Sua voz
5 Capítulo 5 - O egoísmo em forma de palavras
Notas iniciais
— O que você disse?
Sasuke esticou a cabeça para frente.
— Você me ouviu.
— Você se apaixonou por mim? — O jeito como ele pronunciou as palavras como se o gosto delas desse nojo nele, eu nunca poderia me recuperar disso.
— Sim.
— Você está brincando comigo.
— Não. — Eu disse, meu coração batendo em minha garganta. Na verdade, esqueça a garganta, meu peito parecia que tinha sido rasgado, aberto. Fiquei ali completamente exposta, tudo à mostra. Foi assustador. — E então? — Ele estava quieto, me olhando. — Diga algo!
O bastardo caiu na gargalhada em seguida.
Grandes gargalhadas encheram a sala, o som me circulando, batendo na minha cabeça. Eu não tinha como fugir delas. Havia facas em um rack na parede da cozinha, muito brilhantes, luminosas, todas organizadas em fileiras. De repente pareceram tão tentadoras. Materializei um Sasuke ensanguentado e esfaqueado sangrando no chão e isso me impediu de tornar a violência real, apesar dos meus punhos cerrados.
— Você vê agora o porque de não querer te dizer. — Eu disse, principalmente para mim mesma. De jeito nenhum eu iria ficar ouvindo o seu cacarejar insano. O homem ficou curvado, realmente limpando as lágrimas de seus olhos. Eu orei fervorosamente a Deus para que ele caísse morto, mas não aconteceu nada, Sasuke não parava de rir. — E o sentimento mais forte que eu tenho por você agora é ódio. Só no caso de você estar se perguntando.
Aos poucos (cerca de um século mais tarde) o riso diminuiu e, eventualmente cessou. Não foi uma batalha fácil para ele. Ele olhava para mim, para o chão, para a janela, o esforço revestia seu rosto. Tudo que eu podia fazer era esperar, não surtar e fazer comentários sarcásticos, coisa que fazia parte de mim.
— Ok, isso é ótimo. — Eu sorri forçando orgulho. — Ainda bem que você tem a capacidade de se controlar pelo menos o riso.
— Foi mal. — Ele esfregou a mão na sua boca. Isso não escondeu o sorriso de forma alguma. — Eu só achei que todas as vezes que estava olhando para mim era porque você tinha algum tipo de deficit de atenção ou tinha medo de um próximo surto.
— Excelente dedução. Mas o verdadeiro motivo cruza a linha profissional. Por isso, eu vou embora.
— Não, você não vai. Não seja idiota, Sakura.
— Você está feliz aí, Sasuke, vivendo essa aventura? Está sendo bom se divertir as minhas custas? — Ele não respondeu. — Eu tive meu coração partido por diversos estúpidos no passado e eu jurei me precaver disso. Então, eu não vou passar o mesmo com você. Isso não é divertido pra mim, me desculpa.
Meu sorriso pode ter sido frágil, mas o dele era firme. Aquele sorriso poderia capturar corações, mas também poderia quebrá-los. Eu podia sentir o incomodo desaparecendo dentro do meu peito. A rejeição ardia, não era a primeira vez, mas era igualmente desagradável. O que me confortava, no fundo, era já saber que eu não seria correspondida. Obviamente eu não seria e tinha conhecimento disso.
Isso deixou tudo mais fácil. Ou, menos difícil.
Se apaixonar por alguém que você nem sequer particularmente gosta na maldita metade do tempo. Quem faria algo tão estúpido?
Quero dizer, além de mim?
— Escute, Sakura — Ele disse, a voz absoluta e um pouco debochada. — Você vai superar essa paixão idiota que você tem por mim e eu vou fazer o imenso favor de esquecer que isso aconteceu, ok?
— Você é um idiota. — Deus, ele era. Ele realmente era. Eu lhe dei um olhar e espero que tenha transmitido essa verdade dez vezes. — Você não acha que se eu pudesse apenas esquecer, já não teria feito isso? Você acha que eu quero sentir isso por você?
