Sua voz

7 Capítulo 7 - Inúmeras tentativas fracassadas


Notas iniciais
Boa noite. Obrigada pelas recomendações tão lindas! Klaroline, CerejaChan, Lady Rosinha e Cherry. Muito grata a vocês. :')





Certo. Eu faria isso. Por mais ridículo e assombroso que fosse. Eu não me arrependeria, já estava feito. A pior parte foi contar isso a Sasuke e para minha surpresa, ele aprovou, mesmo tendo zombado o quanto pode a princípio. “Nunca imaginei que você recorreria a um site de relacionamento” ele me disse com um olhar divertido e eu apenas dei um sorriso inseguro. Passei o resto do dia cuidando da pele, unhas, cabelo e roupa. Isso teria que dar certo já que cheguei até aqui. Olhei a tela do celular mais uma vez e a mensagem do meu par ideal estava lá, marcando o lugar e o horário.

Sasuke estava manipulando algum embrulho atrás do balcão da cozinha quando pisei com minha bota de salto de couro na sala. Era uma raridade usá-la, mas a ocasião requeria toda atenção. Minha blusa preta de bolinhas brancas engoliam minha calça jeans escura e a bota fazia contraste com o casaco cinza de camurça.

— Nem parece você. — Ele disse depois de uma análise silenciosa. Tirou algo caramelizado de dentro do embrulho e enfiou na boca.

— Sua forma de me elogiar é sempre tão meiga. — Atravessei o pequeno hall e estava pronta para me despedir quando Sasuke capturou a chave do carro e veio até a mim.

— Eu vou levar você. — Ele disse.

— O quê? Por quê? — Confusão desenhou todo meu rosto, ele não era do tipo solitário, definitivamente.

— Não há necessidade de pegar táxi se eu posso te deixar lá.

— E porque você faria isso? — Eu não estava satisfeita. Sasuke soltou um ar impaciente com minha sessão de perguntas e abriu a porta.

— Estou indo me encontrar com Itachi e Ino.

— Ah. — Eu pisquei. Claramente ele não faria isso apenas por mim.

— O restaurante que você vai ficar é a caminho de lá.

— Você não sabe qual é o restaurante.

— É no centro, certo? — Ele perguntou dando de ombros e saiu andando sem esperar qualquer resposta.

Fui a seu encalço após enfiar o molho de chaves dentro da minha bolsa. O salto de minha bota se chocando contra o chão repetitivamente.

— Alguma reunião de última hora?

Ele balançou a cabeça em sinal positivo e abriu o caminho para a garagem no andar de baixo. Uma fileira com quatro carros foi mostra. O preto cromado 1971 Plymouth Barracuda brilhava na luz fraca veio primeiro, enchendo meus olhos. Eu sempre quis roubar as chaves de Sasuke e dar uma volta nele. Mas, como sempre, ele dirigiu-se para a Mercedes vermelha, exuberante como ele.

Nós dirigimos em silêncio por todo o caminho até lá, uma chuva fina caindo. Minhas únicas palavras foram o endereço do local e logo depois um som de rock anos 80 substituiu qualquer outro som. Em vez de parar na frente do restaurante e me deixar, ele dirigiu e virou até a esquina e estacionou no primeiro local disponível.

— Porque estacionou? — Eu perguntei, estendendo a mão para o meu guarda-chuva.

— Vou te levar até lá. Dizer oi para seu parceiro.

— Sério? — Meus olhos se estreitaram. — Isso é mesmo necessário?

Ele não respondeu. Abriu a porta do seu lado e a fechou em seguida. Trancou as portas quando eu já estava a alguns passos do carro, o esperando, e fracamente incrédula com sua atitude estranha.

Demos passos lentos até a entrada e eu ainda não podia acreditar que ele entraria comigo, como uma espécie de pai que deixa seu filho na porta da escola. Talvez ele estivesse entediado e queria se divertir as minhas custas, única explicação plausível.

O restaurante especializado em cozinha de fusão asiática e francesa era bastante extravagante. Muitas das cadeiras e mesas eram de madeira entalhada, as paredes tinham faixas de seda vermelha. Um espelho antigo mostrou o meu cabelo meio frisado e úmido devido a chuva. Oh, ótimo. Passei uma mão para tentar ajeitar, mas de nada adiantou.

Em uma mesa de canto, Shikamaru levantou-se e acenou. Então, seu sorriso alargou com a visão do homem a meu lado, me seguindo fielmente. Eu assenti para a linda garota loira tatuada na recepção e fiz o meu caminho através do labirinto de clientes devorando seu jantar.

