Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
20 Cantos e Encantos da Lua
Notas iniciais
Cantos e Encantos da Lua
LAYSE
Os avós chegariam de Bravos em breve. A viagem para o outro continente fora longa, senão esgotante, deixando os dois velhos tão enrugados que Layse mal os reconheceu. A cabeleira negra de vovó estava grisalha e as sobrancelhas de vovô se desfaziam fio por fio, assim como acontecera a sua cabeça anos antes. Eles se seguravam em bengalas de madeira e com as mãos unidas, como se a força de um pudesse sustentar a fraqueza do outro sem atrapalhar o passo. No porto de Ponta Tempestade eles tiveram dois dias de descanso, antes de avançar na estrada do rei até o Sentinela. O Torneio havia acabado há horas antes, e por pouco os dois não viram o duelo final. Pareciam decepcionados.
— Tanta correria por nada. – resmungou o velho, tirando o casaco dos ombros e entregando-o a um pajem próximo a entrada do castelo. Catalina já estava beijando a bochecha de sua mãe, sentindo o afago de seus cabelos grossos e macios. Como gostava de sua família! Ainda mais agora, que podiam vê-la em sucesso. – Onde está a menina?
— Aqui – Catalina agarrou a mão de sua filha, levando-a até o pai. Layse sabia que devia respeito a seu avô, mesmo que ele fosse inferior em posição. Ela fez uma mesura, pronunciando uma educada saudação.
— Não essa. A órfã.
— Betyne está no quarto. Dormindo. Ela é uma donzela com horários muito rígidos, o pai fazia questão. – explicou Catalina, mordendo os lábios de nervosismo. Somente seus pais podiam fazer aquilo nela, e Layse sabia por quê. Ela os temia. Desde que desistira do noivado com Samwell Baratheon para se casar com o irmão mais novo do mesmo, eles não a haviam perdoado. Mas Catalaina agora era a esposa do Lorde. Seu erro fora reparado.
— Você não está magra demais, menina? – a velha apalpou a cintura de Layse, sentindo a firmeza do espartilho que a mesma usava debaixo do vestido. – Parece morrer de fome.
— Estou bem, avó. – respondeu Layse com um sorriso gentil, oferecendo o braço a senhora. – Deixe-me levá-la até vosso aposento. Deve estar cansada da viagem.
— Estou morta. – resmungou, aceitando a oferta e caminhando com a jovem em direção às escadas do castelo. Catalina teria tempo com seu pai, para lhe contar as boas novas e quem sabe conseguir novamente a sua afeição. Enquanto isso, Layse ouvia sobre a viagem de navio e de carruagem que Adelina Tarth fizera dentro de cinco dias. Para a senhora, era como uma viagem de três meses. Enquanto elas caminhavam pelo corredor, em direção aos quartos, Layse notou como os guardas lhe dirigiam um olhar de soslaio, como se a Velha Tarth fosse uma figura já esperada e como aquilo não fosse acabar bem. eles sabiam de algo que ela não sabia. E isso lhe colocava uma pulga atrás da orelha, incomodamente. — ...e com certeza ele será expulso daquele convés. Onde já sei viu molhar o chão das cabines? Tenho sorte de não ter quebrado nenhuma costela.
— Ele merecia a forca. – Layse concordou com um meneio suave, fazendo a velha mudar de assunto rapidamente. Era fácil entreter as pessoas que se achavam merecer muita atenção, era apenas permitir que falassem sem parar e soltar comentários curtos.
— Este quarto não chega nunca? – Adelina murmurou.
— Estamos próximas, é aquela porta – indicou Layse com o dedo, mas Adelina já voltara a tagarelar sobre Ponta Tempestade e como aquele lugar estava um lixo. Quando eu for Lady de Ponta Tempestade, farei uma cidade onde a mediocridade será um crime. E assentiu serenamente. Em frente a porta, Layse deixou que a senhora entrasse e visse todo o ambiente, antes de acompanhá-la.
— É bom. Espero que as tempestades não me façam pegar uma pneumonia. – ela resmungou, sentando-se sobre a cama e jogando as sapatilhas de linho para perto da janela. – Faça a gentileza de afagar o cansaço de vossa avó. – a velha esticou os pés e deitou-se.
