Sua voz

6 Capítulo 6 - Defeitos intermináveis, assombrosos


Notas iniciais
Olá.

Já era fim de tarde quando ouvi uma ou duas batidas na porta do meu quarto. Eu passei todo o dia trancada nele, me martirizando pela atitude infantil e estúpida de mais cedo. Foi inevitável. As palavras de Sasuke apenas me pegaram de surpresa e eu devia ter agido com indiferença, como tenho feito todo esse tempo.

Agora, sabendo que ele batia em minha porta, um reboliço agitou meu estômago me deixando tensa.

— Entre. — Coloquei em meu rosto a melhor expressão de indiferença.

A porta foi aberta lentamente e metade de seu corpo apareceu.

— Os caras acabaram de me ligar. Vai ter um jantar de inauguração feito pela mãe da Hinata pelo novo apartamento, ela gostaria que todos estivessem presente.

Vasculhei em minha mente qualquer mísera desculpa para dá-lo.

— Esteja pronta em 30 minutos.

A voz de Sasuke, então, me fez entender que aquilo não era uma pergunta a ser decidida. Logo ele fechou a porta.

Minha próxima tarefa seria deixar todos aqueles e-mails de lado e encontrar roupas casuais para ir a esse indesejável e repentino jantar. Não era nada pessoal contra o grupo da banda, apenas meu estado de espírito não era o melhor, mas eu faria o melhor para manter minha postura.

Todos se reuniram na casa de Naruto e Hinata no novo condomínio que compraram. O local era lindo, com muito brilho, caro e novo, tanto quanto você esperaria de alguém famoso. As varandas davam para um mar aberto e azul. Muito agradável.

Uma fotografia de Kushina assumiu uma posição privilegiada sobre a lareira. Sasuke tinha se ajoelhado em frente a ela quando chegamos, tendo um momento. Eu não acho que a dor de qualquer um sobre perdê-la iria embora tão cedo.

Aparentemente, Gaara não tinha contado a ninguém sobre o meu anúncio para sair já que ele presenciou isso no outro dia. Apreciei sua discrição imensamente. Sasuke e eu trocamos palavras precisas e monossilábicas até aqui. Ele chegou a dar uma pausa durante o caminho para abastecer e ir ao banheiro do posto, então voltou com um pedaço de torta alemã. Aceitei de bom agrado, ouvindo seu “por acaso encontrei” mas aquilo me soava mais como um pedido de desculpas silencioso.

Agora ele se sentou à minha frente na mesa, o cabelo artisticamente em seu rosto. E eu tive que lutar contra meus extintos de não admirar a maravilhosidade que caíra aquela camisa social azul-escura em seu corpo. Ele sempre parecia tão polido, tão perfeito, que eu quase poderia ignorar seu interior corrompido. Mas as coisas que ele me disse durante a corrida ainda giravam em torno e dentro da minha cabeça. Deus, ele ferrou o seu próprio irmão. Não admirava que as coisas pareciam tensas entre eles algumas vezes.

Ao meu redor, a conversa no jantar continuou. Nada disso me fascinava tanto quanto Sasuke. Era uma divisão entre o bem e o mal, o belo e o ruim. Mais uma vez a ofensa que me foi direcionada, caiu em esquecimento.

Gaara estava citando alguma canção e notas para alguém e todos estavam vidrados nele. A mãe de Hinata era gentil e não aceitou ajuda quando ofereci. Ela faria tudo sozinha por nós. Muito gentil de sua parte, a propósito.

Sasuke colocou as mãos sobre a mesa, interessado no que o companheiro de banda estava dizendo. Esses pulsos eram grossos, eu nunca tinha notado antes, mas as mãos dele eram fortes. Quando eu tinha lutado com elas pelo maço de cigarros, no entanto, ele tinha sido gentil. A lembrança de seu peso em cima de mim encheu minha mente. E aquela colônia que ele tinha, parecia sair de seus poros, impregnados em suas células. Eu gostaria de senti-la mesmo agora. Tomei um gole de água, minha garganta seca precisando de alívio. Mais acima, os dois primeiros botões de sua camisa estavam desfeitos e a alguns traços definidos de seu peitoral apareciam.

Aposto que seria dura e macia ao mesmo tempo a textura de sua pele.

