Sua voz
15 Capítulo 15 - A consequência de todos os atos
Eu estava atrasada para o trabalho.
Sr. Tomoyo tinha deixado um recado para minha mãe que precisaria de mim até o início da tarde, que como ofereci meu serviço até nos dias de folga, ele poderia me chamar quando quisesse.
Corri como uma louca para me arrumar. Entrei apressada no banheiro, saltei para dentro do chuveiro. Esfreguei bem o rosto para me livrar dos restos de maquiagem da noite anterior. Uma coisa nojenta e incrustada. A noite anterior fora toda um sonho bizarro. Mas a vida amargaria mais se você se entregasse a ela.
Trabalho, estudo, amizade. Meus planos para o futuro. Essas eram as coisas importantes. E se eu continuasse a repetir essas coisas para mim mesma, tudo ficaria bem algum dia. O sr. Tomoyo me recebeu com um sorriso e em vez de bronca, pediu gentilmente para que eu me apressasse. Acho que eu não conseguiria encontrar um chefe melhor. Mas um atraso era sempre um atraso. Nada bom.
Durante a noite, fiquei acordada me preocupando sobre o ocorrido com Sasuke naquele beco. Revivi o momento em que ele disse que sentiu minha falta. Dormir teria sido muito mais benéfico. Uma pena que meu cérebro não tinha um botão de desligar.
Vesti a saia lápis preta, a camiseta do uniforme do café e um par de sapatilhas. Nada ajudaria a disfarçar as olheiras. Mas as pessoas já estavam acostumadas a vê-las em mim nos últimos tempos. Porém, foi preciso quase metade do tubo de corretivo para esconder o chupão no meu pescoço. Saí apressada para atender as duas senhoras que acabavam de sentar à mesa.
Apesar de tudo, o dia foi calmo e tranquilo. Isso, fora de mim, claro. O melhor amigo de Deidara, Sasori, visitou o café com convites para uma festa na fraternidade que estava se aproximando. Ele era um cara ruivo, olhos de um mel suave e agradável.
Eu informei que seu amigo não estava, mas ele não pareceu preocupado. Se aproximou do balcão e pediu um café amargo.
— Eu não sei bem dizer se você teve sorte ou azar em conhecer o Deidara.
Eu guardei algumas coisas dentro da gaveta do balcão e fechei o caixa.
— Você acha? Ele é um cara legal.
— Se eu te contasse a metade das coisas que esse cara fez na faculdade você se afastaria. Acredite.
Eu dei um sorriso e busquei o pano para tirar pó.
— Você está sendo malvado com ele. — Eu ergui uma sobrancelha. — É isso que melhores amigos fazem quando estão distante do outro. Zoam.
Uma risada.
— Está tentando se convencer que eu estou errado para não acreditar?
— Não.
— Eu pareço ser alguém tão manipulador assim? — Seus olhos nunca me deixando. Era agradável.
— Você não parece. Apenas um cara divertido.
Sasori me encarou por um momento.
— Então saia comigo.
— Perdão? — Eu parei meus movimentos.
— Eu tenho muitos convites. Deidara e Konan foram chamados, seria injusto deixá-la de fora.
Certo. Então não era como um encontro ou um flerte. Me senti um pouco melhor. A última coisa que eu precisava era de um novo relacionamento.
— Eu não sei se é uma boa ideia. — Respondi. Ele escorou o corpo para frente do balcão.
— Me dê três motivos e eu não insisto.
Os cabelos vermelhos dele me lembravam o de Gaara, mas a fisionomia era diferente. Sasori tinha um ar angelical, meigo e ainda assim deixava sua masculinidade exalar de seus traços suaves.
— Sakura, pode fechar a loja! — Meu gerente gritou da sala dos fundos e eu despertei de seja lá o que eu estava fazendo no rosto de Sasori. Ele me seguiu com os olhos, apoiando um braço no balcão.
— Ok!
Eu fechei as persianas que iluminavam o ambiente primeiro.
— Você está mesmo esperando que eu responda?
Depois empurrei as cadeiras mais afastadas para dentro da mesa.
— Se você não dizer, eu vou ver isso como um sim.
Um sorriso. Muito bonito, por sinal.
Neguei com a cabeça. Eu tinha o visto poucas vezes aqui no café, na passagem para sua faculdade. Raramente trocamos um ou outro “bom dia” de longe, mas isso não nos tornava próximos, certo?
