Sua voz
2 Capítulo 2 - Um lado sensível e desprotegido
Notas iniciais
Sasuke estava perdendo o controle.
A porta do quarto estremeceu com algo quebrando ruidosamente contra, do outro lado. No interior, vozes estavam se erguendo, mas as palavras eram indistintas. Talvez eu devesse ficar no corredor por mais um tempo.
— Hey. — A namorada de Itachi, Ino Yamanaka, surgiu no final do corredor e andou em minha direção vestindo um vestido preto simples, entrelaçando os dedos nervosamente. Seu cabelo loiro tinha sido puxado em um coque elegante.
— Oi.
— Itachi está conversando com ele? — ela perguntou, parando próximo a mim.
— Sim. — Eu provavelmente deveria ter usado um vestido também, mas não tinha a pretensão de congelar minha bunda no frio que fazia em Tóquio. Abandonar minha feminilidade era algo que eu já estava acostumada a fazer.
O frio parecia ter vindo para completar o estrago que chegou a todos assim que embarcaram de volta para o Japão após uma turnê fora do país: A mãe de Naruto havia falecido, perdendo a batalha contra o câncer. Pelo que percebi, ela tinha sido como uma mãe substituta para os irmãos Uchihas, pois a deles, aparentemente, tinha sido pouco mais do que uma bandida de oxigênio, abandonando-os muito cedo. Eu só vi Kushina algumas vezes, muito poucas para conseguir sentir algo mais do que pena pelo ocorrido.
Mais gritos abafados. Outra batida contra a parede.
— Isso é a tal crise que mencionaram antes ou o modo dele expressar tristeza? — Eu perguntei para Ino, me lembrando dessa questão que com o tempo tinha esquecido devido ao comportamento quase robótico de Sasuke.
— Talvez os dois. Kushina significava muito para ele.
— Hum.
— Itachi irá acalmá-lo... — Ino disse, com sua voz absoluta.
Era doce o jeito como ela adorava o namorado. Eu não conseguia me lembrar da última vez em que tive tanta fé em um namorado. Itachi e Ino tinham se conhecido durante o clipe da banda, há quase oito meses. Aparentemente, era uma linda história. Uma da qual eu não tinha conseguido ouvir tudo ainda. Ino me convidou para sair com ela e seus amigos algumas vezes, mas eu sempre inventava desculpas. Não que não apreciei o gesto, apenas não conseguiria me sentir a vontade no meio de pessoas tão importantes sendo apenas uma assistente.
De qualquer forma, lidar com Sasuke era o meu trabalho. Eu dei a Ino um olhar determinado e deslizei a chave do quarto na fechadura. Hora de vestir o chapéu de mulher dura, que de acordo com o meu ex, definitivamente combina comigo.
Aos poucos, com calma, abri a porta. A um metro do meu rosto um copo se chocou contra a parede. Com o susto, me joguei no chão, meu coração estava a mil dentro do meu peito.
— Sakura, — Sasuke gritou. — Sai daqui!
Aquele grande filho da puta!
Sorte que eu usava calças, ou minha calcinha estaria a mostra. Esse tipo de coisa me fazia se perguntar o que eu ainda fazia ali, perto daquele maldito astrozinho de rock.
— Jogue mais alguma coisa Sasuke, e vou enfiar meu salto de oito centímetros na sua bunda. Você vai precisar de uma equipe cirúrgica para extraí-lo. — Eu olhei para ele por trás da minha franja rosa que caíra em meu rosto e a ajeitei. — Entendeu?
Ele apertou os olhos em minha direção.
Eu o encarei.
O mesmo rabugento de sempre.
— Você está bem? — Itachi Uchiha atravessou a sala, contornando uma mesa lateral quebrada e uma lâmpada esmagada e me ofereceu sua mão, ajudando-me a levantar. Ambos os irmãos Uchiha tinham aparência, dinheiro, fama e talento. Apenas o mais velho deles tinha boas maneiras, no entanto. Independentemente de etiqueta, meu olhar ficou colado no homem furioso, do outro lado do quarto.
— Tudo bem. Obrigada. — Me coloquei de pé, arrumando a pequena bagunça feita em minha camisa listrada.
— Eu não acho que ele esteja fazendo nada de errado... — Itachi disse em voz baixa para mim. — Apenas tendo um dia ruim, sabe? É um momento difícil para todos, Sakura.