O olhar de Sasuke caiu sobre minha camiseta e depois precipitadamente voltou para o meu rosto. Seus lábios com raiva, como se eu tivesse o ofendido.
— Acontece que eu gosto desse trabalho. — Eu disse. — O dinheiro é bom, consigo viver no seu palácio de graça e na maior parte, o trabalho é fácil. É tudo ótimo. Mas a questão é, às vezes, quando você não está sendo um idiota, eu gosto de você tanto que dói. Gosto da maneira como o seu eu verdadeiro sai quando você acha que ninguém está olhando.
— Sakura…
Não havia nada em mim que me impedisse. A maldita sinceridade fazia parte do meu caráter e isso não era tão legal quanto as pessoas julgavam ser.
— São as pequenas coisas, na verdade. Como o jeito que você olha pra mim quando eu faço alguma piada sarcástica, ou que você finge não estar interessado no jogo que passa na TV só pra que eu possa ver algo que eu goste. E a maneira que você me acompanha às vezes quando eu não consigo dormir.
Ele agarrou a parte de trás do seu pescoço.
— Deus, Sakura. Vamos lá, isso é loucura. Isso aí não é nada.
— Você está errado. É algo. Eu sei que você não aceita bem um elogio, mas você não é tão horrível como quer parecer ser.
— Ainda é inaceitável.
— Eu não estou dizendo que você é perfeito. — Continuei. — Nós dois sabemos que você tem um longo caminho para percorrer e que precisa de alguém que possa ser profissional todo o tempo. — Escolhi as melhores palavras para não machucá-lo, mas frustrantemente me veio um vazio ao mencionar isso.
— Então você está preocupada que seus... — Ele fez aspas com os dedos. — “Sentimentos por mim” interferirão no seu trabalho?
— Sim. E se por algum motivo você pirar de novo e eu não conseguir ser dura o suficiente para te negar, porque eu estou muito ocupada me sentindo mal por você? E se eu ceder? É um risco muito grande.
— Isso não vai acontecer. — Ele andou em volta do balcão e passou por mim, pegando um copo do armário e encheu com água. O cheiro do seu suor encheu o ar. Se eu não precisasse falar, tentaria segurar minha respiração. Eu não precisava do cheiro dele me intoxicando, as coisas já estavam bastante difíceis.
— Não é impossível. — Eu disse. — Você não está levando isso a sério. Além disso, você deveria tomar banho.
— Aí está. — Seu dedo apontou na minha direção.
— O quê?
— Você não deve fazer quaisquer escolhas precipitadas até você descobrir o que realmente sente. Isso é precoce, certo? Disse que decidiu a dois dias atrás, o que significa que esse sentimento nasceu neste mesmo tempo. Você é confusa, Sakura. Nos últimos cinco minutos você admitiu ser apaixonada, então disse que me odiava. Disse que eu sou um bom cara e agora me chamou de fedorento.
— Mas você está fedendo. Está pingando a suor.
O olhar divertido dele nunca me deixando, ele encostou-se ao balcão.
— Sim, e se estivesse tão oprimida por esses supostos sentimentos por mim, não se importaria. Você ainda iria me querer em cima de você. Na verdade, a maioria das mulheres iria querer muito mais do que isso.
Minha mente basicamente explodiu, tentando abranger o que tê-lo em cima de mim poderia acarretar. Não, não, não, maus pensamentos, pensamentos carnais errados, horríveis.
— É mesmo?
— Sim. Mulheres que estão afim de mim, não se importam com um pouco de suor. O que você acha que acontece depois que já estamos na cama por horas? Suor, é o que acontece. E aquelas outras mulheres, elas não fazem todos esses comentários sarcásticos como você. Elas, com toda certeza, não me insultam a cada dois minutos. — Ele me deu um lento olhar. Não fiquei sensibilizada. — Pensei que todos os olhares estranhos eram sobre o que aconteceu no dia do funeral, nunca passou algo parecido por minha cabeça. Sempre pensei que você gostasse de mulheres...
