Still Alive
7 Aquela casa é um inferno
O corredor do segundo andar tinha um alçapão escondido que dava para o grande sótão da casa vitoriana. Os inúmeros porta-retratos chamaram atenção do garoto. Apenas na casa dos avós havia visto tantos cabelos ruivos em um só lugar, mas os que ele buscava não estavam ali.
Escórpio havia falado de uma escada ao lado da janela, então suas mãos buscaram cegamente até encontra-la escondida entre ramas de flores. A escada dava para o telhado, onde Lis estava sentada, fungando e olhando para longe. Fazendo certo esforço, ele escalou as telhas para junto dela.
Quando se aproximou, Alvo descobriu que não sabia o que dizer, e sentou-se ao lado dela, observando a paisagem. O fundo da casa era decorado por um grande jardim colorido e perfumado, no qual era possível ver várias borboletas e pássaros passeando pelas flores e serpenteando por meio às arvores, que formavam um pomar detrás de uma horta, aparentemente cultivada pela elfa. O murmurar de um riacho era audível, ao longe.
— Ela que escolheu o terreno e plantou tudo. Ajudava a não ter saudade de casa. Nami cuidou de tudo depois que... Você sabe.
— O Escórpio nos contou sobre sua mãe, hoje e tudo o mais. Desculpa, eu realmente não sabia.
A garota se aproximou e encostou-se a ele, que a abraçou, beijando o topo de sua cabeça.
— Tudo bem. Eu... Eu só não estava preparada para tudo isso.
— Hum.. E seu pai? Reparei que ele não está em casa. Como ele fica com tudo isso?
— Ele superou há anos. E deve estar trabalhando. Antes, até insistia que eu fizesse algo para meu aniversário, mas acabou desistindo diante das minhas rejeições, ano após ano. A gente faz nosso próprio tipo de comemoração no cemitério, em frente ao túmulo dela, pela manhã. É mais como um ritual, ou algo assim...
Alvo estava muito curioso para saber que tipo de comemoração poderia ser feita em um cemitério, mas achou melhor mudar de assunto.
— Você vai descer pra festa? Mamãe fez um bolo especialmente pra você.
A menina não respondeu, mas levantou e, com a agilidade de um felino, desceu do telhado para a escada, deslizando janela adentro. Ele desceu logo atrás, muito mais desengonçado e lento do que ela. Ambos pararam um pouco no sótão, olhando as fotografias organizadas e limpas com esmero.
— Por que estão todas escondidas? —Alvo perguntou, enquanto pegava uma que aparentava mostrar os primeiros passos da Lis.
— Costumavam ficar lá embaixo — sua voz era quase um murmúrio enquanto ela passava os dedos em uma moldura — Acho que doía demais descer as escadas, ver tudo intacto, exatamente como era antes, e então lembrar que ela não estaria na cozinha pro café da manhã ou tocando algo no piano.
Um grande silêncio se seguiu. O garoto se pôs ao lado dela, sem saber se a tocava ou não, e abrindo a boca algumas vezes, tentando dizer algo que, simplesmente, não saía. Então era respirou profundamente, passou a mão nos cabelos, meio arrumando, meio bagunçando, e se armou de um sorriso tão alegre e decidido que o deixou sem ar por um tempo.
— O que estamos esperando? É meu aniversário!
Já passava das dez da noite quando eles finalmente foram embora, e Lis sentou-se no sofá, exausta. A festa tinha sido muito boa, a melhor de todas que já tivera desde sempre. Muita comida, muita música (que eles dançaram loucamente por horas), jogos diversos (snap explosivo, bexigas, e outros) e, em algum momento da tarde, James inventou de descer as escadas montado em uma badeja, sendo seguido pelos outros (Hugo saiu voando da sua e acabou descendo a cambalhotas).
Embora estivesse tão cansada, sentia uma alegria revigorante por dentro e olhava a sala ainda bagunçada, agradecendo mentalmente aos amigos, quando Severo Snape adentrou a sala, sorrindo satisfeito ao ver a decoração.
— Finalmente, hein. Por que fique de fora da diversão? — Ele abocanhou uma rosquinha açucarada, já com petiscos de abóbora na outra mão.
— Foi surpresa dos meninos, não tenho culpa. E ninguém manda o senhor passar o dia trabalhando.
— É, mea culpa. Mas espero que isso signifique que teremos mais festas daqui pra frente.
Severo sentou o sofá ao lado da filha, oferecendo um petisco, que ela recusou. E ficaram em silêncio por um tempo, ambos mergulhados em seus próprios pensamentos. Ele lembrava-se da falecida esposa, exalando perfume e alegria naquela sala; ela pensava em tudo o que acontecia desde os seus sete anos.
