Sua voz

3 Capítulo 3 - Sentimentos dissipados, não excluídos


Notas iniciais
Desejo a todos uma ótima leitura. ♥

Então, chegamos ao funeral ao lado de Itachi, Ino e Gaara.

A mãe de Naruto, aparentemente, amava lírios. Minha cabeça girava com o aroma doce por todo o lado. Os assentos da frente tinham sido reservados para a família, o restante da igreja estava lotada. Me senti um pouco desajeitada ali sentada com os Uzumaki, dado o fato que eu mal a conhecia, mas era onde Sasuke me queria. Seguranças estavam na frente, impedindo qualquer bobagem sobre visitantes indesejados. Um grupo de fãs estava do lado de fora, histéricas e agitadas. Elas haviam chamado por Sasuke enquanto entrávamos, acenando camisetas e outras merdas para serem autografadas. Eu queria xingar e dizer-lhes para ter um pouco de respeito. Sasuke não tinha dado moral a eles, no entanto. Pensei que haveria mais respeito por sua privacidade, especialmente em um momento como este. Algumas pessoas simplesmente não pensavam ou não lhes convinha pensar. O que eles queriam era mais importante e que se foda os outros.

Deus, eu odiava pessoas assim.

Na frente, o instrumentista martelava um hino no órgão e as pessoas cantavam junto o melhor que podiam. Sasuke iria falar a seguir. Seu rosto parecia ainda mais pálido do que o normal, até mesmo um pouco cinza. Apesar da postura inatingível, ele claramente não estava bem. Eu agarrei sua mão, segurando-a mesmo quando ele recuou com o contato. O olhar que ele deu a nossas mãos unidas foi nitidamente desconcertado.

— Está tudo bem. — Eu disse ao seu lado.

Ele desistiu de tentar libertar-se de mim e começou a mexer no nó de sua gravata com a mão livre.

— Sasuke, você vai se sair bem.

A música se acalmou. Naruto se virou para nós do banco da frente e Deus, o rosto dele era irreconhecível. Estava devastado, com os olhos inchados e avermelhados de tanto chorar. Hinata, a namorada, estava ao seu lado, com o braço apertado em volta de sua cintura. Eu nunca tinha a visto antes, mas dispensei a admiração por sua beleza naquele momento.

Naruto então acenou para Sasuke, dando-lhe o sinal para tomar frente e começar a falar. Seus dedos agarraram os meus, com os nós apertados, mas ele não fez nenhum outro movimento. Ele tinha congelado.

Do meu outro lado, Itachi se inclinou para frente para ve-lo, franzindo a testa.

— Sasuke?

Havia um murmúrio na igreja, a multidão crescendo inquieta pela ausência de silêncio. Até no púlpito, o pregador procurou, esticando o pescoço e olhando com expectativa.

Alguém tinha que fazer alguma coisa.

— Vamos. — Eu coloquei minha mão em suas costas e empurrei. Forte.

Ele piscou muito lentamente, como se eu o tivesse acordado de um sono profundo.

— Hora de ir, Sasuke. Você está se saindo muito bem. — Eu sussurrei. — Vamos.

Com passos dolorosamente lentos, ele saiu para o corredor. Segui o peso de todos aqueles olhares que faziam o cabelo na minha nuca se arrepiarem a seu encalço. Não importa. Caminhamos lado a lado, minha mão guiando-o, nunca deixando suas costas. Subimos os degraus e depois para o pódio. Eu pesquei o discurso no bolso do casaco, colocando-o para fora na frente dele. Havia sussurros no meio da multidão sobre o nosso comportamento estranho. Foda-se. Nada importava, a não ser fazer com que ele consiga.

— Todos estão esperando. — Murmurei.

Ele fez uma careta.

— Sim.

Eu dei um passo para o lado, me distanciando.

Por um momento, seu olhar procurou a multidão, movendo-se sobre Itachi e Ino, Gaara, e depois Naruto e Hinata que o encorajavam com o olhar. Em seguida, ele se virou para mim, sua boca estava numa linha fina, mas seus olhos pediam algo. Dei-lhe um pequeno sorriso, um polegar para cima discreto. Nenhuma parte de mim duvidava que ele conseguiria fazer isso.

