Sua voz
13 Capítulo 13 - O início da turnê e da antiga vida
Notas iniciais
Dormi demais. Quando acordei, os sons de gritos e risadas já se espalhavam pela casa.
Ontem, após voltar com Zabuza, eles continuaram seu projeto tão concentrados que esqueceram de suas assistentes e o que elas deveriam fazer. Bom, eu não optei por ficar e ouvir piadas do Naruto que só pioria tudo. Me aproximei sorrateiramente de Ino e Hinata e disse que minha cabeça doía e que me deitaria. O resto das informações me foram mandadas por e-mail por elas no dia seguinte. Muito atenciosas.
Tomei um banho e me vesti com roupas quentes. Um cachecol para meu pescoço, mas eu precisava mesmo era de um suporte que o fizesse ficar menos tenso.
Honestamente eu não sabia o que vinha a seguir. Foi uma sensação assustadora chegar ao pé da escada e me perguntar qual expressão eu teria que fazer assim que o visse. Isso tinha passado dos limites, definitivamente.
Da próxima vez eu faria a coisa certa e teria a certeza de não me apaixonar por uma espada afiada e pronta para te matar aos poucos. Da próxima vez. Isso se houver uma. Tantas desilusões que eu, honestamente, estava pensando em viver como uma mulher santa em algum convento.
— Hey. — Eu disse para todos ao atravessar a sala bagunçada, com o meu cabelo ainda molhado do banho.
O pessoal estava reunido em volta da mesa, tomando café e várias bebidas energéticas. Naruto aparentemente estava tocando uma bateria imaginária. Ele ficou de pé em uma cadeira, enquanto os outros vaiavam e atiravam bolas de papel. Gaara estava encostado no canto, dando um sorriso abismado para o parceiro de banda. Itachi limpava algo na boca de Ino e ela retribuiu com um beijo. Hinata mexia seu copo de café.
— Sakura concorda comigo. Não é, Sakura? — Naruto gritou assim que me viu.
— É claro, Naruto.
— Você não tem ideia com o que acabou de concordar — Itachi disse, sorrindo para mim por cima da borda de sua xícara de café.
— Cale-se, Itachi... — O baterista maluco disse. — Todo mundo sabe o quão sexy e sedutor um homem pode se tornar com baquetas nas mãos. Sakura entende isso. Ela é mais esclarecida do que vocês, seus tolos.
— Hinata vai cair de pau em cima de você. Pedindo uma opinião para outra mulher? Oh, isso é sério. — Itachi retrucou.
— É, eu vou mesmo.
Eu balancei a cabeça e continuei andando. De jeito nenhum eu me meteria nessa discussão.
Captei Sasuke com o canto do meu olho, vestido como sempre, todo de preto, encostado ao balcão. Eu só precisava agir naturalmente ou me condenaria para sempre. Primeiro de tudo, café. Fui para a garrafa, enchendo uma caneca até a borda. Esqueça açúcar e leite, precisava bombear cafeína diretamente em minha corrente sanguínea antes que alguém se machucasse.
— Naruto, tire a porra das botas de cima da mesa. — Sasuke resmungou.
— Você é a porra de um deus da alegria hoje. — Naruto ironizou. — Aconteceu alguma coisa que justifique o seu bom humor?
Ele não respondeu. Em vez disso, virou o rosto para mim.
Droga.
Eu suguei um pouco de café, queimando minha língua. Não importa, era uma dorzinha, nada realmente.
— Eu preciso da confirmação pronta para a entrevista e os planos para a primeira etapa da turnê, Sakura. Agora. — Sasuke bateu com sua caneca vazia na pia de forma bruta. Fiquei surpresa de não ter quebrado. — Tente chegar na hora e pronta para o trabalho no futuro, ok? — Lentamente, eu me virei para encará-lo, com o café ainda na mão. Ele olhou diretamente para mim. — Nada mais de enrolação.
Meu copo começou a tremer. Sua mensagem era pertinente sobre tantos níveis. Então era isso, não posso dizer que foi inesperado. Isso veio quase como um alívio realmente, exibir nossos ressentimentos, tudo para todo mundo ver. Porém ele errou, desta vez. Eu não retrucaria da forma malcriada a qual estava acostumada. Na verdade, eu não tinha mais forças para isso.
