Notas iniciais
Boa leitura a todos.

A Lula e a Truta

Seus sonhos foram conturbados e antes mesmo de abrir os olhos já sentia a dor muscular causada pela noite mal dormida. Coçou seus olhos e limpou ar remelas em cada canto, acostumando-se com a forte luz do Sol que entrava por uma janela logo acima de sua cama. Cama não, amontoado de palha e mantas. O galpão estava todo iluminado com os raios solares e ela podia ver a poeira flutuando no ambiente, espirrou um pouco antes de notar o terrível cheiro de peixe emanado por cada caixote empilhado na entrada dos grandes portões do galpão. Era um depósito para as pescas dos navios de ferro dos pescadores de ferro. Lembrou-se que tudo ali era de ferro. Ergueu-se e caminhou alguns passos a frente, observando a fogueira apagada, sobrando-lhe apenas cinzas e pedaços de madeira.

— Como se chama?

Myna arrepiou-se inteira e girou nos tornozelos, sentindo seus vestidos puídos batendo no joelho. A figura do rapaz que a resgatara durante a noite apareceu detrás de um pilar, seus olhos eram brincalhões, emboca não estivesse sorrindo. Um brincalhão de ferro. Gostaria de saber se não precisaria chamar qualquer coisa em Pyke de “de ferro”. Impossível, eram as Ilhas de Ferro. Não tinha medo dele, por incrível que parecesse, e respondeu com simplicidade, em seu amplo sotaque campestre:

— Myna, de Terra Vermelha. – nomeou-se, porém logo percebeu que o rapaz não havia entendido ou talvez não soubesse onde ficava Terra Vermelha. Bom, ninguém poderia culpá-lo, afinal um vilarejo entre milhares não seria facilmente conhecido por um nascido de ferro, em Pyke. – Correrrio.

— Ah, sim. – ele assentiu, deixando seus cabelos encaracolados caírem sobre suas grossas sobrancelhas escuras. Parecia ter ao menos um ano a mais que ela, agora que o avaliava melhor. Era da sua altura, mas andava com as costas curvadas, como se escondesse a altura no meio da timidez, e seus olhos apresentavam um pingo de imaturidade, que a barba rala em suas bochechas e queixo e o pelo crescendo por baixo da camisa de lã crua e esburacada desmentiam. – Eu sou Digo. Por que está aqui em Pyke, Myna?

— Meu pai veio. – ela disse, tão simplória que Digo ergueu as sobrancelhas e esperou algum complemento. Mas o silêncio caiu sobre ambos e ele logo desistiu de extrair a informação.

O que poderia fazer com ela? Tinha uma ótima aparência, com algum banho regular e roupas novas, poderia dançar e cantar com Lula Azul. Isso dobraria as economias, no mínimo. Mas Myna não parecia exatamente alguém que cantaria...

— Você sabe dançar? – perguntou Digo, repentinamente. A menina não esperava por aquela pergunta e pesou-a com leveza.

— Apenas nos festivais do vilarejo. E somente para a Velha.

Digo soltou uma risada fraca.

— Terá de aprender a dançar para o deus afogado, então. Conhece alguma canção?

— Apenas as do septo. Eu as ouvia, às vezes, quando conseguia fugir de casa. – ela confirmou e começou a cantarolar uma letra sobre a espada do guerreiro. Novamente o garoto riu, e desta vez com escárnio.

Aqui, aqui, no topo do Monte Nagga, ouvi um homem dizer que seria o novo rei. – Ele a interrompeu com sua voz grave e os olhos desafiadores. – Podia ver como todos os dedos de sua mão mostravam o quão bom era na dança dos machados.

— Isso não tem qualquer rima.

Não precisa de rima, bela senhora, se você tiver música. e curvou-se terminando o espetáculo.

Myna riu daquele desastre musical e bateu palmas, fazendo-o sorrir vitorioso. Digo não queria deixá-la a pedir esmolas junto de Toby, era um trabalho para homens, não para belas moças. Seria violada na primeira oportunidade. E com certeza não a venderia para um prostíbulo, mesmo que agora estivessem todos abarrotados em Pyke. “Os guerreiros que irão para a guerra precisam se saciar antes de ver o sangue. Toda a energia sendo guardada para o combate pode ser perigoso”. Decidiu que deixaria Sofi cuidando de seu lugar no porto e ensinaria Myna a cantar e dançar, para que pudesse se apresentar com Lula Azul no Maré Azul.