— Oi... — Ele disse no microfone, sua voz profunda e forte. — Meu nome é Sasuke Uchiha. Conheci Kushina Uzumaki quando começamos a ensaiar em sua garagem. Eu tinha uns dezesseis anos na época. O Sr. Uzumaki não estava muito feliz em nos ter lá no começo, mas Kushina o convenceu. Ninguém mais nos queria por perto. Para ser justo, fazíamos um inferno. Nós não tínhamos ideia do que estávamos fazendo.

Ele olhou para seu irmão Itachi e lhe deu um sorriso amargo. Limpou a garganta, e continuou: — Teve uma vez que ela me pegou bebendo na garagem, escondido. Não importava que eu fosse maior do que ela, Kushina me agarrou pela orelha, quase arrancou minha cabeça e então ela marchou comigo para fora, arrancando um bom pedaço da minha pele com este ato. Bom ou não, Kushina sabia como dar uma boa bronca. Depois ela se acalmou e falou comigo. Conversou sobre tudo de ruim que aquilo poderia me fazer passar, que eu não deveria começar a praticá-lo enquanto ainda conseguia me livrar… E a partir de então, ela sempre tinha um tempo para conversar comigo, mesmo que fosse apenas por dois minutos. Eu não era filho de Kushina. Eu provavelmente nem era um garoto que ela queria perto de seu filho. Ainda assim, ela sempre fez questão de me aconselhar e me repreender como alguém que realmente se importa. Ela ficou de olho em mim e Itachi, fez com que estivéssemos vestidos e alimentados, que tivéssemos o que precisávamos. Ela se importou quando ninguém mais ligou. — Ele fez uma careta, limpou a garganta novamente. — Ela se importou quando ninguém mais o fez.

Seus dedos esticaram-se e depois apertaram firmemente quando ele tomou um momento. — Eu gostaria de dizer que parei de beber na garagem de Kushina depois disso. É assim que a história deveria terminar. Mas uma parte de mim era um apenas um viciado, mesmo naquela época. Eu queria parar e dizer a ela que eu o fiz, mas mantive tudo em segredo. Eu não podia suportar a ideia de desapontá-la. Talvez isso faça parecer que ela não fez muito, que ela não teve muito efeito, mas o que Kushina fez por mim foi enorme. Ela foi a primeira pessoa que já conheci que me fez desejar ser melhor. Se você faz que até mesmo um cara como eu deseje ser um homem melhor, então você é algo especial.

Sasuke cuidadosamente pegou o pedaço de papel na frente dele e dobrou-o de volta. Não importava, ele não precisava disso. O discurso estava nele, na forma como ele estava mostrando o seu coração para essas pessoas. Ele era alto, de frente para a multidão. Sua verdade pode não ser bonita, mas não havia resistência em sua postura, ou orgulho. O calor floresceu em meu peito com a visão de vê-lo tão entregue e vulnerável.

— Isso pode parecer uma história estranha para contar em um funeral... — Ele disse, com sua voz medida e calma. — Mas, esquecendo a mim e a engrandecendo, essa é a demonstração que tenho para explicar porque Kushina foi tão importante. O que a fez tão incrível... Ela se importava. Ela realmente se importava com as pessoas. É por isso que é tão terrível perdê-la.

Limpei uma lágrima do meu rosto com a palma da minha mão antes que Sasuke conseguisse me pegar chorando. Infelizmente, não fui rápida o suficiente. Pelo menos eu não era a única pessoa nessa condição.

Ele se virou para mim, com o rosto desprovido de emoção enquanto palmas ressovam. — Vamos.

Funguei. — Sim.

Nós andamos de volta para os nossos lugares, foi sua vez de me guiar pelas costas. Antes que pudéssemos sentar, Naruto saiu a nossa frente e sem dizer nada, colocou seus braços em volta de Sasuke. Ele agarrou-o com força, dando-lhe uma pancada na parte de trás do jeito que os homens fazem.