— Sim. Eu sei. — Soei compreensiva.
A nossa frente Sasuke andava para trás e para frente, com as mãos fechadas em punhos. Normalmente, ele era um mauricinho em suas Ferrari's, juntos com um show de perfeição. Cabelo bagunçados moldando o rosto e os olhos fortes e sempre sedutores. Como um colírio para os olhos. Seu status de Deus do Rock era ideal.
Hoje, após um mês trabalhando para ele, Sasuke estava irreconhecível, como se algo saísse de dentro dele e o libertasse. O estado dele e do quarto eram chocantes. Nada parecia ter sido deixado ileso. Devo ter parecido algum boneco de ventríloquo, minha cabeça girava para um lado e outro, tentando absorver tudo.
— Que bagunça. — Eu murmurei.
— Quer que eu chame alguém para limpar? — Itachi perguntou, solidário.
— Não, eu dou um jeito nisso. Obrigada.
Ele voltou a olhar Sasuke. Seus olhos também estavam tristes e aquilo doeu em mim.
— Ino está lá fora. — Informei, lembrando-me dela que não teve a mesma coragem de entrar.
— Ela veio nos buscar para o funeral. — Itachi murmurou.
— Pode ir ficar com ela. Eu cuido disso.
Ele me deu um olhar beirando a descrença.
— Não consigo imaginá-la fazendo qualquer coisa aqui.
— Mas eu farei. — Respondi com firmeza. O encarei sem me deixar intimidar e logo ele soltou um suspiro, amolecendo os ombros.
— Tem certeza?
— Absoluta. Nos encontraremos lá em baixo. — Confiança era tudo. Fui até a porta aberta e a segurei, tendo o olhar preocupado de Itachi como resposta. Meu sorriso falso, aparentemente, tinha falhado. Ele deu alguns passos incertos até a porta, mas eu empurrei suas costas para que saísse gentilmente.
— Acho que vou ficar por aqui... — Ele disse, plantando os pés no pequeno tapete de boas vindas. — Apenas por precaução.
— Você me contratou para lidar com ele. Não se preocupe. Nós vamos ficar bem. — Eu disse, fechando a porta na cara de um Itachi apreensivo.
Sasuke continuava andando pelo piso amadeirado, ignorando a minha presença.
Tomei uma respiração profunda, e depois outra. Forte e lenta. Fria e calma. Todas as conversas estimulantes habituais giraram ao redor e dentro da minha cabeça, enquanto encarava a porta fechada. “Você não precisa ser perfeita para fazer um trabalho, você só precisa ser motivada. Eu preciso de uma grande energia para esse homem, o seu bem-estar era o meu trabalho, a minha prioridade. Era isso que não me deixava voltar correndo para casa chorando e dizendo para minha mãe que meu plano de ser independente aqui no Japão falhou” A madeira rangeu sob meus calcanhares quando me virei para ele, determinada.
Fiz meu caminho pelo tapete, em torno do sofá derrubado e sobre a lâmpada quebrada. Eu não queria adivinhar o quanto sairia caro para colocar todas essas coisas no lugar.
Sasuke me deu um olhar sombrio quando me aproximei. Suas pupilas pareciam bem, do tamanho normal. Ele bateu com sua bunda em uma das poltronas que não fora arremessada, apresentando irritabilidade e agressividade, mas excelente coordenação.
— O que está acontecendo? — Eu perguntei, parando a frente dele.
Não havia sinais de sangue, e apesar de seus dedos estarem arranhados e rosa, não estavam machucados. Afastando as pernas, ele apoiou os cotovelos nos joelhos e baixou a cabeça.
— Saia, Sakura. Quero ficar sozinho.
— Eu não acho que seja uma boa ideia.
Ele bufou.
— Não é um pouco clichê destruir seu quarto?
— Foda-se.
Eu suspirei.
Tudo bem, então confrontar ele provavelmente não era uma boa ideia. Empurrei meu cabelo para trás da orelha, me dando a chance de pensar novamente. Hora de tentar algo novo. O homem só estava com uma calça de terno preta, sem camisa, sem sapatos. E o seu agradável peito e ombros descobertos, ele não poderia ir assim a um funeral.
— Sasuke, vamos embora logo, precisa ficar pronto. Você não quer se atrasar, não é? Isso seria desrespeitoso. E além do mais, estão todos lá embaixo esperando por nós.