Soltei um riso incrédulo.
— Espera, você está realmente sugerindo que qualquer mulher que não beija seus pés é lésbica? — Ele deu de ombros, bebendo toda a água de uma só vez. — E você ainda pergunta porque eu te insulto.
— Você está se precipitando em se demitir, isso não é um problema, Sakura. Você não vai ter qualquer problema ficando aqui. — Alheio à minha incredulidade, o homem estalou o pescoço, dando-me outro olhar entediado. — Seja qual como for, vamos resolver o problema. Eu entendo que você está envergonhada, mas vai superar isso, eu sei que você pode. Te darei alguns dias para refletir nas minhas palavras e ver o quanto estou certo. Caso você ainda persista, nós tentaremos outra coisa, ok?
Se eu abrisse minha boca para falar, eu duvidava que seria capaz de formar palavras. Ao invés disso, apenas continuei o encarando e sua animação com a suposta solução. Ah, se fosse simples assim.
— Ok. Nós terminamos aqui. — Sasuke disse para meu silêncio, passeando pela sala como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
Claro, a preocupação era toda minha.
♫
A batida na porta do meu quarto foi pouco antes da meia-noite.
Depois da nossa “conversa”, tínhamos praticamente voltado ao normal. Sasuke tinha se exercitado com suas corridas matinas e também durante a tarde, na companhia de Gaara. Verifiquei seus e-mails, e de vez em quando lia em voz alta as partes que ele precisava saber. Conversei com Ino, que era a própria assistente do namorado, e até mesmo o babaca de Zabuza sobre algumas listas das próximas turnês e quando estariam aptos para retornar fazê-las. Há muita coisa para deixar um astro do rock organizado. Uma vez que eu me encarreguei de assumir todas as responsabilidades e afazeres, na tentativa de ocupar minha cabeça e não pensar em bobagem. Veja bem, eu ainda não havia abandonado a ideia de ir embora, mas resolvi dar uma chance para a ideia de Sasuke, embora eu achasse que fosse inútil, somente para partir de consciência limpa. Esses dias, eu também cooperei com os construtores e com os técnicos responsáveis por transformar parte do porão em um estúdio de gravação. Com esse projeto os caras começariam a praticar e escrever composições aqui, abandonando a casa de Itachi e lhe dando mais privacidade com sua namorada.
Nós se encontramos pela casa muitas vezes, mas não necessariamente falávamos muito. O silêncio não era desconfortável, mas sociável, eu já tinha me acostumado com isso desde o começo. Normalmente, depois de um tempo, Sasuke colocava uma música. Hoje no aparelho de som ele ouviu Lena Sea, uma banda agradável. Houve alguns olhares de lado curiosos de vez em quando da parte dele, mas eu decididamente ignorei todos.
Ele bateu novamente na porta do meu quarto. Então, sem se preocupar em esperar por permissão, entrou.
— Estive pensando...
— Eu não disse que você podia entrar. — Estudei-o por cima dos meus óculos de leitura, deitada no meio da minha grande cama apoiada por nada menos que três almofadas. Já que estamos no meio de tanto conforto, vamos aproveitá-lo.
— Pijama legal. Patos coloridos existem? — Ele lançou um olhar divertido sobre o meu conjunto de flanela, porque, naturalmente, sua alteza ainda parecia impecável (calça de malha e uma camisa de manga comprida preta que lhe cabia à perfeição), não importava a hora. Suado de uma corrida e tão despenteado como um homem jamais iria ser. Mesmo assim, impecavelmente lindo.
