Surrender
10 Escolha um lado
Notas iniciais

Ela só precisou de um dia de viagem, três horas de reconhecimento, uma hora para se infiltrar na casa do alvo e dois minutos para tê-lo na mira de sua arma. Antigamente ela teria feito tudo em menos tempo, estava perdendo a prática. Mas achou isso algo bom, pois detestava se lembrar dessa parte de sua vida. Assim que chegou à Nova York, Natasha recebeu uma mensagem de Steve avisando sobre o aniversário de Sam, e que eles comemorariam em um bar perto do Central Park. Disse que ela saberia o nome do local quando o visse e a ruiva não pôde deixar de ficar curiosa.
Estava morrendo de saudade de todos, principalmente do Capitão, e esperava que Yelena não a incomodasse por um bom tempo. Ainda não estava certa se deveria começar a ter um relacionamento sério com Steve, ele não precisava se envolver no seu mundo bizarro de mortes e mentiras, ele nunca entenderia. Felizmente a espiã não deixaria aqueles pensamentos estragarem sua noite e o reencontro com seus amigos.
Parou sua moto em uma rua qualquer perto do Central Park e começou a andar, a procura do tal restaurante. Correu os olhos por todas as ruas até ver um enorme letreiro com as palavras "Iron Club", onde um vídeo de Stark fazendo boas ações e salvando a vida de milhares pessoas passava repetidamente para qualquer um ver. Ele era mesmo o rei da humildade.
A fila dava voltas no quarteirão, porém no momento em que a ruiva se aproximou do segurança, uma voz robótica familiar falou, vinda do painel eletrônico ao lado do homem.
— Senhorita Romanoff, os outros a estão aguardando.
— Obrigada, Sexta-Feira — Natasha sorriu e o segurança a deixou passar.
O bar era impressionante, ela precisava admitir. Tudo era feito da mais alta tecnologia, haviam telões espalhados por todo o local, o bar era repleto das mais variadas bebidas de todo o mundo e não estava lotado, apesar de ter espaço para abrigar milhares de pessoas de uma vez.
— Ruiva! — ela ouviu a voz de Tony e se virou para uma mesa em uma parte mais alta que as outras, onde ele, Sam, Bruce, Wanda, Pepper, Rhodes, Visão, Steve e um cara, que ela não reconhecia, estavam sentados.
— Bem discreto, Stark, estou impressionada — ela sorriu e se aproximou deles, abraçando o bilionário e vendo os outros se levantarem para fazerem o mesmo. — Feliz Aniversário, Sam!
— Obrigado! Eu ia ensinar o Capitão a jogar videogame essa noite, mas o Tony arrastou todo mundo pra cá.
— Porque ele nem adora ter uma desculpa para dar uma festa — Pepper comenta e se sentou ao lado do namorado.
— Não fale de mim como se eu não estivesse aqui, amor — Tony envolveu um braço ao redor do ombro dela.
— E quem é esse? — Nat olhou para o homem de cabelos escuros e olhos azuis sentado ao lado de Sam.
— Scott Lang, nos conhecemos há algumas semanas e ele tem sido bem útil — Sam responde, vendo o Homem Formiga se levantar e apertar a mão da ruiva.
— É um prazer. Você é a Viúva Negra, certo? — ele arregalou levemente os olhos, impressionado por finalmente estar conhecendo a espiã pessoalmente.
— Isso mesmo. E você deve ser o cara que deu uma surra no Falcon — ela olhou para o moreno, que revirou os olhos e se voltou para o Capitão.
— Cara, eu te disse para não contar pra ninguém.
— Não tenho segredos com a Nat — o loiro sorriu e a ruiva tentou fazer o mesmo, porém sentiu uma bomba de culpa explodir em sua cabeça. Só ele mesmo para fazê-la se sentir culpada.
Depois de abraçar todos, Natasha se voltou para Steve e sentiu seu corpo todo ficar quente só por causa daquele sorriso no rosto dele. Ela envolveu os braços ao redor do loiro e o abraçou com força, sendo correspondida na hora.
— Senti sua falta — ele sussurrou perto do ouvido dela.
— Aposto que sentiu — Natasha retrucou e desceu a mão discretamente, apertando a bunda do herói tão rápido que ninguém mais notou.
— Cuidado, Romanoff — ele se afastou o bastante para poder encará-la nos olhos, um sorriso divertido logo aparecendo no rosto dele.
— Ainda quero matar essa saudade de outra forma.