— Você é Sasuke Uchiha da banda Suicide? — Shikamaru perguntou em um tom surpreso, ignorando minha chegada primeiro completamente.

— Sim, sou eu. — Sasuke parou ao lado da mesa e eu me sentei. Limpei minha garganta propositalmente alto e os olhos do homem voltaram-se para mim. — Sakura, você é ainda mais bonita pessoalmente.

— Ora, muito obrigada. — Eu respondi. — Você está muito elegante com esse terno.

— Embora eu ache que é dispensável para ir almoçar com uma dama. — Sasuke comentou. Meu olhar voou para seu rosto de maneira repreensiva, mas meu companheiro parecia não ter sido ofendido. Muito pelo contrário, ele mexeu nas asas do terno divertidamente.

— Errei feio, não? Ainda pensei em usar social. Porque eu nunca sigo minha intuição?

— Boa pergunta. — Uchiha deu um sorriso debochado para ele. Minha raiva já demonstrava seus primeiros sinais. O que aquele bastardo ainda estava fazendo ali?

— Ele veio apenas me acompanhar. — Eu disse, forçando um sorriso. — Já está de saída, não é?

— Na verdade, eu tenho tempo para tomar uma bebida. — Sasuke levantou em seguida uma mão para o rapaz uniformizado que passava perto. — Uma garrafa de Coca-Cola para mim e um Gin Tônica para ela. Obrigado.

O garçom assentiu e saiu com seu pedido.

Eu dei uma olhada fulminante para Sasuke.

— O quê? Você não queria isso? — Sem esperar por uma resposta, ele arrastou uma cadeira desocupada de uma mesa próxima. Não se preocupando em virá-la, ele sentou-se nela de trás para frente mesmo. Seus braços descansaram ao longo do encosto alto. O homem parecia pronto para uma sessão de fotos para novo lançamento de álbum. Maldita confiança detestável. — Eu sei que é isso o que você bebe às vezes, Sakura. — Ele disse. — Estou errado?

— Porque não deixa eu pedir por mim, huh? — Eu alisei a carranca do meu rosto com um pouco de esforço.

— Na geladeira tem uma caixa dessas bebidas. Você as bebe todos os dias e noites, eu já reparei isso. Sem contar com as latas que abandona rente ao sofá de vez em quando. — Ele disse.

— Que péssima hora para lembrar meus maus hábitos. — Disse entre dentes, lançando um sorriso para Shikamaru, que acompanhava tudo com muita atenção.

Sasuke sorriu sobriamente e moveu seu rosto para perto do dele.

— Ela é tímida, não ligue. — Sussurrou como se eu não pudesse escutar.

Santo inferno.

— Sasuke, estou falando sério. Você deve ir. — Minha voz saiu dura.

— Ainda não.

Eu fiz uma carranca.

Iria matá-lo.

— Então, Sakura, assistiu algum filme bom ultimamente? — Shikamaru perguntou, sem perder a postura. Ele também parecia incomodado com a terceira presença, mas não se sentia no direito de expulsá-lo. Uma vez que esse dever era meu. Sorte a minha que eu tinha avisado sobre meu “chefe” e meu cargo, ou ele poderia interpretar errado.

— Ah, sim. Nós assistimos filmes de Samurais e dramas. — Sasuke respondeu por mim.

— Vocês assistiram juntos? — Porque eu tive a impressão que a voz do meu par estava beirando a desapontada?

O garçom entregou nossas bebidas. Seus olhos se arregalaram com a visão de Sasuke, mas ele não disse nada. Apenas contemplou os poucos minutos perto do astro, em silêncio.

— Você deveria ter trazido flores. — Sasuke quebrou o clima. — Isso teria sido uma boa coisa a fazer. Isso é um encontro, certo?

Meu olhar sobre ele não estava funcionando.

— Você está certo. Eu deveria ter feito isso. — Meu par elegantemente disse, com um sorriso culpado e gracioso.

— Você não precisava. Está tudo bem. — Eu dei mais um dos meus sorrisos apaziguadores para ele.

— Envie algumas para casa amanhã. — Sasuke continuou. — Um grande cavalheiro sempre deixa gestos agradáveis. Flores é o ponto certo.

Shikamaru assentiu lentamente depois abaixou a cabeça para dar atenção para seu celular que piscava e vibrava sobre a mesa. Ele ignorou, voltando a me olhar.

— Pode atender. — Eu disse amigável. — Não tem problema.

Sasuke se mexeu ao meu lado.

— Essa pessoa é mais importante do que Sakura?

Minhas unhas escavaram nas palmas das minhas mãos.

— Você não deveria estar indo para Itachi e Ino? — Perguntei para ele, contendo o áspero no fundo de minha garganta.

