Notas iniciais
Boa leitura a todos.

Pedra & Ferro

SYRENA

Os castelos nas Ilhas de Ferro eram aterrorizantes. Uma série de estruturas erguidas toscamente sobre rochedos no mar, com escadas unindo-os, tão deliberadamente mal cuidadas que Syrena não se arriscava a sair do quarto, nem mesmo para cear. Passou a maior parte da vida no continente, como protegida de Lordes por opção de seu pai, que não conseguia se ver como uma Greyjoy. Os navios eram a coisa mais nobre que todos os homens de ferro possuíam. Em todo o resto eram selvagens. Quando se encontrou no Norte, novamente, percebeu o quanto havia sentido falta daquilo. Syrena Greyjoy perdeu sua mãe ainda muito nova e seu pai há dois anos. É uma moça com idade para se casar, uma beleza sutil e bons modos, criada em meio a estranho e a casas movimentadas. Primeiro passou uma curta temporada com os Lannister, até que Lorde Tyrell se encantou com a vivacidade da menina e com sua facilidade em criar amigos, tentando introduzi-la na vida de sua filha tímida, Giselle. Mas ambas não se deram bem, e Syrena acabou por se mudar para Correrrio, quando os Tully ainda moravam em seu castelo. Lembrava-se de ter florescido em uma cama e que fora a coisa mais apavorante que já lhe passara. Aos quinze anos, viajou para o Norte, para os Reed, e passou um tempo com os parentes de Lady Stark, até que ela morreu, o que causou uma grande comoção na família, e lá estava ela, retornando para as Ilhas de Ferro, para sepultar seu pai. Os dois anos que passou em Pyke foram hediondos.

Mordeu os lábios, olhando a baía, procurando pelo navio que utilizariam para atravessar o estreito. Skagos era uma ilha relativamente grande no extremo Norte de Westeros, alguns diziam que seus limites ultrapassavam a Muralha e que seus homens eram meio-selvagens canibais. É claro que Syrena não acreditava naquilo, sabia que todas essas histórias não passavam de contos antigos para ensinar às crianças os perigos do mundo, mas era sempre bom esperar que uma sereia submergisse das águas azuis daquele mar.

A Baía das Focas ostentava nove galés, todas com bandeiras de lordes do Norte, mas apenas uma com um tora de madeira escura em fundo verde-água. Era a bandeira de Skagos, e Syrena moveu sua égua em direção aquele duto, percorrendo o caís com cuidado. Os cascos do animal eram alheios à madeira podre debaixo deles, porém a menina ainda temia pelo que pudesse acontecer a ela. Ornstein parou seu palafrém antes de chegarem ao caís e desmontou-o com eficiência, guiando-o até a embarcação. Syrena também desmontou.

— Está muito frio – ela murmurou, batendo os dentes. Vestia um de seus vestidos de inverno, embora nunca tenha estado tão ao Norte, onde o verão nunca chegava. As barras de seu vestido não eram pesadas o suficiente para impedir de se erguerem conforme o vento do mar soprava, e adentrava suas vestes até arrepiar os pelos das pernas. As mangas eram grossas e de veludo, mas apenas a sua capa impedia-a de morrer congelada, pois possuía arminho em todas as extremidades. Syrena puxou o capuz para cima dos cabelos escuros, ignorando os marinheiros que lançavam-lhe olhares furtivos. Talvez estivessem todos querendo que ela se fosse logo, para poderem descansar em casa. Faria sentido.

— Sempre está muito frio na Baía das Focas, menina – respondeu-lhe um pescador, recolhendo seus utensílios de trabalho de um barco pequeno. Seus filhos o acompanhavam. – Bom dia, milady.

— Bom dia, senhor – ela curvou a cabeça, sorrindo. Era educada, e Syrena não faria diferença entre as pessoas do Norte. Eram todas boas e honradas o suficiente para merecerem sua atenção. Os garotos do pescador também curvaram-se brevemente e se form sem dizer uma palavra, embora o mais alto parecesse um pouco intimidado, com as bochechas vermelhas além do normal.

Ornstein Greyjoy a estava levando para Skagos, após uma troca de mensagens com Lorde Stane. O Senhor da Pedra, como era chamado em Pyke, tinha muitas suspeitas sobre sua aliança com os homens de ferro, e precisou de mais do que reforços em soldados e trocas de favores ao longo dos meses. Ele queria um casamento com um de seus lordes e uma Greyjoy. Alezabeth recusara incessantemente aquela ideia, deixando a Syrena a responsabilidade por aquela aliança. A menina compreendia a importância que a guerra tinha na vida de todas as pessoas do Norte e acreditava na liberdade para os povos. Sem um rei tirano ou uma Casa Soberana, todos poderiam prosperar sozinhos e em união. O primo ofereceu a mão para ajudá-la a subir no barco, e ela a aceitou com educação.