— Você só está com ciúmes do meu estilo impressionante. — Eu segurei o e-reader contra o meu peito, fazendo o meu melhor para esconder meus mamilos felizes. — Eu aposto que você dorme vestido com Armani ou algo assim, não é? Prada, talvez? — Ele riu. — O que você quer aqui, Sasuke?
— Nunca estive aqui antes.
— Você veio aqui na noite em que me trouxe para a cama depois de eu ter apagado no sofá. — Eu lembrei.
— Eram quase quatro da manhã. Não parei para olhar em volta. — Ele deu um passeio lento pelo quarto, lançando um olhar sobre os meus pertences. Pode-se dizer que eu tenho problemas de arrumação quando se trata de meu espaço pessoal, roupas jaziam abandonadas na cadeira, sapatos embaixo dela. No meu banheiro, maquiagem, fios de cabelo, e produtos de higiene feminina decoravam a bancada de mármore cinza. Eu tinha ficado excessivamente confortável desde que me mudei para cá e expandi os meus pertences. Ele começou a mexer em tudo ao redor.
As sobrancelhas de Sasuke se uniram.
— Você parece uma espécie de rato. O serviço de limpeza não passou aqui?
— É claro que passou.
— Como diabos você consegue fazer uma bagunça de novo tão rápido?
— É um dom. Eu não deixo as minhas coisas em todo o resto da casa. Este é o meu espaço pessoal e, portanto, não diz respeito a você. Entrou aqui por alguma razão?
Ele me encarou.
— Depois da nossa conversa de hoje, eu queria saber se ainda sente aquilo. — E então voltou a fuçar minhas coisas. Maldito enxerido.
— Está se referindo a meus sentimentos? Quanta delicadeza.
— Isso foi um sim? — Sasuke serpenteou sobre a minha mesa e começou casualmente a vasculhar as caixas. Metade do conteúdo da minha bolsa estava espalhada sobre a mesa, junto com um par de revistas. Ah não droga, uma delas estava aberta. Merda. Eu já tinha sofrido tanto constrangimento hoje, o suficiente para durar uma década. Por favor, Deus, não deixe que ele veja.
— Pare de mexer nas minhas coisas, Sasuke.
— O que é isso? — Ele pegou justo o que não podia. É claro que ele pegaria. Então começou a ler. — “Guia para superar ele”. Interessante.
— Bem, você não esperava que eu virasse as costas e corresse sem ao menos pesquisar alternativas, não é?
Ele ergueu um ombro.
— Admito, não pensei que você fosse tão forte.
— Ótimo. Sua fé em mim é animadora. — Dei um sorriso forçado. — Então, o que você estava pensando?
— Seus sentimentos. — Ele respondeu, olhando para cima da revista.
Eu suspirei.
— O quê sobre eles?
Seu rosto se voltou para a revista.
— Você sabe que esses conselhos são muito bons, não sabe? — Ele me lançou um olhar animado e depois continuou a ler. — A pessoa que o escreveu teve experiência suficiente para dá-los.
— Falando assim parece que você nunca sofreu por amor não correspondido. — Disse, colocando meu e-reader de lado e tirando os óculos.
Ele fez um barulho com os lábios.
— Claro que nunca sofri. Eu sempre tive quem eu quis.
— É claro que teve. — Assenti, propriamente me censurando. Vergonha de mim por pensar de outra forma. Sem dúvida, ele tinha deixado um rastro de corações partidos atrás dele.
Mais alguns minutos de uma leitura centrada e ele ergueu o rosto para mim, fechando a revista. — Nós deveríamos fazer isso.
— O quê? Fazer o que?
— Um. Você precisa sair e ver outras pessoas. — Ele respondeu. — Você obviamente não é boa em fazer amizades, então não se preocupe, eu vou te ajudar com isso. Dois. Tente se concentrar em meus defeitos.
— Você está querendo que eu reproduza os conselhos dessa revista? — Minha voz era a pura incredulidade. Eu não podia acreditar nisso.
— Sim, pare de interromper. Isto é importante. Dois. Concentre-se em meus defeitos.