Algo duro colidiu com uma de minhas pernas por debaixo da mesa e eu soltei um gemido dolorido e assustado. Os olhos de Sasuke estavam em mim.

— Hinata está falando com você, Sakura. — Ele disse.

Merda. Eu estava olhando para ele de novo e perdi a completa noção do espaço. Culpa dele. Se ele se sentasse ao lado, e não na minha frente isso nunca teria acontecido. Eu tentei chutá-lo de volta, mas meu pé balançou sem rumo, entrando em contato com nada além do ar. Foda-se ele e suas longas pernas.

— Sasuke, você acabou de chutá-la? — Ino perguntou, com a boca franzida.

— Não. — Ele mentiu.

Ino virou os olhos curiosos para mim como se eu pudesse contar a verdade.

— Ele não faria algo tão terrível assim. Eu só tive a sensação de está caindo e me ajeitei rápido demais. — Eu disse. — Desculpe.

— Ela faz isso metade do tempo. — Sasuke confirmou. — Uma garota muito viajante é essa Sakura.

Um coral de risos encheu o cômodo. Mostrei-lhe o meu mais bonito sorriso forçado.

Na outra extremidade da mesa, a mãe de Hinata acabara de servir o último tabuleiro que faltava para inciarmos a refeição e tomava lugar na única cadeira restante. Oh, aquilo cheirava tão bem. Minha barriga se mostrou viva com sons assustadores, que por sorte, só eu conseguia ouvir. Eu acho.

Sasuke limpou a garganta, em voz alta, chamando toda a atenção da mesa.

— Não acho que eu disse para vocês. Sakura está pensando em se demitir.

Meu queixo caiu.

O quês, porquês, e sons gerais de desagrado voou pela mesa. Do outro lado da mesa, Sasuke me deu um sorriso, seguido de um olhar de “Você não esperava por isso?” Argumentei com o meu olhar de “você é um idiota. Isto foi desnecessário e vá a merda com esse olhar”. Parecia que podíamos nos comunicar totalmente sem palavras.

Incrível.

— Nãooo! — Naruto disse da cabeceira da mesa. — Vamos lá, Sakura. Por que você se demitiria? Você é a única que aturou esse cara por mais de três semanas e consegue manter o humor vivo. Você não tem ideia de quão rara isso te faz.

Um mar de rostos tristes me cercou. Bem, além da Sr. Hyuga, todos apenas brincavam com a comida. Mesmo a irmã de Hinata, Hanabi, parecia para baixo com a notícia e tínhamos nos encontrado duas vezes, talvez? Este nível de apego foi tão surpreendente quanto emocionante. A forma como essas pessoas se importavam me pegou de surpresa. Eles realmente me queriam por perto.

— Que porra você fez? — Gaara reclamou para Sasuke.

— Nada. — Eu disse por ele, meu modo defensivo apareceu. — Sasuke não fez nada. Eu apenas pensei que talvez seja hora de seguir em frente. E não decidi totalmente ainda.

— O que é que você faz, Sakura? — Sra. Hyuga perguntou. Era tão doce quanto sua filha.

— Ela é minha companheira de sobriedade e assistente. — Sasuke disse sem hesitação. — Ela me impede de beber e se drogar. Me mantém limpo.

As pessoas se entreolharam,r. A boca da Sra. Hyuga estava boquiaberta como um peixinho dourado, mas nada foi dito. Ela parecia estar por fora de tudo. Normalmente, nós não discutimos os problemas de Sasuke em companhia de outras pessoas, muito menos sobre esse assunto. O mundo inteiro sabia cada detalhe sórdido, então não havia necessidade de mentir. Mas, aparentemente, Sra. Hyuga tinha perdido tais notícias.

Sasuke ficou tenso parecendo se arrepender de ter falado. Olhos frios que olhavam além do prato cheio. O silêncio varreu toda mesa e eu captava o quão tenso todos ficavam a tratar e ouvir aquelas verdades. Talvez tivessem vergonha por sua história. Por favor, como se todo mundo fosse impecável. Ele havia caído mais do que a maioria, é verdade, mas ele estava lutando para passar por cima disso também. Esse silêncio, no entanto, parecia errado, e me irritou.

Por que diabos alguém não dizia alguma coisa?

Esse alguém seria eu, então.

— Eu gostei de trabalhar para Sasuke. — Peguei meu garfo e belisquei um pedaço de Peru. — E continuo gostando.

