Sua voz

1 Capítulo 1 - Ausencia de Pistaches e um emprego novo


Notas iniciais
Quer criticar? Comentar, perguntar? MANDA PRA MIM QUE EU RESPONDO TUDO! Beijo e divirtam-se :')

A boca do homem continuou se movendo, mas eu tinha parado de escutar a muito tempo.

Eu não era paga o suficiente para aturar isso, por favor. Era meu terceiro dia de trabalho e eu estava pronta para me jogar pela janela. Ser uma entregadora de pizza definitivamente não era para mim, mesmo que eu estivesse precisando muito da grana.

— ... Isso é tão difícil de entender? Eu pedi três vezes e recitei os sabores! Você tem noção que eu tenho alergia a picles? Que eu poderia ter morrido caso ingerisse isso? — O idiota do cliente trovejava, com as bochechas tremendo e eu só conseguia pensar que meu aluguel estava prestes a vencer. Parada na porta, com os braços já doendo enquanto segurava a caixa de papelão com a pizza, estava prestes a sair e o deixar batendo boca com o nada.

Não. Eu não estava ganhando o suficiente para aturar isso, definitivamente.

— Você está me ouvindo? — Seu falso bronzeado passou de laranja para um tom surpreendente de bordô quando sua raiva cresceu. Se ele tivesse um ataque cardíaco, eu não faria nenhuma respiração boca-a-boca. Por mim aquele grande idiota poderia morrer se debatendo ali na minha frente e eu me sentaria, comeria um pedaço da pizza enquanto assistia sua morte. — Senhorita... ou qualquer que seja seu nome. — Ele disse. — Volte para a loja e traga o sabor que pedi dessa vez!

— Sakura. Meu nome é Sakura Haruno. — Eu passei para ele um guardanapo, tomando cuidado para não tocá-lo, porque um verdadeiro profissional sempre mantinha distância. Além disso, o cara era repugnante. — E isto é para você.

— O que é isso?

— É uma mensagem do gerente de plantão da pizzaria pedindo desculpas pela falta das calabresas e pistaches. Aparentemente, eles só conseguiram a compra destes produtos no final do dia. — Eu disse. — Já que o senhor não acreditou em mim quando expliquei isso por telefone, me dei o trabalho de pedir que outra pessoa explicasse.

O miserável olhou perplexo de mim para o guardanapo e eu continuei:

— O nome do responsável é Kakashi. Ele é legal, calmo como se fumasse ervas medicinais. Você deveria ligar para ele caso duvide de mim novamente. — Eu tentei apontar para os números em questão, mas o homem arrebatou sua mão para trás, amassando o guardanapo em uma bola de lixo. Certo, pelo menos eu havia tentado. Mesmo que de uma maneira preguiçosamente irônica.

Risos irromperam de suas costas, da parte de dentro do apartamento. Um cara de boa aparência, com cabelos loiros e olhos azul-piscina sorriu para mim, aparecendo por trás do homem. Fico feliz que o loirinho estava se divertindo. Eu, por outro lado, estava, provavelmente e definitivamente, prestes a ser demitida. É isso que se espera depois de 72 horas trabalhadas e um boletinho de reclamações maior do que os pedidos.

Espere, era Naruto Uzumaki da Suicide Band?

Porra, claro que era!

Naruto, se posso chamá-lo assim, apontou o dedo para meu crachá e minha cara amassada na pequena foto e sorriu. — Sakura Haruno, certo?

— Sim.

— Eu gosto de você. Estava ouvindo sua explicação, você é engraçada.

— Obrigada. — Respondi secamente. Meu humor cada vez mais abalado pela confirmação que tomaria um pé na bunda, ao julgar pela expressão do homem que fizera o pedido, que me espancava em seus pensamentos.

— Naruto — o homem intrometeu. — Deixe-me apenas me livrar dessa... mulher. E nós podemos terminar nosso assunto.

O monstro virou os olhinhos redondos de volta para mim.

— Falarei com seu chefe a seu respeito e exigirei que ele a demita. Agora saia.

E lá se foi minha chance. Um grande suspiro triste e aquele papelão em minhas palmas que me deixavam mais incomodadas.

— Não tão rápido. — Naruto puxou um de meus braços, tirou a pizza de minhas mãos e fez meus pés caminharem para dentro do apartamento, me levando de encontro a uma decoração perfeita pelo braço. Móveis que provavelmente comprariam toda minha vida e mais um pouco. Dois homens estavam sentados nas poltronas e o terceiro dormia em uma rede improvisada no canto da sala. Imediatamente os reconheci como os demais integrantes de Suicide Band. Pelo menos consegui ver alguns de perto antes de darem um pontapé na minha bunda. Eles não parecem particularmente diferentes do que nós, seres humanos normais, apenas um pouco mais bonitos, ou muito mais bonitos, dependendo da sua autoestima. Mesmo eu, estando cansada dos homens, não poderia negar seus charmes. Eles eram os irmãos Sasuke e Itachi Uchiha e Gaara, o baixista. — Você sabe quem eu sou, Sakura? — Naruto estava me olhando quando voltei a atenção para seu rosto.