Layse deu um passo de grande autocontrole e se ajoelhou diante a cama, encarando os dedos gordos e pequenos daquele pé branco e cheio de rachaduras grossas. A pele era tão dura que parecia pedra e a Senhora de Tarth provavelmente não tinha qualquer sensibilidade, pois não notou que a neta mal tocava-a. Os dedos ágeis de Layse correram por aquelas unhas amareladas e encardidas, apertando a ponta dos dedos e o peito do pé. Começou uma série de pequenos apertões nos calcanhares da velha e então estalou suas juntas com rapidez.
— Isso é essencial para um bom casamento, lembre-se disso. – a velha resmungou, erguendo-se. Ela se deitou com os murchos seios sobre os travesseiros e ergueu sua casaca, mostrando a pele flácida e salpicada de verrugas das costas. – Agora aqui.
Layse se levantou e estava prestes a se sentar na cama, quando a porta se abriu e o velho entrou, retrucando para seu pajem o quanto ele era lerdo. Quando viu a menina e a senhora sua esposa, mandou uma embora e pediu para a outra se despir, pois precisava de um banho, embora quisesse fazer o contrário. Layse deixou os avós e o pobre pajem sozinhos. Quando estava já no meio do corredor, cheirou os dedos. Fediam.
Com uma careta, ela empurrou a porta do próprio quarto e correu até a bacia onde havia lavado o rosto pela manhã. Mergulhou os dedos e massageou-os fortemente, livrando-se daquela sensação de corrupção. Estava cansada. Sua mãe lhe dizia tudo o que deveria fazer como filha do Lorde, e como o casamento com Otto Tyrell poderia não vir a se realizar, agora que o rapaz estava em Porto Real, e com certeza lhe empurrariam uma esposa da Corte. O Rei Dragão não iria querer inimigos. E quando não era Catalina quem a incomodava, era o resto das Terras da Tempestade. Com o banquete no salão de festa do castelo, os senhores visitantes estavam bebendo e cantando, mas os vassalos dos Baratheon corriam atrás da família em busca de apoio e de bajulações. Ela recebera ao menos quatro convites para dançar, além de velhos senhores sugerindo seus filhos como guarda-costas pessoais da milady. Layse apenas olhou-os por meio segundo, até entender que eles queriam que seus filhos estivessem do lado de dentro da porta, não de fora. De repente suas joias foram copiadas por todas as damas de baixo nascimento e as cores Baratheon brilhavam sem parar. O amarelo já estava lhe causando náuseas.
— Betyne...? – ouviu uma voz curta e amedrontada vindo da direção da janela, a qual havia ignorado por estar nas sombras da noite. Ela se voltou, arrepiada da cabeça aos pés. Em seguida agarrou o candelabro ao seu lado, com as velas apagadas e apontou para o sujeito misterioso. Com certeza se tratava de um homem, pelo tom de voz, e parecia maior do que o costume, não era um pajem, nem mesmo um cavalariço. – Minha noiva?
Layse piscou os olhos, atônita. Talvez estivessem errando o quarto. Ou talvez ela realmente estivesse de frente com o garoto Martell e ele ainda a tivesse por Betyne. As primas não seriam parecidas nem mesmo de longe, enquanto uma ostentava os olhos claros dos Baratheon e madeixas castanhas, a outra herdara o sangue forte da Estrela da Tarde, com cachos grossos e negros feito carvão e olhos profundos e escuros. Mace Martell deu um passo a frente, deixando que seu rosto fosse iluminado pela Lua. Era um rapaz belo, além de habilidoso. Seu gibão estava adornado de sóis e estrelas, todos costurados com fio de ouro, brilhando. Seus calções eram de um amarelo apagado, contrastando com sua pele queimada pelo Sol e os cabelos lisos e escorridos, descendo até abaixo da orelha. Lembrava-se de que no Torneio ele estivera com uma pose mais galante e mais confiante. Agora parecia uma criança intimidada. Era fraco, assim como os cavaleiros da batalha. Tolos que recebiam a glória apenas na guerra, e então voltavam a ser tolos. Trabalhavam para o Guerreiro, com toda certeza.