— Porque esse interesse repentino em me levar? — Eu perguntei parando próxima a porta. Curiosidade me paralisou por segundos.
Ele deu de ombros.
— Foi indicação do Deidara. Ele disse que você é uma garota legal e precisa se divertir.
— Preciso?
— Ele não me contou nada particular da sua vida, relaxa.
Como se lendo minha mente, Sasori assegurou. Eu fui para as portas de entrada virar a placa antes que alguém entrasse e recolhi o tapete da entrada. Enquanto sacudia, meu olhar vagou pela rua, distraídos e sem direção. Bom, até a o impacto me atingir. Com um pouco de força a mais do que o desejado, porque eu tinha quase certeza de que meu coração ameaçou parar.
Era ele, do outro lado da rua, encostado a parede clara da lanchonete já fechada. Uma excitação nervosa borbulhou dentro de mim. De boné e com a barba rala, Sasuke se misturava bem ao povo. Ainda mais com os cabelos curtos. Considerando-se a ausência de paparazzi e de fãs alucinados ao redor, isso ainda devia ser segredo para o resto da cidade. Era a distância de uma rua, com pessoas e carros.
— Sakura? — A voz atrás de mim foi um zumbido.
As mãos de Sasuke estavam enfiadas nos bolsos dos jeans. Vê-lo se assemelhou à sensação de estar na beira de um precipício. A razão, por sua vez, ficava gritando comigo e disputando com a emoção. Em que ponto, exatamente, você sabe que está ficando louca?
— Sakura? — Uma mão tocou meu ombro, perturbação remexendo minhas veias. Sasori me olhou confuso.
— Está tudo bem? — Ele perguntou. Eu assenti, entrando. — Precisa de ajuda?
— Não. Eu já acabei. — Passei uma mão por meu cabelo, não arriscaria olhar pra fora novamente.
— Vou esperar que você me responda sobre o convite. Mas agora não é uma boa hora. — A compreensão era algo único. Eu poderia abraçá-lo por ser tão adorável. Mesmo sem me conhecer ou entender, não houve pressão. Eu fiz o meu melhor para sorrir. — Te vejo amanhã?
— Sim. — Eu respondi.
— Okay.
Com um aceno de mão, Sasori deixou o café. Antes que as portas se fechassem, captei um vislumbre de Sasuke ainda recostado. Minha respiração novamente desregulou. Puxei o avental do meu uniforme com força e fui até meu gerente resolver as últimas questões. No banheiro, lavei meu rosto para espantar qualquer receio de enfrentá-lo, coloquei apenas minha camisa e busquei a bolsa. Andar até ele diante do seu olhar exigiu todas minhas forças. Eu tinha opção de dobrar a calçada e me afastar, mas eu não fiz. Eu não correria. Ali era o meu lugar, ele era o intruso. Era ele quem precisava sair.
Eu parei a sua frente. O boné moldava seu rosto, era um ótimo disfarce.
— Sakura.
Tudo parou. Se um dia ele descobrisse o que fazia comigo quando dizia meu nome daquele jeito, eu estaria perdida. Deus, como senti saudades. Foi como ter um pedaço meu faltando. Mas eu não passaria por tudo de novo nem que me fosse pago toda a riqueza do mundo.
— Sasuke.
— Você parece cansada — Ele disse, a boca se curvando para baixo. — Quero dizer, você está bonita, claro. Mas…
— Tudo bem. — Avaliei a calçada, inspirei fundo. — Foi um dia agitado.
— Então é aqui que você trabalha? — Os olhos passaram de mim para a estrutura acima de meus ombros.
— É.
O café estava vazio e silencioso. A noite surgia rápida, as luzes e pisca-piscas reluziam na vitrine ao longo de uma fila de panfletos grudados no vidro anunciando isso ou aquilo. Os postes de luz se acenderam ao nosso redor.
— Parece legal.
Um suspiro.
— Eu sei que está se perguntando porque estou aqui. — Disse, pois me recusei a iniciar a conversa. Meu olhar sério e duro estava fixo. — Também sei que não quer ouvir, mas eu preciso ter essa conversa.
Cruzei os braços diante do peito.
— Você não precisa me dá explicação da sua vida.
