Stronger feelings
30 Capítulo 30
Notas iniciais
O silêncio tão absoluto dentro do jato era completo, mas apesar de todo aquele silêncio se estender ali, ele não era capaz de me manter focado no relatório que lia. Se eu estivesse pelo menos cinquenta por cento focado nas palavras que estava lendo já seria uma porcentagem alta de ser considerada.
Estávamos finalmente voltando para casa depois de uma semana toda cuidando de um caso no Texas. Apesar dele ter terminado bem, parecia que algo havia ficando para trás, ou que havíamos feito algo de errado.
Conseguimos prender o grupo de assassinos que, invadia casas de familiares apenas pelo prazer de vê-los sofrer.
Porém essa prisão custou a vida de toda uma família, ao mesmo tempo que havíamos chegado na hora, era tarde demais para salvá-la do destino cruel que receberam.
Olhei pela terceira vez na direção em que a Julia estava, sem perceber que estava distraindo-me outra vez. Minha mente traindo a mim mesmo novamente. Ela estava mais afastada do lugar onde me encontrava sentado — mantendo a discrição como ela mesma me dissera antes de decolamos — assim como os outros ela também estava dormindo, aproveitando o tempo livre que tínhamos antes de chegar em Virgínia.
Julia parecia bem mais relaxada, muito diferente de horas atrás.
De fato aquele caso havia deixado não apenas ela, mas a todos da equipe uma pilha de nervos, a demora para resolvê-lo que acabou custando uma semana inteira e algumas noites em claro. Não era de se surpreender que todos ali dentro estivessem descansando.
Reparei quando ela se moveu na poltrona, mudando de forma mínima a postura, ficando um pouco mais inclinada para o lado do corredor. Conseguia ver melhor seu rosto calmo, mergulhado no sono profundo. Continuei a olhar para seu rosto, sereno demais. Tranquilo demais.
Sua respiração era serena, calma demais para alguém que horas atrás se encontrava quase tão estressa quanto eu. Ela moveu-se mais uma vez, mudando a forma como estava deitada na poltrona, agora encolhendo as pernas de maneira que ela ficasse com todo o corpo debaixo da pequena manta clara que usava para cobri-la.
— Você deveria disfarçar melhor, sabia disso? — Dave soltou o comentário num tom baixo, não querendo fazer barulho para não acordar os outros. Já tinha meu olhar voltado para o relatório, apesar de não me lembrar muito bem em qual momento havia desviado meu olhar dela.
Sabia que ele tinha aquele olhar sabido e nem um pouco discreto sobre mim.
— Eu não sei do que você está falando. — Respondi, fingindo estar focado no que lia, quando na verdade não conseguia ler uma única frase sem que meus pensamentos se dispersassem.
Rossi soltou uma risada seca.
— A Julia já consegue fazer isso bem melhor do que você, evita os olhares e toda essa coisa de demonstrar que estão tendo um relacionamento secreto, mas você, meu amigo — Ergui meu rosto o suficiente para conseguir olhá-lo, David movia a cabeça de um lado para o outro bem devagar. — Não sei como os outros ainda não começaram a suspeitar de algo, se é que já não estão suspeitando.
Não tive uma resposta para aquilo, não negava que em certos momentos acabei dando alguns deslizes. Não sabia dizer se Julia perceberam aquilo, mas Rossi havia percebido.
— Mas mudando um pouco de assunto, não tivemos uma oportunidade para falar sobre o encontro que tiveram. E então, como foi o jantar? — Tornou a perguntar.
O olhei com seriedade, lembrando-me com muita facilidade daquele dia em questão. A lembrança continuava fresca em minha mente, seria quase impossível de se esquecer e eu não queria que isso acontecesse. Suspirei, o jantar estava ótimo, estava indo tudo bem se não fosse é claro pela interrupção.
— Foi muito bom, acho que ela gostou bastante, mas — Franzi meus lábios. — Fomos interrompidos num momento que… Bem, quando fomos chamados não era um momento tão apropriado assim para uma chamada de uma reunião — Contei, Rossi era um amigo e não havia razão para esconder algo dele. Não quando ele já sabia sobre nós dois.
Recordei-me do que exatamente aconteceu naquela noite, de com sua expressão se modificou tão rapidamente quando ambos os celulares tocaram. Quando ambos desejavam com todas as forças de que o toque escutado não pertencesse aos nossos celulares. David fez uma careta.
— Isso é muito mau, sabe que precisa pensar em algo para tentar compensar por isso não é? — Questionou-me mais uma vez, pendendo sua cabeça para o lado. — Espero que já tenha algo que compense por isso, o que não falta para você são motivos.