— Você já disse isso.
Sasuke me deu um olhar superficial.
— Três. Pare de sentir pena de si mesma e sempre colocar os outros acima de suas necessidades.
Eu pisquei, me sentindo contrariada. Não foi ele mesmo que fez de tudo para que eu ficasse, assim, ignorando minha vontade para atender a dele?
— Quatro. Você precisa se sentir bem consigo mesmo, algo relacionado a beleza, vaidade, roupas sexys. Fique em forma. Mime-se. Divirta-se. Aproveite a vida. Vá em uma viagem. Pinte as unhas dos pés, qualquer merda. Blá, blá, blá. Você sabe o que eu quero dizer.
— Hum. — Eu balancei a cabeça em sim. Mas não estava nem um por cento entusiasmada.
— Isso é basicamente tudo que você precisa para esquecer de mim.
— E eu tenho que seguir isso?
Ele me deu um longo olhar sério.
— Se depois de tentar tudo isso você ainda se sentir da mesma, eu mesmo a demito.
Eu dei uma risada ligeiramente maníaca. A decisão tinha sido tomada e eu não pude intervir, mais uma vez.
— Sasuke, por favor. É só um artigo de revista estúpido provavelmente escrito por um estagiário entediado em sua pausa de almoço. Isso não é ciência. Não vai resolver nada.
— Então por que estava aberto bem nessa página?
Boa pergunta. Fios de cabelo preto pairaram sobre sua testa, caindo nos olhos. Sem pensar, ele empurrou-os para trás. Não tive o que responder. Mesmo que eu não levasse fé em nada, tive a necessidade de ler apenas por curiosidade.
— Nunca se sabe, Sakura. Pode funcionar. — Ele largou a revista no meu colo, o olhar fixo em mim. — Eu sei que isso vai passar. Vamos, me dê uma chance de ajudar.
Suspirei.
— Eu lhe dei uma chance. Dei-lhe esse trabalho, e fiz todos os esforços para acomodar você. Não é justo que você queira sair após um mês sem dar o seu melhor. Você me deve isso.
— Você me contratou porque achou que eu seria mais fácil de manipular do que outra pessoa e porque Naruto e Itachi obrigaram você. Não vamos perder de vista a verdade aqui.
Um ombro grosso subiu e desceu.
— Isso importa? Eu dei-lhe o trabalho, e você disse que gosta dele. O mínimo que você pode fazer é me dar uma chance como agradecimento.
— Eu vou pensar sobre isso.
— Faça isso. — Um sorriso desenhou seus lábios e eu o gravei em minha memória. Sasuke Uchiha era como uma substância controlada, ilegal, e perigosa. Ele me afetara com apenas um simples sorriso, não importava o quanto eu tentasse resistir. E sempre que o desse, me afetaria. Isso eu podia afirmar.
Ele se dirigiu à porta, fechando-a lentamente atrás dele.
— Boa noite.
— Boa noite.
Um baque me assustou do sono. Levantei metade do corpo da cama, piscando para a escuridão. Mas que diabos foi isso? Uma sombra embaçada caminhou fazendo barulho de passos.
— O q...
— Levante-se. — Sasuke ordenou. — Nós vamos correr.
— Você perdeu a porra da sua cabeça?
— Levante. O primeiro dia do seu programa intensivo de desapaixonar-se-de-mim está prestes a começar. — Ele jogou para os lados as cortinas, deixando a luz fraca do sol entrar. — Você tem tênis, certo?
Eu esfreguei os olhos grudados com força para que a imagem do relógio em minha cabeceira digital focalizasse.
— Deus, Sasuke. É madrugada ainda.
Um Nike preto voou em minha direção. Eu mal consegui desviar dele.
— Ei!