Seu olhar ligeiramente aqueceu, seu rosto ainda enfrentando voltar à vida.

— Então porque quer se demitir? — Itachi perguntou.

— É pessoal. Eu prefiro não falar sobre isso.

— Ela precisa ter uma vida, esse é o problema. — Sasuke disse, colocando sua taça de champanhe ao lado. — Estar comigo o tempo todo não é tão divertido quanto imaginam

— Você está entediada, Sakura? — Hinata me estudava de três cadeiras ao longe. — Nós podemos consertar isso.

E tudo isso me deu uma sensação muito ruim.

— Gente, essa é uma decisão pessoal, e não um projeto de grupo. Obrigada pelo carinho, mas...

— Não, Hinata. — Naruto me estudou por cima do seu copo de vinho tinto. — Eu não acho que ela esteja entediada como diz. Talvez ela precise de contato físico, se você me entende.

— Essa é a resposta de vocês para tudo? — Ino riu.

— Ah, vamos lá. Todo mundo precisa de alguém especial para foder e abraçar. Não há vergonha nisso. — Naruto disse, ignorando o pequeno suspiro assustado da sogra. Hinata não parecia preocupada também. É provável que já tenha se acostumado com esse lado liberal do namorado. — Sakura precisa de alguém que não seja Sasuke para isso, por razões óbvias.

Ao longo da mesa, Itachi franziu a testa.

— Porque não ele?

— Não seja rídiculo, Uzumaki. — Interrompeu Sasuke, puxando a gola da camisa. Ele não parecia muito feliz com o tema da conversa.

— Itachi, por favor. — Naruto continuou, ignorando-o. — Pare e pense sobre isso. Todo mundo que dorme com ele acaba o odiando.

— Isso não é verdade. — Sasuke se defendeu.

— Não? Cite uma mulher que você fodeu que ainda fala com você. — O tempo passou, mas o Uchiha não respondeu, e ninguém foi ajudá-lo também. — Aí está. Não há respostas porque não há mulheres. — Naruto se voltou para Itachi. — Ele não tem sequer a cortesia de fingir estar interessado em ligar novamente. Não pega o número de telefone ou qualquer coisa. Ele não sabe ser alguém a qual uma mulher pense em repetir a dose.

— Isso é terrível. — Eu disse, me divertindo imensamente. Foi só pela graça de Deus que eu consegui evitar que a bota de Sasuke me acertasse de novo. Ele errou, acertando uma das pernas da minha cadeira em seu lugar. Eu fiz uma careta para sua expressão de dor.

— E você! — Naruto apontou o dedo para mim. — Você finge não se importar e sua máscara de indiferença não funciona para mim. Ao contrário de todas as mulheres que mencionei, eu acho que você gostaria de repetir a dose com Sasuke, mesmo que ele tenha sido um babaca durante a foda. — Minha boca estava aberta. — O seu jeito de olhar para ele em todas as ocasiões não é só de alguém que está louca para experimentar um livro de cama sutra ou algo assim.

A mãe de Hinata fugiu da mesa.

Gaara coçou a cabeça.

Itachi e Ino apenas olhavam perplexos.

— Nenhuma pessoa aguentaria a forma egocêntrica dele se não tivesse algo a mais envolvido. Eu estou certo, Itachi?

Depois de um momento, o citado balançou a cabeça cautelosamente.

— Já chega. — Sasuke pediu.

Eu já não sei mais definir minha expressão naquele momento.

— Queria saber o que ele significa pra você, Sakura. — Seus olhos brilhavam de curiosidade.

Mantive minha postura séria.

— Ok. Eu acho que essa conversa já foi longe demais. — Eu disse. Obviamente ele não me obedeceria.

— Olha como ela se irritou quando eu tentei saber mais sobre ela. — Naruto zombou. — É por isso que você está pensando em desistir, não é? Com medo que você esteja ficando muito apegada, talvez? Isso poderia ser facilmente classificado como paixão? Oh, sim, isso é paixão e das fortes. Quantas vezes você se tocou pensando nele? Hein, Sakura?

— Naruto, isso é o suficiente. — Hinata murmurou ao seu lado. — Deixe a garota em paz.

A raiva subiu, correndo quente através de mim. Eu pulei sobre os meus pés, arrastando minha cadeira para trás.

— Você se acha realmente muito engraçado, não?

