Notas iniciais
Demorou, mas está aqui. Boa leitura!

O Inverno Está Chegando

“Nenhum caminho de flores conduz à glória.” — Jean de La Fontaine

Os corvos não paravam de chegar e partir, para todos os lugares, de todos os lugares. Denúncias de foras-da-lei perto da Mata-do-Lobo e novamente informações sobre a expulsão dos criminosos da Baía da Água Gelada, onde Lorde Glover elogiava Poddrick por seus grandes feitos. Winterfell estava inquieta há quase uma quinzena, desde a morte de Senhora Reed, não havia uma alma que dentro do castelo não sentisse os ventos da mudança. Na sala de costura, um quadro invernal fora colocado, embora a primavera já despontasse há meses, mostrando uma floresta coberta de neve e lobos gigantes correndo em matilha. Abaixo do nome do artista lia-se “O inverno está chegando” e todas as vezes que Brianna olhara a pintura, sentiu um arrepio subindo sua coluna, como a mão do inverno. Mas é primavera.

Brandon Stark parecia preso dentro de seu salão do conselho, todos os lordes convidados ao conselho vieram rapidamente, incluindo Reed, Cerwyn e Greystark, os seus avós pareciam muito tristes de estarem em Winterfell e Clarysse havia expressado com todas as palavras a sua irritação por eles, que nunca vieram visitá-las após a morte da mãe. Aryen passava todas as horas do dia dentro do salão do conselho, aprendendo e ouvindo coisas, talvez logo fosse mandado para alguma missão, como Poddrick e Roddrick foram, os jovens recebiam suas glórias, um da Mata do Lobo, outro na Baía das Focas.

Mesmo com tudo já muito tenso entre os senhores, Clarysse suspeitava que ela e Brianna se casariam dentro de algumas quinzenas, de acordo com informantes, criados que serviam o salão do conselho, os acordos seriam selados entre Mormont e Manderly de Porto Branco. Era preciso guerreiros e ouro. Logicamente, Clarysse seria a prometida do Jovem Lorde Manderly, quebrando o acordo entre os Manderly e os Flint de união. E Brianna seria enviada para o mar, para a Ilha dos Ursos. Ela se retorceu, tentando imaginar aquilo e acabou espetando o dedo com a agulha.

A septã ergueu seus verdes e lacrimosos olhos da própria almofada e olhou-a com recriminação.

— Milady, se me permite avisá-la, está suspirando demasiadamente triste. Aconselho guardar a sua tristeza para si e soar o mais distante possível. Uma dama educada jamais suspira em frente aos outros. Mas a perdoarei, pois sei que sofre muito. – e então voltou a costurar seu bordado. Septã Celine tinha belos cabelos louros, tão dourados e cacheados que parecia um anjo, sua pele era branca feito leite e ela tinha uma expressão de pura doçura. O seu sobrenome não era Lannister, mas não podia negar ter o sangue em suas veias. Celine Hill notou que a pequena loba a observava e abriu um sorriso. – Algum problema, milady?

— Você é muito jovem para ser uma septã.

— Minha juventude apenas me fortalece em fé, pois foi a própria Donzela quem me salvou das garras de homens terríveis, antes mesmo de eu abrir meus olhos pela primeira vez. Conhece a história de Lannisporto, Milady.

— Sim, conheço – concordou Brianna e abaixou seu olhar, querendo ignorar aquilo. A terrível história de como a maioria dos descendentes dos Lannister foram mortos na Revolta do Grande Gato, o pai de Celine era o próprio Gato, chamado assim por ser um bastardo.

Notou que havia errado diversos pontos em seu bordado e desistiu de terminá-lo, rasgando-o e jogando dentro do pote de costura. A septã continuou calmamente a costurar e ignorou quando Brianna partiu. Até mesmo o bordado se tornara entediante e tudo o que ela podia pensar era em ir até o salão do conselho para estar perto de seu pai e de Aryen. Mas... Seus pés a guiaram para o lugar onde seria mais bem-vinda. A porta do quarto de visitas abriu-se facilmente, pois não estava fechada, e o meistre ergueu a cabeça assustado, antes de voltar a sangrar a amiga de Valery. A menina Bolton estava sentada em sua cadeira de balanço, com o rosto fechado em uma carranca e os braços escondidos debaixo das axilas.