— Obrigado, cara. — Ele disse em prantos.

Foi uma cena realmente emocionante.







Bati o garfo contra o prato após o segundo pedaço de torta e suspirei. Estava sentada no canto da sala de estar dos Uzumaki, Ino de um lado e Hinata do outro. Pratos vazios estavam em todas as nossas voltas. Viemos para cá após o velório. Comida, boa música, e quase todos os Uzumaki conhecidos estavam ali. O clima triste tinha prevalecido no início. É claro que tinha. Mas a conversa e o riso calmo haviam penetrado lentamente o espaço até que se tornou mais uma celebração da vida de Kushina do que um luto pela sua morte. Agora, cinco horas mais tarde, as pessoas começaram a diminuir. Eu sufoquei um bocejo, piscando os olhos cansados e me afogando ainda mais contra o encosto fofo da poltrona. Tinha sido um momento bem difícil, mas acho que posso considerá-lo vencido.

Naruto se ajoelhou na frente de Hinata e seus lábios exuberantes estavam compreensivelmente virados para baixo nas extremidades. Não que eu tenha o hábito de verificar a boca dos homens de outras mulheres. Às vezes, porém, as coisas eram um pouco difíceis de não notar.

— Ei. — Hinata disse suavemente, colocando a mão no rosto

dele.

— Preciso da sua ajuda.

— O que posso fazer para você?

— Diga que me ama. — Ele se inclinou e ela o encontrou no meio do caminho, colando um beijo suave em seus lábios.

— Eu te amo, Naruto... — Ela sussurrou.

— Não, você não ama. Você só está dizendo isso porque eu pedi. Isso é uma coisa horrível de se mentir. Eu não sei como você consegue dormir à noite.

— Eu durmo muito bem deitada ao seu lado, obrigada. — Ela sorriu e enfiou os braços em volta de seu pescoço. Durante muito tempo, eles se abraçaram apertado, se provocando e murmurando carinhos. Eu deveria parar de encarar o romance alheio, mas os dois juntos eram a melhor combinação de fofura que já presenciei. Uma vez que Naruto parecia achar seu repleto consolo nos braços da garota de olhos perolados e meigos.

— Onde está o Sasuke? — Ino perguntou para mim, me desvencilhando da novela em cenas vivas a minha frente.

— Ele está lá fora com o Sr. Uzumaki. Acho que quis correr um pouco de mim já que tenho estado no seu pé por dias.

— Ele fez um belo discurso.

— Sim, ele fez.

— E você fez um ótimo trabalho fazendo com que ele fizesse isso. Obrigada. — Ela sorriu fraco.

Tentei retribuir.

— É algo além disso, entende? Sua mãe o deixou cedo demais. Embora eu acho que foi, provavelmente, uma bênção. Do pouco que Itachi me contou, ela não era alguém que você quer por perto.

— Sasuke não tende a falar sobre ela. Ele não tende a falar sobre nada, na verdade. — Eu fiz uma careta para o prato vazio em meu colo.

Eu aprendi mais sobre ele nas últimas duas horas do que no último mês. Era uma responsabilidade muito grande. A maneira como o vi hoje foi diferente em todos os aspectos. E impactante também.

— Sim, Sasuke não é o que você chamaria de tagarela.

— Muito longe disso.

— E ainda assim você sobreviveu mais tempo que todos. — Com um pequeno suspiro, Ino passou as mãos sobre a barriga. Ela também já havia provado várias das sobremesas. — Você está obviamente fazendo um ótimo trabalho.

— Hum. Eu me pergunto que tipo de trabalho? — Eu olhei para o teto um pouco mais, com os pensamentos profundos.

— Sasuke não reclamou e nem te demitiu. Talvez ele goste de você. Talvez ele esteja solitário e apenas gosta de ter você por perto.

— Sim, certo. Nós estamos falando sobre o mesmo Uchiha aqui? O astro do rock?

— Que vergonha, Sakura. — Ela disse, com sorriso desmentindo suas palavras. — Você tem estado em torno por tempo suficiente para saber que ser um astro do rock nem sempre significa o que representa.