Lis sabia que o pai havia seguido em frente bem antes dela, mesmo assim, notava os efeitos da morte de Clarissa nele. Todas as suas lembranças que tinha dele até os sete anos era de um homem de feições suaves e alegres, alguém que sorria fácil e era muito carinhoso; e desde então, tudo o que via era um rosto fechado e duro, com sorrisos rápidos e escassos, e as demonstrações de carinho eram tão raras quanto um céu limpo durante o inverno. Perguntava-se se haveria alguém que pudesse fazê-lo feliz.
— Pai... O senhor se casaria de novo, algum dia?
Não havia esperança, nem entusiasmo em seus olhos; apenas uma curiosidade guardada há tempos. Severo a puxou para perto, abraçando-a, e aspirou o cheiro de rosas de seu cabelo antes de responder:
— Eu tive apenas dois grandes amores em toda minha vida, e os dois — ele fez uma pausa para um suspiro — os dois morreram de forma trágica, me destruindo completamente. Um dia estavam lá e no outro, não estavam mais, entende? Eu acredito que não sobreviveria a um terceiro.
***
Um vulto vestido de preto abriu a porta, iluminando fracamente o quarto escuro. A capa esvoaçou com os seus passos enquanto abria as pesadas cortinas, e logo o quarto estava claro com a luz da manhã. O som agitado dos pássaros indicava que acabara de amanhecer.
Na cama, lençóis de algodão egípcios bordados a verde e prata cobriam uma forma esguia e feminina. A única cor forte na cama vinha dos cabelos avermelhados iluminados pelo sol, que pertenciam à menina que, naquele momento, virava na cama se cobrindo e gemendo, reclamando da luz.
— Lis, acorde! Eu viajo hoje e se você quiser vir comigo ao Beco, levante agora. E arrume seu malão, rápido, não tenho todo o tempo do mundo.
A menina se sentou, sem realmente querer, a tempo de perceber que o pai saíra do quarto, e agora voltava, segurando o que parecia ser um monte de panos pretos.
— Bom dia para você também, papai — ele respondeu e a beijou rapidamente na testa, mas em segundos já era possível ouvi-lo descendo as escadas.
Lis olhou ao redor e viu que quase nada do que trouxera no malão permanecera dentro dele, e usou a varinha para guardar tudo de novo. Os sensores captavam a magia, mas não quem a fez, portanto podia sempre contar com essas ajudinhas mesmo sendo menor de idade, contanto que tivesse um bruxo adulto por perto.
Feito isso, apenas alguns minutos foram necessários para que ela se banhasse e colocasse as vestes negras que o pai havia deixado na cama. Sabia que eram da sua mãe, pois o tecido macio e pesado era característico de suas roupas, sabia também que ela só as usava quando ia para onde ela própria iria naquele dia: A Travessa do Tranco.
Mesmo depois de anos, nunca entendera porque chamavam de Travessa do Tranco, mas conhecia cada rua sombria, cada loja suspeita e cada vendedor nojento e aproveitador daquele lugar. E conhecendo tudo aquilo, chegara muito cedo à conclusão de que não era um lugar que pessoas com boas intenções frequentavam.
Lembrava a primeira vez que fora lá. Tinha oito anos, era inverno, e seu pai precisou de algo para algum de seus clientes (àquela altura, ele tinha dado uma pausa na carreira de professor). Ele a vestiu com roupas escuras, mas não negras como as dele e a orientou como agir: “Cabeça erguida, mantenha o olhar desinteressado para tudo, não importa o que veja, e use sempre esse sorriso sarcástico que você faz muito bem. E o mais importante: mesmo que não faça ideia de onde está ou para onde ir, nunca aparente estar perdida.”. Desde então, ela sempre segue todas as instruções à risca.
Já na cozinha, engoliu quase sem mastigar sua comida, mas diminuiu o ritmo para aproveitar o chá de flor de hibisco tirada do jardim. O malão esperava no pé da escada e seu gato encontrava-se em um local desconhecido. Severo desceu novamente as escadas e, sem precisar pedir, ela já estava posicionada ao seu lado, uma mão em seu braço, a outra no malão e voop.
Quando abriram os olhos, estavam no Caldeirão Furado, um pub bruxo que era a entrada para o Beco Diagonal. Ambos deixaram os malões aos cuidados de Tom, o barman e dono do local e, tocando o muro dos fundos com a varinha nos tijolos certos, entraram no Beco, que já não era novidade para ela. As lojas estavam mais vazias que na época pré-escolar, apenas algumas pessoas vagavam, conversando, ou passavam por eles, apressados. Apenas a Gemialidades Weasley, loja administrada pelos tios de seus amigos, tinha alguma movimentação, provavelmente por conta de algum produto novo.