Passara grande parte de seu tempo ilhada em uma torre do castelo, longe de Alezabeth, que estava sempre no pátio, gritando com os homens e duelando com uma espada, e longe de Drustan, que estava sempre fazendo suas coisas. Ornstein passava a vida no mar, em busca de reforços para o pai, enviando acordos e pessoas de um lado para o outro. Parecia feliz em tudo aquilo, sempre taciturno sobre a proa. Seu navio parecia um castelo, uma galera com dezessete cabines em sua parte interna e mais um calabouço onde as mercadorias eram descidas por um grande alçapão de dois metros de comprimento e largura. Suas velas eram tão grandes que Syrena caberia dentro do desenho da lula gigante dos Greyjoy. Era uma embarcação de luxo, e não de guerra. Mas possuía vinte canhões em cada um dos lados e carregava quase cinquenta homens a bordo.

Ele lhe contara sobre sua vontade de comandar as Ilhas de Ferro e suceder o pai com força e autoridade. Era um sonho bonito, Ornstein parecia-se muito com Lorde Greyjoy, em ímpeto e físico, até mesmo em suas maneiras grosseiramente educadas, polidas pelo mar salgado e lixados pelas rochas. Assim eram todos os homens de ferro, e Syrena agradecia por não ter de partilhar a cama com qualquer um deles. Os nortenhos não eram especialmente calorosos, como seria um esposo da Campina ou de Dorne, mas com certeza tinham mais tato. Syrena lembrava-se do que ouvira sobre lobisomens e fadas, crianças trolls e unicórnios. Queria muito, mesmo que dificilmente fosse conseguir, ver qualquer um deles. O gelo sempre esconde coisas encantadoras, o frio é uma delas. Syrena dizia não gostar de frio, pois sentia como se uma espada a estivesse cortando. Mas adorava encolher-se dentro de um grande cobertor, ou puxar o manto até envolver o corpo inteiro. Quando passou alguns meses com os Lannister, aprendeu que não era do calor que gostava, mas do calor no frio. Ela detestava o suor e o fedor que vinham com o verão.

Correu até a borda da galera, olhando para as águas azuis escuras logo abaixo. Sabia que elas não congelavam por pouco. Diziam que nas terras desconhecidas, ao Norte do mundo, os oceanos eram grandes placas de gelo maciço a deriva. Imaginou como seria correr por uma dessas placas. Suas botas escorregariam ou afundariam? O capitão do barco Stane gritou ordens para que seus homens soltassem a âncora e erguessem as velas. Syrena viu quase quarenta moços, todos branquíssimos e magros, correndo até os remos, outros descendo as escadas com uma manivela e fogo. A vida num navio nunca lhe soou atraente, como era aos seus primos. Talvez o sangue de ferro fosse fraco em suas veias. Ela era filha de uma Lannister, de um ramo menor da Casa, e sentia-se muito melhor quando imaginava a mãe na arrebentação da maré, olhando ao longe para as ondas, do que quando se lembrava de seu pai acenando dentro de seu barco.

— A jovem gostaria de uma bebida quente? – o rapaz perguntou, com um sorriso simpático e mãos pequenas. Era um palmo mais baixo que Syrena, e deveria possuir três anos a menos, mas parecia muito à vontade a bordo e segurava mais três canecas de uma bebida fumegante, as alças penduradas em seus dedos longos e ossudos.

— Obrigada, sor— ela segurou a caneca com ambas as mãos, sentindo o calor expandir-se para seus dedos e tomar-lhe a mão. Em alguns segundos aquilo arderia, mas no momento tudo o que conseguia sentir era um prazer tremendo. Como quando segurava as orelhas geladas com as mãos quentes. Bebericou um pouco e notou que se tratava de café. Café preto, amargo e forte. – Há café em Skagos?

— Café? – o rapaz franziu as sobrancelhas. – O que é isto? Uma bebida de inverno, também? Não sei do que se trata, mas isso, minha querida, é cerveja no Norte. Não do Norte de Winterfell, mas do verdadeiro Norte. – ele apontou os grandes blocos de gelo vagando no mar. – Aquele Norte. Receita especial dos selvagens. Nossas cozinhas estão empilhadas deles.

— Lá embaixo temos uma fogueira. – ele disse, apoiando-se sobre o parapeito da embarcação, brincando com as canecas que segurava. – Milady se sentiria muito mais à vontade ao redor do fogo.

— Obrigada...

— Georj. É um nome nortenho muito antigo. Antes dos Targaryen e dos Stark. – Georj sorriu novamente, e Syrena notou como ele ficava bonito com aquele humor. Subia-lhe as sobrancelhas, de leve, e eram tão escuras que formavam pontinhas negras aonde cresciam, na tez pálida, sem sardas ou pintas. Seu nariz era reto, sem curvas, e um pouco pontiagudo, mas não exageradamente grande. E seus lábios balanceavam, finos e desenhados. Seu queixo se enrugava todo quando ele sorria, assim como seus olhos se enchiam de preguinhas cor-de-rosa.

— Me chamo Syrena. É um nome comum no continente. – ela abaixou os ombros.

— Gosto de Syrena – ele olhou de relance para os olhos dela e então enrubesceu – Não me surpreende que seja um nome comum... Eu preciso servir os outros – ele ergueu as canecas – Mas a encontro lá embaixo, sim?

