Summer Paradise: A Nova Geração

14 Ela matou com o olhar


Notas iniciais
Okay. Estou com medo de apresentar esse novo capítulo a vocês. Em primeiro lugar, eu nem deveria estar atualizando, já que tenho milhares de provas, mas meu amor por vocês e essa fic falou mais alto do que física e história - gente isso soou muito poético, não é? Anyway, espero que gostem desse capítulo, ele ficou limitado a poucos personagens, mas eu diria que é um capítulo bem revelador.

–Key – Mike cumprimentou o amigo e jogou-se contra sua cama. – Está tão quente lá fora. O que está fazendo aqui enterrado nesses livros?

Key ajeitou seus óculos.

–Revendo uns cálculos relacionados à cinética dos planetas – ele disse, virando a fina página de seu tão grosso livro.

Mike revirou os olhos.

–Existem coisas melhores para fazer em uma noite de férias na praia, sabia? – Mike sorriu. – Vai ter uma balada daqui a pouco, topa ir comigo?

Dizer que Key estava desinteressado nas palavras do amigo era o fato mais óbvio que o mundo já conhecera.

–Aquela morena da Fairy Tail pode estar lá – Mike continuou.

Key desviou o olhar do livro.


**


–Então, basicamente, — Leonardo disse sorrindo -, seus amigos estão planejando um roubo épico e as vítimas são nada mais e nada menos que cinco Dragon Slayers e Dana Scarlet?

–E a Katharina – Misaki acrescentou. – A filha do mestre.

Leonardo pareceu ignorar mais do que deveria essa última parte.

–Eles vão morrer – Ele disse e Misaki não pôde deixar de se perguntar se ele estava brincando ou não.

A maga respirou fundo e olhou o horizonte, que graças ao tempo que ela passara conversando com Leonardo, era quase irreconhecível na escuridão da noite. Luzes brancas e fortes iluminavam a calçada, mas fora isso não havia qualquer outra fonte luminosa.

–Posso confessar outra coisa? – Misaki perguntou.

Leonardo assentiu. Era bom se distanciar de seus próprios problemas, por mais que eles não deixassem de martelar dolorosamente contra sua cabeça.

–Eu não estou me sentindo mal por eles estarem roubando – ela admitiu. – Estou me sentindo mal pela maneira como eles me trataram. Era como se –

–Como se você fosse um encosto – ele completou.

Misaki arregalou os olhos.

–Eu nunca iria dizer isso.

–Mas é a verdade – Leonardo deu de ombros.

Não havia uma resposta pronta na mente de Misaki para contrariá-lo.

–Sou uma pessoa má por isso? – Ela perguntou com a voz fraca.

Leonardo ergueu uma sobrancelha.

–Não – ele disse. – É claro que não.

Por alguma razão, Misaki não concordava com ele. Como ela podia se sentir tão irritada com seus melhores amigos?

–Escuta, – Leonardo disse vagarosamente. – É normal ser deixado de lado às vezes.

A maga do gelo piscou. Ela realmente não gostou do que vivenciou mais cedo. Nem um pouco.

–É errado eu não querer ficar de lado nunca? – Misaki perguntou, sentindo-se realmente infantil. – Quero dizer, isso não me faz muito egoísta?

Estranhamente, o Dragon Slayer não a respondeu prontamente como de costume.

–Egoísta significa amar demais – ele disse sério, mais para ele mesmo do que para Misaki.

As palavras dele deixaram-na confusa.

–O quê? – Misaki perguntou.

Leonardo sorriu, sua expressão deixando claro que a mente dele estava em outro lugar.

–Uma pessoa egoísta só quer ficar no centro – ele disse lentamente e abriu um pequeno sorriso. – Ou melhor, faz de tudo para ficar no centro. Pratica atitudes tolas e até mesmo infantis, mas não porque é maldosa, mas porque deseja tanto ser o centro da atenção do outro que perde a noção. Talvez o pecado da pessoa egoísta e egocêntrica seja amar demais.

–Não entendi nada – Misaki riu.

Leonardo sorriu e se levantou do banco.

–Obrigado, Misaki – ele disse.

–Onde você vai? – A maga perguntou com um pingo de desespero que nem ela e nem Leonardo pareceram notar.

O Dragon Slayer deixou escapar um riso.

