Still Alive
6 Surpresa.
Notas iniciais
18 de Junho de 2013
Ele acordou de sobressalto. De novo aquele mesmo sonho incômodo que o fazia respirar pesado. Nem havia aberto os olhos, com medo de que fosse realidade, mas uma sensação de estar sendo observado o forçou a olhar, dando de cara com um par de olhinhos azuis.
— Você está acordado?
Os olhos vieram acompanhados de uma voz infantil e cabelos ruivos, que ele tocou com carinho.
— Sim, meu amor, estou.
— Mamãe disse que as panquecas estão prontas.
Um sorriso passou em seu rosto enquanto pedia que a menina, ainda em sua camisola cor de rosa subisse na cama.
— Não ache que eu esqueci que dia é hoje, Lis. Feliz aniversário!
Ele fez cócegas nela, apenas para ouvir aquela risada que arrancava o peso de seu coração. Colocou a testa e o nariz encostados nos da filha, em um costume que sua esposa havia trazido para casa após uma viagem à Finlândia.
— Je t’aime, ma fille. Toujours.
— Toujours.
Alguns anos casado com uma francesa ensinaram a ele o básico para entender o que a esposa falava quando tinha ataques de raiva ou quando estava em um diálogo concentrado com sua Lis ou os D’Noir.
— Mamãe já te deu seu presente?
— Não, você sabe que ela só me dá depois do café da manhã — então cruzou os braços e franziu o narizinho em uma cara de brava — e ela só toma café com você à mesa.
Sorrindo, ele levantou e pegou a menina no colo e desceu as escadas, em direção à cozinha, onde estava uma jovem mulher ruiva de uns trinta e poucos anos, os olhos azuis como os da garota; panquecas com melaço e um bolo com uma velinha com o número sete acesa.
— Bom dia, Severo — disse a mulher, com um sotaque francês quase imperceptível.
— Bom dia, Clari — ele colocou a filha em uma cadeira e deu um beijo na bochecha da esposa.
Como se já fizesse parte de uma rotina, o casal cantou um breve “parabéns pra você” e a menina apagou a vela, que soltou pequenos fogos de artifício que não esquentavam, encantando-a. Clarissa pegou uma câmera e a virou, de modo que a lente apontasse para ela e a família, então beijou a filha na bochecha e o marido a imitou. Flash. Pronto, quando a foto fosse revelada da maneira correta, entraria para a coleção de fotografias deles na sala, movendo-se junto com as outras.
— Fiz bolo de chocolate com avelã e cobertura de frutas vermelhas, como vocês gostam — seu tom de voz deixava claro que não compartilhava o mesmo gosto que eles, mas comeu um pedaço, mesmo assim.
Depois do café da manhã, a Sra. Snape fez, com um gesto bem escolhido de varinha, uma caixa decorada levitar e cair, delicadamente, no colo da pequena menina. Acostumada com coisas delicadas como presentes, a menina não fez o ritual que todas as crianças faziam, balançando para ver se adivinhava qual era o presente, e abriu logo a caixa, revelando algo minúsculo, preto e bastante peludo.
A garota retirou a bolinha de pelo da caixa e viu os dois olhinhos verdes a encararem. Era um gatinho, que tentou de toda forma tocá-la com suas patas que mal tinham o tamanho de uma moeda de prata. Ela o embalou em seus braços e anunciou, sorrindo:
— Ele é lindo, obrigada! Seu nome será... Kandle.
— Mas filha — o pai disse, quase em riso — por que Kandle?
— Porque sim, ora.
O casal se entreolhou e riu. A família subiu as escadas e a elfa doméstica foi incumbida de arrumar a pequena, enquanto os dois se banhavam e se vestiam, ela com as tradicionais, mas elegantes, vestes verde esmeralda e ele com vestes pretas, com aparência um pouco mais grosseira.