— Sim.

Ele me deu um sorriso fácil.

— Você não parece muito impressionada comigo. Eu não sou impressionante para você?

— Apesar de não ser fã de sua banda, o conheço. Mas acho que estou um pouco ocupada agora com meu emprego para apreciar plenamente a magnitude do momento.

Naruto colocou a pizza sobre algo e voltou a me olhar. Ele era bonito e aposto que aquele sorriso funcionava em muitas e muitas mulheres. Mas não estava funcionando em mim.

Ele se encostou ao batente da porta, aproveitei esse momento para olhar os outros dois, que já estavam me observando em silêncio.

Eu deveria me sentir feliz. Estou na casa de uma das bandas de Rock mais populares do Japão, mas tudo que consigo fazer é agir com indiferença. Talvez porque seja indiferente.

— Ei, Sakura. — Inclinando a cabeça, Naruto bateu um dedo contra seus lábios. — Você é solteira?

— E você quer saber por quê?

— Só por curiosidade. A julgar pela careta, eu acho que a resposta é sim. É uma vergonha os meus companheiros de toda a parte negligenciarem uma garota legal assim como você.

“Se um grande número de seus “companheiros” não tivesse me traído”, completei em minha mente. Eles escolheram me ferrar em vez disso, por isso a careta. Mas de forma alguma eu diria isso a ele.

— Já acabou com essa conversa? — o homem do início continuou na porta, esperando com que eu me retirasse, confuso com toda aquela situação. E eu também estava. Mas naquela altura me sentia perdida o suficiente para ter alguma atitude.

— Só um segundo, Zabuza. — Naruto me deu um lento olhar da cabeça até os pés, com os olhos persistentes na curva dos meus seios. — Eu realmente acho que ela pode ser a certa. — disse, abrindo outro sorriso significativo.

Eu pisquei. Que porra ele estava falando?

— O que?

— Vamos lá, olhe para você, você é tão bonitinha e fofinha. Mas o que eu particularmente adoro é a forma como você está me dando esse olhar de “vá se foder” discretamente.

— Acho que você está sendo rude. — Disse em um tom descontraído, não que ele esteja totalmente errado. Tudo que eu queria era me assegurar que continuaria a ter como me sustentar e no momento nada conseguia me atingir mais que essa aflição.

— Não estou e você sabe. Mas preciso de você. — Ele respondeu em tom implorativo. — Mas não pra mim, exatamente.

— Não?

Porque diabos eu ainda interagia?

— Infelizmente, não. — Ele balançou a cabeça.

— Que triste. — Minha ironia não cabia em mim.

— Sim, eu sei. Você realmente está perdendo. — Naruto suspirou, deslizando o cabelo atrás das orelhas. Então, ele olhou por cima do ombro, para os dois sentados no sofá. — Senhores, sobre o problema que estávamos falando antes. Acredito que encontrei uma solução.

Itachi Uchiha olhou para Naruto e depois para mim e vice-versa, com a testa enrugada.

— Você está falando sério?

— Cento e dez por cento.

— Ela é uma entregadora de pizza. — O irmão Uchiha mais novo, Sasuke, nem sequer olhou para mim. Sua voz era suave, profunda. Profundamente desinteressada. — Não tem nenhuma qualificação.

Essa havia doído.

Naruto fez uma careta.

— Porque todas as que têm qualificação fizeram um trabalho de merda. Quantas vocês já demitiu ou fez fugir até agora? É hora de tentar algo novo, cara, dar um tiro no escuro e esperar para ver o que acertamos. Abra sua mente para a maravilha que é a senhorita Sakura Haruno.

— Do que você está falando? — Eu perguntei intrigada. Ou melhor, assustada.

— Pessoal, pessoal. — O idiota, Zabuza, começou agitar as mãos em pânico no meio de todos. — Vocês não podem estar falando sério. Vamos parar e pensar sobre isso.

— Dê-nos um minuto, Zabuza. — Itachi disse e voltou os olhos para Naruto. — Ele não é fácil de se conviver. Acha que ela poderia lidar com isso?

Sasuke bufou.

— Sim, eu sei. — Naruto disse, animado. Ele movimentava seus punhos, como se fosse lutar. — Tenho certeza que essa garota aqui é dura na queda. Você não vê a forma que ela enxerga as coisas que fariam tumulto em qualquer outra pessoa?

Eu ainda estava o olhando tediosamente.

