Suit of Hearts
5 Mirella
Notas iniciais
— Mirella, minha linda. – O olhar do Luca finalmente desencontrou o meu e voltou para Mirella. O olhar que sempre vira nele, descolado e despreocupado dava lugar a um olhar mais sério e centrado. – Sabe muito bem que eu não posso fazer isso.
— E por que não? Olha meu estado. – Mirella aponta para o braço machucado. – Vai negar abrigo à uma aliada desse jeito.
— Meu amor, isso no seu braço é quase estético. – Luca e Mirella se olhavam quase que como prontos para começar uma guerra, ou se abraçar e contar histórias como velhos amigos, não conseguia me decidir qual era o olhar de verdade. – Existem várias bases de Ouros bem mais próximas do que essa aqui. Por que recorrer ao naipe de copas.
— Lembra de quando me apresentei como Ás de ouros há pouco – Mirella suspira e solta um sorriso meio sem graça. – Digamos que minha posição tenha sido revogada.
— Você não é mais Ás de Ouros?
— Eu não sou mais nada de Ouros.
Senti a atmosfera mudar mais uma vez. Depois de aprender magia é como se todo lugar tivesse uma frequência, algumas mais felizes, outras mais sombrias, aquela sala havia virado um festival de frequências, todas simultâneas, todas querendo controle da situação.
— My god. – Luca botou a mão atrás do pescoço. – O que acham?
Sarah estava levemente atordoada com a situação e não respondeu nada. E eu definitivamente não ia falar nada, aquela situação era estranha demais.
— Você realmente matou aquele homem? – Merda, minha voz escapou de mim.
— Então você realmente estava lá. – Mirella voltou os olhos para mim e suspirou. – Quer dizer que você, Luca, andou colocando seus soldadinhos para me espionar.
— Ele é um iniciado, Mirella. – Sarah falou ao meu lado, finalmente voltando a vida. – Qualquer coisa que fez nesses últimos dias foi nada mais que um acidente.
Um iniciado? – Mirella soltou um sorriso e olhou para mim. – Sabe, eu normalmente costumo me proteger muito bem contra esse tipo de coisa, você quer me dizer que um iniciado rompeu minha proteção “por acaso”.
Eu tenho certeza de que estava olhando para ela, e ela estava lá. Até não estar. E não havia nada à minha direita. Até ela estar ali. Foi instantâneo.
— É feio espionar os outros sabia? – Mirella sussurrou no meu ouvido. Seu hálito era gelado como a neve.
— Mirella! – Luca gritou. – Não é assim que você vai conseguir um abrigo aqui.
Mirella abriu um sorriso e me deu um tapa nas costas.
— Sim, eu o matei. – Seu sorriso quebrou em um olhar melancólico, a mesma pena que eu havia visto no sonho. – Eu precisei.
Ficamos todos nos olhando pelo que pareceu 5 horas, mas tenho certeza de que foram mais ou menos 50 segundos. Até me perguntei se não havia parado ou diminuído a velocidade do tempo de novo.
— Okay, okay. – Luca finalmente retomara o olhar casual e descontraído de sempre. – Você fica aqui até amanhã, até que eu convoque os coringas. Minimamente preciso saber se abrigar você não é uma declaração de guerra.
— Sabia que podia contar com você! – Mirella deu um abraço em Luca e olhou para a Sarah. – Vocês sabem que têm um Ás bem aqui né? Copas não tem um Ás há tantos anos, não entendo por que o Luca não assume.
— Nós dois sabemos o motivo. – Sarah fala pra Mirella e me puxa para subir as escadas. – E aliás, cuide do seu próprio Naipe.
— Esse é meu naipe, agora. – Disse Mirella com um sorriso no rosto.
O sorriso de Mirella foi a última coisa que vi antes de me virar para Sarah que colocou a mão no bolso e puxou uma barrinha de cereal.
— É normal esquecer de comer depois que você começa com a magia, é como se a energia que flui pelo seu corpo confundisse seus sentidos. – Ela puxou outra barrinha de cereal e me entregou. – Come.
— Vocês se conhecem? – Falei abrindo a barrinha de cereal e mordendo um pedaço. – Parece que tem história aí.
— Todos os conselhos se conhecem. Os 12 precisam tomar decisões conjuntas constantemente, pense como uma forma de sistema legislativo. – Ela diz enquanto chegávamos de novo na prisão de mamutes. – E todos conhecem os 3 Ases. Principalmente porque essa geração de Ás é conhecida como a geração mais forte da história.
— Achei que os mais fortes eram os Reis. – Respondi.
— Normalmente força não é um critério crítico para se tornar um Ás. – Sarah encosta na parede ao lado da cela. – Mas essa geração é diferente. Todos os 3 Ases são incrivelmente talentosos, além de líderes natos. Mirella foi eleita com 10 anos, a mais nova da história.
