Notas iniciais
Voltei depois de uns dias longe por causa do carnaval e também estava precisando dar uma descansada de tudo, mas não podia abandonar vocês não é mesmo? Mais um capítulo para vocês meus amores e é provavel que sábado mesmo eu acabe postando mais um, então é só aguardarem. Boa leitura.

Sábado havia chegado e com ele um dia bastante ensolarado e abafado, se comparado com os dois dias anteriores a mudança tão repentina e drástica de clima foi enorme, dois dias seguidos de apenas chuva e nada mais que isso e agora um dia todo com um sol castigador.

Uma mudança bastante notável.

Já havia se passado das duas horas da tarde e até o momento não havia recebido uma única ligação da UAC sobre algum caso que poderia ter aparecido; eu não sabia dizer se isso era algo bom ou ruim, mas pude tirar algum proveito disso. Teria o dia todo em casa para descansar e fazer tudo o que tinha para fazer em casa.

Doug — meu labrador — estava deitado entre a divisa da cozinha com a sala, brincava com um de seus brinquedos e com rapidez se levantou do chão de uma só vez e correndo em direção a porta passou a latir alto o bastante para chamar a minha atenção.

A campainha tocou em seguida e o cachorro logo parou, porém continuou próximo da porta numa posição como se quisesse atacar a pessoa que esperava do outro lado dela.

Quando a abri um homem de quarenta e tantos anos, vestindo um uniforme azul claro com alguns detalhes na cor preta estava parado na frente da minha porta. De imediato o olhei um pouco desconfiada, a forma como ele me olhava me assustou um pouco; uma pequena parte de mim parecia conhecê-lo de algum lugar, mas achei que aquilo era apenas um engano.

Tinha quase certeza de que nunca o havia visto em toda a minha vida.

Pensei também que aquilo pudesse ser um engano, mas isso mudou quando vi a estampa da empresa na qual ele trabalhava bordada em seu uniforme de forma visível para que pudesse ser lida por qualquer pessoa.

— Você é a senhorita Barbosa? — Ele perguntou, tirando o crachá do bolso e mostrando sua foto dele mesmo e com seu nome escrito nele. — Sou Sawyer Austen, estou aqui porque a senhorita pediu por um sistema novo de segurança na sua casa.

— Ah sim! — Respondi o cumprimentando e dando-lhe espaço para que pudesse entrar, bloqueando a passagem para que Doug não fosse para cima do homem e acabasse o atacando. — Não me lembrava de que seria hoje a instalação, tem apenas alguns dias desde que liguei para vocês e pedi pelo pacote.

Ele tirou o boné velho da cabeça e me olhou, seu rosto continha muitas marcas mostrando que sua idade já o estava afetando, seu cabelo batia em seus ombros e estavam levemente grisalhos.

A sensação de que pudesse conhecê-lo de algum lugar voltou, dessa vez o olhei melhor até que vi que ele era apenas mais um desconhecido.

Ele parecia velho demais para aquele tipo de serviço, mas quem era eu para dizer isso a ele?

— Bom, a empresa TES é conhecia por sua excelência em trabalho e isso não é à toa, senhorita — Ele mostrou-me um sorriso curto. — Agora basta me dizer como a senhorita deseja que o sistema de segurança seja instalado e aonde quer que sejam postos e já poderei começar com o trabalho.

Expliquei a ele tudo o que era necessário, como queria que tudo fosse instalado e principalmente onde eu queria que ele insatasse o sistema.

Após explicar isso a ele depois o deixei trabalhar em paz, voltei para a cozinha para terminar de lavar a louça.

O cachorro voltou comigo, porém continuou no mesmo lugar que estava antes da campainha tocar, parecia estar de olho naquele homem.

Vez e outra eu tirava nem que fosse apenas alguns poucos segundos para vigiá-lo, apenas por precaução e também para ver como estava indo tudo. Sempre fui um tanto desconfiada das pessoas e por ter um estranho dentro da minha casa não podia simplesmente baixar minha guarda; mesmo que ele fosse apenas um técnico de uma empresa contratada.

Ele parecia concentrado no que estava fazendo e não se importar muito com o cachorro a lhe observar, não parou por um único segundo e nem mesmo fizera uma única pausa. Talvez quisesse terminar logo aquilo, assim como eu queria que ele terminasse aquilo logo também.

O serviço da instalação que havia pedido não demorou tanto e também não fora tão barulhento como eu imaginava que seria.

Sawyer Austen havia feito um bom trabalho ali e sem fazer bagunça na minha casa. O que achei ótimo, pois já havia a limpado antes e não queria ter que fazer aquilo novamente.

— Se ocorrer qualquer problema no período de trinta e seis horas é só nos avisar que mandaremos um técnico para solucionar o problema relatado — O homem começou a arrumar suas coisas e quando terminou se dirigiu à porta, o acompanhei. — Fique com o nosso cartão, qualquer dúvida ou problema basta nos ligar e esclareceremos tudo para a senhorita.

