Notas iniciais
Olá, pessoal! Não tenho muito o que dizer neste começo, só que vocês gostem caso se deparem com essa história. Fiz num momento de nostalgia quando voltei a assistir o anime e só queria compartilhar a minha sofrência com vocês. Boa leitura!

Yūri Katsuki ofegava; seu rosto brilhava de suor e suas bochechas avermelhadas denunciavam o esforço exigido dos largos, sequenciais e graciosos movimentos que seu corpo realizou. Cada fibra de músculo queimava sob a sua pele. E, por um breve momento, Yūri não conseguiu distinguir qualquer som além das próprias batidas de seu coração retumbarem em seus ouvidos.

Mas uma explosiva salva de palmas tornou o silêncio de sua mente imersa naquele completo isolamento em uma sensação efêmera, trazendo-o de volta à realidade. Yūri sorriu, recobrando o fôlego, mas satisfeito e cada vez mais orgulhoso de si mesmo. Desfez a pose ao finalizar sua apresentação para saldar o público que o ovacionava.

Era mais um início de temporada do Grand Prix, desta vez, na Copa da Rússia, e possivelmente a sua segunda subia ao pódio consecutiva, tudo graças a uma pessoa que não desistira daquele talento japonês ou deixaria que Yūri desistisse de ser reconhecido e mostrar seu amor ao esporte.

No ano anterior, Viktor Nikiforov iniciara a inusitada carreira de treinador após ver em Yūri uma inspiração e, em segredo, a sua própria salvação no esporte. E com as energias renovadas, Viktor tornara-se seu treinador e novamente um competidor a ser superado em todos os aspectos da patinação artística sobre o gelo. Afinal, ainda que tenha tido seus recordes batidos por Katsuki e Plisetsky, Nikiforov ainda era uma referência a qualquer patinador.

Anestesiado pela satisfação de seu próprio feito no ginásio em São Petersburgo naquela noite, Yūri não escondeu a surpresa em não ver Viktor próximo da portinhola de saída da pista. Isso trouxe uma ruga em sua testa franzida.

Hã... Onde está Viktor?

Ao invés dele, Yūri encontrou-se com Yakov Feltsman e seu típico semblante fechado, embora trouxesse consigo uma expressão de desconforto que o mais novo não soube descrever do que seria.

— Quem diria que eu não precisaria puxar a sua orelha ou a de Vitya — dizia enquanto era acompanhado pelo japonês até a cabine onde, por meio de monitores, visualizariam a nota da apresentação. E completou: — Foi uma apresentação estupenda, meu rapaz.

Yūri teve de ignorar o elogio, sua inquietude dava as caras com a falta de informação.

— Onde ele está, Sr. Yakov? Ele deveria ser o próximo a se apresentar.

Yakov não respondeu de imediato. Aguardou que Yūri se sentasse e esperasse por sua nota. Ofereceu-lhe uma garrafa d’água que sequer recebeu atenção do japonês, que sentava na cadeira estofada esperando Yakov fazer o mesmo ao seu lado.

— E então, aconteceu alguma coisa? — insistiu.

Enquanto passava os momentos reprisados de sua apresentação no monitor à frente, Yūri aguardou por uma explicação do famoso treinador da equipe russa.

— Por razões médicas, Vitya não vai se apresentar esta noite. Ele teve uma nova crise de tosse, mas os paramédicos agiram rápido. Enquanto você se apresentava, ele foi levado ao hospital. Depois da cerimônia dos medalhistas, iremos para lá — Yakov sussurrava e mal mexia os lábios ao falar, temia que sua conversa fosse captada pelo áudio da câmera que filmava as reações dos atletas que tinham suas notas reveladas naquela cabine.

Yūri quase se esqueceu de respirar, paralisado ao ouvir Yakov. Viktor estava com essa maldita tosse há semanas, eram crises que assolavam o treino ou mesmo uma conversa. E Viktor era evasivo quando Yūri indagava inúmeras vezes se ele havia ido ao médico para checar sua saúde, porém, inicialmente, as tosses foram tratadas como decorrência de uma forte gripe.