— Sev — ela começou, sentando no colo dele e se armando de um sorriso sedutor, que denunciou suas segundas intenções — os Malfoy querem fazer uma festa surpresa para Lis, pode ajudá-los a organizar tudo?
Ele mergulhou o rosto no cabelo dela, sentindo o cheiro de jasmim e baunilha que vinha deles e deu breves beijos em seu pescoço, deixando-a arrepiada, antes de responder.
— Claro que sim, meu amor. Lis irá para o laboratório com você?
Ela concordou com a cabeça, aproximando o rosto do leve, roçando os lábios de leve nos dele antes de lhe dar um beijo profundo e demorado, no qual ambos sorriam. Quando chegaram na sala do andar de baixo, encontraram a menina já vestida em uma blusa branca de manga rendada, calça jeans trouxa e os cabelos divididos em duas tranças longas, uma de cada lado. Ela tocava, ainda leigamente, uma melodia no piano de marfim no fundo da sala.
— Princesinha, vou à casa do seu padrinho, ajeitar coisas do trabalho — Não era bem uma mentira, ele sempre acabava se envolvendo com assuntos do ministério quando visitava Draco Malfoy.
A revolta dela era visível em seu rosto infantil.
— Ah... Mas pai! Você é professor, não é? É verão, você está de férias!
— Mas eu trabalho no Ministério também — tocou de leve o nariz dela — e mais tarde você irá para lá com sua mãe.
Resignada, ela lhe deu um sorriso triste e ganhou um beijo na bochecha. Severo fez o mesmo gesto finlandês de antes com a esposa e repetiu as mesmas palavras que havia dito à filha, então se afastou, rodopiou esvoaçando a capa e desaparatou com um estampido.
A menina, que dedilhava a música melancólica de antes, parou de repente e olhou para a mãe.
— Mère, conta a história da lua de novo.
A mulher deu um sorriso de lado e um furtivo olhar para o relógio cuco na sala, murmurando um “acho que dá tempo”. Então tomou um lugar no banco ao lado da menina e começou a tocar, baixinho, a mesma música que a filha tocava antes. E a menina agora a mirava com os olhos brilhando de admiração e ansiedade, ao ouvir a mãe começar a narrar, com uma voz quase etérea.
— Lá no norte da França, há muito tempo, vivia um bruxo, em uma casa no campo. Sozinho, sem família, ele passava suas noites deitado na relva olhando para o céu e, na falta de companhia, conversava com a Lua. Ele tagarelava com ela como se fosse uma amiga e ficava muito triste quando ela sumia no céu por uma semana inteira e esperava, ansioso, sua volta na semana seguinte. Até que um dia — e qual não foi sua surpresa quando isso aconteceu — ela o respondeu.
“A Lua havia se apaixonado pelas palavras do jovem e eles se envolviam em profundas conversas sobre o mundo e suas experiências. Agora, as semanas de lua nova eram ainda mais angustiantes, e as de lua cheia, ainda mais alegres. Desejosa de conhecê-lo pessoalmente, ela o convidou para ir viver com ela.
“Ora, é extremamente fácil, para um bruxo, encontrar uma forma de ir para a lua, e logo seus pés tocavam a fina areia que a compunha e seus olhos quase ardiam de olhar tão de perto as estrelas.
“Então ela apareceu, o Espírito da Lua; uma bela mulher de cabelos platinados, olhos que pareciam feitos de prata e cuja pele brilhava palidamente, como a lua. Eles se reconheceram, e se amaram por anos e anos, ele se tornava imortal morando com ela, então viveram juntos e felizes por 777 anos.
Mas a magia requer seu preço e só por meio dela ele se tornou imortal e saiu da Terra por meio da magia, então ela tornou a chamá-lo de volta para a Terra, até que um dia eles foram obrigados a se despedir e ele a voltar para casa. Eles uniram os narizes e as testas em um gesto que significa que você enxerga e compreende a alma do outro.