Ele retirou um cartão como o nome da empresa na qual trabalhava e dois números para contato e me entregou.

— Obrigada senhor Austen. — Agradeci da forma mais simpática possível, ele explicou rapidamente algo sobre o telefone e como desligá-lo caso eu quisesse e então se despediu indo embora logo em seguida.

Deixei o cartão pregado no pequeno painel de recado na minha parede e então voltei para a louça. Terminei de lavar e guardar tudo em seu devido lugar depois de dez minutos e então, me dirigi para o quarto, arrumando-o por cima já que, ele estava praticamente limpo. Não esquecendo de organizar uma mala para viagem para o trabalho.

Estava mal acostumada a ficar em casa por tanto tempo, tinha praticamente um dia todo de folga e não sabia o que fazer para aproveitá-lo.

Não queria ter que admitir que estava gostando náiade gastar meu tempo no trabalho do que ficando em casa.

Não queria acabar me transformando numa versão feminina do meu pai.

Sentada agora no sofá olhava para o ambiente onde me encontrava, torcia mentalmente para que JJ ou Garcia me ligassem dizendo que tínhamos recebido um caso novo, mas aquilo não acontecia.

Depois de passar mais duas horas enfornada ali dentro decidi sair um pouco de casa com Doug, leva-lo para passear um pouco e quem sabe tomar um pouco de ar. Pois eu sabia que estava mesmo precisando daquilo.

Vesti uma roupa que fosse adequada para aquele dia tão ensolarado e prendi o cão na coleira, o preparando também para sair.

Enquanto caminhava minha mente levou-me até duas noites atrás onde passei horas presa dentro de um elevador com meu chefe Aaron Hotchner.

A conversa longa e por muitas vezes silenciosa até demais que tivemos continuava fresca na minha mente, como se ela tivesse acontecido horas atrás. Era estranho pensar que ter tido aquelas longas horas de conversa um com o outro pareceu mudar alguma coisa em relação a nós dois, apesar da bronca que havia levado no mesmo dia, o que veio horas depois daquilo foi algo completamente diferente daquele homem ranheta e emburrado.

Acabei saindo tarde nos dias seguintes também — não por opção —, claro que dessa vez não fiquei presa no elevador nem nada parecido e acabávamos nos esbarrando. A conversa entre nós parecia fluir bem melhor da segunda vez e na terceira já era bem mais fácil de entendê-lo, mesmo que ainda estivesse numa batalha interna para tentar conseguir perfilá-lo; algo no qual ainda não obtive muito sucesso.

A caminhada logo se tornou uma corrida, não nunca muito do tipo atlética, mas naquele dia me via disposta a tal. Segurando parte da coleira de forma que Doug não ficasse tão próximo de mim, nós dois corríamos em sintonia.

Mesmo que aquilo não fosse algo digno de ser chamado de exercício eu só queria livrar-me de alguns pensamentos; alguns deles relacionados ao meu chefe.

Chegamos quase ao limite do parque, mais afastados de onde estava havia um playground onde muitas crianças brincavam umas com as outras. Parei aos poucos diminuindo a velocidade até que me vi iniciando uma caminhada, dei algumas voltas com o cachorro até que parei novamente de caminhar quando Doug puxou a própria coleira, ele havia sentado no meio do caminho, despreocupado com toda a movimentação do parque.

Tentei forçá-lo a sair dali, o puxei algumas vezes, mas por ele ser um cachorro grande e também um pouco mais forte que eu, acabei perdendo para um laborador.

Esperei que ele voltasse a se mover por vontade própria, porém nada daquilo aconteceu.

— Está com dificuldades com o cachorro? — Aquela voz me fez travar por alguns segundos, a reconheci de imediato e ao me virar vi Hotchner caminhar na minha direção, um garoto com provavelmente cinco ou seis anos segurava na sua mão. Seu filho talvez?

— Bom… — Olhei para o cachorro. — A convivência comigo deve tê-lo influenciado um pouco a isso.

Ele sorriu brevemente. Senti-me estranhamente desconfortável com a sua presença ali, como se já não fosse o bastante vê-lo durante a semana encontrar com ele durante um sábado de folga não estava em meus planos; ainda mais depois do incidente que tivemos envolvendo um apagão total e um elevador parado.

A noite na qual tivemos uma longa conversa, parte dela com informações sobre a minha vida. Era estranho olhar para Hotchner sem todo aquele figurino de agente sério, pois nunca o havia visto com outras roupas além dos costumeiros ternos e gravatas que ele sempre usava.

Vê-lo vestido como uma pessoa normal era de fato um pouco estranho para mim.

— Então, você também está aproveitando o dia ensolarado? — Perguntei numa maneira de quebrar o silêncio formado entre nós.

Na verdade só queria mesmo que aquela sensação de desconforto se retirasse de mim o quanto antes.

— Só passando um tempo com o garoto, Jack diga olá para Julia — Ele pediu pra o menino que me olhou com um enorme sorriso no rosto, o menino em muito se parecia com ele, exceto pelo brilhoso cabelo loiro. — Julia este é Jack, meu filho.