Franzi meu cenho da forma mais discreta que pude, Rossi era muito perspicaz, conseguiria notar a menor hesitação e precisava ser cuidadoso para com minhas emoções. Não havia chegado a pensar naquilo, quer dizer, eu queria que tivéssemos uma segunda chance e dessa vez sem qualquer tipo de interrupção, queria que ela esquecesse daquela noite que pareceu ser um grande fiasco.
— Vocês dois já esperaram demais, Aaron. — Ele continuou, seu olhar aids certeiro e ligeiro. Ainda precisava pensar em algo para fazer, algo que de alguma forma superasse o encontro pela metade. — Quer algumas ajuda com isso? Parece estar um pouco perdido.
Sua risada saiu baixa.
— Ainda não pensei em nada — Revelei. — Tive uma semana toda para fazer isso, mas o estresse com tudo o que tem acontecido e com esse último caso foi… Foi um caso muito estressante.
— Já encontrou algo. Tiveram um momento interrompido, já sabe como o que fazer para compensar — Dave esticou suas mãos abertas em minhas direção. — Podem tentar ter esse momento apenas para que ambos possam relaxar, se é que você me entende.
Arqueei uma sobrancelha.
— O que?
— Aaron Hotchner não se faça de sonso, porque isso não cai nem um pouco bem para alguém como você. — Repreendeu-me, dizendo o mesmo que Julia havia me dito durante um caso em New York. — Os dois são adultos, o jantar obviamente os levou para o algo a mais, mas nada os impede de tentar fazer isso novamente.
Rossi se inclinou um pouco para frente, juntou as mãos sobre o colo ainda me olhando da mesma forma de antes; era muito provável que ele estava me perfilando naquele momento.
— Eu serei bem honesto, — Começou a falar, fazendo uma rápida pausa quando ouvimos um movimento nos fundo. Ele pareceu esperar, querendo ver se alguém havia acordado, mas continuávamos sendo os únicos ainda de pé ali dentro. — Percebo a forma como a olha e como ela também o olha — pelo menos quando ela o faz. É notável que gosta dela, qualquer um que se te olhar consegue perceber isso.
Ele fez uma pausa rápida.
— Os dois já são grandinhos o bastante para entender que esses olhares não são apenas olhares bobos de duas pessoas que se gostam, ele têm um significado e são de puro desejo. Vai por mim eu sei bem do que estou falando. — Não respondi. — Julia é uma jovem moça muito bonita e atraente, digo isso com todo o respeito. E igualmente inteligente e você é homem, não precisa ficar com vergonha por desejá-la.
Voltou a se encostar na poltrona em que sentava.
— Se a deseja não precisa ter medo ou vergonha disso. E ela está bem ali, não perca mais tempo. Deixei o arquivo com o relatório que estava lendo antes ou pelo menos tentava ler sobre meu colo.
— A carne é fraca e o desejo difícil demais para ser controlado. — Disse com um pouco de malícia, mas mantendo o tom respeitoso em sua voz. — Não deve se envergonhar por sentir desejo pela mulher com quem está tendo algo.
Permaneci encarando o homem sentado na poltrona a minha frente sem ter uma resposta certa para ser dita ali, de fato David Rossi era um homem esperto, por isso era um dos melhores profilers da UAC.
— Entendeu o que você deve fazer? Que tal compensá-la pela interrupção daquele dia?… — Ele deixou a pergunta no ar, com um meio sorriso malicioso em seus lábios. — Entendeu o que eu acabei de lhe dizer, Aaron?
— Sim, eu entendi. — Respondi, não contendo o riso.
— Leve-a para casa e tenham um momento a sós com ela, — Continuou. — Vocês dois estão precisando, na verdade.
Sacudi minha cabeça de um lado para o outro, Rossi era o único que tinha coragem o suficiente para falar daquela forma comigo, dizer coisas daquele tipo.
— Já são adultos, não tente dizer que ficam apenas nos beijos porque eu não acredito nisso! — Finalizou, esboçando um sorriso divertido com os lábios.
De certa forma não estaria mentido se dissesse que não passávamos de longos beijos e algumas trocas de carícias mais intensas. O poupei de lhe dar mais detalhes, aquela conversa já estava se prolongando demais.
•••
Pousamos depois de vinte minutos e como Rossi me dissera para fazer me prontifiquei para levar Julia para casa; não por ele ter me dito para fazer, mas sim porque estávamos mesmo precisando de um tempo a sós.
Liberei toda a equipe, depois do caso tão cansativo acho que seria justo permitir que todos tivessem uma noite de descanso.
Estávamos em silêncio dentro do carro, o que já era algo normal para nós dois; algo que ambos costumávamos fazer sempre. Não dizer absolutamente nada, deixar que apenas o silêncio falasse por si só.
