Stronger feelings
3 Capítulo 3
Quando abri meus olhos foi como se um botão dentro da minha cabeça tivesse sido acionado, comecei sentindo uma dor latejante em minha cabeça e logo em seguida por todo o meu corpo, estava complicado de conseguir se mover. Foi preciso piscar várias vezes até que meus olhos estivessem completamente acostumados com a forte claridade daquele lugar, no teto vi um grande refletor posicionado de forma que a enorme lâmpada ficasse exatamente posicionada onde eu estava, olhei em volta e então vi Spencer Reid.
Ele estava com as duas mãos amarradas para trás, ainda estava desacordado e tinha um pequeno corte na lateral de sua cabeça. Tentei mover-me, mas assim que fiz isso senti algo me apertar. Fiquei imóvel no mesmo segundo e inclinei meu rosto para conseguir ver o que era, havia dois cabos de aço extremamente grossos envolvendo-me ali. Novamente me movi e, como eu já suspeitava que fosse acontecer, os cabos pareceram me apertar ainda mais, precisei então parar de me mexer outra vez.
— Você acordou, finalmente. — Um homem. Na casa de seus quarenta anos de idade começou a se levantar de uma cadeira no canto daquele cômodo, o fitei com atenção e perto de onde ele estava sentado havia uma mulher, ela também estava desmaiada e no mesmo instante a reconheci. Era a sexta vitima, Ayla Stevens. Não consegui ver direito qual era o seu estado, mas assim que vi suas roupas manchadas de sangue deduzi que ela estivesse já morta. — Ah, não se preocupe com ela e nem com o seu amigo ali, ambos estão bem. Vocês dois ficarão bem.
Ele inclinou a cabeça para o lado me encarando sem emoção.
— Eu só não posso garantir isso por muito tempo, nem para você e nem para o seu amigo ali. — Ele fez uma pausa rápida. — O tempo está acabando e não tenho tanto tempo assim… Na verdade, nenhum de nós tem.
Com lentidão ele começou a se aproximar de mim, seus passos pareciam ser calculados e apesar do olhar insano com o qual ele me fitava, ele não parecia ser uma pessoa louca. Tinha consciência do que estava fazendo e sabia o que fazia. Ao ficar na minha frente ele se agachou, ficando de joelhos no chão para conseguir me encarar melhor e então tentou tocar o meu rosto, tentei recuar, porém ele o segurou com força, me forçando a encará-lo.
— Eu realmente espero que você não seja uma decepção como as outras foram e que não tente gritar quando eu tirar a mordaça da sua boca, porque se você fizer isso… — Ele fechou os olhos bem lentamente e seus lábios tremeram, como se ele tentasse segurar o riso que parecia se formar neles. — Eu serei obrigado a te matar, assim como fiz com a Molly e com a… Ayla. Você me entendeu?
Meu coração disparou, aquela não era a primeira vez que era ameaçada — apesar de ser a primeira vez que um unsub me sequestrava — e já havia sido ameaçada de coisa bem pior que aquilo, a minha preocupação era com Spencer. Com pressa balancei minha cabeça de forma positiva mostrando para ele que eu havia entendido, tudo aquilo para ele talvez fosse como um jogo e se eu quisesse tirar nós três dali, teria de jogar conforme as regras dele.
— Ótimo. — Ele então sorriu, seus dentes amarelados e levemente tortos davam-lhe uma aparência de um homem qualquer. Não chamaria a atenção mesmo se quisesse. — Se você for boazinha comigo eu serei com você também, é uma via de mão dupla, mas tudo depende unicamente de você. Ok?
Assenti pela segunda vez e convencido daquilo ele começou a tirar a mordaça da minha boca, ainda estava a me fitar e com o polegar tocou meus lábios e conforme fazia isso, sua expressão passou a mudar. Ele parecia ficar com raiva, seus olhos se estreitaram e devagar ele aproximou seu rosto do meu, deixando que uma distância quase inexistente mantivesse nossos lábios separados. Ficamos daquele jeito durante segundos, o que para mim pareceram ser horas até que ele se afastou de uma só vez e saiu de perto de mim, subiu a escada do porão e ao sair bateu a porta mostrando fúria. Isso acabou acordando Spencer.
— Julia o quê… — Ele começou a tentar se levantar, mas não obteve muito sucesso ao fazer aquilo, apesar dele não estar amarrado como eu estava, algo pareceu incomodá-lo e consequentemente o obrigou a parar de se mover. — Onde nós… Oh Deus, aquela é Ayla Stevens?