–Vou procurar a pessoa mais egocêntrica do mundo e implorar pelo perdão dela – ele disse inspirado.

Pelo menos um de seus problemas se resolveria. A raiva que posteriormente se transformou em culpa que a discussão com Katharina Dreyar proporcionou o corroía de forma dolorosa. Mesmo que os padrões do bom senso não considerassem isso um problema fatal, Leonardo sabia que Katharina considerava. Talvez ele também.

Mal ele sabia que a egocêntrica Katharina já estava longe para ser encontrada.


**


–Um suco de limão e uma... – Katharina deixou sua voz morrer enquanto ela olhava incerta para Yoga.

–Água – Yoga disse, sua voz um pouco áspera.

A garçonete que aparentava ter não mais que vinte anos assentiu e deixou-as sozinhas.

–Eu sinto muito mesmo – Katharina disse.

Ela realmente sentia.

Nunca passou pela mente da maga do gelo que um dia ela veria a intocável Yoga Ambrose chorando – muito menos por uma discussão que Katharina poderia até mesmo classificar como irrelevante.

O sedoso cabelo de Yoga caiu sobre o olho esquerdo dela, escondendo a olheira que não parecia natural ao rosto da maga. Katharina não sabia exatamente o que, mas algo que ela disse fez com que as muralhas que escondiam Yoga do resto do mundo fossem demolidas. Pelo menos temporariamente.

–Tudo o que eu disse foi só da boca para fora, sabe? – Katharina fez questão de dizer.

Só porque as pessoas acreditavam que ela fosse uma verdadeira rainha do gelo sem emoções, não queria dizer que ela realmente era uma. Rainha, sim. Sem emoções, definitivamente não.

–Você não é patética – ela continuou. – Se foi isso que te ofendeu, saiba que, com toda certeza, você está longe de ser patética. Eu só disse isso, porque –

–Pelo amor de Deus, — Yoga grunhiu – cale a boca.

Bom, aparentemente a Yoga de sempre já estava voltando a recuperar o controle.

Katharina desviou os olhos e assistiu à garçonete voltar com as bebidas. Ela não pôde deixar de apreciar sua bebida gelada favorita repousar na mesa.

–Você pode trazer dois hambúrgueres também? – Yoga pediu com uma educação que poucos a viam usufruir.

Instantaneamente, Katharina ergueu os olhos.

–Eu não como hambúrguer.

Yoga pareceu não se importar.

–Hoje você vai comer.


**


–Só cinco minutos? – Guga disse surpreso afundado em um travesseiro, enquanto Dana saía do banheiro. – Eu me lembro de que você demorava umas boas horas para se arrumar.

Dana revirou os olhos.

–Isso era quando eu era burra o suficiente para acreditar que você merecia me ver arrumada – ela disse irritada. – Agora, dá para sair da minha cama?

–Ouch – Guga disse se levantando, mas seu tom deixava claro que as palavras dela não o atingiram. – Tudo bem, você está ótima assim. Esse vestido quase mostra a sua bunda.

Dana arfou.

–Como você se atreve a –

–Ei, galerinha – Tris interrompeu. – Nós não temos reserva ou algo assim?

Victor corou.

–Na verdade, não – ele admitiu. – Quero dizer, nós tínhamos, mas –

–Mas eu fiz Victor cancelar – Guga completou. – Tenho planos melhores.

Dana ergueu uma sobrancelha.

–Senhoras e senhores... – Guga anunciou. – Nós vamos à balada mais pop do ano!

Parecia que Tris iria vomitar, e a expressão de Victor não se mostrava muito diferente da dela.

–Ei, — Guga continuou – Vitinho, vai indo com a sua garota na frente. Eu tenho que falar com Dana primeiro.

–Não sou a garota dele! – Tris exclamou, mas não hesitou em seguir o acompanhante para fora do quarto.

Dana semicerrou os olhos.

–Eu não tenho nada para falar com você – ela praticamente rosnou.

Ele sorriu.

–Olhe o que tem em baixo do seu travesseiro, Dana.

Olhando-o desconfiada, a maga cruzou os braços.

–Você colocou algo em baixo do meu travesseiro? – Ela perguntou pasma.

–Um presente – o Dragon Slayer assentiu.

–Virou fada do dente, é?

Guga revirou os olhos, mas ficou feliz em ver que Dana não demorou a abrir o pacote que ele especialmente colocara na cama dela.