— Já chega disso. — Sasuke também se levantou. — Acalme-se, Sakura.

— Eu...

— Acalme-se. — Ele repetiu para mim. — Naruto está sendo um idiota.

Todos estavam nos olhando. Situação mais constrangedora.

Com um suspiro para esvaziar a irritação eu voltei a me sentar.

— Escuta, Naruto. — Sasuke se virou para ele. — Isso aqui é um jantar de inauguração. Se você continuar com essa merda, eu vou embora. — Ele disse duramente e depois voltou a se sentar.

O loiro fez uma careta e deu de ombros, voltando a comer.

O jantar seguiu da pior forma possível. Ninguém falou mais nada. Sasuke me encarava do outro lado da mesa e eu arrastava algumas saladas de um lado para o outro em meu prato. Hinata estava ocupada esfregando as têmporas. Se o meu namorado fosse aquele insano, eu provavelmente estaria esfregando as minhas também. Quando a Sra. Hyuga voltou a surgir e nos chamou para ver a decoração da sala de estar, pra mim foi a melhor parte da noite.



Chegamos no apartamento, já marcavam quase duas da manhã. Tomei um banho, me vesti com o pijama mais confortável que achei e fui em busca do meu laptop, que estava na sala. Antes de partir, Ino me disse que precisávamos entrar em contato com o pessoal da gravadora para marcar uma reunião. Peguei o contato com ela e decidi que faria assim que chegasse. Assim eu ocuparia minha mente e não remoeria sobre os últimos e tensos acontecimentos.

Sasuke estava sentado no sofá assistindo algo e um balde de sorvete entre suas pernas. Eu só tinha que atravessar a sala e pegar meu laptop que descansava na bancada da cozinha e depois voltar para o quarto. No entanto, isso pareceu um pouco difícil.

— Você ficou chateada com o Naruto, certo?

Ele me perguntou quando alcancei a bancada.

— Já me recuperei. — Eu respondi. Catei alguns papéis e empilhei em meus braços.

— Ele é sempre o mesmo idiota. Sua intenção é implicar e se você se mostra atingida, a diversão está garantida.

— Obrigado pelo aviso. — Minha voz sem emoção alguma enquanto eu refazia meus passos.

— Quer sorvete?

Lentamente, virei o rosto para trás. Sasuke ergueu o balde e seu olhar era misturado com algo beirando a apreensão. Não arrisquei que pudesse ser isso.

— Eu não deveria estar te oferecendo calorias, mas considere isso como forma de terapia para a noite de hoje. Foi tensa para mim também. — Ele disse. Meu olhar abaixou até o conjunto de biscoito de chocolate meio assado no sorvete de baunilha francês. Oh, inferno. Minha boca começou a salivar.

Percebi que era tarde demais para resistir quando fui até o balcão de talheres e saquei uma colher.

— Vamos assistir drama? — Eu perguntei me jogando ao seu lado com uma careta para a tela. — Sério?

— Eu ainda não desisti daquela lista. — Ele se acomodou sobre almofada. — O artigo disse que você deveria passar mais tempo com suas amigas, assistir filmes bobos e comer sorvete, falar mal de mim e etc. Mas não tem sentido falar mal de mim para mim. — Ele fez uma pausa. — Você prefere que eu arranje algumas garotas a mais para ficar aqui com você?

Fiz uma careta perplexa.

— Não, estou bem assim. — Coloquei a colher dentro do sorvete e abocanhei. Ele deu de ombros, voltando-se para frente.

Era estranho. Mas agradável. Uma combinação de sensações que me faziam querer sorrir. Sasuke estava querendo me manter bem?

— Você disse que não tocava nenhum instrumento, mas eu pensei ter ouvido um violão mais cedo. — Eu disse. Dada a necessidade que me sufocou para que pudéssemos continuar conversando. Eu não dava a mínima para aquele drama.

— Eu disse que eu não tocava tão bem quanto os outros. Não que eu não toco.

— Você escreve músicas? — Perguntei. Outra colher cheia em minha boca.

— Para a banda? Não. Itachi faz todas as letras.

— Então escreve para você mesmo?

— Sim. — Seu riso era frágil. Ele tirou minha colher do seu caminho e se serviu novamente. — Eu escrevo canções dizendo o quão quente e lindo eu sou.

Franzi minha sobrancelha. — Sério?