— Vamos lá. Mova-se. — Em seguida, veio um conjunto antigo de moletons cinza largos, atirados em minhas pernas enroladas pelo lençol. Sasuke já estava vestido em um equipamento de ginástica todo preto. Pronto e ansioso para ir. — Você tem um sutiã esportivo aqui em algum lugar?
— Sai da minha gaveta. — Eu joguei meus cobertores para o lado e caminhei até ele. — Não mexa nas minhas roupas íntimas, seu imbecil.
Ele me ignorou e continuou mexendo.
— Não é nada que eu não tenha visto antes. Vamos lá. Você precisa ficar pronta.
— Você enlouqueceu?
— Eu te disse, eu não vou deixar que desista sem tentar, então vou ajudá-la a ajudar a si mesma. Vamos trabalhar na nossa lista para que você possa esquecer esses sentimentos bobos que sente por mim. Se alguém pode matar uma paixão, esse alguém sou eu.
— Você sabe onde pode enfiar a sua lista.
Eu não costumava ser mal-humorada, mas ele tinha pedido por isso ao me acordar com esse pique indesejável.
Sasuke se descurvou, estendeu a mão para o alto e lentamente soltou os dedos. Muito lá em cima sobre a minha cabeça pendia um par bonito de calcinhas de seda preta. — Você usa esse tipo de coisa? Eu pensei que suas favoritas fossem as calçolas.
— Você não faz ideia do quanto eu estou tão tentada a chutar o meio das suas pernas e acabar com isso.
Ele não fez nenhum movimento para se cobrir, não demonstrou fraqueza. Em vez disso, um lado de sua boca se curvou para cima e uma covinha apareceu. Meu alarme apitou com a beleza e depois a raiva subiu quando ele balançou a calcinha na mão. Dada a minha falta de altura e a altura de Sasuke, não havia como eu conseguir alcançá-la.
— Você realmente espera que eu pule como uma idiota? — Eu perguntei em um tom fulminante.
— Isso iria me divertir.
— Não me faça matá-lo a essa hora da manhã, Sasuke. Eu pretendo desfrutar da minha liberdade nos próximos anos.
O semi sorriso desapareceu e ele deixou cair a calcinha na minha mão.
— Obrigada.
— Você pensou na lista? — Ele me olhou atento.
Eu tinha pensado. Ficar longe de Sasuke podia ser o melhor, mas o pior também. A culpa quase me afundou enquanto analisava sobre. Se ele e meu substituto não se dessem bem, quero dizer, Sasuke e eu muitas vezes não nos dávamos bem, mas eu não era uma pessoa fácil de ser manipulada ou barata a ponto de ser comprada. Pelo menos comigo ele ainda estava sóbrio e continuava seguindo assim.
— Vamos, Sakura — Ele esfregou sua têmpora. — Eu sei que você lidou com alguns idiotas no passado, mas essa não é questão aqui. Eu não estou fazendo qualquer dano a você. Eu só quero que continue fazendo o seu trabalho e estou disposto a ajudá-la.
— Eu sei.
— Cara. — Ele gemeu. — Ajudaria se eu dissesse “por favor”?
— Eu não tenho certeza. — Eu respondi honestamente. — Talvez. Você nem sabe como dizer essa palavra sem anexar qualquer sarcasmo e ironia a ela.
Ele ergueu a cabeça para trás como se estivesse em um apelo silencioso para o céu.
— Por favor.
— Por favor, o quê?
— Venha correr comigo. Faça a lista. Me deixe tentar, por favor?
Ele parecia sincero, assustadoramente sincero a me ajudar. Qualquer pessoa que conhecesse o Sasuke que conheci e o comparasse com essa pessoa implorativa a minha frente, se assustaria.
— Ok. — Suspirei. — Vamos dar uma chance.
— Oh Meu Deus, eu te odeio. — Eu ofeguei, arrastando minhas pernas arrependida atrás do desgraçado a quem pertencia esse sentimento.
— Não seja tão sedentária. — Sasuke não tinha nem uma gota de suor ainda. — Além disso, você vai ser mais saudável daqui a um tempo.