— Certo. — Eu concordei, com minha voz plana, estranha. Eu não soei nem um pouco como eu mesma.
Sombras estavam debaixo de seus frios olhos claros e sua boca e bochechas pareciam mais duros que o normal. Eu só tinha dormido um pouco, mas parecia que Sasuke não tinha dormido nada. Ele parecia a ponto de explodir, no limite.
Toda conversa parou. Até Naruto desceu de sua cadeira.
— Cancele todos os meus planos para amanhã e terça. Vou voar para Los Angeles para ver Mei e não sei quando volto. — Suas mãos agarraram o balcão atrás dele, os músculos de seus braços flexionaram. — Estarei ocupado. — Acenei com a cabeça. Meus canais lacrimais estavam se preparando para algo grande, eu podia sentir. — E quando eu voltar, comece a procurar sua própria casa. — Engoli em seco, meu estômago se contraiu. Na verdade, senti como tivesse levado um chute e ele acertou uma costela ou duas. Tanto sofrimento, por dentro e por fora. Tolice minha, na verdade. Esse final bagunçado tinha sido escrito desde o começo. Você não se apaixona por um homem como Sasuke Uchiha e sai impune. — Não preciso de você aqui o tempo inteiro — Ele disse. Olhos estavam sobre nós. — Você trabalha das nove às cinco até que a gente saia em turnê e depois vá para casa. É assim que um emprego normal deve ser, certo?
Itachi se levantou lentamente.
— Sasuke...
— Fique fora disso. Isso é entre eu e ela. — Ele disse duro, mas não desviou os olhos dos meus, seus lábios finos em óbvia hostilidade. — Entendido, Sakura?
Gaara praguejou baixinho.
— Entendido. Tem mais alguma coisa, Sr. Uchiha? — Perguntei, colocando minha xícara de café de lado.
Sua voz me cortou como uma espada.
— Não. Só queria concertar as coisas e reafirmar o modo estritamente profissional. — Minha garganta estava seca. — Faça seu trabalho a partir de agora e isso é tudo.
— Sasuke. — Itachi bateu as mãos na mesa. — Pare com isso! — Seu rosto marcado pela fúria. — Não fale com ela desse jeito!
— Ela não é sua preocupação, Itachi. Não se meta.
— Mas você já passou dos limites. — Agora a voz de Gaara se sobrepôs.
Oh merda. Eu queria chorar por todo aquele clima.
— Foda-se. Ela é a minha assistente e vocês não tem nada a ver com isso. Absolutamente nada! — Sasuke rosnou de volta.
Fiquei ali paralisada, mas sabendo o que eu tinha que fazer.
— Me demita. — Eu disse o mais alto que consegui.
— O quê?
Todos os olhos estavam em mim, mas eu só olhei para ele. Ele queria uma audiência e tinha conseguido uma. Eu estaria fodida se entrasse no jogo dele. As pessoas pensariam o que quisessem e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Estávamos caindo quando disse a ele que eu o amava. Era hora de atingir o chão.
— Me demita. — Eu disse. — É assim que isso termina.
As narinas de Sasuke dilataram.
— É assim que isso acaba.
Fúria brilhou em seus olhos.
— Vá em frente.
— Não é isso o que você quer. — Ele disse, com uma sombra de dúvida cruzando seu rosto pela primeira vez.
— Não posso ter o que eu quero, Sasuke. Nunca pude. Tudo que você tem a fazer é me demitir e eu vou embora. Você não vai ter que pensar sobre isso nunca mais. Vai ser como se nunca tivesse acontecido. Isso é o que você quer, não é? — Quem disse que amor e ódio eram semelhantes sabia do que estava falando. Porque a maneira como Sasuke estava olhando para mim teria queimado outra mulher até o chão. Ontem à noite ele me amou, ou o meu corpo, pelo menos. Agora, haveria apenas cinzas onde eu estava. — Vou embora e tudo será fácil novamente, sem complicação — Eu disse. — Você pode voltar a se esconder do mundo. Eu não estarei aqui para detê-lo.
— Cala a boca.
— Me demita, Sasuke. — Meu sorriso deve ter parecido tão amargo quanto eu sentia. — Me mande embora.
Alguém disse alguma coisa, mas isso passou direto por mim, sem ouvir. Havia apenas eu e ele.