— Eu não sou Betyne. – Layse respondeu, com sua voz em tom ríspido e nada gentil. Mace Martell podia ser uma pessoa boa, mas ela não gostava de ser incomodada por tolices. – Sou Layse Baratheon, filha do Lorde da Tempestade, e você está em meus aposentos sem permissão. Devo chamar os guardas caso não saía imediatamente.
— Por favor – Mace suplicou, aproximando-se mais. Para um jovem amedrontado pro sua beleza, ele parecia muito confiante em continuar ali. Após dizer que não era Betyne, ele deveria ter compreendido e partido, em busca de sua noiva. Talvez um pouco decepcionado. Mas seus ombros estavam eretos e ele não esboçava qualquer expressão de vergonha. – Preciso lhe dizer.
— Ora, dizer-me? Não sou vossa noiva para ouvir o que tem a dizer, saía de meu quarto agora – a ordem foi dada com toda a autoridade que Layse conseguiu imprimir em sua voz, porém o dornês permaneceu parado. – Você é estúpido. Guardas!
Seu grito não foi muito alto, pois não queria causar escândalos. Aprendeu com sua mãe que a intimidação pode funcionar, mesmo quando é visivelmente fraca. Basta que você continue olhando nos olhos de seu adversário e sinta-se confiante com o que faz. Mace Martell correu até ela e lhe tampou a boca, antes que pudesse gritar mais. Ambos travaram uma batalha silenciosa de mãos e chutes, as unhas de Layse se agarraram aos braços do rapaz, e ele continuava feito aço a prender seu maxilar com os dedos. Agora pouco se importava com o escândalo que fosse causar, queria se livrar daquele depravado e repugnante homem que a assediava indiscretamente porta adentro. Virou o rosto avermelhado para a porta, que havia fechado assim que entrara. Como fora tola para não olhar ao redor antes de se trancar com um pervertido?
— Eu não quero machucá-la. – ele murmurou, seus olhos eram escuros como os dela, e na luz da Lua parecia se banhar com prata. As estrelas em seu gibão também refletiam a claridade serena da noite e tudo se tornou mais calmo, quando ela notou que não estavam batalhando, mas sim que ela estava esperneando debilmente. Uma Lady de sua classe teria a decência de manter a calma e venceria o seu agressor com honra. E não com medo. – Apenas me ouça.
Ela forçou a cabeça para baixo, contra as mãos dele, e assentiu. Mace soltou-a imediatamente, e embora ela estivesse tocando seu rosto, a procura de um nariz torcido ou de um queixo deformado, ele se ajoelhou cavalheiresco e tomou uma de suas mãos com doçura.
— Não posso continuar a viver nesta farsa sem que seja sincero sobre meus sentimentos. Seria como vencer mil homens e nunca conquistar a vitória. Seria fracassar contra mim mesmo. – ele abaixou o semblante, tornando-se um mistério sob a escuridão. Layse torcia para que sua face estivesse oculta nas sombras, pois estava tão espantada que chegou a abrir os lábios e exprimir um “Oh” de donzela. – A completa verdade é que.... em meu coração, não há espaço para muito – ele murmurava as palavras baixinho, obrigando-a a se esforçar para ouvir, pois, por algum motivo, Layse se deleitava naquilo. – E todo o espaço que possuía reservado para uma vida feliz ao lado da mulher que me fosse prometida, acabou por ser preenchido por uma beleza avassaladora que por si mesma seria uma maldição por cair em vista de qualquer homem. Sou vítima deste encanto! A ti dediquei todas as últimas horas de meu dia, apenas brandindo minha lança com toda a força e derrubando vinte e três homens maiores e mais experientes que eu. Apenas para que a Donzela risse de mim e me jogasse a verdade como uma brisa fria de inverno.
Mace engoliu em seco.
— Serei devoto a minha donzela até a morte, disto não posso correr, pois já está jurado em minha alma. – ele se levantou, beijando os nós de seus dedos. – Por favor, Layse, fuja comigo para Dorne e seja minha esposa.
Layse pensou que seria impossível espantar-se mais em apenas alguns minutos, porém se viu novamente boquiaberta e pálida. O rapaz aguardava uma resposta, tão suplicante quanto um cão em busca de um amo. Seus olhos eram dóceis e sua tez se franzia de expectativa. Ainda segurava suas mãos, acariciando os dedos gentilmente entre os seus. A oferta, por alguns segundos, surgiu em sua boca como um vinho quente, com mel e limão para azedar toda a doçura.