Ele ficou em silêncio.
— Sasuke?
— Eu odeio quando você usa essa voz... — Ele disse, ainda olhando para o chão.
— Que voz?
— Quando você tenta me acalmar e parece minha terapeuta. Você não precisa fazer isso, pare com essa merda.
Não havendo resposta certa, eu mantive minha boca fechada.
Veias se destacaram ao lado de seu pescoço e um brilho de suor delineava a musculatura das costas. Apesar da raiva, no entanto, sua pose era de um derrotado. O homem poderia ser mais do que um ocasional idiota arrogante, mas Sasuke Uchiha era forte e orgulhoso. Nesse mês que me tornei sua babá, tinha visto ele em todos os tipos de estados de espírito, a maior parte deles ruim e arrogante. Nunca, porém, abatido. Doeu. E a dor era tão indesejável quanto surpreendente.
— Eu preciso beber um pouco... — Ele disse com voz rouca.
— Não!
— Sakura... Merda. Eu não posso lidar com isso assim. — Sasuke murmurou para o chão, me fazendo pensar que perderia a voz por alguns instantes.
— Você pode.
— Só me dê um pouco... — Ele pediu novamente. Nunca ouvi seu tom sem toda aquela prepotência costumeira.
— Eu não vou fazer isso, Sasuke.
Ele ficou de pé repentinamente, com o rosto tenso em fúria. Cada instinto de sobrevivência em mim gritou para recuar, para correr e se esconder. Minha mãe sempre disse que eu era muito teimosa para o meu próprio bem. Mesmo nos meus saltos, Sasuke se elevou sobre mim, tornando-se mais alto. A adrenalina subia pelo meu sistema, mas ele não me machucaria.
Pelo menos eu achava isso.
— Uma maldita bebida. — Ele rugiu no meu rosto.
— Pare… — Respondi baixo, perdendo a força de confrontá-lo dessa forma encorporada.
— Você não tem ideia de como é isso. Eu só preciso de um maldito copo para me aguentar. Então vou parar novamente. Eu prometo.
— Não. — Não desviei meus olhos, apesar da vontade. Eu precisava continuar, eu precisava me mostrar firme.
— Pegue o telefone e peça para mim. Isso é uma ordem. — Seu tom superior, mais que conhecido desde que o conheci, surgiu repentinamente.
— Você quebrou o telefone.
— Então, pegue a sua bunda, vá até o térreo e me traga alguma coisa para beber.
Eu balancei minha cabeça negativamente.
— Você trabalha para mim! Eu pago seu maldito salário! — Ele apontou o próprio peito com um dedo para enfatizar o ponto. — Lembra?
— Sim. Mas eu não vou pegar uma bebida. Faça todas as ameaças que quiser. — Minha voz vacilou, mas eu não recuei. — Isso não vai acontecer.
Ele me encarou exasperado.
— Sasuke, você precisa se acalmar agora.
Sua mandíbula se apertou e suas narinas se alargaram.
— Eu não quero ter que chamar seu irmão e os outros, mas estou quase chegando a este ponto. Então, por favor, acalme-se.
— Porra! — E de repente, a sensibilidade que ele parecia ter escondido veio a tona, alterando sua expressão de fúria para uma desarmada. — Por favor, Sakura.
— Não. — Merda, eu não parecia convincente. Eu enrolei minhas mãos contra o meu estômago, convocando um pouco de força. — NÃO!
— Por favor! — Ele suplicou de novo, seus olhos eram aros vermelhos. — Ninguém precisa saber. Será apenas entre eu e você. Eu preciso de algo para tomar e aliviar a tensão. Kushina era... Ela era importante para mim. — Disse dolorosamente a última frase e eu me detive a não mostrar fragilidade.
— Eu sei e sinto muito que você a perdeu. Mas beber não vai ajudar... — Respondi, lutando para me lembrar de todas as sábias palavras que li na internet em relação ao alcoolismo. Mas meu sangue batia rápido, tornando impossível pensar direito. Eu não estava com medo dele, estava apavorada por ele. Todos lá embaixo estavam esperando sua melhora, que até então estava se mostrando fiel e sabia que vê-lo assim seria ainda pior, principalmente em um momento tão delicado e frágil. Eu não deixaria Sasuke desistir. Eu não podia. Era isso que eu sentia queimando em mim. — Beber é uma solução temporária que só vai dificultar as coisas à longo prazo. Você sabe disso. Você consegue vencer essa vontade. Você consegue!