–Se a embalagem estiver mal feita a culpa é do loiro burrão do meu time – ele fez questão de dizer.

Por mais que Dana Scarlet fizesse de tudo para odiá-lo, ela não podia deixar de ficar animada com um presente.

Bem, isso até ela ver o presente.

–Uma calcinha vermelha com buraco – ela revirou os olhos. – Que original.

Ele riu.

–Imaginei que você fosse gostar – Guga disse piscando.


**


–Eles estão saindo – Linnea cochichou para as garotas. – Hana, cronometre um minuto. Depois, entraremos no quarto das garotas.

Hana estava tremendo. Muito.

–Ma... Mas e se eles.... esqueceram algo? – A Dragon Slayer do Fogo tentou dizer.

–Improvável – Linnea respondeu.

–Mas –

–Nada vai dar errado – Juliiana disse tentando tranquilizar a amiga.

Por algum motivo, Hana não acreditava na amiga.

Sessenta segundos depois de ver Guga e Dana passando pela porta, as três agilmente correram. Hana desejou estar com um coque como o de Juliiana, uma vez que ela jurava que seu longo cabelo rosa estava fazendo mais barulho do que deveria. Linnea, por outro lado, aparentava estar caminhando graciosamente pela praia.

–Francamente, — Hana murmurou para a amiga – você e Nathan me assustam.

Se Linnea não fosse Linnea, ela poderia ter sorrido com o elogio.



**



Yoga observava a garota a sua frente encarar o apetitoso hambúrguer intocado.

–Você não comeu nada o dia inteiro – a maga analisou. – Deve estar morrendo de fome.

Relutante, Katharina forçou um sorriso.

–Na verdade, não – ela murmurou.

Três jovens animados demais passaram por elas e Yoga não pôde deixar de sentir inveja. Eles pareciam tão... felizes.

–Então, o que é? – Yoga perguntou, atraindo a atenção de Katharina.

A maga do gelo pareceu confusa.

–O quê?

Yoga suspirou.

–Anorexia ou bulimia? – Ela perguntou sem hesitar e nem ponderar por um instante.

Katharina arfou, se perguntando se os olhos de Yoga sempre tiveram esse tom vermelho medonho e indagador que ela estava encarando agora.

Olhando para os lados como se estivesse sendo observada, Katharina forçou-se a tomar três engoles de seu suco.

–Bulimia – ela disse baixo, encarando a tonalidade verde clara de seu copo. – E anorexia. Já faz muito tempo, eu nem faço mais isso.

Yoga desviou o olhar.

–Não estou te julgando.

Friamente, Katharina olhou-a, pronta para responder com um de seus típicos comentários amargos. No entanto, Yoga parecia ser a primeira pessoa a não estar a julgando de verdade.

–Por que está na Fairy Tail? – Katharina perguntou claramente tentando mudar de assunto. – Você não parece se encaixar lá.

Lentamente, Yoga olhou-a nos olhos.

–Eu nunca vou me encaixar em nenhum lugar – ela disse calmamente. – É a minha maldição.

Balançando a cabeça em sinal negativo, Katharina mordeu o lábio inferior.

–Não foi isso o que quis dizer – ela disse. – Quero dizer que você nem tenta se encaixar. Não tenta participar de nada, fazer nada.

Yoga soltou um pequeno riso sem humor algum.

–Você mesma disse que sou uma aberração. Por que deveria tentar?

Inconscientemente, Katharina inclinou a cabeça.

–Foi isso o que te chateou?

Olhando a comida em seu prato, Yoga teve lembranças que ela faria de tudo para esquecer.

–Você não tem ideia do que é ser uma aberração – ela murmurou, sua aparência consideravelmente frágil novamente.

–E você tem? – Katharina perguntou.



**


–Hana, — Linnea disse tranquila, mas séria. – Dá para parar de tremer?

–De... Desculpe – a Dragon Slayer tentou dizer.

Juliiana revirou os olhos. Mesmo sob o efeito do hormônio adrenalina, ela também se sentia como se algo fosse dar errado. Por isso, tudo que queria era terminar o mais rápido possível.

–O que fazemos agora? – Juliiana perguntou à Linnea.

–Hana, vá ficar de guarda lá fora – ela disse lentamente. – Se alguém aparecer, faça alguma coisa a respeito.

–Tipo o quê? – Hana perguntou.