— Você sabe que quer. — Eu disse olhando fundo em seus olhos congelados. — Seria muito mais simples se eu não estivesse aqui.
— Cale a porra da boca, Sakura.
— Vá em frente. — Insisti, inclinando-me pra frente. Toquei seu peitoral como relance, ele foi um pouco para trás. — Não há melhor hora que essa, certo? Faça isso. — Um músculo saltou em sua mandíbula. — FAÇA ISSO, PORRA!
— CAI O FORA! — Ele gritou em meu rosto. — Isso, desapareça!
Feito.
A respiração saiu de mim numa corrida e eu fechei os olhos. As lágrimas escaparam de qualquer forma, as bastardas desobedientes. Coloque uma câmera para filmar isso e daria um ótimo drama.
Mas, chega.
— Obrigada. — Eu disse com minha voz embargada, as palavras saiam muito mais difíceis agora.
— Espere aí. — Naruto disse, apressadamente. — Sasuke, cara. Qual é, é a Sakura. Você não pode demiti-la!
— Sakura, espere. — Itachi estendeu a mão.
— Está tudo bem. — Eu disse enxugando meu rosto, forçando meu caminho para passar pela banda. — Vocês são ótimos. Eu prometo espalhar boatos bons sobre vocês quando me perguntarem. — Meu tom de humor era no mínimo melancólico.
Um monte de rostos em estado de choque e um olhar vagamente irritadiço por parte de Gaara. Não era como se realmente importasse, eu nunca mais veria nenhum deles. Esta parte da minha vida tinha acabado.
Uma discussão começou ali atrás na cozinha, inúmeras vozes subiram com raiva e consternação. Eu não abrandei, não voltei atrás.
Provavelmente há um monte de coisas que eu poderia dizer sobre a natureza do amor. Exatamente o que eu significava ou não para Sasuke nunca seria conhecido, talvez nem mesmo para ele. O amor era realmente um dos mistérios da vida. Isso pode te foder em todos os sentidos imagináveis e ainda permanecer tão absolutamente bom e acolhedor, impressionante. Acho que tudo depende de como você olha pra isso. Logo em seguida, eu estava olhando para o longo caminho solitário pra casa. Quer dizer, a casa que eu jamais deveria ter abandonado.
As lágrimas corriam mais rápidas e eu as deixei cair sem controle.
Algumas coisas foram feitas para serem sentidas ao máximo. Pôr para fora, acabar com isso de uma vez.
Eu gostava de pensar que ele ia sentir minha falta, mas a verdade era que ele ficaria bem quando eu tivesse ido embora. Haveria outra pessoa no meu lugar, alguém para responder a seus e-mails e mantê-lo em ordem. As chances eram que eles fariam um trabalho melhor do que eu tinha feito e não ferraria tudo com uma maldita paixão.
♫
Meu maxilar doía de tantos sorriso para pessoas durante meu caminho pelo aeroporto. Todas desconhecidas. Algumas perguntas de fãs e até autógrafos. A comissária de bordo pediu para tirar uma foto comigo e eu apenas aceitei. Eu nunca pensei que trabalhar para alguém famoso te faria embarcar nem que por um pedaço de toda a coisa.
Felizmente, as pessoas de Nemuro eram simples e desligadas a esse mundo avançado de fama. Meu sossego lá era garantido.
Abraços, risadas e muita história para contar sobre a grande Tóquio. O sr. Tomoyo era o dono da cafeteria que frequentei durante toda minha infância até adolescência e foi gratificante o reencontrar.
— Sua mãe vem aqui falar de você todos os dias. — Ele colocou uma xícara a minha frente e o creme ao lado. — Ela vai enlouquecer quando te ver.
— Eu quero fazer uma surpresa. — Eu disse. Inalei a fumaça quente e deliciosa antes de mergulhar naquela maravilha. — Também estou com muitas saudades. Não pretendia voltar agora, mas não deu muito certo...
— Ah, pequena Sakura, você foi muito corajosa de ter tentado. — O homem deu um sorriso encorajador. — Isso foi como um grande aprendizado. Da próxima vez, tenho certeza que saberá se virar. Para alguém que ficou por três meses em Tóquio e sobreviveu você resistiu bastante.
Nós dois rimos. A minha risada, no entanto, foi de frustração.