Os dois se sentaram lado a lado e começaram a participar da conversa. Scott contava como seu traje funcionava e de vez em quando era zoado por Tony por conta do seu nome de herói, o papo continuou nessa até Stark decidir tocar em um assunto delicado.
— Ah, acho que ficarão felizes em saber que fui para Washington ontem e resolvi tudo — ele tomou um gole do seu martini e olhou para Pepper, vendo-a cruzar os braços e encará-lo de forma questionadora. — Ok, a senhorita Potts resolveu tudo, mas eu ajudei um pouco.
— E com "resolveu tudo" você quer dizer…? — Banner perguntou, fazendo o bilionário sorrir.
— Antes de eu responder a pergunta do doutor, por que não fazemos um jogo?
— Tony… — Pepper advertiu.
— Qual é, vai ser divertido! — ele deixou a taça sobre a mesa e alternou olhares entre os heróis ali presentes. — Vamos dizer que essa Lei de Registro de Super Heróis fosse aprovada…
— Stark, não acho que isso seja necessário — Steve argumentou.
— Vocês a aceitariam de bom grado ou fariam pirraça igual ao Capitão Perfeição aqui?
Todos ficaram em silêncio por um tempo, pensando em uma resposta ou esperando para verem quem falaria primeiro. Por fim, Wanda falou sua opinião sobre a questão.
— Essa lei poderia até ajudar alguns, mas prejudicaria muitos outros. Não sei se concordaria com ela, mesmo que não tenha nada a perder.
— Sem contar que revelar nossas identidades secretas para o mundo não seria um mar de rosas — Sam acrescentou, vendo a morena assentir. — Os criminosos de hoje em dia são muito pirados, se souberem de uma fraqueza se quer vão usá-la contra nós. Família, amigos.
— Mas com a lei em exercício, criminosos pirados seriam trancafiados atrás das grades mais facilmente — Rhodes disse.
— O Coronel está certo — Visão assentiu.
— Não entendo esse fetiche por identidades secretas, — Tony completa. — Todos sabem quem eu sou, desde o começo, e estou mais do que bem e feliz com a minha vida.
— Explodiram sua casa há um ano e meio atrás — Bruce massageou as têmporas, já impaciente com o rumo da conversa.
— De que lado você tá, Banner?! Só fizeram isso porque dei meu endereço a eles, a idiotice foi minha — o moreno fez uma careta e voltou a beber seu martini.
— Sinceramente, a sensação de chegar em casa e ver um super vilão prestes a matar sua filha é uma coisa que não recomendo — todos se calaram após ouvirem a declaração de Scott. — Essa lei traria consequências que só podemos imaginar. Na prática é outra história.
— Facilmente resolvido com armaduras seguranças. Já fiz várias delas e posso te emprestar uma ou duas, Lang — Tony sorriu, fazendo Steve suspirar.
— Vimos como isso deu certo com o Ultron, não foi? — novamente todos se calaram e o bilionário manteve os olhos no loiro por um longo tempo, parecendo se controlar para não responder da forma apropriada, pois sabia que levaria uma bronca de Pepper ou Bruce.
— Vocês americanos, — Natasha deu um sorriso de canto, balançando a cabeça em sinal negativo. — Tão mal acostumados com a liberdade. A menor ameaça de perdê-la, e vocês já perdem a cabeça.
— O que quis dizer com isso? — Steve questionou, virando-se para a ruiva, que deu de ombros.
— Ninguém quer uma guerra, Steve, é melhor não irmos contra algo que pode beneficiar à todos. Se ficarmos todos do mesmo lado, tudo será mais fácil.
— Já escolheu um lado, então — havia certo desapontamento na voz do soldado e uma emoção em seus olhos que ela preferiu não decifrar.
— Não tem lado algum, pessoal — Pepper interviu, vendo que a brincadeira estava indo longe demais. — A lei não foi aprovada. Tony só gosta de ser o engraçadinho.
— Pelo menos sei que a ruivinha tá no meu time, assim como o Visão, o Rhodes e talvez o Hulk? — Stark olhou para Banner, que negou com a cabeça. — Vamos lá, verdão, não sou ninguém sem você.
— Esse aniversário só fica mais bizarro — Sam bebeu um gole de sua cerveja e se virou para Steve quando o loiro se levantou.
— Com licença — o herói fez seu caminho para uma porta que levava à uma varanda, precisava de ar fresco antes que acabasse se estressando mais com seus colegas de equipe.