— Vamos começar as lições com dança. – ele decidiu.

— O que? – ela pareceu não compreender. Tinha o péssimo hábito de tomar decisões mentalmente e não comunicá-las para as pessoas ao seu redor.

— Se vai ficar conosco, precisa ajudar na nossa sobrevivência. Pagamos este galpão para não dormir nas ruas e também compramos peixe para comer. – ele explicou. – Se não quer entrar para um prostíbulo, sugiro que aprenda a dançar. As tavernas estão lotadas de homens. – ele fez uma pausa. – Assim como os bordéis.

— Eu não vou ficar aqui!

— Ah, não? Então onde ficará?

Myna não havia pensado naquilo. Era um mistério que ela adiara ao máximo, até que se visse obrigada a aceitar a boa vontade de alguém desconhecido. Digo não parecia uma pessoa má e ele até mesmo estava lhe dando a chance de ficar ali, com um lugar seguro para passar as noites e uma forma de sobreviver. Lembrava-se do pequeno grupo amontoado ao redor do fogo, todos a olhando não com hostilidade, mas curiosidade. Seria burrice recusar uma oferta tão boa. Ainda havia uma guerra para seu pai lutar, antes que eles voltassem para as Terras Fluviais.

— Você não tem onde ficar – concluiu Digo, cruzando os braços. – Vai aprender a dançar ou não?

Ela assentiu. Passou as próximas quatro horas alongando-se e aquecendo os músculos. Depois de conseguir tocar a ponta dos pés em pé, tentou sentada e Digo se colocou atrás dela, forçando-lhe as costas para frente. Passava cerca de vinte minutos em cada posição e sempre sentia muita dor. Não estava acostumada com aquilo e o tempo passado no navio não fora benéfico para seu corpo. Descobriu que, mais difícil do que suportar a dor, era tentar manter seus pés no ritmo constante das cantigas das Ilhas de Ferro. Mesmo as mais simples, cantadas para crianças, nunca paravam e cada passo era milimetricamente calculado. Os rodopios e movimentos graciosos de sua dança para os Sete não era nada em comparação aos saltos e ao pé ligeiro que as canções sobre cerveja, morte e saque dos homens de ferro evocava. Digo era com certeza um filho do ferro legítimo. Sua voz era afinada, como a dela não era, e ele tinha o ritmo impresso nos pés, assim como ela não tinha. Enquanto tentava acompanhá-lo nos passos mais lentos, ele fazia todos os rápidos de apenas um tempo como se fossem meros gestos triviais. Antes que tivessem terminado, uma garota pequena apareceu no galpão, segurando um saco molhado. Ela os observou em uma hora e depois de concluir o quão ruim Myna era, começou a rir de cada tropeço ou tombo que a pobre moça levava. Digo a mandou se calar, não sem sorrir.

Têm-me por sonsa.

Quando o Sol estava já próximo do fim de seu tempo, outros dois rapazes retornaram, contando moedas. Digo deu-lhe uma folga e foi conversar com eles. A garotinha menor se apresentou como Sofi e ajudou Myna a agir com mais velocidade utilizando os braços. “Lance os braços junto com os pés, assim você terá a força de todo o seu corpo junto, como o mar. Consegue ver as ondas nos seus pés? Faça as marés nos seus braços e as espumas nas suas mãos”. Mas Myna não entendia o que aquilo queria dizer e muito menos como fazê-lo. Tentou sozinha, o que só gerou risadas entre os rapazes. Envergonhada, ela se sentou e esperou Digo retornar. Mas ele então passou a conversar com outra recém-chegada, uma donzela alta, de longos cabelos ruivos e pele morena, marcada por sardas e pelos grossos nos braços e pernas. Seus olhos, no entanto, quebravam toda a sensação de calor que ela passava. Eram cinzentos, quase brancos, e muito frios.

— Lula Azul! – exclamou Digo, abraçando-a. Os dois jovens mais velhos trocaram palavras rápidas e Lula veio caminhando lentamente em sua direção.

