Notas iniciais
Oie leitoras! Cheguei bem mais cedo do que esperava, mas a ansiedade de postar logo esse capítulo não me deixou em paz, o terminei ontem mesmo e faltou muito pouco para que eu não o postasse ontem, mas consegui me controlar um pouco. Hoje teremos finalmente a interação entre Julia e Hotchner! Boa Leitura!

No avião voltávamos para casa depois de mais um caso resolvido, estava um pouco cansada, abalada até com o que aconteceu mais cedo, mas ao mesmo tempo feliz por ninguém mais ter se ferido. Estava com um livro qualquer aberto em meu colo, não o estava lendo, não consegui me concentrar depois da primeira frase já lida. Talvez ainda estivesse distraída como estava mais cedo.

De esgueira notei quando Hotchner passou a se dirigir até mim, o vi sentar na poltrona de frente a minha e logo fechei o livro. Ainda o deixando sobre meu colo. Ergui meu rosto o encarando em silêncio, sua expressão era difícil de ser lida, mas eu tinha quase certeza de que ele estava me alisando como havia feito antes. Ficamos daquele jeito não sei por quanto tempo, mas o suficiente para me deixar sem graça o bastante ao ponto de fazer-me desviar meus olhos dele.

— Fala logo, vai. — Pedi ainda sem o olhar, não era comum eu me sentir daquele jeito com alguém. — Estou pronta para a bronca.

O ouvi soltar um suspiro curto.

— O que fez hoje, com o filho de Paul White — Aaron juntou as duas mãos, pousando-as sobre seu colo. — O garoto estava alterado, poderia ter levado um tiro ali, não só você, mas David também.

Concordei em silêncio.

— Ele não ia atirar em mim e nem em ninguém — Falei voltando a fitá-lo, porém não consegui fazer isso por mais de cinco segundos. Precisei desviar meu olhar outra vez do dele. — Sei disso porque ele tinha a oportunidade de atirar no pai e não o fez, atirou duas vezes na parede.

Ele demorou a responder, sabia que estava sendo encarada por ele e não encontrei coragem o suficiente para encará-lo de volta. Conseguia sentir o peso de seu olhar sobre mim.

— Não quero que seja imprudente quando estivermos em campo, o garoto estava alterado, com raiva — Sua voz saiu firme. — Lá não existe apenas você, mas toda a equipe também, precisa pensar melhor quando for querer tomar riscos como este, poderá colocar mais pessoas em perigo.

Balancei a cabeça positivamente de maneira lenta, ouvindo cada palavra dita pelo homem mais velho.

— Sim senhor. — Respondi ao criar coragem para olhá-lo, mantive-me firme ali. Não ficaria chateada por causa de uma bronca, não sentia que havia errado ao fazer aquilo e não deixaria que aquela bronca me abalasse.

— Apesar disso, fez um bom trabalho lá. Parabéns. — Dizendo isso ele se levantou e saiu, deixando-me sozinha. Hotchner provavelmente era o único ser humano que conseguia fazer um elogio soar como uma bronca ao mesmo tempo.

•••

Terminava alguns relatórios quando resolvi fazer uma rápida pausa para descansar por alguns minutos, percebi que não havia muitas pessoas ali e estranhei, quando olhei no celular para verificar que horas eram assustei-me, pois já passavam das onze da noite.
Apressando-me um pouco mais tentei finalizar todos os relatórios que tinha pendentes e deixei apenas um inacabado, do caso das famílias assassinadas que havíamos pegado recentemente. Eu poderia terminá-lo no dia seguinte e o deixei separado daqueles ja finalizados.

Comecei a arrumar minhas coisas quando o som estrondoso e alto do trovão cortou todo o ambiente silencioso dali de dentro anunciando que uma forte tempestade havia se iniciado. Da janela era possível ver as inúmeras gotículas baterem contra o vidro e também mais alguns clarões que rasgavam o céu escuro daquela noite, as luzes do escritório piscaram por alguns segundos, mas logo pararam.

Peguei minhas coisas e me dirigi até o elevador, passei por algumas salas e todas estavam sem ninguém; apenas uma ainda tinha sua luz acesa o que me deixou um pouco curiosa. Olhei rapidamente ao passar por ela, era a sala de Hotchner. Ele parecia concentrado no monte de papelada que havia sobre sua mesa e sequer prestou atenção quando passei por ela.

