Stay with me
2 Doce Promessa
Notas iniciais
2 Semanas antes
Yūri passou pelo umbral ajeitando a própria gravata azul celeste e admirando a panorâmica do recinto. As luzes transformaram o ambiente, dando uma atmosfera de um castelo medieval, mas com a fineza e modernidade dos tempos contemporâneos, fazendo-se ouvir o murmúrio típico de um salão ocupado por pessoas descontraídas, com música e o tilintar das taças e talheres. Era uma festa não oficial organizada pelos próprios patinadores que antecedia as competições da Copa da Rússia e a boa maioria dos competidores estavam presentes, socializando à sua maneira.
Não precisou de muito esforço para encontrar, em meio ao aglomerado, Viktor sorvendo de uma taça de champanhe, sorrindo, entretido em uma conversa com Christophe Giacometti ao seu lado.
Arrumou o óculos sobre o rosto, passou a mão nos cabelos contidos em gel e testemunhou o sorriso aliviado de Viktor quando lhe avistou. O japonês tinha que admitir que Viktor e Chris eram dignos de admiração. Usavam ternos slim fit sob medida; Chris usava roupas mais claras e Viktor era sua contraparte. Embora tivesse pago caro pelo terno risca de giz cinza escuro, Yūri o achava mais antiquado em comparação aos outros, mas evitou pensar no assunto por muito mais tempo.
Aproximou-se dos dois, timidamente.
— (...) E você pode me avisar quando for, caso queira minha companhia — Christophe dizia antes de notar a presença do japonês. — Oh, eu devia imaginar que não era por minha causa que você estava sorrindo, Viktor. Olá, Yūri Katsuki — provocou ao circundar perigosamente o recém chegado, salientando seu sotaque de forma sedutora.
— Er... O-oi, Chris... Oi, Vitya — respondeu, muito mais acanhado com o que Chris disse sobre o que motivou o sorriso de Viktor do que com os gracejos maliciosos do próprio suíço. — Estão aqui há muito tempo?
Desta vez, Viktor se fez presente sem deixar de sorrir.
— Não se preocupe, chegou a tempo de ser o melhor dançarino da festa... e está muito elegante. Gostei da nova gravata, também. — Tomou a liberdade de apreciar a textura lisa e macia do tecido com os dedos, ao confirmar também que Yūri ainda corava com as suas aproximações.
Chris perpassou pelos dois, convencido de que precisava deixá-los na companhia um do outro sem intromissões.
— Bom, essa é a minha deixa. E, por favor, considere o que eu falei, Vi... Se não for fazer por você, faça por ele. — O suíço se afastou, acenando para os dois e logo infiltrou-se no aglomerado.
Yūri acompanhou Chris com os olhos, voltando-se para Viktor em seguida.
— Do que ele estava falando? — Analisou a feição do outro mudar completamente; uma nuvem de irritação pairava sobre o russo.
Viktor bebeu de mais um gole demorado de sua taça, esvaziando-a por completo.
Yūri aguardou pacientemente, mas não era ingênuo, testava a sinceridade do russo, já que imaginava o que estaria deixando Viktor desgostoso com a retomada da conversa com o Chris; convencê-lo ir ao médico.
Naquela altura, todos que tinham algum contato com Viktor sabiam de seu estado e se questionavam preocupados diante da visível piora. Era novidade para Yūri, no entanto, testemunhar uma nova faceta de seu ídolo; Viktor era doce, afetuoso e inspirador com todos, mas conseguia ser inflexível, infantil – até mesmo cruel – quando os amigos exigiam, de alguma maneira, uma atitude dele para com ele mesmo. Em certos aspectos, Yūri compreendia o comportamento arredio do russo, e só por isso, nunca forçou a barra com ele. Mas, a princípio, era uma questão simples de se resolver; ir ao médico e fazer um exame. Então, qual seria o problema? Chegou a pensar que Viktor sofria de alguma fobia ou trauma relacionadas a hospitais e nunca falou abertamente sobre isso, resultando nesse impasse. Pensar nisso, fez Yūri reconhecer que havia uma lacuna considerável sobre o passado de Vitya que, em quase 1 ano de convivência, ainda não fora preenchida.
Yūri nutria um desejo de conhecê-lo além da lenda viva que ele personificava nos treinos e campeonatos.
— Chris estava sendo persistente, mas não conseguiu desviar minha atenção de você. Estou curioso para saber como terminaremos essa festa. — Viktor simulou um sorriso malicioso.
Yūri sentiu as bochechas queimarem quando se viu encarando o brilho daquele par celestial que era os olhos de Viktor. Não tinha a menor das intenções de repetir aquele episódio no banquete de encerramento, muito menos voltar a se exibir num pole dance; ainda estava decidindo se era uma benção ou maldição não se lembrar do fatídico episódio, visto que a cada depoimento de amigos que presenciaram a façanha, acrescentavam novos feitos absurdos protagonizados pelo japonês. Era melhor evitar de beber, acreditou. Engoliu em seco e ajeitou com o dedo a armação de seu óculos, evitando sustentar aquele olhar dúbio por mais tempo. Observou casualmente os garçons que serviam bandejas com taças e petiscos.