Linnea deu de ombros.

–Você vai saber o que fazer na hora.

Hana tremeu de novo, mas não contestou.

–Juliiana, — Linnea continuou, sua voz, normalmente o típico retrato da indiferença, parecia mais viva do que nunca. – Os armários da direita. Só pegue dinheiro líquido, entendeu?

–Ok – Juliiana assentiu. – Então, você já é experiente nesse tipo de coisa?

Sem hesitar, Linnea abriu um dos armários e começou a procurar por uma carteira ou algo assim.

–Talvez – ela deu de ombros.

Juliiana assentiu novamente, tentando processar essa nova informação. Apesar de ela não se demonstrar tão indignada quanto Hana, ela também não podia deixar de se sentir mal por isso tudo.

–Onde você esteve nos últimos dias? – Ela continuou. – Eu quase não te vi desde o dia que chegamos.

Uma tosse repentina atacou Linnea, enquanto ela pensava em uma desculpa.

–Huh, eu... – Linnea engasgou.

Ela poderia dizer tudo, menos que estivera com o tagarela Ricardo Strauss.

–Oh, meu Deus – Juliiana a interrompeu. – Linnea temos um problema.


**


–É normal a música ficar tão alta? – Tris gritou assim que entrou na tal balada.

A expressão de Victor se assimilava mais do que deveria com a de um peixe fora d’água.

–Eu li em um livro que sim – ele gritou de volta.

Um casal que definitivamente bebeu demais e se empolgou beijos passou por eles e esbarrou fortemente em Tris, sem nem mesmo quebrar o amasso. A loira, por sua vez, foi jogada de frente contra Victor, que automaticamente a capturou em seus braços.

–Own, — Dana suspirou atrás deles – vocês já estão assim?

Tris corou.

–Não é nada disso – ela disse, fazendo Victor desviar o olhar.

–Trouxe as bebidas! – Guga anunciou com quatro shots nas mãos.

–O que tem aí? – Tris perguntou, olhando a suspeita cor do líquido do copo.

Guga deu de ombros.

–Vodka e alguma coisa – ele disse. – Quem se importa?

Bem, Tris se importava.

–Eu não bebo – Victor recusou o copo que o irmão tentava passar para ele.

–Bom – Dana disse, sua voz dura. – Se eu vou ter que aguentar uma noite inteira com vocês, preciso de dose dupla.

Guga ergueu as sobrancelhas.

–Não é muito álcool para você?

Como espectadores, Tris e Victor não sabiam se Guga estava expressando uma preocupação genuína pela famosa Dana Scarlet ou se estava tirando uma com a cara dela. Por alguma razão desconhecida, a segunda opção parecia mais apropriada.

Revirando os olhos, Dana se apoderou dos quatro copos da mão dele e tomou-os seguidamente.

–Por favor, eu bebo muito mais do que você, Guga – Ela disse, sentindo a garganta queimar. – Sempre bebi.

Ele sorriu.

–Topa uma competição, então? – O Dragon Slayer perguntou.

Lambendo os lábios, Dana riu.

–Fofo, sempre ganho todas as competições – ela disse alto e agarrou a mão de Guga, arrastando-o para o bar.

Victor arregalou os olhos. Guga não viera especialmente para ajuda-lo com Tris? Por que infernos ele o deixara sozinho em um lugar repleto de pessoas suadas dançando?


**


–Quando fiz quatro ou cinco anos, — Yoga disse vagarosamente, incerta sobre como prosseguir. – Ganhei um passarinho.

Katharina cruzou os braços, perguntando-se onde ela chegaria com essa história.

–Ele era azul – ela disse olhando para as próprias mãos. – Azul e preto. Lindo. Sabe o que eu fiz?

Yoga esperou Katharina negar para continuar.

–Eu o matei – ela disse calma, com uma frieza sobre-humana. – Não intencionalmente, é claro. Eu simplesmente olhei para ele, e o bicho morreu.

A maga do gelo se remexeu desconfortável em sua cadeira.

–Como assim? – Katharina perguntou. – Ele simplesmente morreu?

Olhando-a diretamente, Yoga assentiu.

–Foi – ela disse. – Mas antes ele gemeu muito. Foi a primeira vez em que ouvi o som da agonia.

Yoga pausou. Ela não se sentia confortável em falar sobre isso, mas as palavras simplesmente saíam por si só.