Olhei novamente o horário e era exatamente onze e quinze da noite, estranhei aquilo, pois nem mesmo uma pessoa que adorava seu trabalho ficava tanto tempo assim dentro de um escritório. Mas como aquilo não era da minha conta passei reto até chegar ao elevador. Apertei o botão que me levaria para o térreo e as luzes novamente piscaram e logo em seguida pude ouvir novamente o barulho alto e cortante do trovão. O mesmo som se repetiu por mais três vezes até que eu chegasse ao térreo, ali o som da chuva e dos trovões pareciam estar bem mais altos; como se eu estivesse debaixo da tempestade.
Caminhei até meu carro procurando pela chave dentro da bolsa e não a encontrei, vasculhei por todos os minis bolsos que existiam dentro daquela bolsa xingando mentalmente a pessoa que a havia criado. Estava com pressa, queria ir embora logo.

— Fala sério — Reclamei, a chave não estava ali o que só poderia significar que, ou eu havia a perdido ou a tinha esquecido em cima da minha mesa.

Preferia acreditar na segunda opção. Refiz todo o mesmo trajeto para voltar para o escritório ainda me xingando mentalmente por ter feito algo como aquilo, isso só estava me fazendo perder tempo. Lembrei-me do que Aaron havia me dito quando estávamos em Austintown sobre eu estar distraída por causa do caso e talvez ainda estivesse não era do meu normal esquecer algo como a chave do carro em cima da mesa. De fato aquele caso havia mexido comigo e de uma forma da qual eu não gostava nem um pouco.

Novamente no escritório passei pela segunda vez na frente da sala de Aaron Hotchner e vi que ele ainda estava lá, continuava a preencher aquele monte de papelada, ainda totalmente despreocupado com o horário e aquilo era um tanto preocupante.

— Ainda está aqui agente? — Ele perguntou de surpresa, me assustando com aquilo sem tirar os olhos dos tantos papéis e arquivos que estavam sobre sua mesa, parei na frente da porta de sua sala evitando olhando para seu interior, pois a cena ainda era a mesma da primeira vez quando passei por ali.

— É… Eu esqueci a chave do carro na mesa — Respondi coçando minha testa um pouco sem graça, não sei bem, mas dizer aquilo em voz alta pareceu ainda mais bobo do que eu imaginava. — Ainda está aqui agente?

Fiz a mesma pergunta, dessa vez olhando-o, mesmo que ele não estivesse fazendo isso. Ele então parou, soltou a caneta deixando-a em cima de um arquivo e então ergueu o rosto me encarando.

— Está tão tarde assim? — Perguntou um pouco surpreso, sua testa de franziu um pouco e agora ele parecia mesmo estar preocupado com o horário. Tirei meu celular do bolso olhando a hora.

— São onze e quarenta agora. — Disse, eu mesma me surpreendendo com a hora é por ver que já estava bem mais tarde do que esperava.

Não fiquei por mais tempo para ver o que ele estava fazendo, praticamente corri até a minha mesa e procurei pela chave até encontrá-la por debaixo do arquivo que deixei incompleto, seria aquilo um tipo de lembrete que eu deveria terminá-lo logo?

Peguei a chave e estava novamente fazendo o mesmo caminho para ir embora, entrei no elevador e antes que suas portas se fechassem Hotchner as segurou, impedindo que elas se fechassem.

— Vai para o térreo também? — Questionou me fitando brevemente. Assenti e depois de apertar o botão esperamos. Era estranho conversar com ele tão normalmente, parecia até que a bronca que ele havia me dado mais cedo não havia acontecido.

Não podia reclamar daquilo, sei que a bronca teve um propósito e apesar disso éramos adultos, isso não era motivo para ficar de infantilidade um com o outro. As luzes piscaram novamente, agora ficando apagadas durante alguns minutos, trovejou mais uma vez. O som foi bem mais alto e cortante que os anteriores, tão alto que acabou me assustando, houve um barulho estranho logo em seguida, as luzes do elevador piscaram de novo até que houve um apagão total ali dentro. O elevador parou de repente e de forma bruta, como se alguém o segurasse com força, segurei-me na parede ao perder o equilíbrio para evitar que caísse.

— Isso só pode ser piada. — Murmurei encostando-me na parede sem muita reação, não sabia o que dizer ou pensar naquela situação, até porque ficar mais nervosa só iria piorar tudo.