— É sim, mas acho que ela está morta… Tem sangue nela. — Olhei na direção da moça. — Ele nos pegou também. — Falei tentando não mostrar tanto desespero naquele momento, mesmo que fosse um pouco difícil. — Você está bem?
Spencer balançou sua cabeça ainda que estivesse se mostrando um pouco perdido com o que estava acontecendo.
— Sou eu quem deveria te perguntar isso e não você. — Disse encarando-me fixamente. — Tudo bem?
Dei um meio sorriso.
— Sim, eu estou bem. — Respondi. — Não se preocupe, já estive em situação bem pior que essa.
Joguei minha cabeça para trás a encostando na parede e suspirei um pouco aliviada por ele estar bem, senti meu corpo esquentar, pois o lugar onde estávamos era todo fechado e não parecia possuir nenhuma janela, estava abafado ali dentro e quente demais.
— Precisamos encontrar alguma maneira de sair daqui antes que ele volte — Falei com a voz apressada voltando a fitá-lo, ele também estava me olhando. — Ele disse que o tempo está acabando então precisamos ser rápidos, deve estar querendo fazer alguma coisa.
Spencer franziu a testa assim que escutou aquilo.
— Como assim? — Me questionou. — O que ele falou exatamente? Isso pode nos ajudar a entendê-lo. Tentei pensar, relembrar exatamente suas palavras.
— Eu não sei… Ele disse que nenhum de nós tem muito tempo. — Respondi com a voz apressada, parei por um segundo e respirei profundamente para manter-me tranquila. — Foi isso que ele me disse antes de sair, que não tínhamos muito tempo.
Bufei, olhando a minha volta, o lugar parecia estar começando a esquentar ainda mais conforme continuávamos ali dentro. Aos poucos ficar amarrada ali estava se tornando desconfortável e quase insuportável.
— O que mais ele te disse? — Perguntou Reid outra vez. — Quando saímos não tínhamos o perfil dele completo, talvez isso nos ajude a lidar com ele.
Franzi minha testa tentando relembrar, não fazia muito tempo que ele havia conversado comigo, claro que não fui abençoada com a memória fotográfica de Spencer, mas ainda sim possuía uma boa memória.
— Algo sem sentindo, ele disse que eu preciso ser boa com ele para que ele seja comigo — Falei ainda o fitando. — Fora isso ele ficou apenas me ameaçando, não tivemos uma conversa tão duradoura assim antes dele sair daqui.
O rapaz torceu os lábios, estava pensando em alguma coisa.
— Você se parece com as outras moças, poderia tentar conversar com ele e extrair informações que possa nos ajudar a lidar com ele — Disse com a voz apressada. — Se ele estiver emocionalmente ligado a alguém com essa aparência ele vai ouvir
— Ou me matar. Espere, ele quer que eu não seja uma decepção como as outras foram, acho que a teoria de que alguma mulher que esteve na vida dele partiu seu coração ou o magoou é verdadeira. — O interrompi acenando com a cabeça para o corpo de Ayla Stevens. Acho que já tinha descoberto o motivo dele matar mulheres com aquela aparência. — Não temos muito tempo e de qualquer forma eu tenho um plano um pouco melhor.
Fazendo o mínimo de movimento possível eu tentei afastar meu quadril da parede, estava com meu celular no bolso traseiro e por termos uma técnica em informática na equipe, acho que seria bem mais inteligente usar isso do que tentar entender aquele homem.
— O que está fazendo? — Outra pergunta, dessa vez com um leve tom de curiosidade. — Meu celular ainda está no bolso da minha calça, — Falei o olhando com uma sobrancelha arqueada. Meu corpo todo estava suando, conseguia sentir o suor acumulado na minha testa escorrer por meu rosto, estava ficando realmente quente ali. — Podemos ligar para ela, assim irá conseguir rastrear onde estamos e pronto.
Assim que consegui me afastar o suficiente, tentei pegar o aparelho, como estava com as duas mãos amarradas para trás isso até poderia ter sido menos complicado, mas conforme eu continuava me mexendo os dois cabos estavam cada vez mais me apertando. Um deles já começara a me machucar. Fiquei imóvel assim que ouvi passos, ele estava voltando e não tínhamos muito tempo. Passei a mover apenas um braço, tentando deixá-lo mais próximo do bolso, a ponta dos meus dedos já estavam o tocando, porém ainda não conseguia pegá-lo e ele estava cada vez mais perto.
Não podia parar agora, não quando estava quase conseguindo. Spencer pediu que eu parasse, os dois cabos estavam agora bem mais apertados que antes e ambos estavam me machucando, os sentia apertar meu corpo ao ponto que a sensação fosse como se eles pudesse me partir ao meio ali mesmo.