E desde então, a Lua olha para a Terra, com a esperança de que seu amor algum dia voltaria.”
Quando ela terminou, a menina parecia intrigada.
— Mãe, ele voltou para a Lua?
Ela abriu um sorriso condescendente antes de responder:
— Não, meu amor. Quando ele foi embora, ambos sabiam que não poderia voltar — então completou, diante do rosto assustado da filha — mas o que eles viveram foi suficiente para mantê-la feliz o resto de sua eterna vida.
Nesse exato momento, o antigo relógio cuco soou nove badaladas e ela se levantou graciosamente.
— Hora de trabalhar!
***
Lis sempre escutara os pais falarem alegria e admiração sobre a bela arte de fazer poções. E foi isso, além da saudade dos pais que passavam horas trabalhando, que a levou, ainda aos três anos, a implorar que a levassem com eles. Era, para ela, a melhor parte do dia: ver os pais misturando ingredientes, formando líquidos coloridos que poderiam matar, curar, dar sorte a quem o bebe... eram tantas possibilidades.
Por conta dessa curiosidade e fascínio por coisas que crianças não se interessariam, sempre disseram que ela era madura e inteligente demais para sua idade. E por isso, também, ela, aos seis anos, já conhecia vários dos ingredientes do laboratório e fórmulas de poções fáceis e básicas.
E mesmo com essa maturidade, quando fosse lembrar desse dia no futuro, não conseguiria entender completamente o que aconteceu. Em uma hora, ela estava tagarelando em francês com a mãe, se esticando nas pontas dos pés para pegar o último ingrediente (olhos de besouros secos), e na outra, a mãe estava gritando desesperada em sua língua natal, numa velocidade que nem a menina conseguiu entender.
Ela se lembrava de muito fogo, do rosto desesperado de sua mãe ao largar sua pesquisa de um ano e três meses para carregá-la no colo para fora do laboratório e falar, agora em inglês:
— Nami, leve-a para fora! E não volte para me buscar.
— Mas Sra...
— Agora!
Lembrava-se também do brilho resignado nos olhos dela, que Lis desconfiava ter a ver com o cheiro adocicado, mas agressivo que tomava conta do local. E, em um segundo, ela estava do lado de fora da grande casa isolada. A menina sabia que a mãe já havia acionado o Controle de Encantamentos e Feitiços. Só esperava que eles chegassem a tempo.
Trinta segundos (“ela vai sair”). Quarenta e cinco segundos (“ainda dá tempo”). Sessenta segundos (“ela ainda tem um minuto”). Noventa segundos (“o cheiro tá ficando forte...”). Cento e cinco segundos. Bruxos começaram a aparecer do nada e a correr para dentro da casa, um deles, à frente, gritando ordens que sua mente infantil não conseguiu registrar. Seu coraçãozinho extremamente acelerado, em ansiedade.
Após alguns segundos, com certeza mais de quinze , dois bruxos apareceram levitando Clarissa, colocando-a sobre a grama.
— Pulso fraco, dar oxigênio.
A menina não se permitiu esperanças, mas se aproximou da mãe, que tirou a máscara de oxigênio, colocando sua mão trêmula no rosto da filha e disse, num fio de voz que ninguém mais pôde ouvir:
— Filha... O gás é venenoso... Eles precisam sair daqui...
A essa altura, lágrimas escorriam no rosto triste da menina, que já sabia o inevitável, e ela encostou a testa e o nariz nos da mãe, deixando as lágrimas molharem o rosto da outra.
— Eu te amo, mère...
— Eu também te amo... Você e o seu pai. Sempre. Eu sempre...
Clarissa paralisou, e Lis assistiu a vida se esvair dos olhos dela. Ela não tinha voz para falar, mas uniu forças para tentar chamar atenção dos adultos, que a ignoravam, intensificando o seu choro desesperado. Desistindo, ela se ajoelhou ao lado do corpo ainda morno, mas pálido, da mãe, fechando seus olhos, que a encaravam. Daquele jeito, parecia que ela apenas dormia.
