Surrender
12 Aminimigos
Notas iniciais

Era estranho pensar que há um ano eles estavam lutado no meio da rua em Nova York, tentando matar um ao outro, e agora estavam sentados na mesma mesa enquanto tomavam café. Mas aquele não parecia o Soldado Invernal que ela conheceu antes. Era similar ao que havia sido seu treinador na Sala Vermelha, que foi seu amigo e até mais em um determinado momento.
— Do que se lembra? — ela perguntou, deixando sua xícara sobre a mesa. — Depois de salvar a vida do Steve você desapareceu, presumo que tenha tentado descobrir mais sobre seu passado.
— Não me lembro de muita coisa da minha vida normal, até depois de descobrir cada detalhe sobre ela. Nunca voltarei a ser o mesmo de antes — Bucky ergueu os olhos da mesa para a ruiva a sua frente. — Mas eu me lembro da Rússia. Me lembro de treinar os exércitos soviéticos para se infiltrarem nos Estados Unidos, lhes ensinar como falar, agir e matar de modo que não deixassem rastros.
— E se lembrando disso, consequentemente se lembrou de mim — Natasha concluiu, vendo-o assentir. — Por isso está aqui?
— Vim me desculpar.
Essa afirmação a deixou surpresa e atônita.
— Éramos amigos, acho que até mais do que isso, mas eles me fizeram esquecer. De alguma forma eu me lembro do seu olhar depois que atirei em você, no momento não senti nada, mas agora sinto um remorso terrível.
— Isso foi há muito tempo, Yasha. Eu era jovem e imatura, não estava acostumada a ver meus amigos se voltando contra mim — ela se lembrou do que Loki fizera com Clint e Purple Man fizera com Steve. — Não precisa se preocupar com isso, eu não culpo você.
Eles voltaram a ficar em silêncio, pois sabiam que não havia nada mais para se falar sobre o assunto. Bucky estava feliz por ter conversado com ela e mais ainda por ter conseguido tirar esse peso da sua consciência.
— O Steve ainda está te procurando — ela bebeu mais do seu café, tentando parecer desinteressada no assunto. — Deveria parar de se esconder.
— Ele já me encontrou — Bucky lembrou-se de dois dias antes, quando o Capitão e Falcon haviam ido vê-lo. — Não sou mais aquele amigo dele, não me lembro de como eu era há setenta anos atrás.
— Entendo — Natasha ignorou o fato de Steve não ter lhe contado que havia encontrado James e seguiu em frente. — Mas pode acreditar que Steve não quer ajudá-lo porque precisa do amigo de volta, ele não é egoísta. Tudo o que ele está fazendo por você, é para ajudá-lo a se sentir mais como um ser humano e menos como uma arma.
Bucky desviou o olhar por alguns segundos. Não havia pensando por esse lado, e boa parte da sua mente ainda estava fortemente programada para não confiar nele. Porém confiava em Natasha, sabia que ela dizia a verdade, então sentiu-se mais inclinado a deixar Rogers se aproximar.
— Você...? — ela o respondeu antes que completasse a pergunta.
— Não, eu não fazia ideia de que o Bucky de quem o Steve tanto falava era você. Na Sala Vermelha, pra mim, seu nome era Soldado Invernal, depois te dei o apelido de Yasha e anos mais tarde descobri que seu verdadeiro nome era James — explicou e ele concordou com a cabeça.
— Pode não contar a ele onde estou ainda?
— Não vou contar, e também não vou deixar que fique em qualquer lugar — ela se levantou e andou até um armário na sala de estar. — Tenho uma casa segura em Nova Jersey, pode ficar lá o tempo que precisar.
Natasha começou a procurar pelas chaves nas gavetas.
— Já estava com saudades de falar em russo assim com alguém — a ruiva deu um meio sorriso, mudando de assunto para deixar o clima menos pesado.
— Me lembro que você sempre amou o inglês desde que comecei a ensiná-la — ele respondeu com um sorriso triste.
— É legal nos primeiros dez anos, depois da vontade de socar cada americano que vem falar com você.
— Pois é. Esses americanos são muito irritantes — ele falou a última parte em inglês e com um sotaque russo muito forçado, fazendo-a dar uma risada.
— Nem todos, mas a maioria é sim — ela voltou a se aproximar dele. — Aqui estão as chaves e o endereço. Pode levar essa mochila com armas, um computador e um celular para mantermos contato. Só não mata qualquer um que te irritar nesse meio tempo.
Bucky sorriu e se levantou, colocando as chaves no bolso e segurando a mochila com seu braço de metal.
— Obrigado, Natalia.
Eles ficaram se encarando por um longo tempo até ela perceber o que ele queria fazer. O soldado não devia ter dado um abraço em alguém durante anos, pois não fazia ideia de como se aproximar dela e e simplesmente fazer isso. Natasha sorriu de canto e deu um passo a frente, envolvendo seus braços ao redor do tronco dele e lhe dando um abraço.
Bucky ficou parado por um segundo, mas logo passou seu braço normal ao redor dela e a abraçou de volta. Ele havia seguido seu instinto ao ir até Natasha, pois suas memórias mais normais eram com ela, e não se arrependera. Ela era a única em quem ele realmente confiava e considerava uma amiga.
A ruiva definitivamente não esperava estar abraçada com o homem que tentou matá-la há um ano, mas ali estava ela. Steve estava mesmo amolecendo seu coração, e ela não sabia se isso era algo bom ou ruim. No passado, ela e James haviam ficado anos juntos, ele tornava a Sala Vermelha mais suportável e fora o primeiro amor dela. Naquele momento, no entanto, a Romanoff percebia que o que sentia por Steve era muito maior do que seus sentimentos por Yasha no passado.