— Você tem razão. Mas não pretendo voltar. — Eu beberiquei o café. — Nunca mais.
O olhar do homem se deteve em mim enquanto suas mãos nunca paravam na limpeza do balcão. Eu tinha certeza que meu olhar poderia falar muito de vez enquanto. Agradeci por seu silêncio consolador.
— Mais uma dose? — Ele perguntou. Seus olhos estavam no copo vazio.
— Por favor.
— Você vai ficar bem?
Sua atenção em uma mistura amigável e preocupada me fez dar um breve sorriso. O sorriso mais triste que já dei em minha vida.
— Eu vou.
♫
— Mesa três, Sakura.
— Certo.
Deslizei pelo balcão cautelosamente, as bandejas em minhas mãos cheias de torradas, cafés e pães. Ter um sorriso simpático e servir os clientes com muita atenção. Isso era o suficiente para você ser boa.
— Oh, obrigada. — A senhora com roupas floridas e um imenso chapéu de verão agradeceu.
— Precisando é só chamar.
O dia lá fora estava bonito. Fazia um tempo que eu não via o sol e essa claridade reluzindo nas calçadas. O clima nessa cidade era diferente de qualquer outra. As pessoas eram mais felizes, mais sociais. Nada de apartamentos chiques ou carros de última geração, enfileirados. Era apaziguador o cheiro da brisa no final da tarde e o grito das crianças que se divertiam no parque de cada esquina.
Esse trabalho de meio perídio na cafeteria do sr. Tomoyo foi infinitamente bom. Os funcionários daqui eram legais e sempre programavam algo legal para fazer depois do expediente. Eu, claro, estava em todas. Era bom pra mim ter pessoas tão legais e divertidas por perto. No final do dia, eu trocava meu uniforme, conferia o caixa e fechava as portas.
Nada mais justo por ser a novata.
O sol já estava se pondo, o último cliente demorou a saborear seu cappuccino e eu tive que aguardar pacientemente até que ele fosse embora. A noite engolia o céu quando guardei o molho da loja em minha bolsa. Diferente dos outros dias, o vento era gélido. Apertei o casaco contra meu corpo, meus passos na calçada eram lentos e despreocupados, embora o horário fosse o mais avançado de todos os dias.
As lojas e bares já começavam a abrir, música, tumultos, motos e carros sendo estacionados. A diversão de Nemuro começava ao anoitecer. Os letreiros coloridos eram ligados, placas movimentadas e mulheres bonitas distribuindo folhetos pelas ruas.
— E essa é mais uma notícia sobre o astro de rock, Sasuke Uchiha.
Meus pés paralisaram no mesmo momento. No final do balcão e ao lado de diversas bebidas, uma televisão antiga e chiando mostrava a apresentadora com a expressão tensa e a foto dele na parte superior da tela. Eu me aproximei imediatamente, tendo o olhar curioso do atendente sobre mim.
— Dessa vez ele exagerou. O cantor começou a primeira turnê da banda e abandonou o show após esquecer a letra. — Um vídeo filmado por fãs aparecia. Sasuke jogou o microfone no chão e saiu. — Ele parecia bêbado.
— Ele não estava lutando contra isso? — Uma outra mulher perguntou.
— Sim, mas parece que falhou. — Agora o vídeo mudou para um em que Sasuke estava caído em frente ao hotel e muitos fãs o filmavam e gritavam. Naruto surgiu entre a multidão e começou a tentar levantá-lo. — Esse é um vídeo mandado por internautas. O cantor parecia ter desmaiado.
— Por causa do álcool, talvez? — A outra sugeriu.
— É muito provável. Eles estão pelo México agora, e a segurança já alertou que se continuar com toda a polêmica, terão que sair do país. — A tela mudou para outro vídeo. Duas mulheres estavam agarradas a Sasuke e ele as segurava com força. Uma mão na bunda, outra na coxa. Foi repugnante. — Pelo visto o cantor também está curtindo as mulheres mexicanas...
— Você é fã desse babaca? — O atendente finalmente disse algo. Um sorriso debochado e reprovador em seus lábios e um pequeno fiapo de mato.
— Não. — Eu dei um passo para trás. Minha mente parou e eu já não conseguia mais ouvir a voz da apresentadora.
Segurei a bolsa contra meu corpo e continuei o meu caminho.
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