respirar.
Rafa e Arthur eram os únicos na minha mesa, eles olhavam para o vazio. Sem sucesso, tento dizer alguma coisa, contudo tudo que sai da minha boca são gemidos abafados. Resolvi baixar cabeça, massageei meu braço, enquanto encarava o chão de madeira.
— vocês acham que eles vão entrar aqui?- Arthur quebra o gelo, graças a deus, mas pela pergunta ser perturbadora não ouso responder. Sim, sem duvidas eles entrariam lá, mais cedo ou mais tarde e eles dizimariam todos os seres vivos que vissem pela frente.
— Sim, eles vão entrar e quando entrarem não podemos estar aqui, ou seremos massacrados como as pessoas lá fora. — Rafa olhava para cima, lembro-me que após a explosão da delegacia, ele foi o único a ter coragem de olhar novamente, provavelmente viu um pouco mais do que nós.- seus pais- ele continua reflexivo- já falaram com eles? acho bom ligarem o mais rápido possível- uma coisa horrenda percorre o meu estômago, sobe pelo meu esôfago e agarra minha garganta. Pai e mãe, estaria tudo bem com eles?
Peguei o telefone e esperei chamar, a ligação caiu, tento outra vez, cada vez que ouço o som da chamada um aperto diferente me abala.
meu pai atendeu, fiquei aliviada até ouvir sua voz ofegante.
— Lita, Lita minha filha! Você está bem?? — um barulho de tiros pode se ouvir ao fundo.
— pai? O que esta havendo ai? Você está bem?
— filha, umas coisas invadiram o prédio, dois deles, eu não sei o que são- uma explosão estoura ao fundo- meu deus!- papai parecia desesperado- Lita eles estão aqui, eu sinto muito, filha viva por mim e por sua mãe…Que Deus nos proteja.
Tenho a sensação de milhares de agulhas penetrando o meu peito, minha voz engasga.
— papai? Não, por favor, não, me responde pai. — a ligação cai, o barulho irritante invade minha cabeça. tu-tu-tu
As lagrimas floresciam em meus olhos como nuca antes, saiam descontroladas, meus lábios tremiam e um vazio incondicional invadiu meu peito, meus amigos me olhavam preocupados. Petrificada encarei os dois, um de cada vez
— meus pais, eles acabaram de serem mortos- disse isso e instantaneamente chorei, minhas forças foram perdidas caio por cima de Rafa que me abraçou, Arthur se juntou a nós pelo outro lado, ele me aninharam e tentavam dizer palavras de consolo que eu não poderia lembrar, uma ou duas vezes um monitor ou professor se aproximou perguntando o que era, mas ninguém dizia nada e eles saiam.
Já conseguia conter as lagrimas quando Arthur ligou pra sua casa, ele ficou tenso, porém ninguém atendeu. Ele resolveu então ligar para sua irmã, a Valéria, ela atendeu e eles se falam por uns dez minutos. Arthur nos contou sobre a conversa, disse que ela estava bem, que estava perto de casa quando ouviu explosões e fugiu junto a multidão, agora se encontra na Avenida Frei Serafim que é a uns dois quilômetros da escola.
— e você Rafa?- Arthur apontou o celular na direção de Rafa que recusou com um gesto.
— Eu prefiro não ligar, meus pais não estão aqui, moram no interior e deve estar tudo bem por lá.
— se você prefere assim...
Fale com o autor