A Stark escolheu um dos livros das prateleiras e sentou-se em frente janela.

Brianna virou a página que lia com a ponta das unhas e começou a segunda linha. Do pó e das cinzas, as flores murcham em seu tempo. Assim como a donzela. Ela ergueu os olhos e pousou-os sobre a moça deitada na cama ao lado. Velar leitos de enfermos parecia uma rotina, após três dias. Primeiro a garota Bolton e depois a dornesa cheia de ferimentos e vestida de armadura. Valery correu tão rápido para ela que quase parecia se preocupar com sua saúde. Aquilo comoveu um pouco Brianna. Esperava que uma Bolton não se importasse com a vida de qualquer um além de si mesmo, mas após dois dias trocando os curativos dos cortes da moça, tudo mudara. Valery realmente era precoce, tinha sabedoria quanto a usar uma adaga e tudo o que o outro lado do mar mantinha obscuro. As Ilhas de Ferro. Brianna conversou com ela por uma tarde inteira e agora quase se sentia próxima a ruiva.

— Espero que não infeccione. – Valery murmurou, pousando sua pequena mão sobre a testa da guerreira. – Ela daria a vida por mim, e conseguiu sobreviver.

— Rezaremos aos deuses. – sugeriu Brianna, fechando o livro. As leituras pareciam sem graça agora que tinha uma companhia boa consigo. Clarysse nunca gostou de conversar com ela, e Lily era... Lily. – No bosque sagrado.

Valery Bolton ergueu seus olhos verdes, repletos de pavor. Ótimo, Brianna pensou, ela estava assustando um Bolton. Que ironia era a vida. A menina negou convictamente e voltou a observar sua protetora. Foram raras as vezes em que a moça despertou, e assim que o fazia lhe davam sopa e logo ela adormecia. A Stark não compreendeu por que do medo que Valery demonstrou quanto a ir ao bosque sagrado, porém não iria insistir. Elas poderiam rezar aos deuses, onde quer que fosse. Realmente esperava que a moça acordasse e se recuperasse. Sua espada estava toda suja, e quando a lavaram o próprio ferreiro ficou surpreso com a quantidade de arranhões e lascas que havia na lâmina e no punho. A armadura também estava completamente danificada, em algumas partes o aço perfurou-lhe a pele, onde flechas a teriam acertado. Agora seus cortes apresentavam tons vermelhos e hematomas a cobriam dos pés a cabeça. Deveria doer muito, pensou.

— Recebi uma carta – contou Valery, erguendo o envelope. – É de meu irmão, Vikta. Ele está indo morar em Correrrio com sua jovem esposa. Diz que seu novo cunhado lhe permitiu estadia no castelo e o Forte do Pavor está deixando de ser um lugar agradável.

— E o que Lorde Bolton pensa disto? – Brianna perguntou, interessada em distrair seus pensamentos.

— Meu pai está morto. Assim como minha mãe. Há muito tempo, aliás. – a menina disse, olhando diretamente para os olhos de Brianna. – O Lorde Bolton é Vikta.

— E ele irá deixar seu Forte? – a incredulidade na voz da Stark fez a Bolton rir.

— Forte Pavor é um lugar decadente. Desde a aurora dos tempos, tudo o que nós Bolton ganhamos é desconfiança e traição. Nossos vassalos são mais lobos do que esfoladores, eles prefere se abraçar ao pelo de seu Lorde do que arrancar a pele de algum animal por ai. – ela piscou, sarcasticamente. Brianna havia aprendido a ignorar isso, pois Valery nunca a estava insultando. – Nossas plantações estão sendo queimadas e todo o dinheiro que temos é negro e cheira a putrefação. Correrrio está em um nascente, deságua no mar, tem grandes bosques e cores bonitas, azul e vermelho.