— Está tudo bem. Eu não falei o horário.

— É hora de você ir. — Insisti. Meus pés se batendo contra o chão, mas o desgraçado parecia imune aos meus sinais raivosos.

Ele virou um olhar verdadeiramente doloroso para o céu.

— Um homem não pode terminar seu refrigerante? É realmente pedir muito?

— Sim. Por favor, saia.

— Você não tem nenhum problema comigo estando aqui um pouco mais, tem, Shikamaru?

— Não… — Shikamaru respondeu sério para deixar claro que fora por educação sua resposta. — Então, Sakura, você tem assistido jogos?

Com um gemido, Sasuke passou a mão em seu rosto.

— Isso não é uma pergunta adequada para se fazer a uma mulher. Princialmente, porque Sakura odeia esportes. Você está aborrecendo-a, isso é um desastre.

Uma das ótimas coisas sobre esse restaurante era as mesas pequenas. Por isso foi muito fácil chutar a canela daquela presença indesejável. Nada de esforços.

— Porque você me chutou? — Ele reclamou, se abaixando para inspecionar a perna da calça.

— Ops. Desculpe. — Eu menti com uma careta, mostrando, assim, minhas habilidades de atuação brilhantes. — Será que eu acidentalmente bati com a minha bota em você?

— Não! Você me chutou de propósito.

Meus lábios apertaram juntos.

— Oh, seu idiota. Eu menti e acobertei você na outra noite quando Ino perguntou.

Com movimentos bruscos e irados, Sasuke pegou um guardanapo e cuidadosamente limpou sua calça. Ameaças de vingança brilhavam em seus desagradáveis, bonitos e lustrosos olhinhos.

Nos encaramos com o mais ardente e puro ódio.

Sim, pode vir, babaca.

— Estou atrapalhando algo? — Shikamaru perguntou, interrompendo os olhares aquecidos. — Só por curiosidade.

— Não, claro que não! — Eu disse firme e em alto som.

Sasuke tomou um gole de Coca-Cola.

— Hum, tudo bem. — Ele murmurou. — Vamos fazer o pedido?

— Claro. Embora eu não entenda muito de comida francesa. — Disse descontraída. Arranquei um sorriso dele pela primeira vez na noite.

— Por que você não pede o frango com gengibre, ele tem um molho caramelizado. Você gosta de coisas doces. E... Vermicelli com verduras asiáticas. Isso deve ser bom, eu acho que você vai gostar. — Sasuke se inclinou ao meu lado e passou o dedo sobre o que falara no cardápio.

— Eu posso pedir por mim mesma. — Eu reclamei.

— Você acabou de dizer que estava perdida.

— Não, eu não disse isso.

— Disse sim.

— Não, Sasuke. Porque você não para com isso?

— Com licença. — Shikamaru levantou-se. — Gente, eu estou indo só usar o banheiro. Não vou demorar muito.

— Claro. — Sasuke respondeu, com os olhos ainda em mim.

Com um breve sorriso, Shikamaru virou para ir.

Eu assisti meu par andar em um corredor. A vasta extensão de suas costas desaparecendo em um túnel mal iluminado. Indo, indo, desaparecendo.

— Ele não vai voltar, não é? — Perguntei.

— Não. Ele, provavelmente, já saiu pela porta dos fundos. — Sasuke estava olhando na mesma direção que eu.

— Espero que você esteja satisfeito. — Dei a ele um olhar irritado.

— Ah, vamos lá. Que tipo de covarde foge de um encontro em apenas — Ele fez uma pausa e olhou em seu relógio — Vinte minutos? Eu já estava indo embora. Só estava ganhando tempo.

Minha mente girou e minhas entranhas se viraram em desordem.

— Você poderia ter ganhado tempo em qualquer outro lugar! Por logo aqui? O que meu par pensaria com um homem que age como se fosse… Como se fosse o meu namorado e diz coisas naturais a qual soam de uma profunda intimidade. Intimidade a qual não temos. Mas o mais frustrante de tudo é ter gastado horas de conversa, me interessando, me arrumando e chegando aqui, vê o cara fugir desesperadamente. — Minhas mãos se ergueram na tentativa de desenhar minhas palavras. Meu copo intocado balançava suavemente com a agitação do meu corpo. — Você quis tanto que eu fizesse aquela maldita lista, mas não cooperou e eu nem sei o motivo. Eu vim a um maldito encontro, Sasuke, você poderia ter soado menos desnecessário. Foi divertido pra você me deixar nesse estado? Porque está sendo péssimo pra mim lidar com isso agora.

Ele me deu um longo olhar.

— Terminou?