Seguindo uma das vielas perto do Banco Gringotes, logo eles se encontravam na Travessa do Tranco, armados de uma postura tão imponente que ninguém os olhava por mais tempo ou interesse do que olhariam para um possível cliente. Em um certo momento, os dois se separaram. As coisas funcionavam assim: ela não se metia nos negócios dele, nem ele nos dela (pelo menos enquanto não se tornava público, quebrando alguma, ou várias, regras da escola).
Logo, Lis estava de frente para a placa Borgin e Burkes, e não hesitou antes de abrir a porta, ouvindo uma sineta anunciar sua entrada. Do fundo da loja, saíram dois homens, um bem velho, de cabelos muito brancos e apoiado firmemente em uma bengala ornada, o outro Lis lembrava ter se formado em Hogwarts há dois anos, um jovem muito bonito da Sonserina, mas podre até os ossos.
— Senhorita Snape — a voz do velho era grossa e firme, em despeito do seu corpo meio trêmulo — Em que posso ajudá-la?
O sorriso dela era matador. Tinha anos de prática de prática com aquele tipo de gente, vantagens dos negócios do seu pai e dos contatos do seu avô. Sua postura permaneceu superior, e ela passou a unha perfeitamente pintada em uma prateleira, olhando para ela como se fosse uma vitrine de loja de 99 centavos, quando sabia que cada coisa ali valia uma fortuna.
— Eu estou apenas dando uma olhada. Entediada, sabe? Meu pai me arrastou pra cá. Mas se eu achar algo que me interesse, eu te aviso.
Nada do que disse era verdade. Sabia exatamente o que queria e tinha certa noção de que encontraria na loja, mas conhecia bem o Sr. Borgin, e se ela mostrasse querer muito algo, o preço iria às alturas. Então ela circulou com ar desinteressado, mas procurando atentamente o que queria.
E foi em um dos armários de porta de vidro que ela achou. Era um caldeirão de prata, uma pedra branca no fundo dele e runas na borda exterior. Perguntando o preço ao garoto, soube, como já desconfiava, que o preço era exorbitante, pelo menos três vezes do que realmente valia.
— Sr. Borgin — sua voz era calma, mas indignada — cem galeões por isso? Está muito além do preço, não acha?
— Mas Srta... Acredito que não sabe a verdadeira função dele, não é apenas um caldeirão, é uma...
— Eu sei —ela o interrompeu — exatamente o que é isso, e para que serve. Já o encontrei em outra loja por vinte e cinco galeões — o preço era mentira, mas ele não precisava saber disso.
O velho se empertigou numa postura orgulhosa.
— Se encontrou por esse preço, por que não comprou por lá?
Ele tinha mordido a isca, Lis abriu um sorriso sedutor e encolheu os ombros.
— Eu quis manter fidelidade ao Sr., mas já que é assim — ela deu as costas a ele suavemente e já ia para a saída da loja, quando ele falou:
— Vendo por cinquenta.
— Trinta.
— Quarenta.
— Trinta e cinco.
— Fechado — ele parecia meio desesperado e ela quase teve pena de manipulá-lo. Quase.
A menina tirou um saco de pano das vestes, que tintilou com o som das moedas de ouro que, logo em seguida, estavam no balcão de mármore. Ela contou mentalmente e, devolvendo algumas para o saco, se virou, estendendo a mão para o velho.
— É sempre um prazer fazer negócios com você, Borgin.
O garoto (“Ah, o nome dele é Sebastian!”), entregou a ela o caldeirão que, embalado, ninguém repararia que era mais do que comum. Saindo da loja, caminhou pelas vielas escuras, úmidas e fedorentas da Travessa, passando por lojas quase caindo, de tão precárias, e vendedores ambulantes, uma dos quais ( uma bruxa de nariz pontudo e longas unhas sujas) a convenceu de comprar um colar com uma lua, que ela jurava ser um amuleto contra lobisomens (não era nada disso, claro, mas era bastante bonito).
Finalmente ela chegou nas ruas limpas e claras do Beco Diagonal e decidiu parar no boticário, para comprar os ingredientes necessários para as poções do mapa e resolveu dar uma passada na Gemialidades Weasley, ao perceber que o pai não apareceria tão cedo.
— Ruiva! — Saudou-a Teddy, que trabalhava por lá, às vezes.
— Olha quem fala — ela comentou, se referindo ao cabelo dele, que estava vermelho como os dos Weasley.
O jovem revirou os olhos. Ele era um metamorfomago, como a mãe, portanto era capaz de mudar a sua aparência à vontade, e usava os cabelos ruivos quando estava com os Weasley, pois se sentia parte da família.
— Tudo pronto para o casamento?
— Sim — eles sentaram-se em pufes da loja.
— Não está pirando?
