Suit of Hearts
4 Confusão
Quando saí da sala, a adrenalina finalmente abaixou.
Com exceção da prisão de gigantes, a “sede do naipe” – de acordo com Sarah – tinha um quê barroco com rococós por todos os lados que me fez pensar a idade que realmente tinha aquela casa. Sentia-me cansado depois da quantidade de escadas que subi, imaginei se nesses três dias que passei desmaiado alguma alma generosa teria me dado algo para comer. Não. Não era uma fraqueza desse tipo. Era algo diferente. O ar ao meu redor tinha um peso maior do que antes. A resistência que ele produzia em mim se comportava de forma completamente diferente da que eu estava acostumado. A sensação de energia percorrendo meu corpo tinha aumentado. Parecia que meu corpo tinha virado um receptor WiFi no meio de uma capital, era informação demais.
— Você vai se acostumar a isso. – Tinha esquecido que Sarah estava do meu lado. – O ambiente em que estávamos lá embaixo realmente era um isolante. Se trouxéssemos você para chegar em equilíbrio em um lugar com tanta energia em tantas frequências diferentes, você provavelmente não teria durado metade do tempo que você levou para abrir a primeira porta.
— Entendi. – Realmente era difícil falar com todo aquele fluxo dentro de mim.
Ao chegarmos na sala vi pessoas conversando entre si. A sala não era um cômodo pequeno, mas também não era imenso como a “prisão” lá embaixo. Era dividida em duas partes, que eu normalmente chamaria de “sala” e “sala de jantar” se a segunda não tivesse um tom tão corporativo. Ela era composta de duas mesas, uma pequena na qual tinham apenas três assentos e uma grande com nove, por fim, de frente para as duas mesas havia uma poltrona que parecia que não era usada há anos. A outra sala só tinha um sofá e uma TV de umas 50 polegadas apoiada em um suporte de parede.
— Falo com vocês depois. – Disse um dos homens para o resto do grupo. Eu conhecia aquela voz. – Você deve ser meu novo Poppy!
O rapaz estava vestido com uma jaqueta de couro preta e uma camisa de alguma banda punk dos anos 80. Seus olhos verdes contrastavam com o tom pálido do rosto que encontrava um degrade para o preto quando perto das pálpebras. Ele parecia estar de maquiagem.
— E você deve ser a pessoa que me apagou em um ônibus no meio de um lapso temporal!
— E é bem-humorado! Mas sabe, não é como se eu tivesse outras opções com a introdução tão bruta que você teve. – Eu não tinha entendido direito o que era introdução ainda, mas preferi não perguntar. – Que falta de educação a minha! Meu nome é Luca, sou valete de copas. Prazer em conhece-lo.
— Valete? Isso tem algo a ver com a Sarah chamar isso de naipe?
— Simples questão de organização hierárquica. Existem algumas organizações que “regulamentam” aquilo que a gente chama de magia. Como são apenas quatro, bom, pelo menos oficialmente falando, decidimos dar a cada uma o nome de um naipe. Dentro de cada naipe existem muitas pessoas, as 12 pessoas que mais se destacam ganham títulos que vão de dois à rei. – Ele ergueu a manga da camisa e mostrou um pequeno “J” desenhado do lado de um símbolo de copas. Seguido dele Sarah tirou o cabelo que cobria a nuca na qual tinha cravada um “3” vermelho com o símbolo de copas ao seu lado. – São essas 12 pessoas, mais o Ás, que se reúnem e decidem as decisões que o naipe vai tomar caso aconteça alguma coisa.
— “Ás” seria então o líder de vocês? O que mais se destaca?
— Sim e não. – Dessa vez foi Sarah quem falou. – Ele é nosso líder, mas a escolha de um Ás não é tão fácil assim. Por mais que não fosse nosso caso, existem muitos naipes com reis mais fortes do que seus ases. O Ás de um de um naipe é escolhido com base na mentalidade e capacidade de liderança, por mais que o ideal seja que ele não seja tão fraco assim, força em termos de magia não é um requisito essencial para que alguém se torne um ás.
— Quer dizer que o Luca é o quarto... alguma coisa mais forte daqui?
— Por mais que não seja uma nomenclatura ideal, pode chamar de mago.