— Sim. — Soltei um longo suspiro. Minha respiração levemente ofegante.

Ele se levantou e devolveu a sua cadeira furtada para uma mesa próxima. Depois se sentou na que o “frango foragido” tinha recentemente desocupado.

— Estou pensando em rolos de camarão na cana de açúcar, frango com gengibre, bolinhos de carne de porco para churrasco, e um prato de legumes. Parece bom?

Não respondi. Eu estava o encarando e um de meus olhos piscaram em um tique nervoso.

— Eu sinto muito ter atrapalhado seu encontro, tá legal? Não foi minha intenção. Só queria me distrair um pouco, faz tempo que não venho a esse restaurante na companhia de alguém. É um dos meus favoritos. — Ele disse e apesar de parecer indiferente demais para quem está se redimindo, percebi em sua voz o quanto tudo soava verdadeiro. Eu deveria estar chateada com a situação. Deveria odiar aqueles olhos escuros sobre mim, mas tudo que fiz foi me desarmar. Porque, mesmo tão pequeno, aquele motivo foi o suficiente para compreendê-lo. Injusto ou não, Sasuke tinha problemas e recordações muito piores do que eu teria por causa de um encontro que não deu certo. — Se quiser embora, eu entendo. Acontece que estou com fome e sei que você também está. Vamos lá. Podemos fazer sua noite não ser tão perdida assim se você experimentar as maravilhas que estou prestes a pedir.

Ele poderia não saber como pedir desculpas diretamente, mas era um ótimo chantagista.

— É bom que eu goste. — Eu disse sobre seu olhar fixo e vi a sombra de um sorriso em seu rosto.



A chuva ainda caía e parecia não ter previsão de cessar. Quando Sasuke estacionou seu carro, nós estávamos empanturrados e rindo da minha trágica vida. Oh, sem dúvidas. Eu tinha muito o que contar.

—... Minha coleção de namorados do passado não é algo para se orgulhar. — Respondi abrindo a porta. O tapete a meus pés sendo sujo pela poeira molhada das ruas.

— Não pode ter sido tão ruim assim. — Sasuke tirou o casaco e o pendurou em algo enquanto eu me livrava do meu.

— Você não tem ideia. Eu já namorei um trapaceiro, um ladrão, um homossexual reprimido, um podólatra, e vários homens que só queriam um relacionamento de uma noite. Apenas isso.

— Você diz, apenas sexo?

— Sim. Foi frustrante me iludir. Eles sabiam exatamente o que dizer, acredite.

— Eu acredito. — Ele sorriu um pouco.

Tirei minhas botas e as peguei.

— Bom, eu vou me trancar no meu mundo para concluir as tarefas. Eu, Ino e Zabuza temos muito o que conversar. Fora seus e-mails. Ou seja, estarei disponível somente pela manhã. — O desanimo me desmanchou com a listagem verbal da coisa. — Precisa de alguma coisa?

— Eu estou bem. Vou arrumar algo para assistir. — Sasuke se livrou de seus sapatos e se jogou no sofá.

Estreitei meus olhos.

— Você não ia se encontrar com Itachi e Ino?

— É, eu ia. — Ele acomodou as mãos em baixo da cabeça e ligou a TV. — Não vou mais.







— Quando é que você me contaria sobre esse outro encontro?

— O que você está fazendo aqui e como você sabe sobre isso? — Eu perguntei, cuidadosamente aplicando uma última camada de rímel. Cabelo feito, salto alto e vestido, a segunda rodada de sair com outra pessoa em movimento. Esperava que, com mais sucesso hoje à noite. E não sou do tipo de humano desistente, principalmente depois de ter a dignidade espancada com o suposto abandono de Shikamaru. Eu tinha um segundo plano, brilhante. Sasuke e eu precisávamos ter uma conversa severa sobre limites antes de qualquer novo passo.

O nosso dia tinha sido normal misturado com bizarro por conta do chef de sushi aparecendo para me dar aulas residencial antes do almoço. Outra surpresa de Sasuke para cobrir o ponto quatro da lista. “Se entreter com novas funções, como cozinhar ou praticar na cozinha” Foi divertido, embora eu duvidasse que fosse me sair bem nessa. Sasuke deu uma olhada nas minhas tentativas de sashimi e anunciou que tomaria um shake de proteína para o almoço. Sr. Nakimura tinha acabado de me dar um suspiro triste e dois negar com a cabeça. Para ser honesta, a decepção não tinha batido com muita força, peixe cru realmente não era a minha praia.

Nem outros pratos.

Mas podemos voltar para a mais recente invasão ao meu quarto.