–Minha mãe também o viu morrer – ela continuou. – Ou melhor, ela me viu mata-lo. Desde então, nunca mais me olhou da mesma forma.

–Por que você diz que o matou? – Katharina interrompeu-a. – O passarinho pode ter tido um simples ataque do coração ou qualquer outra coisa.

Um sorriso cruel apoderou-se do rosto de Yoga.

–Eu sei que eu o matei – ela disse calma. – Pude sentir. Pude ver a vida deixando-o. Você não sabe como é. Ninguém sabe.

Suspirando, ela olhou o horizonte.

–Alguns meses depois, uma pomba entrou na minha casa – Yoga disse, voltando a olhar para as mãos. – Eu já estava irritada, os amigos do meu pai estavam lá e minha mãe continuamente brigava comigo. Quando o bicho entrou, eu –

–Você o matou também? – Katharina tentou adivinhar.

–Não – Yoga negou. – Daquela vez foi diferente. Eu simplesmente olhei o animal, aqueles olhos redondos e asquerosos, e ele caiu de lado. Começou a se contorcer e gemer alto, um som agudo e repulsivo. Tudo o que fiz foi olhar para ele.

–O que aconteceu? – Katharina perguntou.

Yoga olhou para ela, seus olhos frios como pedra.

–Meu pai me bateu – ela disse. – E a pomba voou para longe. Todos no cômodo me olharam da mesma forma como minha mãe me olhou da primeira vez. Como se eu fosse uma aberração.

–Que horror – Katharina murmurou em solidariedade.

Rindo, Yoga fez um gesto com a mão.

–Fica pior – ela disse. – Um vizinho que era uns dez anos mais velho do que eu tentou... – Yoga parou para pensar. – Não sei o que ele tentou fazer, na época eu não entendia nada. Só sei que ele chegou muito perto e me machucou. Novamente, tudo que fiz foi olhar para ele e – ela respirou fundo, sua garganta de repente seca. – e ele gemeu e se contorceu como a pomba. Todos na rua viram. Alguns jogaram coisas em mim, dizendo que eu era o demônio. Meus pais, inclusive.

Katharina queria dizer algo enquanto ela tomava um gole de água, mas achou melhor ficar quieta.

–Eles me levaram para uma instituição depois disso – Yoga continuou. – Para “crianças especiais”. Era um lugar deplorável, com todo tipo de gente. Eu conseguia ser pior do que todos. Você tem alguma ideia do que é ser rotulada de aberração em meio às aberrações? Ser a aberração-mor?

Piscando algumas vezes, Katharina negou.

–Pois é – Yoga continuou. – Eu fui. Aquele lugar era um inferno. Me drogavam. Me batiam. Me reprimiam.

Yoga parou para analisar a última batata frita em seu prato. Solitária e sem vida como ela.

–Você me perguntou mais cedo porque eu entrei para a Fairy Tail – ela disse. – Anos depois, quando uma das garotas da instituição me bateu tanto que eu mal conseguia abrir o olho, fiquei jogada em um canto qualquer da sala de brinquedos. Um garoto mais velho veio falar comigo; ele foi a primeira e talvez a única pessoa que falou comigo como uma pessoa normal em todos os anos em que fiquei trancada naquele lugar. Sabe o que ele me disse? Ele me disse que não havia nada de errado em ser eu mesma, me disse para seguir meu coração e ignorar a opinião dos outros. Disse que a vida era bela e um dia eu teria a oportunidade de vivencia-la apropriadamente.

Yoga respirou fundo.

–Na época, nem me importei com o fato de o rosto dele conseguir ser mais coberto de hematomas do que o meu – ela disse. – Eu acreditei nas palavras dele e é por isso que estou na Fairy Tail.

–Por que você quer vivenciar a vida apropriadamente? – Katharina perguntou.

Rindo, Yoga negou.

–Não – ela disse lentamente. – Porque meu herói é o Bixlow.


**


–Eu não acredito que você me arrastou para uma balada – Kano gemeu, segurando Jennifer pelo braço.

Jennifer sorriu e estufou o peito.

–Não é simplesmente uma balada – ela disse calmamente. – É a balada. Entendeu a diferença?

Kano gemeu.

–E se nós arrumássemos um gatinho para você? – Jennifer perguntou.