— Pois bem, o quarto “mago” mais forte daqui? – Não sei se deixei transparecer um tom de espanto. Ele realmente não parecia tão intimidador com aquela postura punk-emo dos anos 80.
— O terceiro. Nosso naipe não tem um ás há algum tempo. – Disse Luca com um tom que soou mais melancólico do que imaginei que deveria soar. Será que ele ficou ofendido pelo tom de espanto que eu usei?
Os dois continuaram a explicar-me sobre o resto da casa e as funções de cada sala e porta. Decidi que aprenderia aquilo com a prática. Aparentemente eles me deixariam continuar vivendo minha vida normal com a condição de que eu fosse lá todo o fim de semana continuar treinando. Não estou com vontade de discutir, ou pelo menos foi isso que eu disse. Na realidade, não encontrava forças em mim para discutir. Talvez meu corpo tivesse se acostumado com 72h de sono a cada quatro dias, eu andava por cada quarto como se não dormisse há anos. Mais de uma vez Sarah perguntou se eu estava bem. Ser condescendente sempre foi uma das minhas qualidades favoritas, simplesmente falei que estava e forcei meu melhor sorriso. Ao final do tour, Sarah me levou ao meu suposto quarto.
— Lar doce lar. – Disse ela. Ela parecia estar se divertindo com aquilo tudo. Lembrei de uma certa parte da conversa em que ela tinha dito que o naipe de copas não recebia novatos há tempos. Pensei na possibilidade dela me ver como uma possível renovação de ares para o naipe. Não pude deixar de me sentir um pouco frustrado por saber que não posso atender essas expectativas. Só um pouco.
— Finalmente. Preciso dormir um pouco. – Abri a porta do quarto e entrei.
Não me lembro de detalhes do quarto. Não me lembro nem de fechar a porta. Simplesmente tudo escureceu e eu senti que meu sistema nervoso tentava processar algo que seria possivelmente um impacto. Meu subconsciente tomou vida.
— Não coma tão rápido! Mamãe disse que se eu comesse rápido acabaria vomitando! – Gritou uma garotinha para um rapaz. A garotinha tinha cabelos grandes e loiros que, mesmo em contraste com o tom branco da sua pele e o cinza de seu olhar, não transmitiam tanto brilho.
— Eu estou com fome. – O rapaz de tinha olhos mel e cabelos castanho-claro que seguiam até a nuca. Seu olhar era vívido e feliz. Era somente estranho. – Tenho que ir brincar com os garotos na piscina, mas se eu estiver com fome não posso brincar direito! Vou ficar pensando em comer.
— Você sabe que não pode entrar na piscina depois de comer, não é? – A garota estava determinada a passar um sermão no garoto. – Faz mal para digestão.
— Você fez isso ontem!
— Mas eu sou mais velha! – A cara da menina estava vermelha.
O céu mudou de cor. O quente do verão foi substituído pelo frio de uma noite de inverno. As árvores balançavam em certo descompasso e deixavam um ar triste e melancólico. Sempre gostei de noites de inverno. Mais um diálogo começa a se formar em minha frente. Dessa vez, identifico uma das participantes.
— Você realmente acha que isso é melhor para o naipe?! – O cabelo estava mais curto e o corpo definitivamente não era o mesmo de antes, mas o olhar cinza frio e o tom autoritário não me deixaram duvidar de que essa mulher era a mesma garota que eu havia visto anteriormente. – Você pode acabar com tudo que a gente lutou para organizar. Um trabalho de décadas pode cair por terra em uma tarde.
— Não é como se eu me importasse com o trabalho de meia dúzia de velhos. – A voz era masculina, mas vinha por trás de uma máscara. Não conseguia ver o rosto de quem falava.
Uma dança começou. Sem a necessidade de nenhuma outra palavra, a noite iluminou-se. Era algo de um nível completamente diferente de tudo que eu conhecia por magia. Rajadas de fogo dançavam na direção da garota que simplesmente deslizava no ar desviando cuidadosamente de cada uma. Pilares de gelo começaram a surgir na direção do homem mascarado que se afastava o mais rápido que conseguia. Ele era muito lento.