— Você deixou o laptop aberto quando foi tomar banho e eu acidentalmente li sua conversa no site. — Ele respondeu.

— Acidentalmente? — Sim, ele esperava que eu caísse nisso.

— Se vestiu bem desta vez. — Ele desconversou, aparentemente verificando minhas pernas ou a bainha na altura do joelho da minha saia. Tanto faz. Me recusei a ser enganada por suas falsas atenções. — Vermelho fica bem em você.

— Obrigada. Agora, saia.

Por trás das minhas costas, ele colocou um buquê de flores, dispostas em um vaso de vidro. Virei o rosto para vê-las diretamente.

Meu Deus.

— Você me comprou dálias? — A cor me surpreendeu. Meu coração deu um pulsar muito esperançoso. — Elas são lindas.

Ele bufou.

— Claro que não. — Um cartão rosa claro foi estendido para mim. — Leia.

— "Desculpe por partir... Vamos ser apenas amigos. Shikamaru." — Eu ri de mim, dele, e do universo. Parecia a melhor resposta possível. — Pelo menos ele tem caráter e sabe reconhecer o seu erro.

— Fui eu que disse para que ele enviasse flores. — Sasuke pronunciou enigmaticamente. Então encostou-se sobre o balcão enquanto eu coloquei a correção final sobre a minha tentativa de fazer um coque em meu cabelo. Ele ficou lá olhando, o que não foi útil para o meu nervosismo pré-encontro. Eu fiz o meu melhor para ignorá-lo. Difícil, dada a forma como ele me olhava, seu olhar fazendo um circuito lento do meu corpo, nenhuma curva passando desapercebida. O homem era o rei de mensagens contraditórias. Eu não sabia se chutava-o ou pulava em cima dele, isso era ridículo. De repente, me equilibrar em meus saltos altos parecia um teste de grande destreza e convicção.

— Sasuke?

— Sim?

— Assim como você não gosta que te encarem, eu faço parte desse grupo também.

Ele me olhou nos olhos, piscou.

— Quanto tempo você vai precisar ficar fora?

— Eu não tenho um tempo premeditado em mente. — Eu disse, procurando seu rosto por algum sinal, algum reconhecimento de o que ele estava fazendo. Mas ele só me deu o rosto amassado de desaprovação, os olhos e sobrancelhas tensas.

Não, vamos lá. Ele tinha que saber que ele estava me olhando de um jeito sexual. Quero dizer, como se eu fosse uma pessoa como quem ele queria ter relações sexuais.

Sim.

Puta que pariu, meu coração e hormônios. Ambos estavam sendo testados.

— Três horas? Um encontro dura esse tempo?

— Eu não sei. Talvez. — Eu respondi, concentrando-me em reorganizar a bagunça em cima do balcão. Se eu pudesse ter um momento para me recompor eu estaria bem.

— Diga por alto então.

— Porque diabos você está tão interessado? — Dei meu olhar mais paciente a ele. — Precisa que eu faça algo?

— Não. — Ele balançou a cabeça com a expressão de total descaso a minha presença. — Posso poupá-la por um dia, se quiser.

— Eu não vou dormir fora. É só um encontro.

Ele deu um passo para trás, pensativo ou perdido. Não soube definir. Coloquei o brilho labial dentro da pequena bolsa pendurada em meu braço e sai do banheiro. Sasuke me seguiu descendo as escadas.

— Então, o que nós sabemos sobre esse Neji além do fato de que ele é um nerd chato?

— Pelo visto você leu mais do que o preciso da minha conversa. — Eu bufei. A sala parecia um bom lugar para aguardar sua chegada. Larguei minhas coisas e depois me sentei no sofá.

— Responda. — Ele perguntou. Escorou o corpo no encosto do sofá e foi difícil não notar que seus músculos ressaltaram com o movimento. Hoje ele vestia uma camiseta de manga branca com um símbolo qualquer. Os cabelos desarrumados e, merda, quem fica bonito com aspecto de acabou de acordar? Ah, claro, Sasuke Uchiha.

— Eu não vou responder. Essas informações apenas eu tenho que ter. — Respondi. Ele me encarou mais um pouco, parecia refletir sobre o acontecimento e isso estava me assustando. Aquele homem que acabava de se sentar e interagia comigo não se parecia com meu chefe e vocalista da banda. Comecei a pensar se talvez fossem todas aquelas "coisas" que alteraram sua personalidade, que de fato não é tão ruim quanto todos imaginam.

— Por que você está franzindo a testa para mim? — Ele perguntou incomodado.

— Como você era quando estava usando drogas?

Sua testa passou de calma para enrugada em um instante. Essa parte de seu rosto era basicamente um barômetro.