— Está bem – a menina abaixou o capuz, revelando suas madeixas escuras, e caminhou para o alçapão, abaixando-se para descer as escadas enquanto segurava a saia do vestido. Não queria cometer nenhuma deselegância que manchasse sua honra, embora os marinheiros soubessem diferenciar seu trabalho de sua diversão. Os homens de Ornstein teriam parado debaixo da escada e apostariam moedas pela cor dos pelos de minhas pernas. Mas os nortenhos... eles me ajudariam a descer em segurança. Ela encontrou uma mão esticada no final da escada, era um dos homens que fora correndo para lá, com a lanterna em mãos. Ele agora estava de mãos vazias, e a ajudou a pisar firme no casco do navio. – Obrigada, sor.

Ele fez uma mesura desajeitada e se foi, entrando por uma porta que Syrena nunca teria descoberto. Ela encontrou a fogueira facilmente. Não era uma fogueira de verdade, apenas um lampião grande aceso sobre um suporte de metal no centro do barco, com alguns homens descansado ao seu redor. Ela viu dois homens trocando seus turnos de trabalho e colocando as mãos sobre o fogo, tentando adquirir um pouco de calor. Ela se sentou em um vão solitário, mais afastado do fogo e dos homens, imaginando que eles não gostariam de tê-la ali, incomodando.

Ela sentiu o movimento das ondas e a embarcação deslizando, agora sem a força dos remadores, apenas com o vento em sua vela. Eles alcançariam Skagos logo, diziam que era possível fazer dez viagens da Ilha até o Norte em um dia, pois os ventos eram impetuosos e nunca cessavam. Ornstein não viria a descer logo, pois sua paixão era permanecer ao lado do capitão, observando tudo, lhe dando dicas de navegação e compartilhando de seu amor pelo mar. Syrena tinha outro amor pelo mar. Aquele da praia, como a mãe fazia, com os tornozelos submersos na maré e os olhos distantes no horizonte. Não poderia se banhar nas águas do mar de Skagos, ou morreria congelada. Aquilo parecia intimidador.

Ouvia também o sussurro dos homens, sobre o inverno que terminava e sobre o verão que se aproximava. Todos tinham ideias diferentes sobre o que aconteceria, mas pareciam unânimes sobre uma coisa: o inverno não iria embora tão cedo para os Stark. Pareciam falar da família de lobos quase com compaixão, lembrando as moças donzelas e os rapazes que nunca lutaram em torneios ou batalhas grandes demais. “O mais velho dizem que sabe usar a espada, mas os demais? Como poderão se proteger e proteger as irmãs?”. Syrena pousou a cabeça sobre uma estaca de madeira, fechando os olhos enquanto abria os ouvidos. Adorava escutar a voz das outras pessoas.

—...eu preferiria viver no mar, morrer no mar. A maldição da Bruxa Gélida seria suficiente para acabar com todos os Stark, sem que nós precisemos manchar nossas mãos. – ela ouviu de um homem distante de seu lugar.

— Seguimos ordens do Lorde. Morremos em suas batalhas e buscamos meninas Greyjoy em um porto congelado para que um de seus amigos possa foder com uma bem-nascida. – fungou outro, muito mais indelicado e falando muito mais alto, quase ignorando Syrena. – E vem nos dizer sobre liberdade!

— Quieto, Bacalhau! Vai acordar a senhora. – resmungou um terceiro, sussurrando. – Suas opiniões de selvagem você pode manter consigo mesmo.

Syrena abriu os olhos sentindo a uma mão pequena sobre seu ombro. Georj surgiu diante de seus olhos, sorrindo e com outra caneca borbulhante em mãos. Ele lhe passou a bebida e se sentou ao seu lado, olhando um pouco para os homens ao redor do fogo, agora muito quietos.

— Estava escutando? – ele perguntou, de repente, abraçando os próprios joelhos. Syrena tomou um longo gole de cerveja antes de responder.

— Sim.

— Algo a perturbou? – Georj parecia ler aquilo dentro de Syrena e a menina se sentiu um pouco exposta demais, mesmo que aquilo não importasse. – Isso parece um sim. O que foi?

— Falavam sobre uma Bruxa de Gelo e uma maldição. – ela sussurrou, com a caneca em frente a boca.

— Bruxa Gélida. É uma selvagem. Era. – corrigiu-se o garoto, um pouco envergonhado. – Morreu há muitos anos. Antes do inverno começar.

— Você sabe que história é essa?

Georj olhou para ela por um momento, tentando avaliar se aquela dama merecia saber das histórias reais do Norte, mas talvez ele a estivesse julgando mal. Não era, evidentemente, uma Greyjoy, parecia mais uma criança do sul, Não o Sul como o Tridente, mas o sul como a Campina (ouvira dizer que o lugar tinha mais flores de cores únicas que seria impossível nomear a todas!). Simpatizava com ela, e até mesmo atraía-se por ela. Claro que ela era uma lady bem nascida e noiva de um dos lordes de Stane. E era mais alta. Muito mais alta. Georj suspirou.