Natasha revirou os olhos e se levantou também, indo atrás dele. Sabia que devia ter ficado calada, ela havia feito o máximo para ficar, mas não conseguiu deixar de falar o que pensava. Ao chegar na enorme varanda, onde um casal e dois amigos conversavam em lado opostos da mesma estavam, viu Rogers parado de costas para ela enquanto olhava para alguns prédios a sua frente.
— Se eu soubesse que era tão sensível, teria ficado calada — ela se aproximou e envolveu os braços ao redor dele, ficando na ponta dos pés para poder colocar o queixo em seu ombro.
O loiro deu um sorriso fraco e negou com a cabeça.
— Não teria não.
— Você me conhece bem — a ruiva sorriu e se posicionou ao lado dele. — Não está chateado por eu ter concordado com o Stark, não é? Sabe que isso é algo que acontece a cada um milhão de anos.
— Não estou chateado, nem com raiva. Só não quero ver nosso time se dividindo dessa forma, não quero ter que lutar contra meus amigos e nem contra você — Steve tinha um olhar de sincera preocupação no rosto, e agora que encarava Natasha, parecia ainda mais incomodado com a ideia ter que confrontá-la.
— Essa lei é discutida todos os anos desde que salvamos Nova York e o mundo da invasão do Loki, ela nunca é aprovada porque eles não encontram um motivo sensato para isso — a ruiva segurou uma das mãos dele e deu um passo a frente, ficando muito próxima do loiro. Seus lábios quase se tocando conforme falavam.
— De qualquer maneira, se acha que ficar no lado do Stark seria o certo, eu não a impediria — Steve manteve o olhar na boca da espiã, não querendo encará-la diretamente nos olhos.
— Vamos parar de falar sobre isso por hora — ela deu um rápido sorriso, puxando Rogers pela gola da camisa e lhe dando um beijo longo e quente.
Steve envolve a cintura dela com seu braço, deixando seu corpo bem colado ao dele conforme se perdiam no beijo e naquele abraço, matando qualquer saudade que pudessem ter sentido nos dois dias em que ficaram separados. Natasha encerrou o beijo esfregando a ponta de seu nariz no do loiro, sorrindo e sussurrando:
— Quer sair daqui?
— Acabou de chegar — Steve inclinou a cabeça levemente para o lado.
— Eu falo que estou com dor de cabeça e você diz que está com dor de barriga, então podemos deixar o Stark e os outros e passar um tempo a sós — ela acariciou o peito do herói, fazendo-o dar uma risada divertida e assentir.
— Tudo bem. Mas você vai dizer que está com dor de barriga.
Romanoff o puxou pela mão e o levou de volta para dentro. Acabaram por nem dar nenhuma satisfação aos seus amigos, apenas deixaram o bar e seguiram para o Central Park do outro lado da rua. A noite estava fresca e iluminada pelas luzes da cidade que nunca dormia, muitos casais passeavam pelos caminhos do parque, porém todos sentiam-se sozinhos com seus parceiros. Com Nat e Steve não foi diferente.
— Como foi sua missão? — perguntou, sentindo-a envolver um braço no dele conforme andavam ao lado de um enorme lago.
— Bem cansativa. Não pretendo fazer outra tão cedo.
— Barton mandou notícias, disse que ele e a família devem voltar em uma semana — o soldado parou em uma área vazia do parque e sentou-se em um banco juntamente com Natasha.
— É bom ele voltar logo, ou vai se ver comigo — a ruiva passou a mão pelo cabelo macio de Steve e encarou seus olhos magníficos por longos segundos. — Fez algo de interessante enquanto estive fora?
— Como ninguém tentou explodir a casa branca ou destruir o mundo nesses dois dias em que esteve fora, fiquei de folga — ele levou uma das mãos até a lateral do rosto dela, acariciando sua bochecha com o polegar. — Acho que precisamos conversar.
— Temos muitas coisas para conversar, Capitão, que tal se deixarmos isso para outra hora? — Natasha arqueou uma sobrancelha, mantendo seus rostos próximos.
— Se continuar acumulando será pior.
— Tudo bem, já vi que você não vai calar a boca e me beijar até que eu tenha matado sua curiosidade — a ruiva bufou, olhando para o lago ao lado deles. — Escolha bem o assunto que quer conversar, pois será o único que esclarecerei essa noite.
Steve sorriu com a forma autoritária de Natasha falar, e também voltou os olhos para as águas escuras perto de onde estavam, pensando bem no que diria a seguir. A primeira questão a aparecer em sua mente fora a que mais o deixara encucado nos últimos dias.