–Por favor, Jennifer – Kano disse. – Me deixe fora desses seus planos.

Aparentemente, Jennifer não a escutara.

–O que acha do loirinho alí? – Ela perguntou para a amiga.

–Não, obrigada – Kano respondeu.

–Que ótimo – Jennifer disse aliviada. – Você viu o jeito que ele olhou para mim? Ele definitivamente está caidinho pela minha pessoa.

Kano revirou os olhos.

–Oh, deuses! – Jennifer exclamou repentinamente. – Está vendo aquele garoto? Ele é tipo o carinha mais gostoso da cidade toda.

–Que garoto? – Kano perguntou.

Jennifer bufou.

–O carinha de cabelo platinado.

Lentamente, Kano olhou o tal garoto dançando com um amigo e balançou a cabeça.

–Não quero ficar com ele – ela disse tentando colocar algum juízo na cabeça da amiga.

–Tolinha – Jennifer disse. – Ele é para mim.

Sem hesitar ou pensar duas vezes, Jennifer Hathaway caminhou decididamente até onde o tal garoto dos cabelos platinados estava e, como sempre fazia com todos os seus peguetes, atacou-o rapidamente.

Contra sua vontade, Kano pôde ver a passional troca de línguas que houve no momento em que Jennifer tocou seus lábios nos lábios do garoto, que também não pareceu nada relutante em beijá-la de volta.

O amigo do garoto que Jennifer atacou parecia temporariamente perdido e deslocado. Por isso, Kano resolveu se juntar a ele.

–Desculpe – Kano gritou, tentando fazer-se ouvir mesmo com a música alta. – Eu sou a Kano e aquela é minha amiga Jennifer.

O garoto sorriu.

–Key – ele gritou de volta. – E aquele com sua amiga é o Mike.


**


–Já vai desistir? – Dana perguntou enquanto Guga colocava seu copo sob o balcão do bar, sua voz mais arrastada do que o normal.

Ele riu mais alto do que de costume.

–Vai sonhando – Guga disse.

Dana deu de ombros e bebeu o resto do conteúdo de seu copo.

–Ainda acho que eu ganhei – a ruiva disse, virando seu rosto na direção dele.

O mago ergueu uma sobrancelha e passou seu dedo indicador pelas bordas do copo.

–Você sempre ganha, Dana – Guga disse baixo. – Lembra do nosso primeiro encontro?

Rindo uma risada provocada pela bebida, Dana sorriu e inclinou sua cabeça na direção de Guga, que estava ao seu lado.

–Como eu poderia me esquecer? – Ela disse ainda rindo. – Eu arrasei com você no banco imobiliário.

Guga grunhiu.

–Você roubou – ele resmungou.

Um soco de Dana foi a resposta que ele obteve. Entretanto, Guga não teve reação.

–Ei, está tudo bem? – A maga perguntou, sua voz mais preocupada do que de costume.

Ele olhou pelo canto do olho para ela.

–Só estava pensando – ele respondeu.

Apoiando seu cotovelo no balcão, Dana olhou-o mais intensamente.

–No que?

–Em nós dois – ele disse sinceramente. – Faz muito tempo desde que terminamos.

–E a culpa é de quem? – Dana fez questão de lembrá-lo.

Guga bufou.

O silêncio tomou conta deles e os pensamentos de Dana pareciam martelar com mais força do que deveriam contra a cabeça dela. Talvez fosse a bebida.

–Eu também penso em nós dois – a frase escapou da boca dela.

Guga olhou-a nos olhos.

–Muito?

–Mais do que eu gostaria – ela admitiu.

Dana mordeu os lábios enquanto assistia ao Guga se aproximar. O rosto dele estava tão perto que ela podia sentir a suave respiração dele contra a sua própria.

A mente dela dava voltas e Dana se pegou querendo tocá-lo mais do que nunca.

–Com licença – a voz de uma mulher interrompeu-os. – Guga?

Guga se afastou e ergueu os olhos, deixando Dana sem a menor ideia sobre o que fazer.

–Oh, é mesmo você, Guga! – A garota repetiu. Ela era alta, deveria ter um metro e oitenta na certa. Parecia uma modelo de catálogos de lingerie, o que definitivamente não a fez ganhar pontos com Dana. – Lembra de mim?

–Huh – Guga pareceu confuso.

–Katia! – A garota disse. – Da festa de primavera do ano passado.