— Nós estamos indo colocá-la embaixo da terra. — Sua voz falhou e ele caiu de volta na poltrona. — Ela nos alimentou, Sakura. Quando não havia nada em casa, ela sentava eu e Itachi em sua mesa e nos alimentava. Tratou-nos como se fossemos dela.
Meus olhos lacrimejaram. Por sorte, ele não estava vendo.
— Eu-eu não posso fazer isso.
Aparentemente, nem eu poderia. E para provar isso, eu fiquei ali totalmente inútil, com meu coração partido por ele. Eu me perguntava o que tinha acontecido com ele, para agir tão duro em seu cotidiano.
— Sinto muito... — Eu disse, e as palavras não eram suficientes.
A verdade era que Sasuke precisava de um terapeuta, um conselheiro ou alguém. Qualquer um menos eu, porque eu não tinha a menor ideia de como lidar com isso. O homem estava quebrando diante dos meus olhos e vê-lo desmoronar era uma tortura. Eu tinha sido tão desleixada nos últimos anos, sem cuidar até mesmo de mim. Agora, de repente, a dor dele era como se fosse minha, me dando a sensação que eu era incapaz de ajudá-lo.
O que diabos eu ainda estava fazendo aqui?
Quando assumi o trabalho, minhas instruções tinham sido assustadoramente simples: Fique colada ao seu lado e nunca, sob pena de morte, demissão, e tudo aquilo que seus advogados poderiam pensar, deixá-lo consumir uma gota de álcool ou um grama de drogas. Nem uma única pílula poderia ser permitida. Tendo em conta que ele estava limpo por vontade própria durante quase meio ano, não parecia uma tarefa tão difícil.
Até agora.
— Vou pegar seu terno... — Eu disse, piscando como louca, fazendo o meu melhor para me recompor. Qualificada ou não, eu era tudo que ele tinha naquele momento. — Preciso te ajudar a se arrumar e então nós vamos. Não podemos demorar mais.
Ele não disse nada.
— Nós vamos passar por isso, Sasuke. Nós vamos passar por hoje, então as coisas serão melhores. — As palavras tinham um sabor azedo. Eu esperava que não fossem mentiras.
O silêncio continuou.
— Ok?
— Por que eu disse que falaria no funeral? Que merda eu estava pensando? — Ele resmungou de repente, levantando o rosto para mim brevemente. — Os caras deviam saber que isso não daria certo, não deveriam me colocar nessa posição. Não estou em condição de fazer nada. Mas Itachi me falou “você precisa dizer algumas palavras por nós. Vai ficar tudo bem”. Que besteira! Nada vai ficar bem!
— Você pode fazer isso. — Eu assegurei..
— Eu não posso. — Ele esfregou o rosto com as mãos. — Senão vou estragar o funeral da melhor pessoa que já conheci, ou posso enfrentar isso se você me der uma bebida.
— Não. — Enfrentei-o. — Eles te pediram para falar, porque, provavelmente odeiam admitir isso, mas sabem que você é o melhor para fazer isso. Você é o vocalista. Você não precisa de uma bebida. Brilhar sob os holofotes é o que você faz. É quem você é.
Ele me deu um longo olhar. Tão longo que ficou cada vez mais difícil encarar seus olhos.
— Você consegue fazer isso, Sasuke. Eu sei que sim. Não há dúvidas.
Nenhuma palavra. Ele nem sequer piscou, apenas ficou olhando para mim. O olhar não era cruel, não tenho certeza do que era, foi confuso. Esfreguei minhas mãos úmidas contra minha calça.
— Tudo bem... — Eu disse, precisando escapar daquele silêncio embaraçoso. — Eu vou pegar o que falta para te vestir.
Braços fortes de repente estavam em volta de mim, me puxando de volta. Eu tropecei para frente, apenas para ser parada pelo rosto quente pressionado em minha barriga. Seu aperto era brutalmente forte, como se eu fosse lutar para rejeitá-lo. Mas eu só fiquei atordoada. Todo o seu corpo tremia, seus tremores passavam por mim, sacudindo meus ossos. Ele não fez nenhum som, no entanto. Algo umedeceu a frente da minha camisa, tornando-a pegajosa.