— Talvez...

— Se ele não te dispensou, é por uma razão.

— Ele falou com você algo sobre mim? — Eu perguntei, curiosa.

— Não. Mas suponho que seja devido à oportunidade.

Sabe o sorriso dela? Eu não confio nele.

Escutei passos batendo e Itachi marchou até nós. Um pequeno cachorro preto-e-branco se contorcia em suas mãos, o rabo abanando loucamente. Ele não parecia muito feliz.

— O cachorro mijou no meu sapato.

— Oops. — Hinata desgrudou de Naruto para dar-lhe um sorriso culpado.

— Não é engraçado. — Itachi resmungou, soando tão parecido com seu irmão, que por um momento pareciam ser gêmeos. Foi fofo.

— É isso aí, Sasuke junior. — Naruto levantou o cão das mãos de Itachi. — Eu estou orgulhoso de você, filho.

— Ele não vai mesmo mudar o nome? — Ino perguntou.

Hinata deu de ombros, estendendo a mão para coçar a cabeça do cachorro.

— Eu meio que me acostumei com ele, então...

Todos riram e minha imaginação voou para a expressão retraída de Sasuke caso soubesse do batismo. Ele, sem dúvidas, resmungaria palavrões para o amigo. Típico dele. Um sorriso pequeno se formou em meus lábios e eu me perguntei se ele estava bem, conversando com o Sr. Uzumaki.

De repente, um grito alto ressoou do lado de fora. Outro imediatamente atrás. Só que dessa vez, o barulho continuou e continuou. Poderia ter sido um animal, se não houvesse palavras contidas e furiosas.

— O que é isso? — Eu perguntei, me erguendo.

— Que diabos? — Naruto se apressou, entregando o cachorro para Hinata. Ele e Itachi correram para porta e eu e Ino fomos atrás deles. Lá fora, o ar frio me deu um tapa no rosto após o calor da casa. Foi a cena mais estranha e perturbadora que já vi. Embaixo de uma árvore de carvalho, uma mulher furiosa gritava com Sasuke.

Itachi correu em direção a eles.

— Mamãe. O que você está fazendo aqui?

Mamãe?

— Seu ingrato fodido... — A mulher mais velha gritou, ignorando seu filho mais velho completamente. — Você acha que eu não vou contar tudo?

Sasuke nem piscava, não havia outra expressão em seu rosto se não desprezo.

— Vá em frente. Eu não vou te dar mais dinheiro. Já lhe disse isso essa manhã. O que diabos imaginou que ia conseguir aparecendo aqui?

Ela tinha longos cabelos escuros e a maçãs do rosto saltadas. A semelhança da família era óbvia, só a pele estava afundada e seu cabelo pairava em fios atados pelas costas.

— Suas ameaças não me assustam. — Ela zombou.

— Mãe, isto é um funeral. Saia daqui. — Itachi disse, tomando uma posição ao lado do irmão.

— Itachi, você sempre foi mais gentil e compreensivo comigo. Você vai ajudar a sua pobre e velha mãe, não vai? — Sua voz era nociva, falsamente doce. — Apenas um empréstimo, filho. Eu só preciso de um pouco de ajuda para seguir em frente.

Os ombros do homem se endireitaram.

— O que aconteceu com o dinheiro que te enviei na semana passada?

— Eu tive que comprar algumas coisas para minha nova casa. Mas agora preciso do meu remédio.

— Seu remédio? Que mentira descarada. — Sasuke rosnou. — O que você precisa fazer é cair fora daqui antes que eu chame a polícia.

— Saia, mãe. — Itachi disse manso. — Isso não está certo. Estamos aqui para dizer adeus a Kushina. Tenha um pouco de respeito, por favor.

As pessoas estavam se reunindo na porta da frente atrás de nós, observando a cena horrível com seus olhos arregalados e curiosos. A vadia apenas continuava em frente com sua imitação de bruxa. Como uma mãe poderia ser tão mesquinha e desumana? Mas o que isto deve ter causado em Sasuke era a minha verdadeira preocupação. Deus, isso era a última coisa com que ele deveria lidar hoje.

