Strangeness and Charm
4 All this and heaven too
Notas iniciais
O dia havia passado correndo, a semana havia passado correndo. Jane estava cansada, destruída, finalmente conseguiram prender o assassino que vinha tirando o sono de todos durante toda a semana, se sentia mal por toda brutalidade que presenciara nos últimos dias, mas se sentia aliviada também pela sensação de dever cumprido, lembrava-se de quão importante foi a atuação de Frost durante o processo, este se dispôs a servir de isca para que o verdadeiro culpado fosse preso, também não poderia esquecer a atuação da Dr. Isles, mas essa nem se quisesse esqueceria, sabia muito bem o que estava acontecendo e sentia-se angustiada por isso.
Subir os lances de escadas para chegar a seu apartamento parecia um castigo, podia sentir as forças que lhe faltavam lhe puxando para baixo, demorou o que parecia um ano para achar suas chaves e finalmente entrar em casa, sonhava em se jogar no sofá com uma cerveja gelada em mãos e finalmente se deixar adormecer, achou suas chaves e sentia dificuldades em encaixa-la na fechadura, ouviu o barulho da porta destrancada e sorriu achando o melhor barulho do mundo, mal abriu a porta e seu sorriso se desfez.
– Pensei que sua mãe estivesse morando aqui – Casey não parecia irritado, nunca parecia irritado, sorria enquanto colocava os talheres na mesa.
– Boa noite! Ela... bem, ela está morando na casa de hóspedes de uma amiga minha – Ela tentou parecer alegre ao ver o marido, tentou, mas seu cansaço não permitiu que forçasse um sorriso, então largou suas coisas no sofá e reparou que seu apartamento estava incrivelmente arrumado.
– Ah, sua nova melhor amiga, você falou o nome dela quando te liguei no meio da semana, Maria não é? – Casey ainda sorria, Jane estava ficando irritada, cruzou os braços e encostou-se no sofá, o cansaço parecia ter vencido.
– Maura... o nome dela é Maura – falou um pouco mais alto do que gostaria – e minha Ma achou que seria melhor para ela ficar por lá, assim não ficaria sozinha... Casey me desculpe, tive uma semana péssima, eu realmente pretendia ir te pegar lá no aeroporto... me desculpe.
– Ei, está tudo bem – ele se aproximou e passou a mão no rosto de Jane, num gesto carinhoso – eu esperei um pouco e tentei te ligar, sei que não esqueceria, então peguei um taxi e fui até nossa casa, mas você não estava mais lá, eu pensei que estaria lá, mas não estava, então imaginei que talvez tivesse acontecido algo e liguei para Angela, ela me contou que não estava aqui, então imaginei que você poderia estar aqui. Fiz nosso jantar, sente- se.
Jane reuniu suas forças e sentou- se na cadeira, Casey servia aos dois e pegou uma garrafa de vinho que estava na geladeira, assim que viu a garrafa Jane sorriu, realmente não gostava de vinho, mas agora o vinho lhe trazia lembranças inesperadas, balançou a cabeça tentando afastar tais lembranças, ouviu o barulho da garrafa sendo aberta e olhou para o outro na esperança de que ele não tivesse notado sua desatenção, mas ele ainda sorria, sempre sorria para ela. Jane estava cansada dos sorrisos do outro, embora não o visse há uma semana tinha certeza que naquela noite tinha visto o suficiente para uma vida toda, o fato era que ela sabia exatamente o porquê daquela sensação, ela não conseguia entender o que o outro tentava lhe transmitir quando sorria, sentia-se boba por isso, ela deveria entender, não deveria? Eles eram casados agora e tinha certeza de que deveriam se entender só com o olhar, Jane não era do tipo que acreditava em contos de fadas, mas isso era algo que ela se permitia acreditar desde pequena.
– Não vai comer? Estive pensando e acho que podemos voltar para casa amanhã, se você quiser, é claro e poderemos passar o fim de semana juntos e fazer algo no domingo.
– Podemos voltar se quiser, mas combinei com minha Ma de ajudar ela a tirar as coisas dela das caixas e depois prometi sair com Maura, no domingo tem jogo do Red Sox e eu irei ao estádio com Tommy, então se você quiser ir...
– Não tem problema... nós podemos aproveitar aqui mesmo e essa noite
Aquele sorriso ela conseguia traduzir e todo seu cansaço e vontade de se jogar no sofá ou em qualquer lugar voltou de uma vez só.
– Eu não estou com fome, na verdade estou morrendo de dor de cabeça – Apenas levantou e foi embora.
***
– Você sabe que pode bater na porta, não sabe, Jane? – Maura virou-se para encarar a outra que estava encostada a mesa de autópsias.
– Bom dia, doutora! Como vai? – a outra não respondeu, então Jane continuou – Você não se assusta fácil, isso estraga toda a brincadeira.
– Se desceu em busca da causa da morte é melhor subir, ainda não comecei.
– Tudo bem, vou ficar aqui te observando, esperando que minha presença te canse e você me dê uma possível causa de morte
– Sua presença não me cansa, Jane e acho que você sabe que eu não vou supor.
O silêncio e os olhares cheios de significados fizeram questão de preencher o lugar, não tinha como Jane não comparar a felicidade que aquelas palavras lhe causaram, não tinha como fingir que não era capaz de traduzir cada gesto da mulher a sua frente, não havia palavras, nem precisava que houvesse, ela sabia que estava completamente apaixonada por Maura, não conseguia explicar a paz que sentia, não havia volta, já tinha construído seu abrigo no sorriso da outra, todos os olhares não podiam lhe dizer outra coisa, se sentiu desconfortável e quebrou o silêncio entre elas.
– Na verdade eu queria te agradecer por isso – mostrou a outra uma única tulipa a outra – bem, não são as minhas favoritas, mas mesmo assim é um gesto muito gentil.
– Eu sei que não são suas favoritas, sei que prefere rosas, como eu... mas não fui eu que te mandei.
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