Poderia ter sido suor. Mas eu tive a sensação que não era.
— Ei! — Nenhum dia desse mês tinha me preparado para isso. Ele nunca precisou de mim para nada. Se eu fizesse qualquer coisa, o incomodava. Então ele dizia “Vá para o seu quarto e pare de me espiar” e nós entrávamos em confronto. Ele me interrompia. Eu fazia uma piada e o irritava ainda mais. A forma de funcionamento foi muito estabelecida a distância. O homem agarrado a mim era um completo estranho.
Minhas mãos pairavam sobre seus ombros nus, sem tocá-los, e o pânico borbulhava em mim. Eu definitivamente não estava autorizada a tocá-lo. Nem um pouco. O contrato de trabalho de cento e doze páginas tinha sido muito específico sobre o assunto. Antes disso, eu havia saído do seu caminho para evitar todo e qualquer contato, mas agora seus braços estavam apertados, e os dedos me prendendo. Tenho certeza que ouvi minha caixa torácica ranger. Porra, ele era forte. Ainda bem que eu era resistente, caso contrário, ele poderia ter me esmagado.
— Sasuke, eu não consigo respirar... — Eu ofeguei.
O aperto diminuiu um pouco, mas os braços grossos permaneceram em mim. Claramente, eu não iria a lugar nenhum.
— Talvez eu devesse ir chamar o Zabuza... — Eu disse em um golpe de gênio, assim que recuperei a minha respiração. O chefe de segurança, a qual eu ainda tinha empatia desde o dia da pizza, que parecia mais um bandido de terno. Mas aposto que ele dava ótimos abraços.
— Não.
Merda.
— Ou Itachi. Quer que o seu irmão volte?
Seu rosto moveu-se primeiro à esquerda e depois à direita. Outro não.
— Você não pode dizer isso a eles.
— Eu não vou.
Alguns segundos de silêncio que pareciam serem horas.
— Eu só preciso de um minuto... — Ele disse.
Eu fiquei rígida em seus braços, inútil, um manequim teria sido mais eficaz. Merda, eu tinha que fazer algo. Lentamente, muito lentamente, minhas mãos desceram. A imperiosa necessidade de confortá-lo de longe superou qualquer ameaça de processo ou uma cela gelada na divisa com marginais. O calor escorreu pela palmas de minhas mãos, Sasuke parecia febril, a transpiração descendo os contornos rígidos de seus ombros e a coluna grossa de seu pescoço. Minhas mãos deslizavam sobre ele, fazendo o meu melhor para acalmar.
Foi perturbadoramente agradável, ser necessária para ele, estar tão perto dele.
— Está tudo bem. — Meus dedos se enfiavam em seu espesso cabelo escuro. Tão suave. Não é à toa que não queriam que eu o tocasse, agora que comecei, não conseguia parar. Eu deveria estar com vergonha de mim mesma, sentindo o pobre homem em seu atual estado. Mas foi ele a iniciar o contato. Ele agarrou-me em busca de conforto e, aparentemente, quando ele veio a mim, eu tinha uma quantidade assustadora para doar. Quantidade que ausentei dentro de mim por não sentir mais vontade de me relacionar com esses tão repugnantes homens.
— O que eu vou dizer? — Ele perguntou com a voz abafada contra mim. — Como posso fazer a porra de um discurso desse jeito?
— Você diz o que ela significava para você. Eles vão entender. Basta falar com o coração.
Ele deu um suspiro trêmulo, descansando sua testa contra mim.
— Para completar, ela ligou. — Sasuke continuou amargamente, embora não visse seu rosto.
— Ela? — Dei um olhar afiado no topo de sua cabeça. Cheguei a pensar que poderia ser algum delírio e isso me deixou sem chão por poucos segundos. — Quem te ligou?
— Minha mãe.
— Oh. — Isso não poderia ser uma boa notícia. Melhor do que ele imaginando telefonemas da recém-falecida, mas ainda assim, não parecia boa. — O que ela queria?
— A mesma porra que ela sempre quer. Dinheiro. — Sua voz era áspera e baixa. Tão baixa que tive que me esforçar para ouvi-lo. — A avisei para ficar longe.
— Ela está na cidade?
Ele assentiu.
— Ameaçou aparecer e fazer um escândalo.