— Parece que foi um apagão geral — Ele disse apertando o botão de emergência, também pareceu não gostar nem um pouco daquilo. — Não tem nada funcionando. Mordi meu lábio com um pouco de raiva.

— E vamos ter que esperar até que tudo volte — Completei o pensamento, se eu não tivesse esquecido a chave na mesa talvez já estivesse em casa a essa hora. Ficar presa dentro de um elevador com meu chefe, o mesmo que havia me dado uma bronca horas atrás… Era só o que me faltava.

•••

Estávamos ali dentro já fazia uma hora, Hotchner e eu não havíamos trocado uma única palavra desde então. O silêncio chato e até mesmo constrangedor já tornara-se bastante incômodo.

— Sobre hoje, o que aconteceu mais cedo… — Hotchner começou a falar, ele iria mesmo retomar aquele assunto?

— Eu sei. — O interrompi. — Foi estupido da minha parte e não vou me arriscar novamente, entendi a bronca…

— Não estava falando sobre a bronca. — Ele disse me olhando não deixando tempo para que eu pudesse continuar a falar, franzi meu cenho não entendendo. — O que disse para o garoto, que as pessoas dizem que você e como o seu pai, por que não gosta quando dizem isso?

Torci meus lábios, de tantos assuntos que poderiam ser iniciados ali, ele resolveu ir direto naquele. Em algo que eu não queria conversar sobre.

— Não foi nada demais, só disse aquilo para que ele não atirasse no pai e cometesse um erro — Respondi dando de ombros, aquilo era mentira e pela forma como ele estava olhando acho que ele percebera que eu estava mentindo para ele.

— Dizem que sou parecida com o meu pai, ouço muito isso, mas só falam isso porque conhece apenas o lado agente dele, já eu conheço todos e não concordo com isso, nunca concordei de fato. — Suspirei mudando de posição, acabei desistindo de tentar não tocar naquele assunto, Aaron com toda certeza havia percebido que era uma mentira. — O luto de ter a esposa morta muda e muito algumas pessoas, geralmente para algo sombrio…

Me interrompi ao dizer aquilo, havia falado demais.

— Por isso estava tão distraída hoje durante o caso? — Ele perguntou, apesar de parecer já saber a resposta. — Parecia estar com a cabeça em outro lugar, distraída, distante e percebi como ficou quando estávamos nas casas. Casos assim mexem com você, como aconteceu com Thomas Odell…

— Você… Não me diga que você está me perfilando, está? — Perguntei totalmente incrédula o cortando. Estava mais do que claro que ele realmente estava fazendo isso. — Faz isso com os outros agentes também? — Cruzei os braços.

Hotchner pareceu rir, mas não tive tanta certeza daquilo. Se o fez, com toda certeza foi rápido demais para que eu notasse. Se a sua expressão sofreu qualquer tipo de alteração não pude ser capaz de perceber isso. E se ele realmente fez isso não vi motivo para tal.

— Com aqueles que parecem envolvidos emocionalmente em alguns casos que pegamos? Sim. Como eu disse, quando tiramos você e Spencer da casa de Thomas Odell também estava assim. — Uma pausa. — Tudo isso possui alguma relação com o que aconteceu com a sua mãe.

De novo com aquele assunto. Acho que aquilo havia praticamente respondido a minha pergunta, Aaron Hotchner estava mesmo me perfilando.

— Não totalmente — Respondi honesta. — Mas aonde você quer chegar com essas perguntas? Está me avaliando secretamente? — Perguntei me endireitando no chão, Hotchner ainda estava de pé e finalmente pareceu se cansar, sentou-se também ficando de frente para mim.

— Não, não estou. — Ele respondeu com honestidade também. — Mas se isso está mexendo com você deveria consultar algum especialista, não sei muito sobre esse caso, apenas o suficiente para ter uma noção do quão traumatizante isso pode ser para alguém — Ele continuou apesar da expressão em seu rosto, sua voz soou mais calma e até mesmo gentil. — Para uma criança de onze anos então, isso é bem mais traumatizante não acha?

Respirei profundamente e acabei desviando meus olhos do seu rosto, olhava agora para a porta do elevador, por um segundo havia me esquecido de que ainda estávamos presos ali dentro. Aquela conversa estava tomando um rumo do qual eu não gostava, as terapias que fiz quando mais nova era para tentar esquecer isso e lá estava ele, retomando aquele assunto e dizendo de uma forma discreta que deveria fazer novamente. Abaixei minha cabeça e ri brevemente.