— De onde diabos você tirou isso?

— Eu não sei. Eu só... Eu quero saber coisas sobre você. É tão errado assim?

O olhar em seu rosto disse que sim. Claro que sim. Além disso, eu era com toda a probabilidade uma deficiente mental por conta de ter batido a minha cabeça várias vezes quando era uma criança.

— Deixa pra lá. — Eu murmurei.

— Já não falamos sobre isso o suficiente? Eu era uma bagunça, Sakura. Um total idiota. Eu estava com raiva e fodido e não era alguém que você gostaria de conhecer. — Seus lábios apertaram. — Agora, eu sou um pouco mais calmo, pelo menos. Eu estou no controle à maior parte do tempo. — Eu balancei a cabeça com atenção. — O que o Neji faz? — Ele atirou de volta para mim. Meus lábios se entreabriram com a mudança brusca. — Eu respondi a sua pergunta. Então responda a minha.

— Possui uma loja de livro ou algo assim. É tudo que sei sobre ele.

— Será que ele vai te levar para uma biblioteca nesse primeiro encontro? — Ele zombou.

— Porque você não para de bancar o engraçadinho com as pessoas a qual estou me encontrando? — Bufei. Sasuke alisou o queixo, como se pensasse em outra maneira de me irritar e depois os dedos deslizaram em seus lábios. Meu Deus, sua boca, tão bonita. Meu estômago entrou em queda livre.

Que isso. Postura, Sakura.

Afastei-me primeiro desta vez, autoproteção tinha que funcionar eventualmente. A campainha tocou e o momento acabou. Provavelmente era melhor assim.

— Não interfira. — Fiquei em pé.

Infelizmente, ele foi mais rápido.

— Não vou interferir, estou apenas interessado em conhecê-lo.

— Sasuke, n…

A porta foi aberta.

— Hey, você deve ser Neji. — Os largos ombros de Sasuke encheram o espaço. Eu não podia ver nada a não ser ele.

— Sasuke Uchiha, eu presumo. — Disse uma voz amigável e suficientemente masculina. Eles apertaram as mãos, em seguida, Sasuke deu um passo atrás. Neji tinha estatura média, magro, e agradável de uma forma como um cara moderno, cabelo castanho e longo e óculos de aro grosso.

— Oi. — Eu acenei.

Olhamos um ao outro por cima. Os primeiros encontros realmente estavam entre os mais torturantes dos empreendimentos sociais. Quem quer que os tenha inventado, merecia um belo tapa na cabeça. Mas o sorriso de aprovação de Neji encheu seu rosto, então parecia que eu tinha passado no teste. Talvez esta noite se mostrasse promissora afinal de contas.

— Eu só vou pegar meu casaco. — Eu disse, voltando para a sala de estar com todo o ímpeto. Deus sabe o que Sasuke diria ou faria sozinho com ele por muito tempo. Este encontro era para durar mais do que 15 minutos. Meu orgulho exigia.

— Então, onde você vai levá-la, Neji? — A voz dele ecoou pela casa.

Eu agarrei o meu casaco e corri de volta, os saltos estalando contra o piso de mármore. A inquisição devia ser interrompida a todo custo antes que Sasuke continuasse.

— Pronto!

— Pensei que poderíamos sair para assistir a um filme, se isso soar bom para ela. — Neji enfiou as mãos nos bolsos.

— Parece ótimo! Vamos. — Meu rosto já doía de tanto sorrir.

Sasuke exalava uma rajada e não sorriu.

— Ótimo. Então eu vou esperar ela voltar, o que... Cerca de três, quatro horas?

— Ah, claro. — Neji disse, com as sobrancelhas erguidas.

— Ignore-o. — Eu abotoei o meu casaco com pressa. — Sasuke, falo com você mais tarde. Tenha uma boa noite.

— Dirija com cuidado. — Ele ordenou, com um olhar severo passando para o meu companheiro agora com o rosto perturbado. — Vá devagar.

— Sempre vou. — Neji disse, dando alguns passos, obviamente ansioso para ir embora.

Lutei com a maçaneta da porta na mão de Sasuke e empurrei em seu estômago liso e duro.

— Solte.

Ele ficou onde estava, sondando meu novo parceiro se afastar.

— Qual é o seu problema? — Eu sussurrei impaciente.

— Eu não gosto da aparência dele.

— Você está brincando comigo?

Olhos gelados lançando-me mais olhares duvidosos.

— Não, ele é estranho. A forma que ele ficou com as mãos no bolso… Você viu? Parece que ele esconde algo.

— Pelo amor de Deus, é só uma mania. Você têm várias, eu também. Eu sei me cuidar, ok? Embora não pareça, sei a quem recorrer caso algo saia errado.