— E por que o Luca não é um Ás? Ele parece tomar a maioria das decisões por aqui. E cadê os outros 10? Aliás, você é parte dos 12? Cadê todo mundo do Naipe? – Sinto que tinha segurado muitas perguntas por muito tempo.
— Porta do destino de novo? – Ela levanta a sobrancelha. – Ou curiosidade genuína?
— Curiosidade genuína. – Respondo.
Sarah relaxa um pouco os ombros em um sinal de “Não sei”.
— Luca não se sente confortável em ser um Ás. – Sarah vai escorregando as costas pela parede até que está sentada na minha frente. – Justamente por ser a geração mais brilhante de Ases da história, é difícil segurar essa barra sozinho, por mais que hoje seja ele quem assume esse papel na prática.
Sarah levanta a manga da camisa dela devagar para mostrar um Q tatuado próximo ao seu ombro.
— Eu sou a Dama de Copas. – Ela fala de forma calma. – Os outros do conselho não ficam tanto tempo na sede, existem outras bases do naipe de copas, digamos que essa não é a mais “popular”, acho que é por isso que eu e Luca gostamos tanto daqui.
Ela fala isso e imediatamente dá um pulo para se levantar e olha para mim.
— Vamos continuar seu treinamento?
— Você é a Dama? – Eu retruco. – Quer dizer que você é a segunda mais forte daqui?
— Nosso Rei está desaparecido há 2 meses – Ela me empurra para dentro da cela de pterodátilo e consigo ver um lampejo de tristeza nos olhos dela se formando. – Eu sou a mais forte do Naipe atualmente.
Eu ia falar mais alguma coisa, mas entrar naquela Cela agora era quase que entrar em um transe profundo de meditação. Tudo era tão mais claro. Parecia que vozes na minha cabeça que estavam constantemente discutindo simplesmente se calaram.
— É bom né? – Ela pergunta enquanto entra na sala de treinamento. – Eu nunca me canso dessa sensação de isolamento.
— Eu já não percebia mais o peso que tinha lá fora. – Respondi.
— É normal, eventualmente a gente se acostuma, é como se fosse “White noise”. – Sarah solta um sorriso.
— Se você é a mais forte, pelo menos eu fico tranquilo de que estou mais seguro. – Eu falo em tom de brincadeira.
— Seria verdade para a maioria das pessoas. – Sarah responde em um tom mais sério. – Não sei por que caralhos você foi espionar justamente a Mirella, mas digamos que se você fizer ela de inimiga, não tem ninguém em copas que consiga te proteger.
— Eu também não sei, eu tive um sonho e quando eu percebi eu estava lá. – Estava escondendo parte do sonho da Sarah e me sentia mal por isso, mas no demais estava falando a verdade.
— Você acabou de ser iniciado, é normal que sua mente voe assim. – Sarah fala. – Por mais que você tenha tirado a loteria no alvo.
— Bom, e como é a próxima parte do treinamento?
— Bom, você teve o que a gente chama de iniciação. Basicamente, a iniciação é quando liberamos e abrimos nosso corpo para a magia após vivenciar uma situação traumática. Seu ônibus ia bater e você não queria que isso acontecesse, então você parou o tempo ali. – Sarah começa a dar alguns passos na minha direção. – O problema é que você ainda não estava aberto para magia quando isso aconteceu, então não é como se fosse uma sensação que você pudesse replicar.
— E como eu crio uma sensação que eu posso replicar.
— Bom, da primeira vez foi uma situação extrema que fez você se abrir para magia. – A temperatura ao nosso redor começou a aumentar, os olhos e pele de Sarah brilhando como se fosse um anjo. Um anjo de fogo muito assustador. – Outra situação extrema geralmente dá o jeito.
— Sarah, você não vai fazer isso, né? – Eu começo a andar para trás até que encontro a parede. A sala que antes era enorme parece ter encolhido, sinto o calor se aproximando de mim. – Qual foi, eu achei que a gente estava construindo uma amizade legal, cara!!
— Para de drama, duelos acontecem o tempo todo. – A mão de Sarah começou a brilhar mais intensamente. – E a Mirella realmente me tirou do sério então é bom que eu desconto um pouco a raiva.
A adrenalina estava pulsando em mim. Sarah fez um movimento com a mão para direita, uma rajada de luz saiu de sua mão atravessando a sala e fazendo um rombo na parede do lado oposto.
— SARAH! – Eu gritei. – Se isso me acerta eu morro!
— Então não deixa te acertar.
Sarah estica a mão na minha direção vejo a luz se aproximando na minha direção. Até que não vejo mais.
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