— Mesmo assim. Um Lorde não deve abandonar seu castelo.

— Vikta tomará Correrrio. – ela revirou os olhos. – Forte Pavor é um monte de esterco perto de Correrrio. Os Tully possuem terras suficientes em Porto Real. Que limpem as bolas dos dragões. Um castelo esquecido não ficará em pé por muito tempo. Aneka Lannister é uma herdeira do velho Lorde Tully e reinvindicará a posse quando os Bolton o matarem. Assim estaremos seguros. Ou, pelo menos, Vikta estará.

— Seguros do quê?

— Do inverno, lobinha. – Valery sorriu. Por mais que tivesse muitos anos a menos que Brianna, a menina a assustava. Parecia sempe saber de algo terrível e deixava para contar sempre no final. – Você deveria saber. O inverno está chegando. Haverá uma guerra, sim senhora. E é melhor que não esteja em Winterfell para vê-la. Seu pobre pai será decapitado e seus irmãos todos castrados. Talvez os mandem para a Muralha.

— Quem iria querer uma guerra?

— Não vê os indícios? Os homens de ferro. E os Outros.

— Outros. – repetiu Brianna, abrindo um sorriso. Mas Valery não a acompanhou, e logo notou que não era uma piada. Outros? No final do inverno? Que espécie de monstro invernal ataca no final do inverno? – Selvagens.

— Sim, desertores, selvagens, skagosi... estão todos afiando suas espadas e suas lanças, as mulheres dormem com seus arcos e têm seus bebês de flechas ardentes, aríetes e balaustradas. Você nunca viu tantas formas de derrubar uma parede de pedra na vida até estar próxima deles. Nas Ilhas de Ferro navios chegam de todas as partes de Westeros para o recrutamento. Camponeses e cavaleiros errantes. Querendo glória, ou querendo defender sua herança de ferro. Acreditam em um Norte livre.

— Livre?

— Da coroa. Primeiro destruirão a Casa Stark e tudo o que ela representa. Os lobos gigantes serão caçados em todas as florestas e suas cabeças vão enfeitar os portões de qualquer forte. Depois enfrentarão o Rei Dragão e firmarão o Reino do Norte. Os Greyjoy desejam estabelecer-se em toda a costa oeste, em um reino para seu deus do mar. E os Skagosi querem destruir a Muralha e implantar um reino livre para todos.

— Todos. – Brianna novamente repetiu, incrédula. – Todos os monstros?

— Eles também são gente, certo? As vezes mais humanos do que nós mesmos. Gigantes querem seus castelos que alcançam as nuvens e troca-de-peles adorariam um reino animal sem regras. Imagino que até mesmo os Outros desejam alguma coisa disto tudo.

— Os Outros não pensam.

— Eu sei, estava brincando – Valery sorriu – Lady Skagosi quer se coroar rainha da Muralha e ela decidirá quem entra e quem sai de Westeros. A Muralha será seu domínio e ela terá poder sobre a vida ou a morte de quem quiser. É um bom começo para as mulheres na história. – e então voltou a rir.

— Por que está me falando tudo isto?

— Porque é a verdade. – Valery Bolton balançou-se em sua cadeira. – E graças à porra do meu irmão, eu estou no centro de todo o conflito. Seria ótimo se as suas árvores cagassem cupim na cama de casal dele.

º º º

Wylis Manderly saboreou com seus olhos dourados a figura daquela mulher. Ela tinha cabelos castanhos e lisos, como os Stark normalmente tinham, eles iam até metade de suas costas, com madeixas onduladas sobre o ombro. Seu rosto era quadrado, o dos tipos que ele mais gostava, e ela possuía um nariz curiosamente arrebitado. Seus olhos, esses sim eram a obra-prima de tudo aquilo, íris amendoadas, como raios de Sol, sedutores e mágicos. Wylis sentiu seus instintos de homem aflorarem e abriu um sorriso galanteador.