Inferno, a mulher parecia um pesadelo.
— Itachi não sabe... — Ele continuou. Meus dedos deslizavam sem que eu percebesse por sua pele, enquanto pensava a respeito da interesseira. — E é assim que vai continuar.
— Tudo bem. — Eu não sabia se era sensato, mas não era escolha minha decidir algo tão pessoal. — Eu não vou contar a ele.
Com seus ombros engatados sob minhas mãos, seu sofrimento nos rodeando como um escudo impenetrável, quase me sufocou.
— Você vai ficar bem. — Disse, apertando seus ombros com delicadeza. Meu coração doía e o distanciamento emocional parecia nunca ter existido. A compulsão para consolá-lo era muito forte. Ele era, geralmente, um homem tão enlouquecedor, tão impensado e rude. A raiva, no entanto, fez o meu trabalho mais fácil. Quando Sasuke se comportava como um idiota eu conseguia ficar indiferente na maior parte do tempo. Esses novos sentimentos perigosos me atravessando, era suave e sensível, quente e dolorido. De jeito nenhum eu poderia dar ao luxo de me importar tanto.
Merda.
O que diabos estava acontecendo comigo?
Ele agarrou meus quadris arredondados e virou o rosto para mim, desprotegido, pela primeira vez. Todas as suas arestas afiadas habituais foram entorpecidas pela dor e era algo que só fez sua beleza ficar mais evidente. Minha garganta secou. Dedos tensos se apertavam contra mim e sua testa enrugou quando ele fez uma careta para a mancha úmida na parte da frente da minha blusa.
— Sinto muito por isso.
— Não tem problema.
Ele me largou, e por um breve momento, desejei que continuasse ali. Tão rápido quanto, me acostumei com o protesto interno e dei passos para trás.
A intimidade acabou e o constrangimento correu como um maremoto.
Além disso, estávamos estranhamente próximos, como nunca havíamos ficado, e suponho, que ele nunca ficara assim com ninguém. Sasuke me deu um breve olhar envergonhado para reforçar o fato, no caso de não ter notado. Obviamente ele se arrependeu disso. Quero dizer, ele chorou na pessoa que ele contratou, pelo amor de Deus!
— Eu vou pegar seu terno... Calce seus sapatos enquanto isso. — Eu disse, agarrando a primeira ideia útil que entrou na minha cabeça para sair dali apenas um pouco e respirar fundo. Andei pelo pequeno corredor de madeira às cegas devido a escuridão e entrei no quarto. Pensamentos e sentimentos estavam correndo através de mim, tudo isso como um borrão. Assim que conseguisse um tempo, daria um jeito de ligar para minha mãe. Até onde eu sabia, minha família não tinha histórico de câncer. Mesmo sendo um tanto desnecessário essa linha de raciocínio, tive medo de perdê-la e provar dessa dor também. Ainda que estivesse longe, muito longe dela, meu amor por ela continuava o mesmo de quando saí de casa para ser alguém independente. Pena que a vida não tenha me transformado na filha que jurei ser. Lamentações a parte, peguei o terno escuro e alinhado e uma gravata da mesma cor no closet gigante de Sasuke. O meu quarto, do outro lado da suíte, não era ruim. Melhor do que todos que já tive, para ser honesta.
Voltei para sala quando o receio dele fraquejar novamente me atingiu, mas não o encontrei na poltrona. Andei pela sala bagunçada, passando os olhos em todas as enormes partes a sua procura.
— Ei. — Ele disse, aparecendo ao meu lado, assustando a loucura que crescia em mim.
— Oi. — Hesitei, um pouco sem fôlego e aliviada. Seu rosto estava lavado e uma toalha branca rodeava seu pescoço. Menos mal. Seus olhos avermelhados logo desinchariam.
— Temos que nos apressar... — Eu murmurei, mais para mim mesma, estendo a ele o terno, camisa e gravata. Sasuke pegou sem rodeios e começou a vesti-los. O observei vestir as peças rapidamente, com o olhar longe, sua mente, obviamente, repleta de pensamentos tristes. Peguei a toalha úmida de seu pescoço e ameacei tocar seu rosto, mas ele não reagiu, continuou concentrado em se vestir. Nós tínhamos que nos apressar, por isso não pensei a respeito.