Yūri voltou com a sua suposta atenção ao monitor quando era noticiada a sua nota do programa livre, sendo a maior pontuação do evento cravada nos 329,76 pontos. Era o vencedor daquela competição, sua primeira subida ao pódio em 1º lugar. Mas sem Viktor, não era a mesma coisa. Yūri queria mostrar que era tão bom patinador quanto, com o Vitya ao seu lado. Era um novo prazer que Yūri apreciava nas competições, uma rivalidade amigável e não verbalizada entre eles, tornou-se divertido e revigorante as encaradas ao rinque antes das apresentações. Quase um santo remédio para sua ansiedade que o aflige tanto.

Yakov deu leves tapas de satisfação nas costas do japonês, fazendo-o despertar de seus próprios pensamentos. Yūri sorriu em reflexo, conforme havia ensaiado tantas vezes, e agradeceu ao curvar-se diante da câmera.

Logo, a ausência de Viktor também foi anunciada e justificada como problemas médicos, desejando melhoras ao patinador desclassificado. O público reagiu em coro uníssono de lamento. Yūri tornou-se abatido. Não acreditava que isso pudesse de fato acontecer e a cada minuto preso no ginásio, mais a angustia tão opressora o dominava. O quão grave era essa crise a ponto de impedir Viktor de competir? Yūri não queria mais ter de esperar para receber sua medalha para só, então, ir ao hospital e ter notícias. Tentou voltar ao vestiário para checar seu celular que ficou em sua bolsa guardada em um armário numerado, mas Yakov o segurou pelo braço fazendo-o parar.

— Vitya vai querer vê-lo recebendo a medalha, Yūri.

Yūri não lutou, ainda que não soubesse a razão; estava entorpecido de qualquer maneira, manteve-se ao lado de Yakov enquanto ambos foram conduzidos rapidamente para uma entrevista com a imprensa local. Yakov falou pelo japonês a maior parte da entrevista, até que a jornalista se dirigiu em inglês ao Yūri, que mal conseguiu ouvir.

— Perdão... o que disse?

A jornalista deu uma risada descontraída, notando que o atleta estava um tanto aéreo.

— Qual é a sensação de ser o melhor, hoje, e o que tem a dizer sobre a desclassificação de seu treinador e rival Viktor Nikiforov?

Yūri ergueu o olhar à jornalista diante da pergunta.

— Viktor e eu trabalhamos juntos para compor essa coreografia, estamos muito orgulhosos de nosso trabalho. Sou grato a ele. E lamento o ocorrido, certamente ele estaria comigo no pódio... Eu preferiria estar com ele, agora... — Yūri fez uma breve pausa, reconhecendo que esse era o seu desejo mais profundo; estar com ele, e tomou como encerrada aquela entrevista embaraçosa. — Com licença.

Yakov se esquivou, cumprimentando a jornalista e seguindo Yūri para próximo da pista onde prepararam o pódio para a cerimônia. O chão de gelo estava forrado com um longo e estendido tapete vermelho. Fotógrafos já estavam apostos. Yūri bufou com impaciência quando deram início aos anúncios. Todos os vencedores de cada categoria foram chamados e presenteados com as medalhas e buquês de flores, além dos apertos de mãos e felicitações, seguidos por diversos pedidos de “pose para a foto”. Yūri não conseguia pensar direito, agradecer com gentileza ou simplesmente sorrir. Ele queria ter notícias de Viktor e ter certeza que sua doença não era grave como poderia ser. Tentando se manter positivo, Yūri chegou a temer que a decadência de sua animação fosse notada nas fotos que seriam divulgadas em sites, blogs e redes sociais do mundo inteiro e questionada pelo seu treinador hospitalizado, como uma clara tentativa de desviar o assunto. Mas como poderia estar feliz se tornava-se um poço de ansiedade a cada instante?