Eu silenciosamente me movi atrás dele, chegando mais perto, caso ele precisasse de mim. No momento em que tivesse a chance de pôr fim a essa merda, eu faria.

Sua mãe deu uma gargalhada debochada.

— O que essa morta fez além de virar os meus filhos contra mim, huh?

— Não seja rídicula. Dê a si mesma algum crédito. — Sasuke disse, com sua voz cortante. — Você está tendo a chance de sair daqui enquanto tudo ainda está bem.

A mulher rosnou para ele, na verdade, aumentando o lado de seu lábio como um animal raivoso. Se ela começasse a espumar pela boca, não teria me surpreendido nem um pouco. Uma potente mistura de ódio e loucura encheu seus olhos. Não é de admirar que Sasuke tivesse seus problemas. Eu não conseguia imaginar ele sendo submetido a isso quando garoto.

— Você não passa de uma viciada. — Ele disse para seu rosto, provocando-a. — Uma escória desagradável de sugadora da qual temos muito azar de sermos relacionados. Agora dê o fora daqui antes que eu mande a polícia atrás de você. Diga à mídia o que você quiser porque eu não vou dar a porra de dinheiro algum a mais para você comprar suas drogas. E se você acha que há alguma chance de eu deixar você tentar a mesma coisa com Itachi, está ainda mais louca. — O rosto dela ficou roxo como se estivesse tendo uma convulsão. — Saia daqui.

Com a boca contorcida, a mulher foi para cima de Sasuke. As unhas sujas arranharam sua bochecha, deixando brutas linhas de sangue. Sem pensar, avancei, empurrando-a para longe. Louca de raiva, a mulher voltou para Sasuke novamente, tentando o abocanhar com os dentes. A raiva trovejava através de mim, me aquecendo até mesmo do frio. Eu a empurrei de novo pelo peito, dessa fez mais forte. Seu controle de equilíbrio vacilou e a mulher se estatelou no chão frio e duro. O casaco verde puído se abriu, revelando um vestido de verão desbotado e manchado. Suas pernas eram magras, cheio de feridas vermelhas e irritadas. Meu Deus, como essa mulher ainda estava viva?

— Eu vou processá-la. — Ela urrou para mim. — Isso é agressão. Você acha que eu não sei de nada?

— Acha que isso vai funcionar? — Sasuke disse atrás de mim, me colocando para trás dele novamente. Ele apontou para seu rosto e elevou ainda mais a voz. — Olha o que você fez no meu rosto, isso sim é agressão! Sakura apenas me defendeu. A polícia vai rir de você se tentar.

— Isso não vai ficar assim, seu merdinha. — As características finas do rosto dela se torceram em desprezo. Lentamente, a senhora Uchiha voltou a ficar em pé, envolvendo o casaco longo apertadamente em volta de seu corpo.

Nenhum de seus filhos disse nada. Itachi parecia ter entrando em algum transe de incredulidade profunda.

— Vadia estúpida! — Ela cuspiu para mim, então tropeçou pelo gramado ao se afastar, saindo para rua. Me senti extremamente aliviada.

— Então, não há chance de eu ir para a cadeia, certo? — Eu perguntei, apenas curiosa. Tudo bem, talvez um pouquinho com medo das ameaças da mulher louca.

— Claro que não. — Sasuke olhou para mim por cima dos ombros. Três linhas sangrentas estavam gravadas em sua bochecha.

A visão trouxe o frio correndo de volta.

— Precisamos limpar o seu rosto. Vamos entrar.

— Você sabia que ela estava na cidade? Sabia que ela viria aqui? — Itachi observava a forma de se retirar de sua mãe, com seus longos cabelos escuros voando selvagens ao vento.

— Sim.

Os lábios de Sasuke nitidamente se alinharam.

— Por que você não disse nada?

— Tem coisa suficiente acontecendo para se preocupar com ela.

— Pelo amor de Deus, cara. Ela é minha mãe. O que te dá o direito de esconder isso? De tratá-la assim? — Sua voz ganhou uma entonação maior, quase agressiva. Itachi se virou de frente para o irmão e sua expressão era de fúria. Tive medo que mais uma desgraça pudesse acontecer.