— Não vou beber desta vez — disse com convicção. — E sinto muito por te decepcionar.
Viktor não entendeu o que ele quis dizer, a princípio, e esperou pela explicação.
Yūri acrescentou:
— Mas acho que Chris está certo. Você devia ir ao médico. Eu irei com você sem pestanejar, sabe disso. Não vou te encher de perguntas. Quando estiver à vontade de conversar sobre qualquer coisa comigo, faça. Mas, por favor, vamos marcar uma consulta e acabar com essa tosse. Lembro-me de quando te pedi para sempre cuidar de mim. E, mesmo não precisando, você ainda o faz. Então... Eu só quero poder fazer o mesmo por você.
Yūri viu a expressão sedutora desaparecer da face do russo e surgir a da abnegação no lugar. Viktor tentou disfarçar o desconforto buscando com os olhos um garçom que estivesse mais próximo para pegar mais uma taça cheia e voltar a sorver de um generoso gole de champanhe. Yūri suspirou resignado, sabia que não era o momento e nem o lugar para tocar no assunto que claramente incomodava Viktor, mas ele não havia dado muita brecha antes disso. Mesmo assim, queria se desculpar com ele, mas Viktor se pronunciou:
— Certo... Iremos, Yūri. Prometo a você.
O sorriso singelo que surgiu no rosto de Viktor acalentou o coração de Yūri, que sorriu em resposta.
Sentia-se menos culpado por pressioná-lo em um ambiente festivo, não queria ser um estraga prazeres. Seria mais fácil se Viktor se abrisse com ele, dizer o que se passava em sua mente ou do porquê ficava tão incomodado quando o assunto era hospital, mas Yūri daria tempo ao tempo.
Viktor repousou a mão em seu ombro e aproximou o rosto para conspirar em seu ouvido. Yūri ficou tenso por um momento, pensou que seria um beijo em seu rosto. Ouviu a indagação do outro aos sussurros:
— Estou com fome, quero comer alguma coisa. Quer me acompanhar?
Antes que pudesse responder, Yūri teve sua mão segurada com carinho e, involuntariamente, seguiu Viktor pelo salão até a mesa do banquete. Os olhares caíam sobre eles, mas Yūri sentiu seu coração saltar dentro do peito mais com as leves carícias em sua mão durante o trajeto. Porém, nada disse ou procurou visualizar no rosto de Viktor o que se passava ali. Na verdade, mesmo tendo aumentado a frequência, não era incomum tais carinhos partirem do russo, visto que era outra maneira dele se expressar. Entretanto, com o passar do tempo e do amadurecimento da relação profissional, Yūri ainda via-se em introversão e, agora, sentia-se incomodado por constatar que não era tão afetuoso com Viktor quanto gostaria. Talvez, era o que Viktor queria; atenção, certo?
Viktor se deliciava com um doce cremoso disposto numa linda bandeja e o ofereceu a Yūri. Ele sorriu ao ver a boca de Viktor suja de creme mesmo tentando lamber os lábios, então, Yūri procurou por guardanapos sobre a mesa.
— Espere... Aqui. — Assinalou enquanto limpava – com o guardanapo – o canto dos lábios de um russo curioso com aquele zelo inesperado. Ambos pareciam se divertir ao compor aquela cena. Yūri teve que admitir, mais uma vez, que estava gostando daquilo. Viktor parecia sentir o mesmo.
O doce permaneceu em oferta após aquele cuidado, então, Yūri segurou a mão do doce de Viktor e se serviu, colocando-o inteiro em sua boca. Yūri se surpreendeu com o sabor incrível do doce e Viktor estava boquiaberto ao sentir a maciez da língua de Yūri pela ponta de seus dedos.
Através de seu óculos de armação azul, o par de castanhos pôde ver com riqueza de detalhes aquele homem impecável, corar. E isso foi o bastante, Yūri arrependeu-se do que fez no mesmo instante que tomou consciência de como isso seria interpretado. Viu Yuri Plisetsky do outro lado da mesa, os encarando com uma sobrancelha arqueada e com certo terror na face juvenil, ao lado de um austero Otabek Altin, que permanecia impassível e Phichit Chulanont, que – Yūri imaginava – havia registrado aquele momento íntimo com o seu celular sempre disposto para fotos e selfies comprometedoras. Yūri voltou sua atenção a Viktor que, naquele momento, tinha outro doce na mão a fim de oferecer-lhe novamente, com um sorriso esperançoso nos lábios.
— Er... n-não, obrigado. Eu e-estou... satisfeito. — A gagueira quase não deixou Yūri falar. Um garçom passou ao lado de Yūri que não pensou duas vezes antes de pegar uma taça e tomar de uma vez só o seu conteúdo.
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