— Rella, da Tribo da Lebre Branca. Uma moça jovem, com vívidos quinze anos, viera do continente para a ilha quando sua tribo entrou em guerra com outra. Ela temia por sua vida, e fora considerada uma covarde. Abandonada pela família, buscou refúgio em Skagos, assim como todos os selvagens que vêm até nós. Lorde Stane os coloca em suas cozinhas e masmorras, para cuidar de seu castelo. E com Rella não foi diferente. Mas a moça demonstrava outros talentos além daqueles que usava na cozinha. Ela possuía um dom único do gelo. Diziam que era uma bruxa. Ela conseguia congelar qualquer coisa ao toque e curava todas as feridas. Rella, a Bruxa Gélida, logo chamou a atenção de Lorde Stane, com quem se envolveu. Ela se tornou sua esposa na cama, uma amante. Todos sussurravam que ela havia enfeitiçado o Lorde e todos os seus senhores. Mas seus feitiços não alcançaram Winterfell. Ela se casou e se tornou Lady Stane. Mas Lorde Stark não aceitou aquilo. Ele queria uma nortenha como Lady e não uma selvagem, temia que a ilha de Skagos fosse tomada por aquele povo bárbaro e declarou que, se Stane não se livrasse da mulher, ele mesmo se livraria de ambos.

Syrena arregalou os olhos.

— A Bruxa Gélida amaldiçoou o Lorde, dizendo que todas as suas esposas morreriam e todas as suas sementes seriam esmagadas sob a tormenta do inverno, que os julgaria culpados por sua morte. Rella foi encontrada morta em um grande bloco de gelo, a deriva no mar, após muitos meses de procura. – Georj engoliu em seco, limpando as mãos em suas calças de pano grosso e sujo. – E desde então, as esposas do Lorde vêm morrendo.

— Então é verdade? – Syrena mordeu os lábios, pensativa. – Uma maldição de verdade. Como ela conseguiu seus poderes?

— Ninguém sabe. – o garoto se remexeu, desconfortável. – Mas me conte s histórias das Ilhas de Ferro.

— Gostaria de ouvir como incendiamos portos e saqueamos vilas? – ela ganiu, amargamente, abraçando-se. Syrena não sentia orgulho da família que possuía. Ela sentia orgulho apenas de sua mãe e de seu pai. Eram pessoas honradas e justas. Obedeciam a lei. Não a lei do rei, mas a lei dos deuses. – Há deuses em Skagos?

— Há. – Georj sorriu – Milhares. São incontáveis.

— E algum deles é mais importante?

— São todos iguais. Digo, são importantes igualmente. Mas todos diferentes.

— E qual são seus nomes?

— Eles não possuem nomes, como os deuses do verão. – o menino tocou sua mão, segurando-a contra a sua. O toque foi quente e Syrena sentiu uma sensação reconfortante de serenidade. – Eles vivem aqui – ele apontou o centro da palma de Syrena, afundando o dedo pontudo em um vão em sua pele. – No coração da Ilha. Há muitas imagens, espalhadas por um imenso bosque, é chamado Bosque da Lua Vermelha.

— Represeiros! Os deuses do Norte. – ela sorriu, satisfeita por ter adivinhado. Mas Georj apenas assentiu.

— Eles enviam suas forças para os homens. Primeiro para o povo – ele fez uma linha do centro de sua mão até a ponta do dedão. – São fortes, largos e sem eles, não há reino. Depois para os sacerdotes. Eles ligam o povo e os governantes, que estão logo em seguida. Então vêm as musas, que ligam todos os humanos à Lua. – e enfim fez o traço por seu mindinho. Syrena franzia as sobrancelhas.

— Quem é a Lua?

— Ela é a eleita. – Georj contou, seriamente, com uma solenidade que fez Syrena respeitar aquele título, significando o que fosse. – É a mensageira dos deuses. Ela prevê o futuro e nos diz o que fazer. Também consegue fazer feitiços ao luar e dizem que pode até mesmo controlar o sangue de um homem.

— Controlar o sangue?

— Sim! Como uma marionete, ela pode fazê-lo sangrar até a morte, se assim desejar.

— Então é uma bruxa?

Não! — Georj grunhiu, chamando a atenção de todos no barco. Mas parecia não reparar. Estava vermelho, assim como um morango, e suas orelhas pareciam se mover levemente, conforme respirava. – Você não entende.

Desculpe – Syrena disse, porém o garoto se levantou e desapareceu escadas acima, deixando-a sozinha em a lanterna pendurada e os marinheiros de Skagos observando-a de soslaio. Teria dito algo muito ruim? Aquela “Lua” parecia realmente importante para Georj, talvez fosse alguma parte da cultura de Skagos, diferente do resto do Norte. Ao menos eles tinham represeiros, Syrena conhecia a história dos deuses antigos e dos primeiros homens. Também sabia sobre os filhos da floresta e os troca-peles. Ela adorava as histórias de cada lugar de Westeros e os nortenhos sabiam ser criativos.