— Myna, de Correrrio?

— Terra Vermelha – corrigiu-a, mas com a voz baixa. Lula sentou-se ao seu lado e se inclinou para trás, apoiada nos cotovelos. Seu corpo era elástico e mesmo por trás do tecido de seu bonito vestido azul, podia ver curvas de uma cintura fina e seios firmes. De repente sentiu vontade de observar seus pés e notou que eram cheios de calos, bolhas, e uma casca grossa nos calcanhares. – Por que a chamam de Lula Azul?

— Também sou de Correrrio. – explicou a menina. – Me chamo Talula. E eu trabalho no Maré Azul, e tenho olhos azuis. Sem contar que a cor dos Tully é vermelho e azul, assim como eu sou. – ela segurou uma madeixa de cabelo vermelho como o sangue e Myna assentiu. – E por que a chamam de Myna?

— Oh, é meu nome. – explicou, ingenuamente, o que fez Lula rir. – Você dança?

— Danço, canto, vendo bebidas e às vezes as minhas noites. Depende do dia, depende do meu humor. – a garota sorriu, diante das sobrancelhas erguidas da mais nova. – Digo disse que queria te fazer dançar. Ele acha que tem um rosto bonito para isso.

Myna apenas ruborizou, erguendo o olhar rasteiro para o garoto, ainda conversando com seus amigos. Não era chamada de bela com muita frequência, e principalmente por um rapaz tão encantador. Mas Lula soltou uma gargalhada gutural que chamou a atenção de todos e tocou o ombro de Myna com delicadeza.

— Não morra de amores porque alguém te achou bonita. É a primeira lição de uma dançarina. E em segundo lugar, você precisa de roupas. Isso não vai te trazer aplausos, e sim uma violação. Consigo ver seus mamilos por trás desse tecido horrível.

Myna tocou o peito e encolheu-se, o rosto estava realmente vermelho. Novamente a menina mais velha riu, mas era algo mais contido.

Por que todos riam tanto dela? Estaria sendo uma chacota interessante? Ao menos Digo não ria de escárnio. Não com frequência. Lula Azul convenceu-a a mudar suas roupas para algo que tinha guardado debaixo de dois caixotes vazios. Era um vestido xadrez, de bom tecido, porém com as mangas rasgadas e uma gola muito alta, chegando a seu queixo.

— É um vestido do Norte. Do extremo Norte. Muito quente, muito feio. Mas servirá melhor do que isto que usa. – ela jogou os trapos de Myna para longe. – Agora, prenda os cabelos para cima.

Lula observou os traços arredondados do rosto daquela garota. Tinha os cabelos arruivados, assim como os seus (e como metade das Terras Fluviais), seus olhos eram esverdeados e a pele muito clara, salpicada de sardas provocadas pelo sol forte. Tinha lábios pequenos e olhos grandes. Parecia uma coruja, notou. Seu corpo era mais carnudo que o dela, mas não roliça. Tinha dois palmos a menos que a mais velha e caminhava desengonçadamente. Teria de corrigir muitas coisas em sua postura, coisas que ela detestava ver em Digo.

— Você tem um rosto bonito. – concordou Lula, erguendo a mão até a orelha de Myna e então tirando um fio de madeixa das mãos da outra. – Poderia seduzir muitos marinheiros. É jovem, poderiam chamá-la de Donzela.

— A única Donzela está nos septos.

— Sim. Nos seus septos – concordou a ruiva. – Aqui eles são apenas motivo de piada. Donzela é perfeito.

Talula sorriu, por fim, mostrando um lado mais doce de sua personalidade, e Myna sentiu-se acolhida. Enquanto retornavam para a fogueira, ela já estava acesa e o cheiro de peixe exalava para todos os lados. Digo elogiou a mudança de vestido, e perguntou se Lula autorizava que ela fosse treinada como uma dançarina.

— Não seria uma concorrência se ela trabalhar no Machado Feliz.

— Sempre é uma concorrência – retrucou Talula, lançando um olhar longo sobre a garota e então voltando-se para o rapaz. – Estou velha demais, não estou?

Digo sorriu.

— Como um maracujá.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse passagem sobre a querida Myna. Beijos de Lady Savoy.