–Ah, sim – Guga abriu um sorriso. – É claro que lembro.

A garota também sorriu.

–Bem, eu estou hospedada no hotel – ela disse. – Se quiser relembrar os velhos tempos, passa no quarto quatrocentos e cinco.

Antes de se afastar, Katia piscou.

Dana abriu a boca incrédula.

–Inacreditável! – Dana Scarlet exclamou. – Você é tão previsível!

Arregalando os olhos, Guga pareceu inocente.

–Do que está falando? – Ele perguntou.

–Ah, por favor! – Dana disse irritada. – Nem sei porque estou surpresa! Era tão óbvio que uma garota que você comeu iria aparecer. Elas sempre aparecem.

Guga pareceu ofendido.

–Eu? – Ele disse. – Eu não comi ninguém. Kelly e eu somos apenas bons amigos. Você que é uma intolerante. Kelly é minha melhor amiga e eu nunca comeria ela.

–O nome dela é Katia – Dana disse, quebrando toda farsa dele.

Erguendo as mãos para o alto, Guga suspirou.

–Ok, eu comi ela – ele admitiu. – Mas, não foi nada importante.

–Esse é seu problema – Dana disse fechando os olhos. – Nunca é importante.

Ele colocou a mão sobre a dela.

–Não é verdade, Dana – Guga disse sério. – Com você é importante. Você foi minha primeira, e, se depender de mim, será minha última.

Dana levantou os olhos para olhar para ele e sua respiração pareceu falhar. Ela não fez nada para impedir que seus lábios se encontrassem com os dele e também não o empurrou quando ele a envolveu pela cintura.

Guga estava quente. A maga nunca conseguia entender como ele sempre podia parecer mais quente do que ela. No entanto, Dana apreciou isso. Era familiar e... embriagante.

Qualquer traço de doçura e suavidade logo abandonou o beijo deles. Era como se um desespero tomasse conta dos dois, como se tanto tempo separados fizesse com que eles agissem como dois animais.

Para Guga, possuir Dana naquela noite era mais do que um desejo, era uma necessidade. Não só para seu ego, mas também para sua alma. Ele já não conseguia respirar, mas não importava. Guga precisava de Dana mais do que de ar.

Dana passou seu braço pelo pescoço dele, trazendo-o para perto. Arrepios percorreram a espinha dela e tudo que ela sabia era que precisava dele. O corpo dela queimava e a ideia de se afastar era horripilante.

A maga levantou-se de seu banco e sentou-se no colo dele com as pernas abertas. Dana mal podia acreditar que senti-lo duro contra si já não era mais uma lembrança, mas sim a realidade. Ela precisava dele.

Guga não teria nenhum problema em tê-la neste exato momento, afinal cada segundo de espera era doloroso. Ele faria com ela no bar sem qualquer traço de vergonha. Entretanto, ele sabia que Dana não se sentiria confortável com a ideia.

–Temos que ir para algum lugar – ele tentou dizer entre beijos.

Dana gemeu e desceu seus lábios ao pescoço dele.

–Meu quarto? – Ele perguntou.

–Longe demais.

Ele precisava pensar. Onde eles poderiam ir para –

–O banheiro é aqui perto – Dana sussurrou contra a pele dele.

Guga ergueu uma sobrancelha. Talvez Dana Scarlet não fosse tão exigente em relação ao lugar quanto ele pensava.


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Aparentemente, mesmo sendo perto, o banheiro era longe demais. Eles mal conseguiam dar três passos sem se esfregarem um contra o outro.

Um corredor visivelmente vazio foi a solução que eles encontraram. Guga pressionou o corpo de Dana contra a parede, beijando-a loucamente. Os dois sabiam que eles não tinham muito tempo, por isso não haveria preliminares dessa vez. Dessa vez.

A mão de Guga arrancou a calcinha rendada que ela usava sem piedade.

–Legal – ele disse. – Mas da próxima vez você pode usar a que eu te dei.

Dana revirou os olhos.

–Você sonha muito não acha?

Depois de trabalhar com o zíper da calça dele, Dana não hesitou em passar suas pernas pela rígida cintura dele, como já fizera dezenas de vezes no passado.

Agora, ela seria dele.

Gentileza nunca seria uma qualidade de Guga, e Dana apreciava isso nele. Ele era infinitamente árduo e até mesmo brusco. O mago entrava nela diversas vezes, tão rápido quanto ela lembrava.