Que maluco. Eu dei uma palmada tirando o seu punho para longe do meu rosto.

— Sr. Naruto, você tem cerca de cinco segundos para começar a fazer sentido ou eu vou embora daqui.

Itachi me deu um pequeno sorriso. De aprovação, talvez? Eu não sei e isso não importava. Este circo tinha ido longe demais. Eu tinha explicações para dar à agência de trabalho temporário. Já que essa não era à primeira vez que eu brigava com um idiota no trabalho, minhas esperanças por perdão eram baixas. Eu poderia moderar a minha atitude uma vez ou duas. Mas, sempre, e principalmente, partindo de um cara influente, apesar de não saber o que o tal Zabuza fazia ali, era demais.

Com os ombros caindo em decepção, Naruto suspirou.

— Como eu disse antes, preciso de você.

— E pra quê, exatamente? — Tentei mais uma vez.

— Não, você não precisa dela. — Sasuke Uchiha encolheu os ombros largos, que enchia a parte interna de sua jaqueta de couro. Eu quase me senti mal por ele. Mesmo não sabendo de nada. Apesar de sua voz vocifera, me mantive tranquila até então. Ignorada mais uma vez, acho que posso suportar.

— Eles precisam continuar acreditando nisso, uma vez que tudo esteja por apenas um fio. — Itachi disse para o irmão. — Você está indo muito bem, mas não podemos pagar para ver você sair da linha.

— Eu não vou sair da linha. — Sasuke retrucou.

— Nós vamos para a estrada em breve e sua rotina vai ser jogada no lixo. O tipo de situação em que poderia cair de volta aos velhos hábitos facilmente. Você ouviu o que o mais recente terapeuta disse. Tudo bem. Você consegue fazer isso, vamos lá — Apesar de seu irmão falar, o olhar gelado de Sasuke nunca me abandonou.

Olhei de volta, imperturbável. Não era o meu estilo recuar um desafio.

— Ok, porra. Vou contratá-la. — Sasuke disse vencido.

Eu ri.

— Hum, Sr. Uchiha, eu não concordei com nada ainda. Nem sei o que vocês estão falando… Isso não está evidente?

— Mas há condições. — Sasuke continuou.

Ao meu lado, Naruto socou os punhos no ar, fazendo ruídos como se tivesse uma multidão. Meu comentário parece ter sido esquecido, eu já me acostumei com isso.

— Eu não quero você olhando pra minha cara o tempo todo. — Sasuke disse, me encarando. — Pode fazer o que uma assistente faz, mas não pense que poderá controlar meus passos.

Franzi minha testa, deduzindo do meu próprio jeito já que ninguém ali parecia disposto a me explicar.

— Um momento, por favor. Então, você está me oferecendo um emprego como sua assistente em tempo integral? — Eu perguntei, só para ter certeza.

— Não, eu estou oferecendo um período de experiência como assistente integral. Vamos dizer que um mês... Se você durar esse tempo.

Eu poderia passar um mês com ele. Provavelmente. O dinheiro teria de ser bom, no entanto.

— O que implica o cargo e quanto vai me pagar?

Meu rosto já ganhava um ar interessado. Deus, eu já podia sentir meus pés voltando para o chão e o alívio de continuar com um apartamento encher meu corpo.

— Trata-se de você não ficar na minha frente e o pagamento é o dobro do que fazia aqui.

— O dobro? — Minhas sobrancelhas se arrastaram em direção ao céu.

— Você não pode informar a ninguém sobre o que acontece comigo a não ser que eu entre em crise... — Ele disse. Olhos escuros e intimidadores pareciam atravessar meu corpo. — Então você só fala com um dos caras da banda ou o nosso chefe de segurança. Entendeu?

— De que tipo de crise, exatamente, estamos falando?

O olhei curiosa, mas seus olhos caíram para um de desdém novamente.

— Confie em mim, se isso acontecer, você vai saber. — Naruto disse ao meu lado.

— Então está feito, Sakara.

— Sakura. — Corrigi.

Eu tinha um novo e melhor emprego? Quando é que isso aconteceu mesmo?

O tal Zabuza fez um gargarejo fraco como se alguém estivesse sufocando-o. Mas isso não importava. A única coisa que importava era a forma como testa de Sasuke Uchiha suavizou. A raiva ou tensão, ou qualquer outra coisa, foi desaparecendo do seu rosto e ele me deu um olhar pensativo. Ele não sorriu. Nem sequer chegou perto disso. Mas só por um momento, eu me perguntei o que seria necessário para fazê-lo sorrir.

A curiosidade era uma merda.

— Certo, Sakura. — Ele pronunciou o meu nome arrastadamente desta vez. — Fique fora do meu caminho e vamos ver o que acontece.