Ela adormeceu e acordou sobre um colchão, na cabine do capitão, com o próprio homem e Ornstein debruçados sobre uma mesa, bebendo cerveja fervida e olhando um mapa do Norte. Ela não encontrou a luz do Sol quando olhou para as janelas. Já haveria escurecido? Então compreendeu que o vidro possuía a cor de um céu tempestuoso e que do lado de fora as ondas arrebentavam violentamente. Em uma guinada rápida, ela conseguiu ver o mar, com escamas reluzentes ao longe e algas flutuando na correnteza. As velas que iluminavam o ambiente nem mesmo se mexiam.

— Chegaremos a Skagos em dez minutos, pode ver a ilha, se sair. – Ornstein lhe disse, notando que a prima acordava. O capitão fez uma cortesia e Syrena o respondeu com uma mesura, levantando-se e esticando as pernas. Fora carregada até ali? Esperava que tivesse sido Ornstein a carregá-la e não um dos marinheiros. Sentiu a vergonha crescer. Ela seria pesada demais...

Saiu da cabina, abrindo a porta logo abaixo do convés, subiu escadas e parou diante da proa, segurando-se em cordas ao redor. Realmente era possível ver Skagos, uma ilha grande, com montanhas tão altas que desapareciam no céu claro e cheio de nuvens. “Choverá”, ela pensou, abaixando os olhos para o mar. Ainda era tão azul que ela juraria não possuir sal algum. Os homens trabalhavam no mesmo ritmo em que começaram, o contramestre lhes dava as ordens, na ausência do Capitão e viu Georj correndo com cordas nos braços e depois ajudando homens a abaixar uma das velas. Conforme se aproximavam da terra, a velocidade da embarcação ia diminuindo, até que quarenta homens se sentaram em bancos nas laterais do navio e começaram a remar. O caís de Skagos estava empilhado de barcos, galés e galeras. Ela via seus marinheiros trabalhando dentro e fora, lixando o casco ou costurando as velas. Outros barcos estavam deitados na areia cinzenta, reparando furos causados por canhões. Estariam em guerra?

— Bem vinda a Skagos, uma ilha de metade nortenhos, metade selvagens. E, de acordo com os Stark, canibais. – ele soltou uma gargalhada enquanto caminhava, logo atrás dela. Syrena virou-se para ver Georj ajudando em todo o trabalho da embarcação.

— Então vocês não comem carne humana? – perguntou, com um sorriso.

— Apenas quando o inverno nos impede de plantar sobre nossos campos de neve. – ele devolveu o sorriso, amarrando uma vela furada em cordas grossas. Syrena caminhou para acompanha-lo.

— Me desculpe pelo que disse antes. Não queria ofender.

— Não se preocupe. – ele murmurou, sem erguer os olhos.

Syrena observou novamente a ilha, agora maior. Era incrível como parecia apenas um pedaço de um vasto continente. Não era como uma “ilha”, mas sim um pedaço de terra. Em Pyke e Velha Wyk era possível ver o contorno dos rochedos delimitando as ilhas. Mas Skagos era realmente grande demais para isso. Será que todos seriam amigáveis como Georj? Não veria o garoto novamente, ou assim achava, pois ele trabalhava em um barco, talvez como aprendiz e ela estaria no castelo de Lorde Stane, como esposa de um de seus lordes.

— Você gostará muito de Lady Nayra, ela é uma jovem que faz amigos facilmente – Georj comentou, por cima do ombro, ainda ocupado com suas cordas. – Lady Nayra tem um jeito um pouco bruto, para uma donzela, mas é virtuosa. Possui uma frota de trinta galeras de guerra, um castelo próprio e uma profecia.

— Uma profecia?

— Ah, sim! – os olhos do rapaz brilharam – A Lua lhe deu uma profecia, para sua vida. Nayra Stane, nascida no crepúsculo e banhada pela Lua Vermelha, é abençoada pelos deuses e carrega o destino de libertar o Norte e trazer novamente o povo livre e a verdadeira fé. Ela é uma enviada!

— A Lua pode dar profecias às pessoas?

— Ela não dá – corrigiu-a – Ela entrega uma profecia, enviada pelos deuses antigos. Mas é muito raro. Nem mesmo ela pode garantir quando a mensagem chegará, apenas pressente em segundos.

Syrena imaginou uma velha profetiza, para sobre o berço de Lady Nayra, quando ainda era um bebê, esticando sua mão ossuda sobre a menina e dizendo as palavras da profecia. Parecia uma história muito interessante, que ela poderia ver acontecer! Georj notou que a menina Greyjoy fantasiava aquilo em sua mente e abriu um sorriso de lado. Ela nem mesmo perguntara como ele conhecia Nayra. Seria uma grande surpresa quando revelasse quem realmente era! Mas não agora.

— Aquele é o Mar Tremente – ele indicou logo ao lado, onde navios avançavam para um porto mais distante. – E aquela ponta no horizonte é uma das ilhas de Skagos, a chamamos de Terra de Ninguém, mas nos livros é nomeada como Skane.