Ele insistia para que eu parasse de tentar e persistiu bem mais quando ouvimos a porta ser aberta novamente, eu estava quase conseguindo, faltava muito pouco e não podia simplesmente desistir daquele jeito. Ele estava na escada, pude ouvir seus passos lentos se fazendo presente e aquilo só me fez ficar mais apressada. Inclinei-me um pouco para a esquerda e então consegui pegá-lo e tirá-lo do meu bolso.
Olhei para o rapaz e fiz um sim com a cabeça indicando que havia obtido sucesso com aquilo e, percebendo que ele já estava bem próximo deixei o celular no chão e com muita dificuldade consegui jogá-lo para perto dele. Olhando-me com um pouco de receio Spencer — com o pé mesmo — começou a arrastá-lo para mais perto dele e assim que conseguiu o escondeu e parou assim que percebeu que o unsub já estava li.
O homem estava me olhando novamente com aquele mesmo olhar sem emoção de antes, era complicado dizer exatamente o que ele parecia estar sentido, pois ele conseguia mascarar muito bem seus sentimentos. Seu olhar também se voltou na direção de Spencer, porém não ficou muito tempo encarando-o, logo seus olhos estavam fixos em mim outra vez.
— Você vem comigo e você — Ele apontou para Reid. — Se bancar o espertinho vai sofrer as consequências de seus atos.
O rapaz apenas assentiu positivamente enquanto via o unsub se aproximar de mim. Ele soltou os dois cabos que envolviam-me e os deixou no chão mesmo e em seguida retirou meu colete, deixando-o jogado no chão. Fui empurrada para que eu começasse a andar e assim o fiz, lancei um último olhar para Reid, ele estava com meu celular então nossas vidas estavam em suas mãos.
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Ao subirmos o ambiente era completamente diferente, a casa estava arrumada e extremamente limpa. Os móveis claramente haviam sido escolhidos por uma mulher, porém estavam levemente descuidados e em alguns objetos uma camada fina de poeira já se fazia presente.
Diferente do porão onde estava antes, ali não estava tão abafado como lá em baixo, ainda sentia o ambiente quente, porém não tanto como antes. Fui guiada até a sala de estar e instantaneamente parei de andar, meus olhos se arregalaram rapidamente ao ver uma mulher que pelo menos era dois anos mais velha que eu, sua aparência era a mesma das outras moças que ele havia matado. Ela estava amordaçada e, ao me ver com ele pareceu entrar em desespero, claramente pedindo por socorro.
— Não precisa temê-la, ela não lhe fará nenhum mal. — Ele disse aproximando-se de mim bem devagar. — Agora, sente-se, por favor. Não temos muito tempo.
Obedecendo-o sentei-me na cadeira que ficava de frente para a outra mulher, reparei que seus olhos estavam já um pouco inchados por chorar tanto, eu queria dizer a ela que iria ficar tudo bem, mas uma pequena parte de mim dizia-me que aquilo iria ficar pior. Precisei respirar fundo algumas vezes para que eu continuasse calma, perder o controle numa situação como aquela não seria nada agradável.
— Não fomos apresentados ainda — O homem também se sentou à mesa, ficando de frente para uma cadeira vazia e de forma que ele ficasse entre nós duas. — Sou Thomas Odell, agora diga-me o seu nome, por favor.
— Julia. — Respondi encarando-o com firmeza. — Julia Barbosa. Thomas bateu as duas mãos uma na outra ao ouvir aquilo e seus lábios se esticaram, mostrando um largo sorriso.
— Isso é… Inesperado, mas também excelente! — Seu tom mudou, ele parecia animado. — Viu só, meu amor? — Ele virou-se para a outra mulher. — Ela também é Julia, assim como você, meu amor. Será que também é uma traidora como você?
Odell então se levantou e dirigiu-se até Julia, assim que suas mãos a tocaram ela começou a se remexer na cadeira, mostrando desespero com o toque do homem.
— Se você gritar — Ele tirou uma faca de debaixo da camisa e levou sua lâmina para a garganta da mulher. — Corto essa sua garganta, me entendeu?
Julia balançou a cabeça rapidamente, ela parou. Não se remexia mais, apenas chorava em silêncio enquanto Thomas retirava a mordaça de sua boca.
— Thomas por que você está fazendo isso? O que foi que… — Antes que ela pudesse terminar de falar ele depositou um forte tapa em seu rosto a calando no mesmo instante, a cena me incomodou profundamente. Julia fechou os olhos, tentando controlar-se, mas eu sabia que aquilo não iria dar certo.