— Já sou saudável. Eu como fruta.
— Na torta não conta.
Se ao menos eu tivesse feixes de laser nos olhos, o pulverizava.
— Não estou dizendo que há algo de errado com você. — Ele disse, virando-se para me encarar. Correndo mais lentamente, como se me afrontasse. Se ao menos ele caísse de bunda no chão… Seria tão legal. Seu olhar passou rapidamente por meu corpo, analisando-o — Eu gosto de um pouco de gordura no tronco.
Eu sussurrei palavrões porque não havia ar suficiente em mim para realmente dizê-los em voz alta.
— Temos que correr todos os dias, acostumar seu corpo e então você poderá comer mais torta do jeito assustador que faz. O que acha?
Mostrei-lhe o dedo do meio.
— Sakura, vamos lá. Você é uma garota bonita e suas curvas são legais. — Ele disse, ainda se movimentando no local. — Ficar um pouco mais saudável não vai doer. Vai fazer bem para sua mente e corpo.
Sasuke me achava bonita?
Claro, ele poderia estar apenas sendo gentil. Que bela mentira. De qualquer forma, isso não importava, não realmente.
Não deveria e ainda assim importava.
— Eu não preciso estar em conformidade com as suas ideias de beleza. — Eu disse, uma vez que minha respiração havia estabilizado.
Ele estava olhando fixamente para as casas grandes e árvores em torno de nós, mas agora seu olhar disparou de volta para mim.
— Claro que não, nunca disse que você precisava.
— Nem todos nascem parecendo perfeitos como você, Sasuke.
— Você acha que estou mentindo quando disse que você é bonita? — Ele olhou meu perfil. Nós estávamos andando porque correr era impossível para mim. — Sakura, eu tenho um monte de defeitos, mas mentir não está incluído nisso e você deveria saber. Se você quer discutir algo, escolha outro tema, porque esse é dispensável.
Não respondi.
Eu estava feliz. Como uma adolescente ao receber seu primeiro elogio. Ainda assim, meu rosto continuava sério e ocultava esse sentimento.
— Eu poderia estar um pouco na defensiva sobre isso. — Admiti finalmente. — Sempre fui o patinho feio da família e da época colegial, eu não tenho culpa. Isso foi um fardo durante muito tempo.
Ele me deu um olhar divertido.
— Você já ouviu a história do Cisne?
— Por acaso, está tentando ser legal comigo?
Ele deu um sorriso renegado.
— Acho que você poderia se arrumar de verdade e vê que não é um caso tão perdido assim.
Uma mulher corredora passou por nós, da cabeça aos pés vestida com uma roupa de Lycra. Ela deu a Sasuke um grande e convidativo sorriso de vamos fazer esporte juntos. Ele acenou para ela, em seguida, concentrou no caminho mais uma vez.
— Acho que isso não me satisfaria, de qualquer forma. Me pergunto, pra quê ser bonita o tempo todo? Veja você, coloca todo esse esforço em sua aparência, em seu corpo, compra as melhores roupas. E sim, parabéns funciona. Mas você não sai a menos que seja negócios ou algo a ver com a banda, você é basicamente um eremita.
— Exista alguma regra que dite que é preciso se arrumar para as pessoas?
— Não.
— Por que eu cuido de mim mesmo ou por que eu sou um eremita, tanto faz. Eu sou vaidoso, qual é o problema?
— Então você é completamente feliz com você mesmo?
— Com a minha aparência? Claro. — Ele levantou uma sobrancelha. — Minha aparência é a única coisa que sempre funcionou, sempre me fez sobressair. Se eu estou fazendo beicinho na capa de alguma revista, isso ajuda a vender discos. É um fato. Eu não sou um cara inteligente como Itachi ou talentoso em um instrumento. Mas o que eu tenho de maior, é minha aparência. E é aquilo, você deve usar todas as vantagens à sua disposição.