— As cenas dos crimes — Comecei, virei meu rosto encarando-o novamente e agora tentaria não desviar meu olhar do dele. — A brutalidade e todo aquele sangue fizeram-me lembrar do que aconteceu com ela, foi só isso.

— E está melhor agora? — A pergunta não soou como se ele realmente estivesse preocupado, poderia até estar, mas ele ainda estava me analisando.

— Se eu falar que sim, você vai parar de me analisar? — Brinquei apenas para quebrar o clima e dessa vez houve resultado, ele sorriu. Foi um sorriso discreto, mas pude vê-lo se formar.

A pergunta pairou no ar, não houve resposta e nenhum de nós disse algo a mais e como já era de se esperar o silêncio voltou a nós fazer companhia ali, dessa vez, porém foi um pouco mais diferente. Nenhum de nós desviou o olhar do outro, o que foi um pouco estranho. Acho que parte de mim estava também o perfilando, mas não estava obtendo tanto sucesso assim como ele ao fazer comigo.

— Há quanto tempo conhece meu pai? — Perguntei para quebrar todo aquele silêncio.

— Trabalhamos juntos por um bom tempo, — Disse enquanto se arrumava no chão, encontrando uma posição que parecesse mais confortável para ele. — Lembro-me de um dia em que… Você ainda era só uma criança, ele ficou mostrando algumas fotos suas, tinha uma na qual você estava vestida de palhaço e

— E estava toda coberta com tinta — Falamos ao mesmo tempo, foi inevitável, ri ao me lembrar daquela foto e Aaron também estava rindo. Parecia uma risada realmente sincera. — Que estranho, você ver fotos minhas quando criança e agora estamos trabalhando juntos…

Bizarro. Pensei comigo mesma, mas de uma forma estranhamente boa e até mesmo um pouco engraçada.

— Mas e quanto a você, estou aqui contando muito sobre a minha vida — Comecei de um jeito pouco brincalhão, ele estava fazendo perguntas sobre mim e era justo que eu fizesse o mesmo com ele. — O que tem a contar sobre a sua vida, agente Hotchner?

Perguntei de forma pouco provocativa, sua reação foi inesperada. Ele arqueou uma sobrancelha fitando-me como se estivesse sorrindo com seus olhos, seus lábios estavam levemente esticados, não era possível perceber isso, pois ele conseguira disfarçar isso mostrando a expressão carrancuda de sempre.

Acho que ele estava mesmo disposto a responder, porém antes que ele pudesse sequer abrir sua boca o mesmo barulho que escutamos quando houve o apagão o interrompeu e sentindo um leve tranco no elevador.
As luzes dali de dentro acenderam-se novamente, no pequeno painel que nos mostrava em qual andar estávamos nos mostrou que havíamos parado no segundo andar. Quando sentimos que estávamos descendo até o térreo tratamos de levantarmo-nos do chão, Aaron me ajudou a levantar segurando-me pelo braço que não estava machucado.

Ao chegarmos ao térreo saímos os dois de dentro do elevador e caminhamos juntos até a garagem da unidade, era estranho como ali estava extremamente silencioso e calmo, apesar da forte chuva que ainda caia do lado de fora. O mais estranho foi perceber que Hotchner havia me acompanhado até onde meu carro estava estacionado, só notei mesmo sua presença quando ele parou a pouca distância de mim esperando que eu entrasse logo no veículo.

— Boa noite, agente Barbosa. — Ele fez um aceno rápido com a cabeça, dizendo meu sobrenome com falsa formalidade, aquele era outro tom de voz. Ele estava sendo muito gentil, apesar de ter me chamado pelo sobrenome.

— Boa noite agente Hotchner. — Respondi esticando levemente meus lábios num sorriso também gentil.

Ele acenou novamente com a cabeça e então seguiu para seu carro, sem que eu percebesse que estava fazendo isso o segui com meus olhos até vê-lo parar na frente do seu carro. De longe pude vê-lo também entrando e logo em seguida dando partida para sair dali.

Ter passado quase duas horas e meia dentro daquele elevador com ele talvez não tinha sido de todo tão ruim assim como eu pensava que seria

Notas finais
Beijos e até o próximo capítulo, avisando que seja bem leve também.