Ela amava tanto o loiro que sentia vontade de correr até ele naquele momento e contar sobre Bucky, porém não podia. Não era seu segredo para contar.
O som da campainha tocando fez os dois se afastarem rapidamente. Bucky sacou sua pistola e Natasha teria feito o mesmo, chegou até a levar sua mão à cintura, mas baixou a guarda e foi olhar no olho mágico para saber quem era. Ao ver Steve parado do lado de fora, a ruiva se virou rapidamente para o moreno não muito longe de si.
— Você precisa ir embora — ela sussurrou, quase gritando.
— É ele? — sussurrou de volta.
— Sim! Sai pela janela.
— Você mora no oitavo andar.
— Sai do jeito que entrou!
— Entrei pela porta.
— Se vira, Barnes! Se esconde, pula pela janela, não sei. Vou tirar ele daqui — Natasha destrancou a porta e o viu andar até a janela mais próxima para depois sair por ela.
Quando teve certeza de que Bucky não estava mais lá, a espiã abriu a porta.
— Foi mal, não quis interromper nada — o loiro andou para dentro do apartamento quando ela lhe deu passagem.
— Não interrompeu.
— Ouvi você conversando com alguém — ele olhou em volta, surpreso por não haver ninguém com a ruiva. — Em russo.
— Está ouvindo coisas, Rogers. Não me diga que também vê gente morta? — ela deu uma risada e ele fez o mesmo.
Os olhos dele então caíram sobre a mesa de jantar, onde viu duas xícaras vazias. Ela seguiu o olhar dele e logo inventou uma desculpa.
— É do meu gato, ele adora café.
— Você tem um gato? — o soldado franziu o cenho e ela deu de ombros.
— Ele aparece aqui de vez em quando. Não é meu, mas eu dou comida e café — isso não era mentira, havia mesmo um gato no prédio que adorava arranhar a porta dela quando queria um pouco de comida ou atenção.
— Você é bem estranha — Steve comentou, arqueando uma sobrancelha.
— Mas você adora — Natasha envolveu os braços ao redor do pescoço dele e deixou suas testas se tocando.
— Adorar é pouco, — ele pôs as mãos na cintura dela e acariciou os lábios da ruiva com os seus. — Eu amo.
Ela sentiu o ar lhe faltar mesmo antes do beijo. Só ele para fazer isso com ela, nenhum cara jamais a deixara sem palavras ou sem fôlego antes, Steve era o único.
O beijo deles durou muito tempo, não queriam se afastar um do outro muito cedo e sentiam-se completos quando estavam juntos. Steve, porém, não parava de pensar que Bucky havia sumido e precisava encontrá-lo. O loiro encerrou o beijo, ainda com as mãos na cintura dela e mantendo-a perto.
— Preciso da sua ajuda — ele falou, envolvendo os braços ao redor dela em um abraço quando a ruiva deitou a cabeça em seu ombro. — Sei que Bucky está em Nova York, mas não sei em que parte da cidade ele pode estar.
— Quer que eu hackeei as câmeras de trânsito e de lojas para ver se o encontro? — ela completou, vendo-o assentir. — Posso fazer isso, mas não seria mais rápido pedir ao Stark?
— Eu acho melhor não envolvermos o Tony ou a SHIELD nesse caso. Quanto menos gente souber sobre ele, melhor.
— Ok, vou tentar ser tão eficiente quanto eles — ela sorriu e deu um selinho no loiro, andando até o sofá e jogando uma bolsa com seus equipamentos em cima dele. — Vamos voltar para a Torre.
Eles deixaram o apartamento e voltaram de moto para a base. Natasha esperando que Bucky decidisse falar com Steve o mais rápido possível, pois não iria conseguir enrolar o herói para sempre. Uma hora as câmeras o encontrariam e ela não poderia evitar o encontro deles.
§
Na manhã seguinte, os Vingadores já estavam a caminho de Wakanda quando captaram um sinal de rádio da polícia local, mandando todas as unidades para impedir um lunático mascarado com ossos cruzados desenhados no peito.
— Encontrar ele foi fácil, agora só precisamos pará-lo antes que machuque alguém — Gavião Arqueiro terminou de guardar suas flechas.
— Tem muitos civis por perto, vamos ter cuidado e afastá-lo o máximo que conseguirmos — o Capitão olhou para Stark, Viúva Negra, Feiticeira Escarlate e Falcon. — Vocês cuidam dos capangas e de manterem a população segura, eu dou conta do Ossos Cruzados.
— Ficou com toda a diversão, Capitão — Tony fechou o visor da armadura ao sentir o Javelin pousar. — Mas você é o chefe, então se algo der errado, a culpa é toda sua.
O moreno deu uma risada ao ver Steve ficar levemente tenso e abriu as portas da aeronave, deixando a mesma com os outros. Natasha ficou ali junto com o loiro, percebendo que as palavras de Tony, ainda que fossem só para irritá-lo, o deixaram encucado.
— Nada vai dar errado — a ruiva pôs uma mão no ombro dele. — Já passamos por desafios piores.
— Eu sei, — Steve suspirou. — Só estou com um pressentimento ruim.
— Ignora e se prepara para lutar, porque o Rumlow briga bem — ela o beijou na bochecha e saiu do Quinjet.
Ele tentaria seguir o conselho dela, porém não conseguia deixar de pensar que algo daria errado naquela missão.
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