— Eu... – ela balbuciou, notando que estava mais surpresa do que se permitia notar. Nunca pensara que algo assim lhe tomaria com tanto espanto. Afinal era bonita e filha de um Lorde. Haveriam mil jovens loucos de amor por ela. Então por que o primeiro parecia surreal, quase como uma canção dos menestréis e dos cantores? Seus pensamentos agitavam-se, ora apreciando o quão doce aquilo soava, ora tentando descobrir o que sua mãe diria se descobrisse aquilo. Mas ela não viveria a sombra de Catalina para sempre, era preciso tomar decisões. — ...não seria justo, para com Betyne. É minha prima.
— Foi um Torneio, outros entrariam nas justas apenas pela diversão, não há interesse em se casar com uma donzela que não possui mais terras ou pais influentes. Logo cairá no esquecimento e...
— Então o que quer é a filha do Lorde, e não a mim? – Layse desvencilhou-se de suas mãos de aranha e se afastou das presas de serpente. Um dornês, deveria supor que não eram confiáveis. Maliciosos, sedutores e terrivelmente ambiciosos. Deveria supor que...
Mace Martell caiu novamente de joelhos, completamente vencido, agarrando-se a saia de seu vestido, abraçando suas pernas e beijando seus joelhos.
— Nunca! Se não acreditas – as palavras borbulhavam em sua língua, parecia estar vencendo a si mesmo. – então eu fugirei para Ponta Tempestade, para viver contigo. Abandono meu lugar como príncipe em Dorne, nada mais me interessa desde que não tenha vossa companhia.
Layse estava confusa. Seus pais jamais permitiriam que um dornês a tomasse como esposa, debaixo de Ponta Tempestade, e principalmente um dornês que não fosse um príncipe e que tivesse traído sua família. Se fugir fosse o caminho, ela iria para Dorne. Mas havia Otto e havia a guerra dos Targaryen, que explodiria no verão que se aproximava rapidamente. A primavera era o prelúdio para toda a desgraça que viria. Ela podia se esconder em Dorne, onde as guerras nunca chegam e onde estaria segura... Ou se casar com um dos líder de toda a rebelião e se tornar alvo de estratagemas e assassinatos.
— Por favor, vá embora... – ela pediu, sua voz saiu mais fraca do que esperava e ela notou que estava exausta. – Por favor...
Mace ergueu o rosto, de repente tomado por sua dor. Ele a envolveu com seus braços e a conduziu até a cama, erguendo os lençóis para que se deitasse. Layse teria gritado ali mesmo, mas estava com os olhos desnorteados e uma dor crescente no centro da testa. Sentiu náuseas e dores em seu peito, os minutos tornaram-se horas e Mace parecia tão lento em lhe cobrir novamente que ela fechou os olhos para adormecer, até perceber que estava apenas piscando.
— Estás febril – ele tocou sua tez com leveza – Chamarei um meistre imediatamente! Não posso permitir que passe por mais problemas, me perdoe por tudo o que disse, eu fui.... insensível por não notar.
Ela não respondeu, revirando os olhos e sentindo uma grande mão afundando-a no colchão.
Estava escuro demais, queria pedir para as criadas para que acendessem as velas, mas então se lembrou de que todos estariam no salão, festejando o Torneio. E Mace deveria estar lá, e não em seu quarto. Esforçou-se para abrir os olhos, erguendo a mão debilmente em direção a ele. Seus lábios se entreabriram para dizer qualquer coisa. Mas Mace segurou seus dedos antes que ela o alcançasse e inclinou seus cabelos para tocarem-na na face, seu nariz encostando-se a sua bochecha e os lábios sobre os seus. Layse mal sentiu, mas sabia que ele estava ali, fazendo algo que ela não estava pedindo, mas que também não estava recusando.
— Mãe, se este é o momento de minha querida, tome-me em seu lugar. – ele sussurrou, afastando-se da cama e caminhando em direção a porta. Quando a deixou sozinha, Layse sentiu ainda mais dores, agora em seu peito e entre as costelas. Gemeu de dor, inutilmente, e revirou-se, até encontrar uma posição confortável.
Mãe, se este é o meu momento, não deixe aquele garoto tolo tomar o meu lugar.

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