— Eu nunca achei que você, de todas as pessoas, fosse recorrer a uma batalha contra mim para conseguir algo.
As estalactites finalmente o cercaram. Oito delas se enfileiraram ao redor dele e eu consegui sentir o desespero no seu olhar mesmo através da máscara.
— Infelizmente você só me deixou essa opção – A voz do homem tinha um tom decidido. – Depois não diga que fui eu quem escolhi isso.
Os cabelos do homem saíram de um tom de preto para um tom de cinza. Rajadas de vento começaram a atravessar a floresta. Árvores, animais, tudo que estivesse no caminho delas era cortado. Percebi que era somente um espectador na cena quando uma passou direto por mim e arrancou as três árvores que estavam logo atrás.
— Então você realmente chegou até esse ponto. – Uma das rajadas de vento tinha pego de raspão no braço da garota. Enquanto o sangue escorria, finalmente consegui enxergar algum sentimento no cinza vazio que era seu olhar. Não era medo. Não era desespero. Era pena. – Sinto-me culpada por ter deixado tudo chegar a isto.
Uma estaca de gelo atravessou diretamente o corpo do homem. O sangue que escorria era tão real que me senti enjoado. O transparente do gelo tinha se transformado em vermelho vivo e a pureza da noite já havia sido corrompida. Finalmente acordei.
— Acho que alguém dormiu demais. – Sarah estava na borda da minha cama provavelmente esperando eu acordar. Não vou dizer que é uma sensação ruim ter uma mulher linda na sua frente quando você acorda, mas estava começando a me assustar a frequência com que isso acontecia.
— Meio romântico acordar assim não acha?
— De novo esse papo? Você tem algum fetiche por garotas que te observam dormir?
— Se eu te contar, terei que te matar.
— Não que eu ache que você seja capaz, mas ok.
Rimos um pouco, mas não o suficiente. O sonho ainda estava latente na minha cabeça. Olhei de relance para o espelho. Meu cabelo castanho estava bagunçado e meus olhos brilhavam de sono. Não havia muito o que duvidar, aquele garoto do primeiro sonho era eu.
— Sarah? – Ela ergueu os olhos para mim curiosa. Percebi que não a chamava pelo nome muito frequentemente. – Você já matou alguém?
A atmosfera do quarto mudou. O ar ficou mais pesado. Senti-me fraco. Imagino se é isso que Sarah quis dizer quando falou que os sentimentos das pessoas modificam a maneira com que elas emitem energia. Conseguia sentir a energia pulsando dentro dela. Uma lágrima escorreu.
— Digo, magia pode evoluir para um nível em que matar alguém com ela seja possível? – Percebi que tinha sido indelicado e mudei a pergunta. Não foi muito efetivo, mas pelo menos vi alguma parte da expressão dela voltando.
— Matar pessoas com magia é muito mais fácil do que parece, mas não lembro de ter deixado você ter contato com nenhuma magia que pudesse te induzir a algo perigoso... – Fomos interrompidos por um grito. Luca veio correndo pela porta.
— Chega de namorico! Sei que você está empolgada com o Puppy, mas acabamos de receber uma visita um pouco mais importante! – Ele estava ofegante.
— Não estamos de “namorico”. O que pode ser tão importante assim do nada? – Era impressão minha ou Sarah falou isso com o rosto um pouco vermelho?
— Só venham comigo.
O seguimos pela casa até a sala principal. Senti olhos vidrarem em mim. Paralisei. Conhecia aquele olhar, tinha certeza que conhecia. Havia uma mulher parada na frente da porta da sala principal. O sangue ainda escorria de seu braço esquerdo, ela estava mais pálida do que antes. Seus olhos cinza percorriam cada centímetro do meu rosto. Ela soltou um sorriso.
— Oi! – A voz dela soava descontraída. – Eu sou Mirella, Ás de ouros. Gostaria de saber se posso abrigar-me aqui.
— O que aconteceu com seu braço? – Sarah estava catatônica. Eu também estava então não pude falar muito.
— É uma longa história. – Ela olhou para mim com um sorriso e fez um sinal de silêncio com a mão direita. Senti o olhar de Luca e Sarah me penetrarem também. – Por enquanto, só gostaria de abrigo.
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