Eu fiz uma careta para ele, espantada.
— Você realmente acredita nisso? — Perguntei. — Sasuke, você é mais do que apenas um rostinho bonito. Você tem uma voz linda. — E eu deveria saber. Ele cantava para eu dormir no meu iPod na maioria das noites. Foi por pura curiosidade. Pensei que, já que estava sendo assistente do cantor de uma banda, porque não ouvi-lo uma vez? E desde então isso se tornou um vício. — Meu Deus, quantos Grammys você já ganhou?
— É um concurso de popularidade, alguém que tenha talento pode facilmente passar.
Não tive palavras para debater. Então era assim que ele se sentia?
— E você? — Ele virou o rosto para mim.
— Eu o quê?
— Você é feliz da maneira que é?
Pensar sobre mim sempre era um problema. Soltei um ar que rapidamente subiu como fumaça e medi minhas palavras antes de verbalizá-las.
— Às vezes sim, outras não. Mas eu tento sempre estar, isso que importa. Nem sempre é fácil com todas as representações da mídia de beleza, e blá, blá, blá. Eu nunca terei um metro e oitenta de altura, com pernas até o pescoço, e como você disse, eu gosto de torta. Eu não estou disposta a descartar comê-la pelos próximos 50 anos apenas para ter menos ondulações em minhas coxas. Esse é o meu lema.
— Seu lema? — Ele sorriu fraco.
— Sim. Você tem algum?
— O meu é mais uma marcha para a sensatez, onde não quero voltar a cair em maus hábitos. Sexo, drogas, álcool, todos eles andam juntos. Por isso, me mantenho longe de todo esse ciclo.
Minha saliva desceu por minha garganta, me fazendo quase engasgar com a nova informação.
— Você não teve relações sexuais desde que parou de beber?
— Não.
— Sério?
— Sim.
Meus olhos se alargaram tanto que poderiam facilmente se desprender a cair no chão. — Ah.
Nossa. Um grande nossa. O pior era lidar com sua naturalidade em responder algo desse nível.
— É bom saber que você descartou tudo que poderia te fazer mal sozinho. — Mudei a intenção do assunto, um pouco desconcertada. — Fico feliz em saber que tem essa noção.
Ele fez uma careta.
— Não tente esconder os fatos, Sakura. Isso era o mínimo que eu poderia fazer. Estava prejudicando a todos na banda com os constantes escândalos noturnos.
— Tenho certeza que teve os seus motivos.
— Eu não sou uma boa pessoa. Eu fodi a primeira namorada do meu irmão, você sabia disso?
Balancei a cabeça negativamente.
— Sim, parti o coração dele. Eu estava com tanta inveja dele que eu mal podia respirar. Eu manipulei. Enganei. Roubei. Eu destruí tudo o que significava para mim e feri todos ao meu redor. Eu apagava constantemente, tive duas vezes overdoses, quase morri. Como você acha que os caras da banda se sentiram com tanta polêmica embarreirando nosso sucesso no ano passado? — Ele olhou em todos os lugares, menos para mim.
Um vento frio soprou entre nós.
— Essa é a verdade. Não tente esconder isso pelo que você deduziu nesse tempo. Eu ainda sou o mesmo insensível, arrogante e egoísta que sempre fui, sóbrio ou não. Com motivo ou não. — Sua respiração acelerou mesmo que ainda estivéssemos parados. — A questão é, você nunca vai ter evolução em sua vida estando à minha disposição, sendo apenas minha assistente. Você estaria melhor longe de mim, e eu sei disso, mas não me importo. Esse, Sakura, é quem eu sou.
Eu não disse nada. Meus pés pararam por longos segundos, a dor vastava em meu coração, talvez eu não estivesse preparada para ouvir a verdade tão nua assim. Notei o quanto eu ainda era frágil quando girei os calcanhares e retornei o caminho, ignorando meu nome sendo chamado.
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