— Você está muito calado. — Ela quebrou o silêncio, sua voz soando no tom baixo de sempre. De esgueira pude ver quando ela virou o rosto na minha direção, encarando-me com aqueles olhos levemente grandes e castanhos. — Bem mais calado do que é o seu normal. Aconteceu alguma coisa?
Precisei parar o carro quando o sinal ficou vermelho, aproveitei o tempo para olhá-la também. Como já era de esperar seus olhos estavam fixos em mim, de forma analisadora.
— Estou apenas pensando em algumas coisas — Respondi. Julia estreitou seu olhar levemente, unindo as sobrancelhas de forma pensativa.
— Você parece preocupado isso sim. — Ela observou da mesma forma analisadora com a qual me fitava. — Está desse jeito desde que chegamos no Texas, na verdade, até um pouco antes.
Soltei o ar.
— Não é preocupação, é só que… Sobre aquela noite, depois do jantar….
— Ah então é sobre isso… Já sei sobre o que vai falar. — Ela me interrompeu, voltando seu olhar para frente, seus lábios se esticaram num sorriso muito breve. — Confesso que aquela interrupção foi… Ela acabou mesmo com o clima, — Ela riu baixo consigo mesma. — Mas acho que isso teria acontecido mais cedo ou mais tarde, principalmente com o trabalho que temos.
O sinal abriu e logo o carro estava em movimento outra vez.
— Mas foi muito bom, de verdade. Tudo foi ótimo demais — Julia respondeu, virando rapidamente seu rosto. — Principalmente por conhecer aquele seu lado sorridente e tão bem humorado que vi no sábado.
Sem que eu percebesse senti meus lábios se contraírem num curto sorriso, olhei-a de esgueira mais uma vez, Julia já tinha o olhar voltado para a rua, mexia na barra da blusa preta de forma distraída, não percebendo que meu olhar estava sobre ela.
Acelerei quando me deparei com parte do trajeto mais livre, o caminho até sua casa já bem conhecido por mim. A cada quilometro mais perto de sua casa.
— Acho que podemos tentar repetir aquela noite, se você quiser — Sugeri. — E dessa vez sem qualquer tipo de interrupção.
— Isso seria ótimo — Ela respondeu. — E dessa vez vamos deixar nossos celulares em casa, assim não haverá nada para cortar o momento.
Ela soltou uma risada mais baixa, fazendo-me sorrir mais uma vez também. Respirei fundo no exato momento em que virei a esquina chegando já na casa dela, estacionei o carro assim que cheguei ao nosso destino. O silêncio entre nós se fazendo presente mais uma vez, porém ele já não era algo que parecia nos incomodar como antes.
Saímos ao mesmo tempo de ferro do carro, ela se encolhendo um pouco mais por debaixo do casaquinho fino que usava por cima da camisa social, realmente havia esfriado um pouco, mas nada que chegasse a ser um inverno.
Julia andava mais à frente, o cabelo solto caindo por suas costas e sendo levemente sacudido pela brisa suave da noite fazia com que os fios compridos balançassem conforme o vento soprava. Sem perceber meus olhos desceram um pouco mais até sua cintura, onde a curva de seu corpo chamava um pouco mais de atenção, fazendo-me perder o foco por uma fração pequena de tempo.
Ela então parou diante da porta da frente, girou pelos calcanhares e ficou de frente para mim agora, encarando-me calada e com um meio sorriso disfarçado em seus lábios.
— Boa noite, Hotch. — Ela quase pareceu sussurrar aquilo, me chamando da mesma forma que os outros agentes costumavam me tratar. Era a primeira vez que ela chamava-me daquele jeito e o sotaque brasileiro que ela possuía ficou em evidência ao dizer o apelido. Estiquei meus lábios sem perceber que fizera aquilo.
— Boa noite Julia. — Respondi me aproximando enquanto ela fazia o mesmo, erguendo seu rosto minimamente. Nossos olhares se encontrando pela primeira vez naquele dia.
Seus lábios se entreabriram seu rosto estava a centímetros do meu, os olhos grande e castanhos encarando-me da mesma forma de quando estávamos no jantar dias atrás.
A carne é fraca e o desejo difícil demais para ser controlado. As palavras de Rossi ecoaram por minha mente quando toquei seu rosto com o polegar, acariciando a bochecha com certa lentidão. Inclinei-me para frente selando enfim nossos lábios num beijo inicialmente calmo, lento demais. Suas mãos timidamente subindo até meu pescoço enlaçando-me de forma que ficássemos mais próximos um do outro.
Como eu havia desejado que ficássemos durante aqueles dias no Texas.
Sentia seus dedos enroscando-se em meu cabelo, a intensidade de seu toque quente e delicado me causaram um arrepio demorado por todo o meu corpo em questão de meros segundos. Meu corpo imediatamente reagiu ao seu toque e pediu por mais dela, seus lábios se abrindo para dar mais passagem à língua. Seus braços em torno de meu pescoço aquele aperto delicado tornando mais firme ao passar dos segundos.