— Mas e se...

— Você prometeu que não atrapalharia meu próximo encontro.

Sua boca se fechou. Após um olhar final em Neji, ele cedeu, graças a Deus. Poucas coisas tinham alguma vez soado tão doce quanto o clique da fechadura quando eu fechei a porta da frente.

— Ok. — Eu respirei, dando ao meu companheiro um sorriso aliviado. — Estamos prontos para ir.

— Ele é sempre assim?

— Não, bem... Ele se preocupa, às vezes, eu acho. — Eu não sei como explicar o recente surgimento de instintos possessivos de Sasuke.

— Bom, entre todas as coisas que te falei pela internet, deu pra ver que eu não sou nenhum assassino ou algo assim, certo?

— Oh, você ouviu ele. Me desculpe por isso.

— Não se preocupe. — Ele retornou o meu sorriso inanimado com uma risada. — Vamos embora.

Neji dirigia um carro de modelo mais velho, e ele, de fato, dirigiu lenta e cuidadosamente a uma das salas de cinema da cidade. O homem imediatamente comprou um balde grande de pipoca cativando-me, assim, imensamente. Desfrutar a importância de lanches não era pouca coisa. Nós vagamos através do lobby, verificando os cartazes de filmes e parafernálias de publicidade. Você não pode se apressar decidindo qual filme irá assistir. Escolha imprudentemente e você não conseguirá essas duas a três horas de sua vida de volta, e muito menos o dinheiro.

— Há ação nesse aqui. — Eu apontei para o mais recente sucesso de Hollywood. — Perseguição de carro e explosões.

— Você não prefere esse? — Ele virou-se para um cartaz de filme de romance. Um casal estava rindo enquanto eles estavam na chuva. Que clichê, eu mal segurei o meu gemido.

— Eu não sei. — Eu falei, sendo vaga.

— É que eu sou mais… Sensível. — Ele disse ao empurrar os óculos e dei um sorriso derretido.

Não era uma boa hora para sentir o desanimo subir por minhas veias. Vamos lá, estava cedo demais.

— Eu aposto que tudo termina em lágrimas. — Fui sarcástica. Eu não assisti-lo, definitivamente. — A principal provavelmente pega gripe de ficar na chuva e morre de pneumonia.

Ele piscou. Era para ser algo engraçado, no entanto.

— Isso seria péssimo e muito triste. Não é algo para se brincar.

— Certo. Me desculpe. — Lancei um olhar cheio para o outro lado e dei o meu melhor para não soar tão aborrecida. Minha noite não podia acabar, isso era injusto.

— Quer ver esse, então?

Sorrindo ele balançou a cabeça com tanta força que eu temi que seu pescoço torcesse.

Sem escolha, nós fomos caminhando para a bilheteria. Tudo melhoraria.

Era o que eu esperava. Mas nada melhorou.

Os créditos subiam na enorme tela e eu estava quase empurrando o homem para longe de mim. O choro que saía de seus olhos estava encharcando sua blusa, mão, estofado da cadeira. Inundando a sala do cinema. Respirei fundo e contei muitos carneiros para não me levantar e ir embora.

Para completar, Neji ainda me contou de sua namorada no meio do caminho. O quanto ela parecia com a garota principal do filme, e seu sentimento intocável permanecendo dentro do seu peito. Ouvir alguém falar de seu relacionamento recente e destruído é ruim. Mas ouvir alguém falar disso de forma poética e com palavras diretamente tiradas de livros com linguagens antigas, conseguia ser pior. Com o carro parado, saltei do banco com a cabeça em larvas.

Cortinas balançavam na janela da frente do apartamento. Alguém estava bisbilhotando. Para um homem de inteligência razoável, Sasuke Uchiha não estava agindo particularmente racional esta noite.

— Tenha uma boa noite, Sakura. Foi um prazer. Até a próxima. — Ele disse quando eu já estava a distância. Não me incomodei de ser educada ou seja lá o que for que eu precisasse ser.

— Até.

Até nunca mais, de preferência.

Neji esperou eu passar para dentro dos portões de grades reforçados para só então acelerar seu motor.

— Porque estava espiando? — Eu fechei a porta, coloquei meu casaco e bolsa na mesinha. — Eu te vi entre as cortinas.

— Eu não estava espiando. Estava verificando a limpeza do vidro. — Ele apareceu da escuridão que era a sala de estar, roupas pretas se misturam com as sombras. — E não largue suas coisas aí, leve para o seu quarto.

— Sim, senhor.

— Como foi sua noite?

Eu sufoquei um bocejo.