— Milady – beijou-lhe a mão suavemente. – É um prazer conhecê-la.

Lorde Stark caminhou para o lado e por fim apresentou o último Manderly para sua filha, que até então mostrava-se apática a tudo aquilo.

— E este é Lorence Manderly, herdeiro de Porto Branco e seu prometido. – Brandon não percebeu os lábios de sua filha quando ela os contorceu em escárnio, mas notou a forma como esticou a mão pequena e delicada, como se fosse um pedaço de carne putrefata que ela não queria para si. Lorence beijou-a e sorriu, de forma gentil.

Os Manderly eram a Casa mais rica de todo o Norte e por sorte estavam mais submetidos aos Stark do que aos Bolton. Mas, infelizmente, também não possuíam sangue nortenho. Tinham origem da Campina, antes da Grande Guerra de Conquista. Seus deuses eram os sete e seu castelo tornara-se uma cidade, antes povoada de piratas, hoje tão próspera quando seu antigo lar no Vago. As cores de seu gibão eram branca e verde-água, com um tritão empunhando um tridente. Muito glorioso.

— É um enorme prazer vê-la pela primeira vez, Lady Clarysse. Nenhum pintor seria bom o suficiente para captar toda a sutileza de suas belíssimas formas. Me encanta que possa existir moça tão bela, tão bem-nascida e tão inteligente que habite no mesmo castelo que eu. E parece-me que viras para Porto Branco, no final de tudo.

Clarysse torceu o nariz com aquele comentário deselegante feito pelo rapaz. Era alguns anos mais jovem, embora fosse mais alto e tivesse cabelos negros, cacheados até os ombros. No entanto, não tinha músculos, nem exibia qualquer espada, tudo o que carregava era uma capa branca e verde, com uma pequena barriga saliente. Era gordo. Gordo e mole. E, além disso, era um idiota com as palavras. Como podiam deixar aquele homem herdar Porto Branco? Visivelmente seu irmão mais novo era mais apto a tal, com seus cabelos cortado curtos e os ombros largos, a espada sobre a bainha e o sorriso corajoso. Com certeza morreria na guerra. Mas tudo o que importava era ter lutado. Lorence Manderly limpou o canto da boca com um lenço.

— Poderia caminhar com a senhorita no bosque sagrado? Talvez os deuses queiram nos abençoar.

— Lamento, tenho bordado com minha septã e minhas irmãs. Nós sempre bordamos a este horário – recusou, polidamente, mas não lhe deu qualquer sorriso.

— Oh, que peninha... Aposto que elas perdoariam se faltasse um dia.

— Você não as conhece, são muito bravas. E estamos ainda nos recuperando a perda de Lady Mage.

— Mas sou o seu noivo, elas sabem que... – o homem não terminou sua frase, ainda bem, pois seu irmão colocou a mão em seu braço e lhe sussurrou algo no ouvido. Lorence arrumou o gibão e sorriu, com uma mesura educada. – Bom bordado, milady.

Clarysse virou as costas a todos, Brandon não a impediu de prosseguir e logo estava nas escadas. Não queria ir para a sala de bordado, simplesmente detestava aqueles momentos silenciosos com sua irmã e a septã, mas não poderia se dar ao luxo de ser pega mentindo. Enquanto caminhava apressadamente, Clarysse sentiu uma mão agarrando-lhe o cotovelo e então se viu dentro de um quarto escuro, com os lábios de Aryen contra os seus. O irmão a prensou contra a porta, forçando-a a abrir os lábios para sua língua. Ela o empurrou.

— O que está fazendo? – não pode evitar erguer a voz.

— Você vai embora...

O que está fazendo?

— Eu não posso deixá-la ir. Clary, eu a amo, meu coração não aguentaria te ver com outro homem. Principalmente com aquele asqueroso gordo!

— Nisso podemos concordar – ela revirou os olhos. – Me solte, Aryen, se nos encontrarem aqui será o nosso fim.

Ele obedeceu, como um cão abanando o rabo. Era patético, mas útil.