Julia pareceu erguer o próprio corpo e a segurei pela cintura com cuidado para não machucá-la, sabia que ela ainda sentia um pouco de dor naquela área por causa dos cortes. Imediatamente a fechei meus braços, para mantê-la daquele mesmo jeito enquanto ainda nos beijávamos; mais intensamente dessa vez. Como se tivéssemos esperado por aquele momento desde aquela noite do jantar.
Minhas mãos subiram por suas costas, ela se arqueando mais um pouco à medida que tracei aquele caminho por seu pescoço e ombros. Suas mãos também se moveram, passaram por meu pescoço, — a área exposta se arrepiando ao sentir o toque suave e quente de seu dedos — descendo até a gola da minha camisa, para então parar por ali mesmo.
Julia pareceu hesitar por um único segundo, o corpo pareceu estremecer. O calor se tornando algo que ambos pareciam estar compartilhando ali; mesmo que o tempo mostrasse algo contrário.
Ela recuou dois passos me levando junto a ela, cada músculo de meu corpo se enrijecia a cada novo toque, tanto de seus lábios quanto de seus dedos. Quando ela parou de beijar-me foi apenas para poder recuperar o ar, afastou o rosto o suficiente apenas para que nossos olhos continuassem fixos no outro.
Ambos ofegantes ali, mesmo que não completamente saciados. Continuávamos do mesmo jeito, os corpos ainda juntos e muito próximos do outro, o coração em seu peito batendo quase tão forte e acelerado quanto o meu.
Julia puxou o lábio o mordendo, parecia querer dizer algo, mas se mostrou hesitante com aquilo. Seus olhos mudando lentamente de direção desviando-se de meu rosto, os dedos tocando na gola de minha camisa. Ela respirou profundamente, como se tomasse coragem para dizer aquilo que parecia ser tão dificultoso para ela.
Uma mão se afastou, esticou-se para trás tocando a maçaneta de sua porta e com um movimento único e também quase discreto ela abriu a porta, deixando apenas uma pequena fresta como passagem.
— É melhor… — Ela não terminou a frase, fechou os olhos brevemente como se estivesse se controlando de alguma coisa. A voz saindo muito baixa, quase como num sussurro. — Está ficando tarde.
Disse voltando a me encarar, seu olhar continuava o mesmo de antes.
— Sim. — Foi tudo o que saiu de meus lábios, minha voz quase tão rouca e baixa que eu mesmo a estranhei.
Consegui apenas concordar, porém nenhum de nós saiu do lugar ou se moveu. Permanecemos parados um na frente do outro por longos minutos, encarando-nos com a mesma intensidade.
— Se bem que, eu acho que não quero que você vá embora agora. — Ela disse com a voz muito baixa, aproximando meio passo de mim. Os dedos tímidos tocando-me por cima da roupa.
— E eu acho que não quero ir — Admiti com a voz baixa também, fazendo com que Julia erguesse seu rosto para me encarar.
— Acho que não terminamos aquele encontro corretamente — Sussurrando ela lançou um olhar pouco sugestivo, ainda que estivesse levemente tímida.
— É eu concordo. — Não pude mais me segurar, estava prestes a puxá-la para mais um beijo quando ela mesma acabou fazendo isso.
Erguendo-se na ponta dos pés e unindo nossos lábios mais uma vez. Num beijo claramente bem mais intenso e urgente que o anterior. Como se estivéssemos necessitados daquilo, algo do qual os dois queriam.
Começamos a andar, só percebi que estava já dentro de sua casa quando o latido de seu cachorro soou por meus ouvidos, mas aquilo de forma alguma nos fez parar. Fechei a porta atrás de mim, trazendo-a para mais perto, intensificando meu aperto em sua cintura. Até que a puxei para o meu próprio colo, levantando-a em meus braços pelas costas e pernas, ela logo enlaçou-me com suas pernas, ambas em volta de meu corpo.
Seu corpo imediatamente reagiu quando a apoiei contra a parede, a mão em minha nuca enquanto a de encontro ao termo; que ela tirou de meu corpo com facilidade. Julia movimentou levemente o próprio quadril para frente num movimento que aparentemente foi inocente, mas que acabou sendo provocativo demais.
— Ainda se lembra como chegar no meu quarto? — Ela questionou afastando seus lábios dos meus o suficiente para conseguir fazer a pergunta. Fazendo uma breve menção da vez em que toda a equipe estivera em sua casa por causa do caso de James Sawyer meses atrás.
Não respondi, apenas a arrumei em meu colo e comecei a caminhar seguindo o corredor não muito extenso que nos levaria até seu quarto, lembrando-me bem do caminho que já fizera tempos atrás.
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