— Normal. E a sua?

Um ombro subiu e desceu.

— Assisti um pouco de TV.

— Hum. — Eu peguei meus pertences de volta. Tão ridículo, só Sasuke teria móveis e não deixaria as pessoas usá-los. — Vejo você de manhã.

— Isso é tudo?

Com um pé no degrau, eu parei.

— Cheguei em casa inteira, assim a sua teoria do estranho-com-as-mãos-no-bolso está eliminada e a necessidade de você me substituir também. O que mais você quer de mim?

— Você não se divertiu?

— Não sou muito fã de filme de romance, mas pra quem gosta, vale a pena ver.

— Gostou dele? — Ele perguntou. Movi minha cabeça.

— Sim. — Eu não podia dizê-lo do desastre. Pra mim pareceu como uma perca a não ser admitida.

Com o rosto contemplativo, ele veio ao meu lado, apoiando-se no corrimão. Hoje ele não tinha feito a barba e o impulso de correr meus dedos sobre sua barba parecia intransponível. Meus dedos cavaram fundo no couro da minha bolsa, lutando por controle. Tudo nele me chamava, o olhar cauteloso, mas curioso em seus olhos, o seu lado mais suave raramente visto.

— Diga a verdade.

Talvez, se sua mãe não tivesse acabado com ele quando era criança ele teria sido diferente, menos cansado do mundo e danificado, mais aberto. Ou talvez se eu fosse mais supermodelo, menos bonitinha e fofinha. O que seria necessário, quantas mudanças teriam de serem feitas para ele me ver de forma diferente? Porque ele estava a menos de um metro de distância de mim, mas parecia uma eternidade. Meu coração se partiu muito lentamente e eu sentia cada pedaço dele quebrar e cair.

Não tinha nada que eu pudesse fazer sobre isso, nem uma única coisa.

Fixei um sorriso cansado ao meu rosto.

— Foi uma grande merda. Ele escolheu o filme e chorou nos dez primeiros minutos ao pensar na ex-namorada. Chorou de verdade, a ponto de encostar em meu casaco e encharcá-lo. Foi frustrante. De novo. — Suspirei.

— Eu sabia. Você não sabe disfarçar, Sakura. — Ele disse triunfante com a descoberta do novo ato. Ter Sasuke brincando em minha decepção, eu não precisava disso. Porém Sasuke me impediu de continuar meu caminho pelas escadas. Eu estava pronta para lhe dar uma resposta malcriada, mas não precisei. — Você é... Ah, bem, obviamente você não está na mesma categoria que ele.

— Não?

— Não, claro que não. — Ele colocou as mãos nos quadris, em seguida, mudou de ideia e ligou-as atrás da cabeça. Olhou para a parede atrás de mim, para o chão e depois encontrou meus olhos, um pouco incerto. — Quero dizer, o que esperar de escolhas suas? Seu dedo podre é visto a metros de distância.

— Então agora a culpa é minha?

— Sim. Encontros de internet não são exatamente algo bom a se apostar.

— Agora eu sei disso. — Dei um sorriso desanimado.

— Ótimo. Não tente fazer essas merdas da próxima vez.

Eu mexi na alça de minha bolsa, curiosa.

— Você já foi a um encontro, Sasuke?

— Defina encontro. — Ele limpou a garganta.

— Encontro. Velas, restaurantes, uma pessoa agradável. Porque eu duvido muito que isso tenha passado por seu currículo de experiência?

— Sexo, droga, bebidas, isso conta?

Eu só olhei para ele atordoada.

— Seja como for, eu não quero continuar com essa loucura. — Eu disse, sugando meu estômago. — Vamos concentrar em outras coisas. Amanhã me acorde, vou correr com você.

— Tudo bem. — Ele disse vagamente. Desviei os olhos porque não tinha mais o que ser dito, pelo menos da minha parte. Com um sorriso fraco, subi mais dois degraus.

— Sakura.

— Sim?

— Isso de hoje a noite... — Ele disse com os olhos baixos. — Não precisa se sentir chateada por isso… Eu… Eu quero dizer que você não perdeu nada com esse encontro. Apenas mais uma história interessante para juntar a sua vida horrorosa.

— Muito atencioso da sua parte. Obrigada. — Eu disse, mas não deixeride sorrir com sua tentativa. E, para minha surpresa, Sasuke retribuiu. Não foi um sorriso de desprovido, vindo direto de suas estripulias em nunca conceder os limites. Ele sorriu e eu registrei em minha mente o quão doce foi aquilo.

— Boa noite. — Sua cabeça fez um movimento rápido e ele se virou de costas, descendo o restante dos degraus.