— Ela é realmente desabitada?

— Não – Georj sorriu, entretido com a mente avoada da moça. – É o lar da Lua. Ninguém é permitido a ir até lá, a não ser que seja convidado. Inventamos a história de que comemos os homens de Skane para afastar marinheiros curiosos da ilha, mas ela sempre foi habitada por Luas, e nõs respeitamos muito sua terra. É um lugar sagrado.

Syrena assentiu, absorvendo a tudo. Era muito interessante como as coisas funcionavam ali em Skagos. Estava curiosa para ver as únicas Casas Nobres das ilhas, Stane, Crowl e Magnar. Seu noivo seria um Crowl ou um Magnar? Syrena escutou algo dos meitres do Norte falando sobre várias ramificações das famílias. Haviam Crowl-Joy, Crowl-Crown, Crowl-Wood, Magnar-Alto, Magnar-Joy, Magnar-Crowl, Stane-Phant, Stane-Joy, Stane-Wood... e milhares de outros. Mas apenas os Lordes comandavam os maiores castelos, assim como o Lorde Stane era o Senhor de Skagos.

— Você já sabe com quem se casará? – perguntou Georj, debruçando-se ao seu lado. Syrena negou com a cabeça. Gostaria de saber se o homem seria nortenho ou selvagem, e se seria educado ou grosseiro. – Meu pai é Jorg Crowl-Wood. – ele disse, apontando o dedo fino para a ilha. – Aquele é seu castelo. Uma fortaleza. Ele comanda o Porto das Focas, de onde os navios chegam do continente. Há relatórios em todos os cantos de nossa casa, sobre mercadorias e homens que chegaram. Meu tio, Brandor Crowl-Stane, comanda o Porto d’alem Muralha, por onde os navios selvagens ancoram.

— Não sabia que eras de família nobre – Syrena comentou, e então colocou as mãos rosadas sobre os lábios – Eu não quis dizer...

Georj soltou uma sonora gargalhada, balançando a cabeça enquanto se movia para trás e então para frente, deixando as madeixas negras ao vento.

— No entanto eu sempre soube que você era Syrena Greyjoy.

— Me perdoe...

Georj pousou a mão pequena sobre a sua, e então Syrena notou que ele sorria galantemente. Parecia quase... cortês demais. Ela ruborizou, com seus pensamentos. Obviamente ele não cortejaria uma dama de alto nascimento viajando por semanas para se casar com um dos nobres de sua terra. Seria estúpido demais da parte dele. Mas aquilo não transparecia em seus modos gentis e seu sorriso caloroso.

— Suspeito que nenhum nortenho se pareça com um nobre. Então a perdoarei. Os Greyjoy são muito mais nobres do que me contaram.

— Ah... – ela gemeu, encolhendo os ombros – Passei a maior parte de minha vida fora das Ilhas de Ferro, vivendo como protegida nas terras do verão, depois que minha mãe morreu.

— Lamento por vossa mãe. – ele murmurou baixo, soltando-se dela e lançando um olhar lúgubre sobre a fortaleza e o porto. – Então Lorde Greyjoy achou melhor mandar sua sobrinha forasteira, a abrir mão de sua filha de ferro? – ele sorriu – O que esperar de um bando de piratas?

Syrena ergueu as sobrancelhas, sobressaltada pelo sarcasmo súbito de Georj. Ele parecia irritado, quase enraivecido, com Lorde Greyjoy, mas a expressão desapareceu de seu rosto quando o vento soprou mais forte sobre eles.

— Não me preocupo. Sei que temos aqui a Greyjoy mais bela das Ilhas de Ferro – e com isso fez uma mesura e correu para ajudar os remadores.

Syrena esperou pacientemente até que o navio estivesse ancorado no porto, e seus homens arriado todas as velas. Um pequeno bote foi descido, onde ela estava assentada, com Ornstein e o capitão. Eles remaram até o caís e ela subiu sobre as estacas de madeira podre com a ajuda de um dos skagosi. Seus sapatos eram finos e ela sentia a areia cheia de pedras. Olhou o mar, suas águas eram translucidas na praia. Ainda querida entrar nele, mas conteve-se. Ornstein conversava com o capitão e mais alguns homens presentes no porto, quando eles chegaram ao consenso de levá-la até a Fortaleza de Pedra, a casa do capitão, Jorg Crowl-Wood. Para a surpresa de Syrena, Crowl era a esposa do capitão, Lady Myla Crowl, e ele mesmo era apenas um camponês com quem se casara, chamado “Wood”. Isso significava que Syrena poderia levar seu nome à frente do esposo. Aquilo parecia muito ousado, mas muito excitante.

Também significava que a nobreza não era tão rigorosa em Skagos.