Olhei para o menino que segurava em sua mão.

— Oi Julia! — O garoto me cumprimentou com um pouco de animação, havia notado que ele não tirava os olhos de Doug.

— Você também trabalha com o meu pai?

— Trabalho sim, Jack. — Respondi o cumprimentando também.

Ele balançou a cabeça parecendo um pouco distraído e então voltou a encarar o labrador ao meu lado, Jack também olhou rapidamente para o pai.

— Pai, eu posso brincar com ele? — Ele perguntou como se eu não o tivesse escutado. Aaron apenas me mirou e deu de ombros.

— Se a Julia deixar — Ele respondeu ainda me fitando.

— Claro que pode. — Soltei a coleira da minha mão e a entreguei para o menino loiro, Jack com um pouco de vergonha a segurou e foi de imediato, Doug veio na sua direção o cheirando como costumava fazer com outras pessoas que não conhecia e então, sem que pudéssemos ter tempo de perceber, os dois saíram correndo de uma só vez.

Jack gargalhado alto enquanto o cachorro latia, ambos mostrando animação. Olhei de esgueira para Hotchner e ele parecia tão surpreso quanto eu ao ver aquilo, seu filho não havia se afastado muito de onde estávamos, parecia estar mesmo se divertindo com o cachorro e podia dizer o mesmo de Doug.

Ficamos os dois ali, parados apenas observando a cena do garoto correndo de um lado para o outro com o labrador até que Aaron mostrou um banco vazio e gesticulou para que nos sentássemos nele, enquanto seu filho brincava com o cachorro.

— Jack parece estar se divertindo com Doug — Comentei, ainda observando o menino de longe. — Geralmente ele é um cachorro tão calmo e demora um pouco para se acostumar assim com outras pessoas, nunca o vi tão eufórico desse jeito. Foi bem esperto, me trocou por alguém bem mais jovem.

Ouvi Aaron soltar uma risada baixa e breve. Prestei um pouco de atenção no homem sentado ao meu lado, Hotchner olhava para o filho com um olhar completamente diferente de todos os olhares que já havia visto.

— Fazia um tempo que não via Jack brincar e sorrir desse jeito — Ele confessou com um pouco de pesar. — Depois da morte da mãe e com tudo o que ele passou… É muito bom vê-lo assim de novo.

Juntei meus lábios ao ouvir aquilo.

— Sinto muito. — Virei meu rosto, voltando para a cena de Jack e Doug brincando um com o outro, não sabendo ao certo o que dizer após escutar aquilo.

Não sabia que Hotchner era viúvo e foi estranho saber sobre isso desse jeito. Abri minha boca, porém antes que eu pudesse dizer alguma coisa nossos celulares oneraram a tocar de repente, me pegando um pouco desprevenida.

Ele se levantou ao mesmo passo que eu, nos afastamos um pouco um do outro, porém mantive meu olhar direcionado até onde Jack e o labrador estavam. E então atendi a ligação.

— Alô? — Perguntei esperando pela resposta, não reconheci o número do qual estava recebendo aquela ligação.

— Eu odeio, de verdade mesmo, Julia, estragar o seu sábado — Aquela voz pertencia a Garcia. — Mas acabei de ser informado por JJ e pelo que parece temos um novo caso.

Balancei a cabeça mantendo-me em silêncio por poucos segundos antes de responder.

— Ok, — Respondi coçando minha testa. — Chego aí em dez minutos no máximo.

— Até daqui a pouco então garota. — Garcia respondeu e então nos despedimos uma da outra encerando a ligação.

Guardei o celular voltando para perto do banco, Aaron havia acabado de encerar a ligação também, pelo visto ele também foi chamado para a unidade por causa do caso que apareceu.

— Garcia? — Ele perguntou guardando seu celular e me fitando durante alguns poucos segundos.

— Sim. Um caso novo. — Respondi desviando meu olhar dele.

Ele balançou a cabeça com lentidão, não parecia ter gostado de ter sido chamado assim tão de repetente; uma pessoa normal não iria gostar mesmo. Aaron Hotchner chamou pelo filho e explicou brevemente o que havia acontecido e que teriam de ir embora, Jack pareceu compreender muito bem aquilo.

Diferente de outras crianças que provavelmente fariam birra por ter que ir embora do parque, o menino tão novo entendeu que o pai precisaria ir trabalhar.

Hotchner se ofereceu para me dar uma carona até a UAC, mas recusei. Estava com um cachorro enorme e não queria aparece por lá com um animal daquele porte.

Expliquei que teria de voltar para casa e deixá-lo, antes de ir Jack se despediu de mim e também de Doug dizendo que gostaria de brincar com ele novamente, aquilo ficou entreaberto e Aaron apenas me olhou calado.

Me despedi dele dizendo que o encontraria na unidade e assim fui para casa, arrumando minhas coisas para mais uma viagem que faria e me preparando para enfrentar mais um caso.