— Deixa que eu me explique, Sakura. Por favor. Depois disso eu vou pegar o próximo voo para Tóquio e nunca mais apareço na sua frente.
Eu fiz uma pausa, disfarçar o quanto ouvir aquilo ainda doía não foi fácil.
— Por favor. — Os olhos dele quase me perfuravam.
— Aqui não. — Respondi.
Depois de um momento, comecei uma caminhada hesitante pela calçada. Sasuke logo se pôs ao meu lado. O silêncio vindo junto. Não tinha o que falar. Todo assunto parecia tenso. Um buraco enorme cercado de estacas afiadas em cada esquina. Sasuke ficou me lançando olhares de esguelha. Abrindo a boca e depois fechando. Ao que tudo levava a crer, a situação era horrível para nós dois.
— Como foi o seu dia? — Ele perguntou. — Além de agitado.
Se fosse em qualquer outra situação, eu riria como uma louca da pseudo-educação desconhecida. Aquele tipo de diálogo, definitivamente, não estava em seu repertório.
— Tirando o fato de que fui reconhecia por uma de suas fãs e insultada, acho que nada tão importante assim para ser contado. — Respondi tentando aliviar a tensão. Suas feições ficaram carregadas, as sobrancelhas se unindo.
— Insultada? Porque alguém faria isso?
— Não tem importância, Sasuke. Eu disse a ela que chamaria a polícia e ela foi embora.
— Era o que devia ter feito mesmo. — Ergueu o queixo, lançando-me um olhar demorado. — Quem era aquele? O que saiu por último, de cabelos vermelhos?
— Porque quer saber?
— Nada. Só fiquei com ciúmes.
Olhei-o surpresa. Não sei por quê. Era ele quem estava noivo de outra pessoa. Eu parei, sem saber como reagir.
— Venha. — Disse ele, voltando a andar. Paramos na esquina, esperando que o semáforo mudasse de cor.
— Posso pedir para que Zabuza venha para cá para ficar de olho em você. Não quero que as pessoas fiquem aborrecendo você no trabalho.
— Zabuza pode continuar onde está. Pessoas normais não levam guarda-costas para seu trabalho. Você é famoso, eu não. Vou saber lidar se isso acontecer de novo.
Sua testa se enrugou, mas ele não disse nada. Atravessamos a rua, indo em frente. Um ônibus elétrico passou por nós, todo iluminado. Eu preferia andar, ficar ao ar livre depois de passar o dia todo trancafiada. Além do que, Nemuro era uma ótima opção: cafés, cervejarias, bares e boates. Tome essa, Tóquio.
— Aqui nós viramos à esquerda — Ele disse, desviando do meu caminho rotineiro para casa.
— Aonde vamos?
— Apenas me siga. Preciso pegar uma coisa.
Pelo visto o senhor do rock tinha feito um tour por minha cidade. Ele me conduziu até a pizzaria a que eu e Konan íamos ocasionalmente.
— Eu pedi sua pizza favorita.
O lugar só estava com um quarto da capacidade tomada por ser ainda muito cedo. Paredes de tijolos aparentes e mesas pretas. Uma máquina de jukebox emitia alguma música dos Beatles. Fiquei parada na soleira, hesitando em segui-lo. O homem cumprimentou Sasuke e pegou o pedido no balcão de trás dele. Depois de agradecê-lo, ele voltou para junto de mim.
—Você não precisava ter feito isso. — Eu finalmente disse. Voltamos para a rua, olhei para a caixa de pizza cheia de suspeitas.
— É só uma pizza, Sakura. — Disse ele. — Relaxa. Você nem tem que me convidar para dividi-la, se não quiser. Para que lado fica a sua casa?
— Esquerda.
Caminhamos outro quarteirão em silêncio com Sasuke carregando a caixa com uma mão só.
— Pare de franzir o cenho. — Ele virou a tempo de me ver encará-lo. — Quando a ergui ontem, você estava muito mais leve do que uma pena. Você emagreceu.
Dei de ombros. Não tocaria no assunto. Definitivamente, não me lembraria dele me erguendo, e das minhas pernas circundando-o, e a intensidade com que senti saudades dele, e da voz dele enquanto…
— Então, hum… É que gosto do jeito que você era. — Sasuke continuou. — Amo suas curvas. Por isso, bolei um plano. Você vai comer pizza com quinze tipos de queijo até recuperá-las.