Ela recebeu um cavalo da montanha, de matas curtas, porém fortes. Eles subiram a encosta da montanha, havia apenas areia, pedras e muita terra cinzenta. Nada parecia crescer ali, a neve cobria quase todas as planícies e as árvores eram muito esparsas. Syrena pôde ver a Fortaleza de Pedra apenas quando já estava em frente a ela. Escondida por entre a montanha, a construção parecia entalhada a pedra, e sua porta era tão invisível que só a notou quando Lorde Jorg a abriu para dentro, revelando um salão pequeno, quente e aconchegante. As janelas eram entalhadas para parecerem com cavernas, onde Syrena conseguiu ver muitos morcegos adormecidos e o pio de corujas. As paredes eram feitas da própria pedra da montanha e não foram entalhadas para serem “decorativas”, O teto do salão era tão alto que Syrena conseguia ver apenas algumas estalactites na escuridão.

— É maravilhoso – ela comentou para Ornstein, enquanto eles seguiam o capitão, em direção a uma outra sala, com uma mesa grande e cadeiras almofadadas. Novamente as janelas eram muito altas, e pareciam cavernas longas, com o teto escondido na escuridão. Syrena notou que próximo a lareira, assentada em uma cadeira de balanço, havia uma senhora. Lord Jorg beijou-lhe a bochecha e a apresentou.

— A senhora minha esposa, Myla Crowl. Estes são Ornstein Greyjoy e Syrena Greyjoy, querida. Eles vieram das Ilhas de Ferro.

— Eu sei aonde os Greyjoy moram – ela resmungou, levantando-se da cadeira. Parecia uma velha, com os cabelos cinzentos e as costas curvadas. Mas seu rosto era esplêndido e lembrava muito a Georj. Tinha sobrancelhas ruivas e olhos esverdeados, seus lábios eram grossos e desenhados, pequenos. Não tinha marcas de velhice ou qualquer ruga. – É um prazer recebê-la – ela se curvou diante de Syrena e entregou a mão para Ornstein beijar. – Gostaria de uma refeição quente?

— Adoraria – Syrena sorriu de forma amável e a senhora Myla sentiu-se bem com a garota, caminhando lentamente para uma porta ao fundo da montanha, que se abria para um corredor muito escuro. – Aonde ela vai?

— Preparar uma sopa, possivelmente – Lorde Jorg respondeu. Syrena queria perguntar pelos criados, mas então notou que a Fortaleza estava vazia, e que nenhuma vela fora acesa. Talvez os únicos que morassem ali fosse o Lorde e sua família. Aquilo soava estranho. – Esta é apenas nossa casa de visitas. Não vivemos aqui – ele completou – Não há necessidade de empregados. – e com isso apontou para uma antecâmara, para onde caminhou. Ornstein estava muito quieto, quase que desejoso de ir embora logo, pois sua missão fora concluída com sucesso.

Ele só pensa no mar. Syrena acompanhou o Lord Jorg. E eu também.

A sala era um quarto grande, com quase vinte camas, uma ao lado da outra, com algumas ocupadas por marinheiros e outras muito bem arrumadas.

— Esta é nossa hospedaria para os capitães e seus marinheiros. Em geral possuímos muitos, mas a guerra tem levado nossos guerreiros para o mar. Há mais quatro câmaras como esta ao longe.

Ele retornou para a sala da mesa e da lareira e entrou pelo mesmo corredor que Myla usara antes. Syrena viu alguns archotes acesos e portas no final do corredor, assim como um escadaria de pedra levanto para o subsolo. Tudo entalhado na pedra. Era incrível. Parecia um lugar onde as histórias aconteceriam. Lorde Jorg abriu uma porta estreita.

— Este quarto é para convidados. Pode ficar com ele, Greyjoy – visivelmente falava com Ornstein, que assentiu e entrou sem dizer uma palavra. A porta se fechou suavemente e Lord Jorg abriu um sorriso amigável, parecido com o de Georj. – Precisará de descanso também, milady, para conhecer Stane amanhã.

— E o meu esposo – ela o lembrou.

— Ah! – o capitão soltou uma gargalhada. Era idêntica a de Georj, ela percebeu. O garoto parecia ter as melhores características de seus pais. – Pois já o conheceu, milady. Meu próprio filho, Georj, fez questão de estar a bordo para vê-la. Suponho que ele tenha mantido segredo para conhecê-la melhor.

Syrena piscou, atônita. Georj? O rapaz que antes era um marinheiro e depois o filho de um camponês casado com uma Crowl era seu prometido? Aquilo não soava muito cavalheiresco. Principalmente por ele ser um palmo mais baixo que ela e ter o jeito tão infantil. Imaginou seu esposo como um homem feito, com barba grossa e músculos grandes, grunhindo o que ela deveria fazer. Não uma pessoa amável como Georj. Ele era... alguém que gostaria de verdade. Syrena mordeu os lábios.

— Pela vossa expressão, isso não a agradou... – Lorde Jorg comentou, abrindo uma porta no corredor.

— Ah, engana-se, milorde. Agrada-me muito. Apenas não imaginava... – e então ela adentrou o quarto que usaria. A Fortaleza de Pedra era o lar dos marinheiros e de Lorde Jorg. Sua esposa e o filho viviam no centro de Skagos, em um castelo próximo ao castelo de Lorde Stane. Eram vassalos fieis e muito importantes, assim como os Crowl-Stane, que cuidavam do porto do extremo Norte. Syrena imaginou o quão importante eram os portos, afinal Skagos se tratava de uma ilha.