— Não.

Dei um sorriso.

— Eu não esperava diferente, você é um narcisista.

Por um longo momento, ele olhou para a TV e eu olhei para ele. Demorou um pouco para a minha mente absorver o fato de que ele se incomodou com o que eu tinha dito. De repente me senti estúpida.

Eu precisava ser mais cuidadosa. Ele não era tão duro quanto parecia.

— Sinto muito. — Eu disse.

Ele me deu um olhar estranho.

— Sobre o quê?

— Dizer que você é um narcisista.

— Eu não dou à mínima para o que você pensa. — Sasuke tinha facilidade em enunciar as palavras claramente.

Certo, ele não tinha tantas emoções assim, erro meu. Talvez eu pesquisasse no Wikipédia mais tarde sobre os acontecimentos extremos de sua vida que o transformara em um total idiota.

— Eu procurei o que significa narcisismo. — Ele disse, com os olhos longe. — E eu não acho que estou a ponto de passar dias me olhando no espelhando e sonhar comigo mesmo. Ser um pouco vaidoso não é uma coisa tão ruim.

Isso foi uma explicação, certo? Então ele havia mesmo se incomodado com o que eu disse?

O drama continuou na televisão. Nada foi dito.

Recolhi minha colher do pote de sorvete antes que eu comesse tudo.

— Mas é isso que você monstra para as pessoas a sua volta. É tudo que você consegue dizer. Você coloca sua aparência como uma barreira para ocultar o que sente, não é? É mais fácil que as pessoas pensem que você é só bonito e egoísta? A forma com que aponta seus próprios defeitos é sempre tão autêntica, com isso não a espaço para enxergar suas qualidades.

O homem apenas dei um sorriso sarcástico.

— Sakura, não banque mais a psicologia, ok? É para o seu próprio bem.

Ele tinha razão. Não era o meu forte.

— Tudo bem, então, vamos mudar de assunto. Conte-me sobre as músicas que você escreve.

— Não disse que escrevia.

— Disse sim.

— Eu sou apenas o cantor, Sakura. Isso é tudo.

— Você toca violão. E escreve.

— Porra, você é irritante. — Ele cavou ao redor, pegando um bom pedaço de chocolate. — É apenas anotações para mim mesmo, ok? Eu não quero falar sobre isso.

— Itachi sabe?

— Não. — Ele me deu um olhar duro. — E você não vai contar nem a ele, nem a ninguém.

— Você tem a minha palavra.

Meu acordo imediato pareceu acalmá-lo. Ele se ajeitou no sofá, exalando duro. Um músculo em sua mandíbula se moveu várias vezes parecendo que ele estava rangendo os dentes.

— Você está descobrindo sobre mim muito mais do que eu gostaria. — Sasuke disse mais em uma espécie de pensamento alto. Ele parecia encabulado, por isso não dei a ele resposta que pudesse piorar. Em vez disso puxei o sorvete para meu colo e comecei a comê-lo.

— Realmente temos que assistir a isso? — Perguntei em incredulidade para uma cena que rolava.

Seu nariz enrugou com desdém aparente. Era fofo.

— Eu pensei que gostasse de dramas.

— Mas não estou a fim de vê-los hoje. — Me ajeitei sobre a almofada. — Que tal terror? Ou você tem medo?

— Não seja ridícula.

— Pode colocar em um, então, rei do controle remoto?

Sasuke deu um meio-sorriso-não-sorriso e negou com a cabeça.

— Quero assistir um bom jogo de hóquei agora.

— Você consegue ser tão desagradável quando quer. — Sorvete derretido pingou da minha colher para os meus jeans. Eu raspei com um dedo, lambendo-o em seguida. Ergui a cabeça para encontrar Sasuke olhando para a minha boca. Seus próprios lábios estavam entreabertos, os olhos nebulosos. Eu congelei.

De jeito nenhum.

Ele não estava tendo esse tipo de pensamentos comigo. Impossível. Um nó torceu e apertou profundamente no meu ventre, uma espécie de corrida emocionante derramando em minhas veias. Eu não acho que ele sequer percebeu o que estava fazendo.

E ele continuava vidrado.

— Sasuke?

Seu olhar saltou da minha boca para meus olhos e a testa franzida desceu.

— Posso ver meu jogo?

Uma resposta curiosamente mal-humorada, até mesmo para ele.