Fosse por sorte ou destino, o fato é que, no momento em que a menina havia desistido de tentar, Severo aparatou de frente para ela, de rosto sério; não desesperado, ou assustado, mas sério e preocupado, acidentes eram frequentes naquele ramo. Em uma troca de olhares com a filha, percebendo o que acontecera, uma lágrima rolou em seu rosto enquanto se aproximava. Se ajoelhando, tocou os cabelos ruivos e beijou a pele macia, antes com cheiro de jasmins, agora com um odor adocicado e enojante.
Seus olhos se arregalaram diante de um motivo que apenas a Lis e ele sabiam, e ele carregou a filha no colo, mas não antes que ela percebesse e apanhasse um pedaço de pergaminho em uma das mãos da mãe morta.
A feição dele era desesperada de um modo que Lis nunca vira antes, ou veria depois. Os gritos dele entravam em seus ouvidos carregados de pavor e insegurança, dizendo que todos deveriam abandonar o local, mas era ignorado, tratado apenas como mais um marido preocupado, ignorante da situação ao redor. E então a menina viu em seus olhos uma fúria decidida, enlouquecida, e agora seu tom de voz era autoritário e chamou a atenção de todos os agentes do ministério que, preocupados com o incêndio, não perceberam que a moça que haviam resgatado, jazia morta, na grama.
— Vocês são incompetentes, ou o quê? Minha esposa está morta! E todos vocês estarão como ela em questão de minutos se não abandonarem a casa neste momento, porque eu levarei minha filha para longe daqui, e não estou ligando se vocês sobreviverão ou não.
Eles não tiveram tempo para ver a reação dos outros pois, em segundos, estavam na sala fria e escura de uma mansão. Um tapete preto com um enorme M bordado em prata adornava o centro, e um jovem de rosto fino se levantou de uma das poltronas antigas, parecendo preocupado.
— Clarissa..?
Sua pergunta não precisava ser completa e o outro homem balançou a cabeça pesarosamente, descendo a menina para o chão. O jovem passou a mão nos cabelos loiros recém cortados, e suspirou. Ambos começaram uma conversa sussurrante da qual Lis captou partes. “O enterro será amanhã.” “Tenho que destruir o laboratório, tanto trabalho, anos de pesquisas dela, perdidos em minutos” (o jovem respondeu algo que ela não identificou) “Por favor, dê um jeito para que isso não saia no Profeta Diário, eu e Lis já estaremos mal o suficiente sem ter Rita Skeeter formando teorias de conspiração para a morte da Clarissa. Ela nem pôde sair da casa, o protocolo é acabar com o veneno...”.
Decidindo que ouvira demais, a menina tomou o caminho para o quarto dela. A ausência de um choramingo estridente indicava que a elfa não havia abandonado o corpo e ela precisava mesmo ficar sozinha. Não conseguia identificar o que sentia com a morte da mãe ou com o futuro que viria após isso. Era como se faltasse um pedaço de seu coração, mas ao colocar a mão sobre ele, constatou que batia como sempre. Era difícil respirar, mas existia a mesma quantidade de oxigênio no mundo. Ela definitivamente precisava pensar.
Ao sair da sala, deparou-se com outra, cheia de bexigas de festa, comida e uma faixa escrita “Feliz aniversário, Lis”. Duas pessoas estavam nela: um garoto loiro, da sua idade, que a olhava com curiosidade e uma bela mulher, de cabelos negros ondulados e olhos amendoados, que a encaravam com pena. A mulher fez menção de levantar, mas os olhos da menina voavam do bolo para os docinhos e para a faixa.
Um desespero tomou seu peito e lágrimas cristalinas rolaram antes que ela se virasse e subisse correndo as escadas de mármore.
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