— A partir de agora, não existe mais nada entre nós. Esqueceremos que qualquer coisa aconteceu, entendeu? Sabíamos que eu me casaria, mais cedo ou mais tarde e agradeço aos deuses por nunca ter cedido a você.

— Eu te amo tanto, Clary... – Aryen desligou os dedos por seu cabelo, e ela fechou os olhos, deliciando-se com a carícia. Era ótimo ter alguém tocando-lhe e demonstrando tanto afeto. Era algo de que Clarysse sentiria falta. Talvez não por muito tempo. – Você é a única que estará em meu coração. Se pudesse, morreria aqui. Minha vida sem você não tem sentido.

— Pare de falar bobagens, Aryen. Logo também estará casado, lutando em batalhas com nosso pai e nossos irmãos. Tem de ser forte.

— Você é quem me dá forças. – ele acariciou seu rosto com ambas as mãos – Deixe-me beijá-la uma última vez, por favor.

Ah, o que poderia fazer? Ela ergueu o queixo e beijou-o, suas mãos segurara-lhe pelos ombros, enquanto Aryen acariciava seu rosto e cabelos, beijando o topo da testa e a ponta do nariz. Era realmente ótimo ser adorada por alguém. Seu esposo gordo provavelmente não saberia ser tão encantador quanto Aryen. Talvez nenhum outro homem soubesse. Aquilo lhe apertou o coração. Estaria perdendo a felicidade com um homem entre milhares, um que sabia ser sensível e romântico. Que abriria mão de seu título e de sua família por ela... Amava Aryen, sim, era seu irmão preferido, embora não o quisesse como esposo. Se não fossem irmãos, talvez pudesse amá-lo de verdade. Como ele fazia com ela. Pobre menino tolo...

— Agora preciso ir. – ela anunciou, desgrudando-se dele. – Bordar.

— Claro. – ele a soltou, com um suspiro doloroso. – Eu...

— Sim, eu sei. – ela sorriu e saiu de costas, fechando a porta lentamente. Respirou fundo e arrumou os cabelos, o manto e por fim o suor que começava a brotar de seu queixo. Tudo bem. Em frente.

Teria de contar a Leslie e a Daria tudo o que estava vivendo e como elas se separariam. Teria de escolher entre elas e Meria quem seria sua dama de companhia em Porto Branco, e não conseguia decidir. Leslie Umber era uma ótima mentirosa e conseguia descobrir qualquer coisa para Clary. Daria Glover tinha o talento de transformar os vestidos em obras de arte e alegrá-la até quando estivesse chorando amargurada. Meria Dustin era a sua amiga mais antiga e a consolá-la quando seu primeiro prometido, Hugo Umber morreu em um incêndio em Winterfell, em seu quarto, enquanto a salvava. Todas eram especiais. Mas somente uma poderia ir para Porto Branco.

Ir para Porto Branco... Clarysse mudou o curso de seus passos até o quarto e jogou-se em sua cama. As damas de companhia se assustaram com a súbita entrada da Stark. Elas se ajuntaram ao seu lado na cama e encheram-lhe de perguntas sobre o que estava acontecendo.

— Deixem-na respirar. Se não está fazendo a corte para seus convidados, é porque com certeza não quer a presença de mais ninguém. – Meria disse, levantando-se da cama. – Quando Clary quiser no dizer o que houve, ela dirá.

Ao menos algo parecia mais fácil de decidir, Meria Dustin tinha um lugar em sua comitiva para Porto Branco.

º º º

Poddrick atravessou a espada em um dos corpos agonizando no chão. O massacre terminara ainda com o Sol alto no céu, em menos de quatro horas todos os traidores foram julgados pela ira dos deuses e dos seus homens. Hulice Glover parou o cavalo ao seu lado. Sua armadura estava toda suja de sangue, mas sua espada não apresentava arranhões. Fora assim em toda a manhã. Ceifaram a vida daqueles criminosos e traidores como se fossem ratos, pisaram em seus corpos e os derrubaram apenas para atravessar a espada em suas tripas. Os homens haviam primeiro derribado uma salva de flechas sobre o acampamento e em seguida acabaram com o sofrimento de todos os feridos. Poucos conseguiram fugir, e nenhum dos soldados de Poddrick pereceu. Um massacre, sim.