— A mulher que sequestrou o Clint na semana passada, quem era ela e como a conhece?
— Seu nome é Yelena Belova. Ela, assim como eu, foi uma das agentes da KGB treinadas na Sala Vermelha durante a Guerra Fria, — Romanoff fez um pausa, relembrando a história das duas em sua cabeça. — Sempre houve essa rivalidade entre nós, eu provando ser a melhor frequentemente, enquanto ela tentava ser superior a mim. Quando deixei a Rússia e me uni à SHIELD, Yelena conseguiu a atenção que tanto desejava dos diretores da KGB e foi mandada em uma missão extremamente importante. Para o azar dela, fui mandada pelos Estados Unidos na mesma missão.
Ela deu uma risada seca, virando o rosto para o loiro.
— Eu ferrei ela. Na época me pareceu uma ideia perfeita, só que agora… Vejo que fui uma idiota egoísta.
— O que aconteceu? — Steve a sentiu entrelaçar os dedos nos dele.
— Percebi que estava em desvantagem, então tive que bolar um plano para não ser morta. Convenci Yelena a lutar comigo, lado a lado, para completarmos a missão. Quando terminamos, a deixei no campo inimigo para morrer enquanto voltava para a SHIELD com toda a glória — Natasha inalou o ar frio e o soltou pela boca. — Mas como tudo o que vai, volta, Belova voltou e quer se vingar.
O soldado permaneceu calado por quase dois minutos inteiros, tentando imaginar a sua Natasha fazendo algo assim com alguém. Ele sabia que ela não era nenhuma santa, tinha plena consciência de que o passado da amiga era sombrio e tinha orgulho por vê-la se tornar a heroína que era hoje. Porém ouvi-la contar aquela história o fez ver que não sabia muitas coisas de seu passado.
— Antes de falar que precisamos pará-la, eu já dei um jeito — ela o cortou, percebendo que o loiro iria começar um monólogo. — Ninguém mais vai se machucar por uma besteira que fiz há anos atrás.
— Nat, o que você fez? — ele questionou, preocupado com a frase “já dei um jeito”, pois sabia que quando se tratava de espiões, dar um jeito poderia significar milhares de coisas, e a maioria não eram boas.
— Isso já é outro assunto que eu não estou afim de discutir, soldado — ela deu um sorriso fraco, porém ficou séria ao ver o semblante preocupado no rosto de Steve. — Escuta, eu acabei de voltar de uma missão, quero passar um dia sem discutir, por favor. Você me conhece, quando decido uma coisa vou até o final com ela.
Rogers sabia disso, e como sabia. Adorava o jeito durão e decidido de Natasha, era uma das coisas que mais admirava nela.
— Só quero te lembrar de que não pode fazer tudo sozinha — Steve levou sua mão à nuca da heroína e subiu vagarosamente até seus dedos se entrelaçarem no cabelo sedoso dela.
— Quer apostar? — um sorriso desafiador surgiu nos lábios da ruiva e o herói logo tratou de cobri-los com os seus em um beijo. — Tem certeza do que quer, Capitão?
Ele não se afastou ao ouvi-la sussurrar, manteve seus lábios macios roçando uns nos outros enquanto pensava na resposta.
— Tenho. Você não?
— Só quero te dar uma chance de sair fora antes que seja tarde demais — ela mordeu levemente o queixo do loiro de maneira provocativa. — Sou uma mulher perigosa.
— Estou disposto a correr riscos, se isso significa estar com você — ele sorriu, vendo um certo brilho nos olhos verdes da ruiva.
O beijo que se seguiu foi do tipo que não se esquece, lento, porém repleto de sensações. Suas bocas pareciam se encaixar perfeitamente naquele momento, deixando espaço suficiente para o contato de suas línguas. Natasha levou uma das mãos à parte de trás da cabeça dele e o puxou para mais perto, se é que era possível, aprofundando o beijo e deixando seus corpos colados.
Certamente não haviam ficado lá por muito tempo, mas quando finalmente se separaram, os lábios de ambos tinham uma coloração avermelhada e estavam levemente inchados. A ruiva respirou fundo e sorriu para ele, levantando-se rapidamente e o puxando pela mão para segui-la.
— Aonde estamos indo? — ele sorriu, segurando a mão de Romanoff, que deu um sorriso malicioso, conforme andavam para fora do parque.
— Para o meu apartamento. Não quer matar essa saudade da maneira certa, Capitão?
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