— Você viu que foi ela quem começou toda essa cena, certo? — Sasuke perguntou de forma mansa. Ele não tinha a pretensão de discutir.

— Não importa! — Ele disse alto. — Porra, você poderia ter evitado isso se me contasse! Preferiu fazer as coisas do seu jeito, assim como você sempre faz. Só consegue pensar em você, agir por você e está se fodendo para que os outros acham.

Os olhos de Sasuke não se moviam, continuavam fixos no irmão.

— Eu não precisava ter visto isso. Não precisava ter presenciado a cena em que ela é ainda mais humilhada, em público, como se fosse um animal leproso!

— O que você quer fazer, colocá-la em um abrigo? — Sasuke se manifestou igualmente alterado. — Ela não vai ficar! Devemos comprar algumas roupas mais quentes? Ela vai trocar por bebida e drogas em menos de um minuto. É tudo o que ela se preocupa e é tudo que ela quer.

— Sim, mas...

— Mas o quê? — Sasuke perguntou, com o sangue escorrendo lentamente de seu rosto.

— Merda. — Seu irmão passou a mão pelos cabelos na altura dos ombros. Eles realmente eram semelhantes em muitos aspectos. — Será que é realmente fácil para você simplesmente virar as costas?

— Porra cara, você está bem? — Naruto interveio, cauteloso.

— Sim. — Sasuke se virou para ele. — Eu sinto muito sobre isso, ela vir até aqui e tudo...

— Isso não foi culpa de vocês. — Todo mundo deveria ter um pai como o de Naruto. Sua voz era absoluta, não permitia nenhuma besteira. A boca de Sasuke abriu para protestar e o Sr. Uzumaki levantou uma mão, o impedindo. — Não, filho. Isso é o suficiente. Por que não vamos todos para dentro agora, sair desse vento.

Como o show terminou, os espectadores sobre os degraus da frente começaram a se mover para dentro. Sasuke acenou com a cabeça e também fez o que lhe foi dito. Segui ele e Naruto mas ao lançar um olhar vago para trás, vi as costas de Itachi se afastando pelas ruas.




Alguns dias depois...



— Como isso é possível? — Sasuke perguntou com uma voz lacônica, sem tirar os olhos da TV. Na tela, um jogo de hóquei passava, alguém contra alguém. Não, eu sinceramente não me importava nem um pouco.

— Hum? — Eu perguntei, o dedo brincando sobre a tela do meu e-reader.

— Isso é impossível! Foi roubo!

Eu demorei um pouco para entender que ele estava se referindo ao jogo e não a mim. Enquanto eu o olhava, acabei pensando sobre os dias passados, inevitavelmente. Me peguei pensando sobre isso por todos os dias, para ser honesta, e em questão, algo me perturbava.

— Porque está me olhando por tanto tempo? — Sasuke virou o rosto em minha direção, me flagrando.

— Não, eu não estou.

— Sim, você está. — Ele assegurou. — Você vem fazendo isso todos os dias, na verdade.

— Você está imaginando coisas.

Não, ele não estava imaginando coisas. Desde aquele dia após o funeral, as coisas estavam sendo diferentes. Eu tinha estado diferente. Eu não conseguia ver, ouvir, ou estar perto dele sem reagir de maneiras que eu sinceramente desejava não fazer. Ao contrário das minhas esperanças, os sentimentos não haviam se dissipado. Em vez disso, eles pareciam ter se estabelecido para durarem, afundando mais e mais no meu coração e mente. Todos esses vislumbres de sua psique e seu passado conturbado tinham mudado as coisas de forma irrevogável. Tanto na forma como eu olhava para ele, como a frequência. De alguma forma, eu sentia, ou me enganava, que somente eu conhecia o verdadeiro Sasuke. Aqueles que todos raramente conseguiam ver em seu cotidiano.

— Eu não vou surtar novamente ou algo assim, Sakura. — Ele disse. — Relaxe.