— Isso foi ótimo. – o cavaleiro sorriu, movendo a espada com fúria no ar. Em batalhas de verdade, Poddrick lembrava-se de que era impossível erguer a espada ou mesmo o punho ao término. Mas aquela não fora uma batalha exatamente. Não havia glória em matar camponeses sarnentos que se aliavam ao lado errado da guerra. Nenhum ostentava as cores nem o brasão dos homens de ferro e menos ainda possuíam mantos negros da Patrulha da Noite. – Já enviei as novas ao meu pai e aposto que ele está exultante.

— Sim, aposto – concordou o Stark, levantando-se e limpando a lâmina da espada nas roupas de um dos cadáveres aos seus pés.

Logo estaria voltando para a Fortaleza Glover e depois para Winterfell, com sua noiva Glover. Casamentos, pareciam o único modo não glorioso de se vencer uma guerra. A Batalha do Mar de Gelo seria lembrada como uma vitória no começo da guerra pelo Norte. Ele sentia que a guerra inteira seria assim, um massacre sobre vidas de pessoas simples, inspiradas pelos ideais errados. Os homens não tinham capacidade de se autogovernar, acabariam destruindo uns aos outros e no fim, teriam de escolher entre a sobrevivência e a segurança de um rei. Era a ordem natural de tudo. Ao longo da praia, tudo eram corpos, corvos e os soldados dos Glover pilhando as armas e acessórios dos mortos. Hulice ajudou-o a montar em seu cavalo e ambos trotaram em direção a floresta no alto da colina. Ali havia um bosque sagrado bem cuidado pelos Glover e ambos se ajoelharam nas raízes das árvores e fizeram suas preces silenciosas.

— Duvidei quando o vi pela primeira vez. – confessou o rapaz, seu irmão de espadas, agora que haviam lutado pela primeira vez juntos. Poddrick sentia que haveriam muitas mais batalhas. – Um Stark com tantos irmãos e órfão, para mim era mimado e preguiçoso. – os olhos do Glover estavam fixos no rosto contorcido do tronco da árvore-coração. – Mas vi que é mais digno do que a mão de minha irmã. Vi os deuses contigo enquanto enfrentava os homens. Ficarei feliz em tê-lo na família.

— E eu serei feliz se me juntar a sua família. – eles apertaram as mãos e então se abraçaram com fraterno afeto. Poddrick logo se sentia melhor, menos cansado, como se os deuses o estivessem revitalizando após fazer algo correto. Eliminar os traidores do Norte, casar-me com uma Glover. As árvores estariam felizes? Seus rostos eram estranhos demais para distinguir. A Fortaleza Glover permanecia a mesma, com os camponeses a realizar as atividades rotineiras e os poucos guardas do Senhor a patrulhar suas paredes, pois não possuía muralhas dignas de nota.

No entanto tudo parecia peculiarmente diferente. Notou que era ele e a orla de homens armados, feridos e prisioneiros que avançava para dentro da Fortaleza, ignorando mães e esposas, todas chorosas, e abrindo espaço até os portões do Senhor Glover. Não foi o velho quem veio recepcioná-los, mas Jenolya, Elyna e Janice, todas sorridentes e de vestidos coloridos, abraçaram seu irmão, ignorando o estado em que estava, e depois cumprimentaram o Jovem Lorde Stark. Poddrick notou como o rosto de Elyna apresentava um leve rubor. Ele mesmo adoraria partir logo e se casar, antes que uma guerra de verdade estourasse. Guerra, guerra, guerra. Os corvos crocitavam, haverá guerra. O inverno está chegando. Uma guerra devastadora para todos os pobres do meu reino. Não. Do meu Norte. Não sou um rei, nunca serei.