Meu primeiro instinto foi de dizer algo indelicado sobre o quanto meu corpo não é mais da sua conta. Mas me contive em rolar os olhos.
Ele enfrentou minha carranca com outra dele.
— Eu só não quero que você emagreça demais e fique doente, não por minha causa. É simples assim. Esqueça o resto e pare de olhar feio para a pizza ou vai acabar ferindo os sentimentos dela.
— Você não manda em mim. — Murmurei. Ele deu uma gargalhada.
— Está se sentindo melhor por ter dito isso?
— Sim. — Lancei um sorriso torto. Tê-lo ao meu lado de novo parecia fácil demais. Eu não deveria ficar muito à vontade, pois quem haverá de saber quando isso pode explodir na minha cara de novo? Mas a verdade era que eu o queria ali comigo com tanta intensidade que chegava a doer.
— Então… — Ele pigarreou. – Amigos… Podemos ser amigos de novo?
— Não. — Eu voltei a seriedade.
Ele balançou a cabeça.
— Podemos ser amigos, Sakura, você está triste, está cansada e perdeu peso, e eu odeio o fato de ter sido o causador disso. Vou consertar tudo isso, eu prometo. Com essa pizza nós podemos selar um novo laço do bem.
— Não preciso da sua pena, Sasuke.
O sorriso brincalhão dele sumiu.
— Sei que não. E quando você estiver pronta, vamos falar sobre isso. Depois que souber de tudo, eu vou te deixar. Você tem a minha palavra. Mas quero que me ouça antes de decidir.
Engoli o nó duro que se formou em minha garganta.
— Quando estiver pronta. — Ele reiterou. Eu parti para frente para abri o portão e depois dei passagem para Sasuke. O quintal era pequeno, mas a grama era verde e o aroma acolhedor. Nemuro e seu solo fértil era diferente de qualquer outra cidade no país. Destranquei a porta e entramos, dando de cara com meus pais, sentados a mesa prestes a inciar a refeição.
— Filh… — Minha mãe perdeu a voz assim que a segunda presença pisou na sala. Sasuke tirou o boné e fez um aceno com a cabeça.
— Sr. e Sra. Haruno. — Ele disse.
Os olhos da minha mãe se arregalaram. Ela se levantou da cadeira e deu um ou dois passos para perto. Meu pai apenas devolveu o aceno.
— Quem é esse? — Sua voz era curiosa e sonhadora. Em poucos segundos, minha figura materna varreu o corpo do homem em total aprovação.
— É só um amigo. Nós vamos ficar um pouco lá em cima para resolver algumas coisas. — Ignorei o interesse dela e puxei a manga da camisa de Sasuke, que parecia perdido.
— Com licença. — Ele disse.
— Você viu isso, querido? Ele era muito bonito, alto, cheio de postura. Você se lembra de tê-lo visto antes?
— Não.
A voz deles ainda soava enquanto eu avançava. Sasuke subiu as escadas atrás de mim, sem se dar ao trabalho de olhar ao redor. Destranquei a porta do quarto, por sorte, tinha o arrumado na noite anterior antes de desabar na cama com a ressaca me matando.
Ele fechou a porta, colocando a caixa de pizza sobre a mesa do computador e olhando calmamente em volta. Eu não era do tipo organizada, nem daquelas colecionadoras de bonecas e ursos. Haviam prateleiras por todas as partes cheias de livros empoeirados guardados desde a primeira série. O máximo de entretimento que você poderia encontrar, era o computador e uma tomada para carregar seu celular. Uma parede era inclinada, a janela grande e arejada. Em noites calorosas, era um alívio poder abri-la e sentir o vento noturno refrescar o pequeno espaço.
— Então... — Eu comecei. Sasuke abandonou minhas fotos quando pequena pelas paredes e me olhou. — Nós podemos ter a tão bendita conversa agora.
— Ótimo. — Sua boca contorceu em um sorriso fraco. — Posso me sentar?
— Está me pedindo permissão para sentar na minha cama? — Eu debochei. Ele assentiu.
— Não é a minha casa. É a sua.
— Bem observado. — Fui até as janelas e as abri. Céu limpo e fresco encheu o quarto. Depois peguei a caixa de pizza e me joguei na cama com ela. Sasuke ficou parado, ainda próximo a porta, esperando. — Senta aí.