Uma pausa. Pelo menos sua percepção em deduzir as coisas era péssima, por sorte.

— Eu não estou preocupada com isso.

— Então pare de olhar para mim toda vez que eu estiver distraído. — Ele resmungou.

— Eu não olho! — Protestei.

Ele afundou ainda mais para baixo, no canto do sofá, com uma carranca embutida em seu belo rosto. Jeans e uma camisa Henley preta formavam um traje casual para Sasuke usar em casa. Não duvidava que um modelo masculino pudesse estar usando este traje em algum evento especial. O homem tinha estilo inato, ou qualquer peça de rouba cabia perfeitamente em seu porte. Com meu cabelo desordenadamente amarrado em cima da minha cabeça e meus óculos de leitura apoiado no fim do meu nariz, eu provavelmente parecia uma velha prestes a tricotar.

Eu coloquei o meu e-reader de lado e me endireitei no sofá, tomando postura.

— Você não ligou para seu irmão de volta.

— Hmm.

— Ele ligou duas vezes, Sasuke.

Tive um encolher de ombros como resposta.

Uma densa chuva escorria pelo lado de fora da janela e um poste de luz brilhava na distância. Clima frio e úmido, típico para essa época do ano. Apenas o pensamento de como estaria do lado de fora foi o suficiente para me fazer tremer.

— Eu poderia pegar o telefone para você se quiser. — Eu disse. — Estava prestes a ir buscar algo para beber mesmo...

Ele alisou o cabelo para trás com a palma da sua mão em um ato impaciente.

— Por que você está aqui? Você normalmente se fecha em seu quarto à noite.

— A minha presença aqui é um problema? — Ergui uma sobrancelha.

— Não disse isso. Apenas querendo saber o que mudou.

Muito tinha mudado. Muito e, em seguida, um pouco de confusão da qual eu ainda tentava desvendar. Nenhuma conclusão aceitável havia sido apresentada.

— Nada mudou. — Menti. — Só fiquei entediada no quarto.

Eu puxei meu grande cardigã verde e confortável que estava muito apertado a minha volta e o alarguei, me sentindo insegura. Além disso, os meus faróis estavam altos pelo frio.

— Ok. — Ele disse.

Era isso. Chegamos na parte em que as palavras faltariam e nós ficaríamos sob o maldito silêncio. Voltei meus olhos para meu e-reader, sem dar trela para algo que eu já deveria estar mais que acostumada.

— Está com frio? — Quando ouvi sua voz novamente, controlei minha surpresa.

— Perdão?

Sua cabeça estava contra o encosto do sofá, lentamente me olhando por cima. Nada mudou em seu rosto, mas seus olhos pareceram amigáveis de alguma forma. Ou talvez eu só estivesse imaginando coisas.

— Vocês está toda agasalhada. — Ele disse. — Precisa que eu ligue o termostato?

— Não. Obrigada. — Talvez seja necessário colocar um pouco de enchimento no meu sutiã, assim meus mamilos ficariam menos óbvios na presença dele. A sala, no entanto, estava adorável e quente e o sofá debaixo da minha bunda era bem confortável. Sasuke não tinha limites em luxos para a sua vida. Ele não era barato.

— Estou bem. — Reformulei sob seu olhar. — Então, quem está ganhando o jogo de hóquei? — Eu enrolei minhas pernas vestidas com jeans debaixo de mim.

— Não estou realmente prestando atenção nele. Você pode escolher algo para assistir, se quiser.

— Tudo bem. — Eu estendi minha mão para o controle remoto.

Uma risada suave saiu dele, um som raro e delicioso, de fato. Fez cócegas sobre a minha pele da mais estranha, contudo, foi agradável.

— Sem chance, Sakura. Só eu que posso comandar o controle remoto. Vou percorrer os canais e você pode me dizer se alguma coisa lhe atrai.

— Só você pode operar o controle remoto? — Questionei.

— Sim.

— Exercer domínio pelas coisas é seu hobby favorito?

— É um moderníssimo Home Theater, importado direto da Alemanha, especialmente para mim. — Ele acenou para o controle remoto preto balançando ao redor como se fosse ouro. — De jeito nenhum eu vou arriscar isso com você.