— Claro. — Eu murmurei. — Fique à vontade. — Ele voltou a assistir o jogo, me deixando sem qualquer resposta. — Sabe, se eu acabar indo embora, nós ainda podemos sair às vezes, fazer coisas juntos. Eu não vou simplesmente desaparecer da sua vida. Isso, é claro, se você me considera ao menos uma companhia para suas noites solitárias.

Eu não poderia me colocar em uma posição tão importando assim achando que Sasuke tinha laços por mim a ponto de pensar nisso, logo tratei de corrigir, então.

Ele então jogou a colher na mesa ao lado onde ela caiu com um violento barulho.

Eu quis dizer as palavras como um conforto. Claramente, elas não haviam sido recebidas dessa forma.

— Eu sou um astro de Rock, tenho a permissão de ir onde eu bem entender. Posso entrar em qualquer festa, em qualquer evento internacional mesmo sem ser convidado e ainda assim serei tratado como o proprietário do lugar — Ele disse, a voz plana e hostil. — Posso sair com quem eu quiser. Modelos, cantores, atores, diretores de Hollywood, diversão e companhia não é um problema pra mim.

Engoli minha saliva.

— Se eu decidi me afastar um pouco do meio social parar aproveitar o meu próprio sossego, isso não significa que eu não tenha a quem recorrer caso você saia. Eu posso facilmente arrumar isso, então não pense que é insubstituível — Ele esticou os braços ao longo do encosto do sofá, com os dedos amassando no couro. Pode parecer a pose de um homem relaxado, mas a realidade era a mundos de distância.

— Eu não penso que sou. — Minha voz se arrastou um pouco amarga. Coloquei o pote de sorvete do lado para ajeitar meu corpo, que estava tenso.

— Então pare de agir como se sentisse pena de mim. — Ele disse duramente. — Eu não quero sua compaixão.

— Sasuke...

— Apenas ouça. — Seus olhos frios e duros nunca saíram do meu rosto. — Se o motivo pelo qual você aceitou a ficar neste trabalho é pensar que eu vou ficar sozinho e deprimido se você for, então está perdendo o seu tempo.

Meus olhos se arregalaram.

— Eu sou alguém importante e posso reverter esse quadro em um estalar de dedos. Se você for embora, minha vida continuará seguindo da mesma forma com a única exceção que terei outra pessoa para realizar minhas tarefas. Nada vai mudar. Não vou precisar que você continue agindo como assistente porque esse cargo não pertencerá mais a você.

— Estou dizendo que eu posso ser sua amiga, não trabalhar para você de graça — Eu disse, meu peito afundando.

— Eu não preciso de uma amiga. Não como você. O que você poderia me dar, Sakura? Honestamente? Se tudo que faz de útil é o seu trabalho?

Minha boca se abriu, mas eu não sabia o que dizer. Ele estava certo, não seria o mesmo. Não iria mais vê-lo e falar com ele todos os dias, relaxar com ele quase todas as noites. Outra pessoa o faria. Esta parte da minha vida, o tempo gasto com ele, se tornaria uma lembrança. A tristeza dentro de mim era enorme, avassaladora. Eu não poderia contê-la.

— Eu não sei o que dizer.

— Eu pedi a sua opinião? — Ele retrucou. — Não.

— Não seja tão grosso. — Eu rosnei em advertência.

Ele virou o rosto para o jogo novamente.

Alguém anunciou pontos na TV, e nada disso importava.

— Acho que é o suficiente. — Encarei o chão por longos segundos antes de me levantar. — Vou descansar um pouco.

Eu esconderia minha chateação com todas as forças que eu tinha.

— Tenha uma boa noite. — Dei um passo a diante mas meu pulso foi segurado. A cabeça de Sasuke estava baixa, mas sua mão firme envolta de minha pele.

— Eu sinto muito.

Eu respirei fundo para espantar o quão inédito foi ouvi-lo pedir desculpas. Não era hora de me surpreender.

— Tudo bem, eu estou acostumada — Eu disse, soando convincente.

— Você poderia se sentar novamente? — Ele ergue o rosto e me encarou. Meu coração apertou. — Podemos assistir outra coisa.

Ao perceber que eu não iria adiante, Sasuke me largou. Ele buscou o controle em cima das almofadas e estendeu para mim.

— Você escolhe.