— Tomaremos um banho nas fontes termais, sim. – disse Hulice e conduziu seu irmão de espada para um corredor lateral, onde desceram a escada íngrime e terminaram em um salão de pedra onde o ar estava todo quente e piscinas naturais de água aquecida borbulhavam no chão. Hulice Glover não hesitou em tirar sua cota de malha e lançar longe a espada, antes de entrar nas águas até estar apenas com o pescoço para fora. Poddrick despiu-se e adentrou a lagoa.

Era quente, como as fontes de Winterfell. Ah, como adorava tomar banhos quentes, principalmente fora de uma banheira. Logo os nós de tensão em seus ombros foram se desfazendo, dando espaço para uma exaustão torrencial, que deu-lhe uma dor de cabeça forte e o fez apagar por quase meia hora. De olhos fechados, podia sentir todos os nervos de seu corpo fulminando e congelando, oscilando entre o alerta e o desesperadamente inconsciente. Somente após os primeiros sonhos notou que dormia e se forçou a despertar, olhando ao redor. Hulice ainda estava ali, com a cabeça apoiada numa pedra e encarando o teto. Ao notar Poddrick, sorriu e deslizou a mão sobre as águas paradas.

— É um lugar abençoado, este. Quando era criança, quis sair daqui. Morar em qualquer outro castelo, que não fosse uma fortaleza velha e mofada. – ele riu baixo. – Talvez o tivesse invejado, se nos conhecêssemos na época. Hoje não me vejo sendo lorde de qualquer outro lugar. A Mata dos Lobos, o Mar de Gelo, minha casa. Conheço todas as pessoas lá fora, e não me arrisco no prostíbulo, pois os olhos e bocas nunca param aqui. É um lugar tão calmo e ao mesmo tempo tão divertido. – ele notou que Poddrick estava erguendo as sobrancelhas e parou de falar.

— Winterfell é meu lar. Tudo o que imagino para mim é uma cama e uma esposa para aquecer a noite.

— Elyna ficará feliz, eu garanto. – então o Glover voltou a encarar o teto.

Poddrick supôs que ele estaria pensando em algum doloroso. Afinal as pessoas ficavam daquela forma quando pensavam em coisas dolorosas. E o deixou silenciosamente, vestindo-se com roupas novas que criados deixaram ali e subindo as escadas. O salão da Fortaleza continuava movimentado e alguns guardas acenaram suas cabeças para ele. Pôde ver Velho Glover parado junto a uma colina central, balançando sua cabeça teimosamente enquanto um meistre lhe dizia algo. Ao se aproximar, os dois senhores se curvaram com dificuldade e cessaram a conversa. Poddrick decidiu não procrastinar sua partida.

— A missão foi um sucesso, senhor. – disse, solenemente. – Seu filho demonstrou grande domínio com a espada, mesmo que não tenha tanta experiência ou tempo com ela. É um dom, decerto. Voltarei para Winterfell...

— Com uma de minhas filhas, imagino. – o Glover ergueu as sobrancelhas, com um sorriso faceiro. O meistre pigarreou, porém Poddrick apenas sorriu e concordou com um meneio. – Elyna.

— Sim. É uma jovem encantadora.

— Imagino que jovens encantadores se atraiam. – ele deu de ombros – A mãe dela e eu sempre fomos inseparáveis. Pode levar minha Elyna, milorde. Ela é sua.

Poddrick fez uma mesura e beijou a mão do velho, em seguida encontrou um guarda a serviço das atividades domésticas da Fortaleza e pediu para que preparasse seus cavalos para que partissem pela manhã seguinte, e um cavalo para Elyna, talvez um que pertencesse a ela. Tinha a suspeita intuição de que quando chegasse em Winterfell, a guerra já teria começado.

Notas finais
O próximo capítulo já está sendo feito, eu escrevi a maior parte do capítulo a mão, por isso demorou mais para passar pro word, principalmente enquanto eu arrumava os parágrafos e reescrevia-os >—< Beijos de Lady Savoy, queridos.