— O quê? — Fiquei de boca aberta. — O que quer dizer, você não vai arriscar isso comigo?

— A máquina de café. — Ele pegou uma almofada e enfiou atrás de sua cabeça, mudando até o primeiro canal. Um programa de culinária.

— Eu mal toquei na máquina. Foi uma estranha falha mecânica. — Virei os olhos. — Mude.

— Tanto faz.

Em seguida era algum filme antigo dos anos 80.

— Continue. — Eu pedi. Um velho episódio do meu J-Drama favorito cintilou e eu sorri com meu personagem explodindo na tela. — Ooh, Sakamoto, você é adorável. Mas eu já vi este, então continue.

— Graças a Deus. — Sasuke apertou o botão e veio um documentário sobre a natureza. Ou pelo menos eu esperava que fosse isso, dado que um cavalo preto brilhante montou em uma égua e começou sua saliência repentinamente.

— Nossa, cavalos transando, isso é lindo. Pode deixar.

— Não seja ridícula. — Ele passou para outro canal e eu sorri.

Antes que eu pudesse formar uma resposta, o sexo animal alterou para Jockey, o filme a qual eu sempre fui apaixonada e o reveria pelo resto de minha vida se pudesse. Dei um salto sobre a almofada e apontei para a TV.

— Pare aí. Pare!

Sasuke estremeceu, esfregando a orelha.

— Ai porra, não grite.

— Esse é lindo demais! — Dois dos protagonistas estavam conversando, vestidos com Kimonos e se desafiavam a lutar. — Conta a história de Samurais.

— Sim. As roupas e espadas são obvias.

— Os Kimonos não são lindos? — Abracei minha almofada feliz. Eu viveria e morreria em jeans, mas era me imaginar em um daqueles. — Kaguro é o de cabelo azul. Ele é o mestre das artes, mas desde muito cedo perdeu toda a família e foi criado com dor e sofrimento, treinado somente para matar seus inimigos e não nutrir nada por eles.

Sasuke piscou para a tela, mas nem me importei com sua demonstração de desinteresse.

— E aquele Makku — Eu apontei para o outro personagem. — Ele têm o defeito de controlar tudo a sua volta, manipular e achar que pode resolver tudo sem o consentimento das pessoas. Mesquinha e bastante egocentrico. Não se parece semelhante a alguém que conhecemos? — O dei um olhar implicante.

— Você fala muito. — Ele bocejou. — Eu posso ver ou você vai continuar narrando?

— Você vai assistir comigo? — Perguntei, surpresa.

— Se você deixar. — Ele manteve os olhos na tela. Eu pensei ter detectado uma pitada agradável em sua voz. Talvez Ino tenha razão e ele esteja muito sozinho. Frequentemente, os caras estavam ocupados, depois que a banda deu uma pausa devido a Naruto e seu estado. Sasuke estava mais isolado do que o normal e eu não sei se deveria me preocupar com isso.

Ficamos em silêncio por um tempo, nós dois estudando a tela. Bem, com exceção de mim, ocasionalmente, o olhava. Com o tempo eu seria uma especialista em olhar as pessoas de soslaio.

Sasuke colocou as mãos para trás da cabeça, rosto relaxado e de olhos abertos e fixos no filme. Curiosamente, ele foi pego pelo drama. Mas algo ainda perturbava minha mente.

— Tem certeza que você não quer ligar para Itachi? — Eu perguntei após um tempo.

O canto da boca dele virou para baixo.

— Eu vou colocar de volta no jogo se você não ficar quieta.

— Não é da minha conta, você está certo. Só pensei que seria uma boa ideia. Somada as últimas três, no total foram dez ligações. Mas vou ficar quieta e não te notificarei mais com isso.

— Obrigado. — Ele respondeu. Voltei minha atenção para o filme, embora não fosse conseguir o acompanhar e desta vez senti os olhos de Sasuke me fitarem. Não virei para corresponder, meu coração bateu forte e eu me condenei por isso. Estava ficando cada vez mais forte.