Ele obedeceu. Estranhamente submisso.
Uma perna foi dobrada abaixo do seu corpo, os olhos cravaram em meu rosto. Eu abri a caixa, o cheiro da pizza me entorpecia e eu detestava admitir, mas amava aquele sabor com toda força.
— Você soube de todas as notícias? — Perguntou. Eu abocanhei um pedaço grande, fazendo sinal positivo com a cabeça. Interagir com a comida era muito bom, isso estava me ajudando a disfarçar o quanto era surreal tê-lo ali na minha cama, no meu quarto. Nem nos meus sonhos eu imaginei que isso aconteceria algum dia. — Então eu acho que posso pular essa parte.
— Porque você voltou a beber? — Eu perguntei, de repente. Sasuke fez uma pausa, surpreso com minha mudança de humor.
— Eu não tive opção.
— Tente de novo. — Deixei o pedaço de pizza de lado. Ele deu um sorriso amargo.
— Não é obvio? — Sua voz estava carregada. — Foi por sua causa.
Uma fisgada no peito.
— Você me expulsou da sua vida. Não consegui suportar todas as facadas emocionais que você me deu e isso não me torna culpada em nada. — Tentei me levantar, mas ele segurou meu pulso.
— Espera, por favor. — Pediu. Os olhos brilhavam receosos. — Eu não disse que a culpa era sua. Eu disse que o motivo foi você.
Meus ombros se desfizeram até que eu me sentasse novamente.
— Você era tudo que me fazia seguir, Sakura. Eu não tinha ideia de que era tão importante pra mim até que partisse.
— E aí você foi a procura da Mei e noivou com ela. Belo jeito de resolver tudo. — Tentativa de ironia, mas o desgosto inundou as palavras. Ele negou com a cabeça lentamente. Antes de qualquer palavra, o som de guitarra e bateria soou abafado de algum lugar. Sasuke tateou os bolsos da calça até achar o celular e o tirou. O som acabou quando ele tocou algum botão na tela, desligando.
— Você se lembra de quando te contei sobre a banda? O quanto foi difícil passar por cima de todos os processos e se reerguer? — Ele olhou no fundo dos meus olhos, eu assenti. Algo grande estava por vir, foi o que senti. Eu esperei. Mas o celular não. Logo o toque novamente o interrompeu. Sasuke dessa vez atendeu com toda sua impaciência.
— Eu estou ocupado agora. — Ele rosnou. Acompanhei sua feição de uma bruta mudar para intrigada. O homem se levantou da cama, as sobrancelhas pesando sobre os olhos enquanto escutava. — Não… Eu não sabia. Eu não o vi. — Ele escutou um pouco mais. Dei alguns passos para a esquerda, depois direta, então seguiu até a janela e se debruçou. — Não tem ninguém aqui.
— O que foi? — Eu murmurei, me colocando ao seu lado.
— Escuta, vou dar um jeito nisso.
Ouvi o chiado de uma voz alta e brava na linha. Alguém parecia furioso.
— Eu sei. Sinto muito. Estou voltando agora mesmo.
Me sentei sobre o colchão, desistindo de tentar deduzir algo. Só me restava esperar. Sasuke desligou o celular e segurou a testa por poucos segundos.
— Tenho que ir.
— O quê? E a conversa?
Ele abriu a porta.
— Me desculpe.
— Sasuke, não. — Fui até ele. — Não quero suas desculpas. O que está acontecendo? Porque você está assim?
Ele arfou. Seus olhos estavam vermelhos.
— Eu sinto muito.
— Você vai mesmo fazer isso? — Eu puxei a porta, impedindo-o. — Vai mesmo sair e me deixar de novo nesse estado? Eu não mereço uma resposta?
Foi a primeira vez que o encarei tão perdido e desnorteado, como se estivesse prestes a desabar. Minha vontade foi de abraçá-lo para espantar o que o assolava, mas eu não tinha nada. Era uma opção dele me colocar nisso.
Seu polegar veio de encontro ao meu queixo e o alisou sutilmente. Tudo poderia ter sido melhor se suas palavras não fossem o oposto do que eu estava esperando ouvir.
— Estou tendo as consequências dos meus atos. Lamento por ter te atingido de novo. Seja feliz, Sakura, você merece alguém melhor do que eu.
Eu puxei sua mão para longe de mim. A porta se fechou.
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