— Não estou pirando pouco, né? A Victoire me deixa louco com todas essas coisas de preparativos. Fugi pra cá, relaxar um pouco — ambos riram — quer café, chá, algo?
— Uma cerveja amanteigada, sem algo que transforme meu cabelo em cobra ou qualquer parte do meu corpo em algo não natural, de preferência.
Enquanto ele pegava as bebidas, ela observava a loja, que lembrava a Dedos de Mel em muitos aspectos, mas no lugar dos doces, invenções criativas decoravam as vitrines. Kits mata aula, orelhas extensíveis, varinhas falsas de penas de cola estavam espalhadas com outros produtos; na parede, um cartaz informava que eles faziam encomendas por cartas (pois nenhum pai ou mãe em perfeito juízo deixaria os filhos levarem as coisas que eles realmente queriam para Hogwarts).
— Gostou das coisas novas? Desde que trocaram o zelador da escola, as vendas triplicaram.
— Sim, ele é bem mais bonzinho que o Filch, aboliu a lista inteira de itens proibidos, mas é bem duro com quem não limpa a bagunça que faz.
— Vai para a casa dos Potter hoje?
— Vou sim, por quê?
— Tenho algo pra entregar ao James.
***
A casa era colorida, e era possível ouvir as risadas que vinhas de dentro dela pelo lado de fora. Lis já havia se despedido do pai, e agora tocava a campainha da casa dos Potter. A porta foi aberta e uma senhora de cabelos acaju sorriu para ela.
— Lis, chegou cedo!
— Olá, Senhora Potter, como está?
— Muito bem. Entre, deve estar morrendo de calor com essa roupona preta. Gostou do bolo que eu fiz?
Gina Potter não era uma mulher de ficar tagarelando, mas quando se cresce com sete irmãos, é meio difícil ter garotas com quem conversar, e compensava isso com as amigas dos filhos. As duas foram para a sala de estar, onde quase toda a família Weasley e agregados estavam reunidos, e pararam de conversar quando a menina entrou.
A ruiva á estava acostumada aos olhares de desprezo vindos de alguns dos Weasley, que haviam nutrido certo ódio pelo pai dela, e acreditavam que ela seguiria o mesmo caminho. Aparentemente, ela estar usando roupas pretas iguais as dele, não ajudou muito com a impressão passada. Todos a encaravam, e ela se recusava a abaixar os olhos diante daquele clima estranho.
Em uma poltrona, acompanhado de uma bela mulher negra, George encarou a garota, um pouco curioso.
— Ei, Snape. É verdade o que o Carlinhos disse? Você criou e escondeu um dragão em Hogwarts por oito meses? — ela concordou tímida, e ele sorriu abertamente — Uaaaau! Genial. Em todos os meus anos, nunca havia pensado nisso.
Isso não pareceu agradar tanto os pais da Rose, Rony e Hermione, que a olhavam estranho, mas os outros pareciam ter esquecido que ela estava lá. Nesse momento, um James atrapalhado desceu voando as escadas e quase esbarrou com ela.
— Lizy! Venha, o quarto é lá em cima. Vamos dividir o mesmo com Alvo, Rose, Lily, Escórpio e Hugo, ok? A casa vai ficar meio cheia.
— E vai dar?
Quando ela disse isso, eles chegaram ao quarto, que era enorme.
— Ah, vai dar sim.
James colocou o malão dela em uma das camas, e ela se lembrou.
— Ah, tem algo para você aí.
Mal ela abriu o malão, Kandle saiu, miando e eriçado, dele. O gato correu quarto afora com um sutiã na cabeça e uma meia no rabo, assustando os garotos, que se puseram a rir da cena.
— É, achei meu gato.
— Acho que ele prefere ser chamado de gata, viu?
Ele gargalhou gostosamente e pegou o embrulho da mão dela.
— Jay, o que é isso?
— É pro casamento, nada demais. Enfim, vamos? O pessoal tá jogando quadribol, e eu quero revanche pela final em Hogwarts.
— Tá bom, até parece que você vai ganhar de mim. Espere eu trocar de roupa.
O quarto tinha um banheiro, e rapidamente ela estava com suas usuais calça jeans e camiseta.
— Como foram essas duas semanas?
— Torturantes. Aquela casa é um inferno. Fiquei presa sem poder trabalhar em nosso projeto.
— Conseguiu o que precisava?
— Sim, peguei hoje. À noite eu te mostro. Vamos jogar.
— O que chegar por último é um trasgo lesado — dizendo isso, James saiu correndo vale acima, no quintal da casa.
— James, espera!
Os dois subiram, puxando as roupas e membros um do outro, empurrando ladeira abaixo, e tropeçando, até chegarem onde os amigos estavam jogando.
— Ganhei!
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