Dana Scarlet não era o tipo de garota manhosa, mas ela definitivamente não era si mesma com Guga. Ela gemia e grunhia mais do que algum dia sua vaidade permitisse que ela admitisse.

Ele levantou-a um pouco, sem diminuir o ritmo. Ocasionalmente Guga diminuía a velocidade para ir mais fundo e era nesses instantes que Dana gemia mais.

–Porra, você é fantástica, Dana – ele sussurrou contra a orelha dela, recebendo uma cravada de unhas em troca.


**


–Eu me pergunto se Guga e Dana estão bem – Victor disse enquanto ele e Tris saíam daquele ambiente quente e fedorento.

–Tenho certeza que eles estão bem – Tris afirmou. – Devem estar brigando em algum lugar.

Victor assentiu, incerto sobre o que fazer.

–Me desculpe – ele disse lentamente.

Tris olhou para ele.

–Você sabe – ele disse calmo. – Esse é o pior encontro de todos.

–É mesmo – Tris concordou, sentindo o vento frio balançar sua saia. Deus, como ela odiava essa saia.

–Não precisava concordar – Victor disse sem jeito.

Tris prendeu a respiração. Por que ela tinha que ser tão sincera?

–Eu tinha planejado um programa diferente – ele disse vagarosamente. – Jantar no café do hotel e depois ir à biblioteca.

–O quê? – Tris perguntou.

Victor corou.

–Eu sei – ele disse envergonhado. – Guga já me disse o quanto isso é patético.

Abruptamente, Tris parou de caminhar.

–Não é patético! – Ela exclamou. – É perfeito!

–Sério? – Victor perguntou incerto.

Tris bufou.

–As pessoas só lembram de que sou filha do meu pai, esquecem da minha mãe – ela disse irritada. – Sou filha da Levy, é natural que bibliotecas me atraiam!

Victor sorriu e olhou maravilhado para a loira.

–Victor Albertino! – Eles ouviram alguém chamá-lo.

Olhando para o lado, Victor avistou seu arqui-inimigo ao lado de uma garota que ele já vira antes em algum lugar.

–Key – o nome saiu em uma forma de rosnado pela garganta de Victor.

–Prazer, eu sou a Kano! – A garota ao lado de Key cumprimentou.

–Ah, a garota da Blue Pegasus – Tris disse. – Sou Tris.

–Prazer! – Kano disse, estendendo a mão para cumprimentar Tris.

No momento em que a loira foi cumprimentar a recém chegada de volta, Victor segurou sua mão.

–Não suje suas mãos com os perdedores, Tris – Victor disse sério.

Tris e Kano dividiram um olhar assustado e confuso.

–Pelo o que eu me lembro, foi você quem perdeu ano passado, Albertino – Key respondeu.


**


Katharina gargalhava para o incomodo de Yoga.

–Bixlow? – A morena repetia. – Herói? Só pode ser brincadeira!

Yoga revirou os olhos.

–Você pode, por favor, calar a boca e pagar a conta? – A outra maga respondeu cansada. – Deixei minha mala em algum lugar.

Por um milagre Katharina conseguiu parar de rir, mas seu rosto ficou mais vermelho do que nunca.

–Claro – ela disse. – Onde está minha mala?

Yoga pareceu confusa.

–Você pegou minha mala, certo? – Katharina perguntou. – Yoga?

–Por que infernos eu pegaria sua mala?

Qualquer traço de humor abandonou Katharina.

–Merda – ela murmurou.

Ela estava tão acostumada com que alguém carregasse suas coisas pesadas que ela mal se preocupou com a mala.

–Você tem dinheiro com você? – Yoga perguntou.

O olhar de Katharina entregou a tragédia que elas viviam no momento.

–Merda – Katharina repetiu. – E agora?

Yoga respirou fundo.

–Agora, nós fazemos a única coisa que podemos – a maga disse nervosa. – Corre.

–O quê? – Katharina perguntou confusa.

–Corre!

E foi assim que elas acabaram presas.

Notas finais
Estou morrendo de vergonha, galera. Faz tanto tempo desde que escrevi meu último hentai que mal sei onde enfiar a cara, haha. Espero que tenham gostado desse capítulo e simpatizem um pouquinho mais com a Yoga ;*