— Fique quieto. — Eu disse, e embarquei pela primeira vez em limpar alguém. Basicamente, eu o enxuguei como uma louca. Embaixo dos olhos, nas bochechas, próximo a testa, até atrás das orelhas.
— Cristo. — Ele murmurou, abaixando-se para tentar escapar de mim.
— Fique quieto. — Ordenei, finalizando o trabalho e arrumando seus cabelos proporcionalmente. Sasuke ergueu o rosto, com o último botão de seu terno abotoado e eu senti que fiquei tempo demais observando o quão perfeito ele se tornara com apenas um simples terno e uma arrumação de cabelo. Por sorte, ele girou o corpo a tempo de não perceber minha admiração, passando os olhos pela bagunça do chão.
— Você precisa de alguma coisa? — Eu perguntei, seguindo-o como um cachorrinho perdido. Meus dedos esticados e tensos enquanto minhas mãos pendiam flácidas ao meu lado. De jeito nenhum ele precisava saber que me fazia tremer.
— As chaves do carro.
— Ah, aqui. — Eu enfiei uma mão no bolso de minha calça e a saquei. — Peguei um pouco antes de você começar a quebrar tudo.
Ele a pescou, colocando-a em seu terno.
— Tudo certo?
— Você tem o seu discurso? — Perguntei.
— Sim. Está no meu bolso.
— Ótimo. Eu só preciso pegar minha bolsa e jaqueta no quarto.
Sua cabeça assentiu e seu olhar deslizou por cima de mim.
— Você está bonita, por sinal.
— Ah, muito obrigada por ter reparado só agora. — Respondi em tom de ironia para disfarçar o quanto me atingiu. Choro, toques, elogio… Isso estava cada vez mais assustador.
— Não questione ao receber um elogio. Vá rápido.
Eu, no entanto, não me mexi. No começo eu estava atordoada com o elogio, mas, em seguida, por alguma razão, deixar Sasuke sozinho não parecia certo. A situação era embaraçosa. E se ele ficasse louco de novo e eu não estivesse aqui para acalmá-lo? Sua sobriedade era muito importante para o risco.
Lábios finos estudavam a mancha lentamente secando na frente da minha blusa.
— Você definitivamente não vai contar a ninguém? — Ele ergueu os olhos pretos para mim.
— Não. Não contarei.
O ar assobiou entre seus dentes e sua expressão se acalmou.
— Certo.
Eu balancei a cabeça, dando-lhe um pequeno sorriso.
— Escute, Sakura.
— Hum?
— Eu realmente estou bem. Não vou quebrar nada, nem me desarrumar. Então não precisa ter medo de me deixar sozinho... — Ele disse. — Está tudo bem, vai buscar as suas coisas. Faça o que for para que possamos sair.
— Certo! — Um desses sorrisos pouco envergonhado falsamente assustado saiu de mim. Merda. Estava tão na cara assim meus pensamentos? — Sim, tudo bem. Vou pegar minhas coisas.
— Ótimo. — Ele passou a mão pelo cabelo do mesmo jeito que vinha fazendo, talvez uma dúzia de vezes por dia, desde que eu tinha vindo trabalhar para ele. Não era nada novo. Imediatamente, porém, meu coração reagiu de modo diferente.
Não. NÃO!
Não poderia estar conectada a ele, eu me recusava a acreditar.
— Você vai? — Seu rosto distorceu com aborrecimento perante minha falta de movimentos. Sua irritação e grosseria vocal me aliviou, estávamos de volta ao normal.
— Sim.
— Não demore, estou te esperando aqui fora. — Ele disse, andando até a porta e a batendo.
Eu definitivamente não tenho sentimentos por Sasuke Uchiha. Que pensamento ridículo! Ele era um ex viciado. Além disso, não era um cara agradável a maior parte do tempo, ou melhor, nunca. Eu não tinha sentimentos por ele. Eu não poderia, de jeito nenhum! Tive uma queda por idiotas criminosos instáveis no passado, mas eu tinha acabado com isso. Oh sim, tinha. De jeito nenhum tinha sentimentos por ele. Eu realmente tinha crescido como pessoa no meio de tantas desilusões, certo?
Quando seu rosto veio a minha mente, meu coração apertou e um nó seco entalou minha garganta. O cheiro do aroma dele estava em mim, acelerando meus batimentos cardíacos.
Eu caí contra a parede mais próxima.
— Porra.
Fale com o autor