Quando finalmente saíram do ginásio, Yūri apressou Yakov, sem conseguir esconder sua preocupação. Suas mãos tremiam com mais evidência e, inconscientemente, Yūri começou a girar a aliança em seu dedo como uma maneira de se acalmar. O trajeto foi silencioso, salvo pelas tentativas frustradas de Yakov fazer o rádio de seu carro funcionar. Yūri tentou se distrair imaginando a possível causa da falha do aparelho, mas sua mente logo se transportava para a imagem de Viktor, além das lembranças de vê-lo tossindo e tentando esconder seu estado.

— Sabe o que Viktor tem? — indagou subitamente, pegando Yakov de surpresa.

— Não, não sei. — Tamborilou os dedos no volante com irritação ao parar no semáforo. Olhou de relance para Yūri. — Bem, você sabe que Vitya consegue ser tão teimoso como uma mula... Ele estava se aquecendo, começou a tossir e disse que não era nada. Mas ele se sufocou. Plisetsky se adiantou chamando os paramédicos que chegaram a tempo de socorrê-lo. — Yūri tinha o olhar triste quando Yakov voltou a conferi-lo.

Yūri sentia-se culpado por não ter insistido ainda mais que Viktor fosse se consultar, deixando com que o russo fizesse o que queria, o que só resultou na situação atual. As crises de tosses estavam cada vez piores e vinham acontecendo há mais ou menos 4 semanas. No entanto, nada se podia fazer além de esperar pela recuperação de seu amigo... Yūri achou estranho pensar em Viktor dessa forma por um momento. Considerava-o algo a mais. Ainda que não soubesse como nomeá-lo. Ou talvez, não quisesse admitir para si mesmo. Tratou de dispersar tais pensamentos, focando-se unicamente na saúde de Viktor.

No hospital, Yūri e Yakov foram orientados a seguir para o segundo andar pegando o elevador. Na saída, deram de cara a um corredor extenso e foram recepcionados por Minako Okukawa, levantando-se de um banco de ferro, de frente a uma porta. Yūri logo deduziu que se tratava do quarto ocupado por Viktor e agradeceu mentalmente por alguém ter vindo com ele.

Minako se aproximou analisando a preocupação estampada no rosto de Yūri.

— Pela sua cara, não leu minhas mensagens, não é, Yūri? — disse Minako, que cumprimentou Yakov com um breve aceno de cabeça, que retribuiu.

— Oh, não tive tempo. — Foi a tentativa de Yūri se desculpar. — Como ele está? Sabe o que ele tem?

Minako compadeceu pela inquietação do japonês.

— Está melhor, mas ainda não está claro o que ele tem. O médico disse que Viktor fará uma bateria de exames e que até lá, ficará em observação. Em todo caso, ele está melhor. — Minako fez uma pausa, deixou um sorriso tranquilizador surgir em seu rosto enquanto observava Yūri ser tomado pela confusão. — Ele quer vê-lo, e está doido para saber o resultado do Grand Prix.

Yūri estava tão ansioso que não tardou em passar pelos processos de descontaminação antes de entrar no quarto, usando máscara, luvas e protetores de sapatos. As medidas eram necessárias por não haver certeza que a causa da doença era bacteriana, viral ou de outro tipo. A imunidade de Viktor estava baixa, por isso, ele também não poderia correr riscos. Yūri entrou no quarto com cautela, logo fechando a porta atrás de si, mas não estava preparado para o que viria a seguir.

Notas finais
E aí, o que acharam? Antes que perguntem, não, o Viktor não vai morrer nessa história. E em nenhuma história que eu venha futuramente escrever desses dois. Na real, a tosse que "coloquei" em Viktor é a minha própria tosse, e de, certa forma, foi o que aconteceu comigo; lógico, tirando o fato de eu não ser patinadora e não ter uma Yūria para me visitar! T_T Digam-me se o capítulo foi maçante, se a narrativa foi cansativa ou que os sentimentos que tentei transpor no texto foram convincentes. Assim como espero que digam coisas boas dele, se houver, também, okay? Muito obrigada, até a próxima!