Lord Jorg não fechou a porta de imediato.

— É um prazer enorme recebê-la, Lady Greyjoy. – ele fez uma mesura, muito educada. Mal parecia que nascera em uma fazenda. Isso se Skagos tivesse fazendas. – Que as estrelas iluminem vossa estadia na Fortaleza de Pedra.

E com isso, se foi.

O quarto era grande, muito maior do que ela imaginou ser possível numa montanha. Era todo escuro, sem janelas, mas com candelabros em todos os espaços, com velas acesas e grandes, ardendo calorosamente, afastando o frio. Ela retirou a capa e a pousou sobre um baú, que estava vazio. Sobre a escrivaninha, pena e tinta, mas sem papel. Lembrou-se do que Georj havia dito sobre os relatórios do pai. “Estão em todas as partes”. Talvez Lord Jorg já tivesse usado todo o papel da Fortaleza. Ela riu com aquele pensamento e sentou-se sobre a cama. Um colchão duro e um travesseiro quente, com penas de ganso. O cobertor era uma pele de lobo, com pelos duros e grossos, negros como a noite. Syrena adorou todo o lugar. Deitando-se, encarou o teto, tão alto e tão escuro. Podia imaginar qualquer história que quisesse em um lugar como aquele. Mas não teve tempo, pois a porta voltou a se abrir e ela se sentou rapidamente, arrumando o vestido.

— Eu a acordei? – Georj fechou um pouco a porta, como se fosse sair.

— Não, não. Entre – ela convidou, educadamente, e ele entrou, fechando a porta as suas costas. Georj parecia mais alto na escuridão e as sombras em seu rosto dançavam com as chamas das velas.

— Queria vê-la, conseguiu se acomodar? Trouxe seu baú – ele então abaixou-se e jogou a caixa no chão. O estrondo a fez se arrepiar. Como não notara o grande baú sobre seu ombro o tempo todo? Georj era impressionantemente forte! – Se necessitar de um banho, minha mãe já preparou a caldeira e disse que emprestaria seus óleos perfumados – ele sorriu, como se aquilo fosse uma piada. E deveria ser, mas uma que apenas o filho de Myla Crowl entendia.

— Você será meu esposo – ela disse, encarando-o.

— Oh, você descobriu – ele se sentou sobre o baú. – Sim, serei.

— Por que não me contou?

Georj ficou em silêncio por algum tempo, pensativo.

— Temi que escondesse sua verdadeira personalidade de mim, caso soubesse quem era. Então fingi não ser o filho do capitão, nem de Lady Crowl, para que você agisse naturalmente.

— Eu jamais mentiria para você – ela retrucou, ofendida. – Jamais mentiria para qualquer um.

— Agora eu sei disso – ele sorriu – Mas você se chamava Greyjoy e isso me assustou.

Era estranho para Syrena ver um homem admitir medo com tanta naturalidade. E ainda mais estranho não o achar fraco por isso. De repente ela soltou uma risada e balançou os pés, feliz.

— Que bom que meu esposo não é vinte anos mais velho. – ela suspirou.

Georj riu também e se levantou, arrastando o baú até perto da cama de Syrena e sentando-se ao seu lado. Ele tocou novamente em sua mão, mas agora ela compreendia o gesto e o aceitou serenamente.

— Amanhã veremos Nayra Stane. Eu contei que ela era uma pessoa incrível, e você verá que eu também não mentiria para você. – ele fez uma expressão de culpa – Mas não prometo não mentir para outras pessoas.

— Está perdoado. – Syrena sorriu, acariciando os dedos finos de Georj com os seus. Ele retribuiu o gesto com o dedão, deslizando em círculos por seu pulso. No silêncio e no escuro confortável, aquilo parecia natural. Ela temera que seu esposo não soubesse tratá-la como uma dama, mas ela estava sendo tratada como uma amada, e era ainda melhor.

— Não a conheço ainda, Syrena Greyjoy, mas em tudo o que vi, sei que a amarei profundamente.

Georj beijou-a com a ponta dos lábios, num bico duro que ele esboçou sem jeito. Quando se afastou, Syrena sorria. Ela nunca beijara ninguém antes e parecia estranho unir sua boca com a de outra pessoa. Mas Georj ruborizava tanto e se recusava a olhar-lhe nos olhos, que parecia encantador.

— Descanse. Você precisa, foi uma longa viagem. – ele se levantou, então, ainda sem olhar para ela. – Que as estrelas iluminem vossa estadia na Fortaleza de Pedra.

— Boa noite. – ela respondeu, deitando a cabeça sobre o travesseiro. Quando Georj saiu e fechou a porta, algumas velas se apagaram com o vento que entrou, e Syrena ficou ainda mais no escuro. Fechou os olhos e cobriu a cabeça com o cobertor quente. – Boa noite, mãe...

Notas finais
Espero que tenham gostado desta Greyjoy. Um beijo e até o próximo!