Eu precisava fazer algo, mas estava em desvantagem, pois ele tinha uma vítima e eu, não tinha absolutamente nada.
— Não se faça de ingênua Julia — Ele se afastou dela e bateu a faca na mesa a prendendo ali. — Você precisa pagar pelo que fez, todas elas já pagaram… E vão pagar.
Thomas me olhou com ameaça e então olhou para o relógio pregado na parede da sala de estar. Eram quase onze e meia da noite e ele pareceu ficar agitado, suas mãos tremeram por breves segundos. Isso me preocupou, não temos muito tempo recordei-me do que ele dissera antes, a traição e tudo aquilo também tinha alguma ligação com o horário.
— O tempo acabou… — Ao dizer isso ele saiu dali, deixando-nos sozinhas. Havia encontrado uma deixa. Levantei-me de uma só vez da cadeira e com pressa corri até Julia, pedi que ela fizesse silêncio e então comecei a tentar soltá-la. Não sabia por quanto tempo tínhamos então eu precisava ser rápida para conseguir tirá-lo daquela casa. Claro que, teria de fazer o mesmo com Spencer.
— Você precisa sair daqui e ligar para a polícia, precisa avisar que tem dois agentes na casa ok? — Sussurrei para ela, já estava conseguindo soltar o braço esquerdo dela.
— Mas e você? O que?… — Julia parou de falar e com o queixo um pouco trêmulo ela apontou para frente, Thomas havia voltado.
— O que você pensa que está fazendo?! — Ele começou a correr na nossa direção, não pensei muito no que iria fazer, mas a prioridade daquele momento era Julia então teria de ganhar tempo para ela.
Joguei-me na frente dele tentando golpeá-lo e enquanto isso pedi para que Julia saísse logo da casa. Meu corpo girou, não pude ver se ela ainda estava ali porque Thomas estava por cima de mim e bloqueava minha visão. Ele tentou se levantar e antes que conseguisse chutei sua perna fazendo-o cair no chão. Aquele seria um ótimo momento para a equipe chegar.
— Você é como as outras também… — Ele tinha o corpo dobrado, estava ofegante; como se tivesse participado de alguma maratona. — Uma traidora!
O corpulento homem lançara-se sobre mim com tremenda fúria, eu ter ajudado Julia a fugir foi como se eu o traísse. Esse era o gatilho para que ele matasse mulheres com a mesma aparência que ela. Suas mãos se entrelaçaram e então foram cravadas na minha garganta, ele estava conseguindo me sufocar, estava ficando complicado respirar direito.
Reunindo o resto de força consegui respondê-lo com uma joelhada entre suas pernas, me livrando assim de sua pegada. Conseguindo então me levantar peguei a faca da mesa, puxando-a com dificuldade. Quando o vi se aproximar novamente tentei esfaqueá-lo no abdômen, mas fui impedida por ele outra vez. Thomas Odell segurou fortemente meu braço direito, apertando-o até que eu deixasse a faca cair. Um soco nas minhas costelas fizera com que eu dobrasse o corpo em dor, e após um forte empurrão acabei caindo de costas sobre o piso da casa.
— Filho da… — Ele me chutou, acertando-me na perna esquerda tirando me dê um grito alto.
Não percebi muito bem o que aconteceu, quando pisquei vi Odell novamente sobre mim, dessa vez ele tinha a faca em mãos e tentou golpear-me. Usei meus braços para me defender e acabei tento um deles cortado, não fora um corte tão profundo assim, mas conseguiu fazer estrago. Ele tentou pela segunda vez, precisei novamente usar o braço e acabei dando-lhe um soco entre seu nariz e boca. Aquilo não foi o suficiente para feri-lo como eu queria.
Thomas estava pronto para tentar pela terceira vez quando a porta de sua casa foi arrombada, ele parou assim que ouviu a voz de Derek Morgan gritar “Parado FBI”, não pude deixar de soltar um longo suspiro de alívio ao ouvir aquelas palavras.
— Thomas Odell, larga a faca e se afaste dela! Agora! — Morgan gritou, sua voz num tom grosseiro.
O homem ficou parado por um tempo, logo atrás dele pude ver mais agentes como Hotchner e outros que não consegui ver muito bem seus rostos. Todos com suas armas apontadas para ele. Seu olhar se voltou para mim, a maneira como ele me olhava era preocupante, não parecia mais a mesma pessoa de antes. Temi ao receber aquele olhar.
— A traidora merece morrer! — Esbravejou com fúria, a faca descendo para a minha barriga, aconteceu em câmera lenta.
O tiro disparado me assustou, porém pude ver que o tiro acertara em cheio seu ombro direito.
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