Notas iniciais
Ah, vocês são tão lindas que mesmo faltando metade do capítulo 2, eu vou postar o um. *--*
Obrigada pelos comentários, amores. E obrigado por estarem aqui, apoiando de novo! Espero que gostem, boa leitura!

"Se você não se atrasar demais, posso te esperar para sempre."
(Oscar Wilde)


A garota mirou o centro do alvo e estendeu bem o braço que segurava o arco. Quando puxou a tira, posicionando a flecha, expirou, deixando que o ar escapasse de seus pulmões. Ignorou todos os sons externos, sentiu a brisa do bar batendo contra o rosto e respirou profundamente, deixando que a flecha deslizasse por seus dedos e atingisse o centro do alvo com um estrondo surdo.

Baixou o arco com um sorriso no rosto e fez uma pequena reverencia a ele, como se fosse um inimigo derrotado. Gostava de como era boa com o arco e a flecha, mesmo que isso não interessasse muito a outras pessoas.

“Mas o que diabos foi isso?” a voz estrondosa do pai trovoou e Ehlena virou-se para olhar o senhor de Ponta Tempestade observando-a. Os olhos azuis encaravam o alvo. “Isso não é algo que um lady faça.” Falou com firmeza. “Boa coisa que nossa filha nunca foi uma lady comum, certo senhora minha esposa?” Robert Baratheon explodiu em risadas com a esposa, e Ehlena lhe fez uma breve reverencia, como sempre.

“Mas ainda é muito distraída com as coisas a sua volta.” Ouviu a voz do irmão falar de perto do alvo.

Jon a encarou com os olhos cinzentos sérios e sábios. Mas ele sempre tinha uma critica quanto a sua habilidade com o arco.

“Tem inveja porque nunca consegue atirar tão bem quanto eu.” Ela provocou, rindo.

“Não é como se ela fosse para a guerra.” O pai a defendeu como sempre.

Se tinha algo que Robert amava na vida eram os filhos. Não havia como negar que Lyanna Stark havia lhe dado quatro razões diferentes para viver, além dela mesma. Mas Ehlena era especial. Era a única menina. A preciosidade do pai. Jon seria quem herdaria o castelo, as terras e os títulos. Mas a mãe costumava dizer que Ehlena havia roubado o coração do pai quando nascera, e ela não parecia inclinada a querer devolver. Ou ele a pedir de volta.

“Com essa pontaria, ela deveria.” Uma voz masculina mais infantil se pronunciou, e Leon estava emburrado no canto, irritado por ter tido seu arco roubado pela irmã mais velha.

“Pare com isso e volte aos seus estudos com o maester, Leon.” A voz da mãe soou autoritária. Não havia uma viva alma em Ponta Tempestade capaz de contestar uma ordem dada por Lady Lyanna. “E vocês dois, parem com isso. Temos uma longa viagem pela manhã e a senhorita ainda não arrumou suas coisas.” Ela lançou um olhar irritado para a filha.

“Pensei que estivesse empolgada com o baile, querida.” O pai falou de maneira gentil, enquanto estendia a mão para ela.

“Foi Jon quem me distraiu de meus propósitos.” Ela falou rapidamente, aceitando a mão do pai e o beijando na face, em seguida fazendo o mesmo com a mãe.

“Não tente jogar a culpa de sua falta de atenção e comprometimento com seus deveres, em cima de mim.” Jon revidou, e um choro infantil quebrou o silencio.

Nos braços de sua ama, Johan, o mais novo Baratheon, estendeu os braços gorduchos em direção a sua mãe em meio ao choro desesperado. Tinha apenas um ano e meio, mas como todo bom Baratheon, Johan parecia ter aprendido rapidamente a exigir o que queria, e não pedir.

A mãe tomou a criança nos braços e gesticulou para que os filhos tomassem seus rumos certos, enquanto se afastava embalando o bebê contra o peito, em direção ao solário. Ehlena observou a mãe por algum tempo. Tentou imaginar aquele tipo de amor. Sabia o que era amar. Amava aos pais e aos irmãos de uma maneira incrível. E amava aos tios no norte; Benjen com seu senso de dever e honra defendendo a Muralha, Eddard com sua noção de lealdade e certo e errado, e Brandon com seu sarcasmo e deixas engraçadas que nunca falhavam em colocar um sorriso em seu rosto. Também amava a tia Catelyn e aos primos. Aos irmãos do pai, Renly e Stannis Baratheon. E mesmo a reclusa tia Selyse e a fantasiosa prima Shiereen. E em sua lista de pessoas amadas, ainda fazia questão de colocar Ellys, a septã que auxiliava a mãe com as crianças, o velho maester Dorean com suas histórias mirabolantes e verdadeiras sobre o reino e o cozinheiro bravosiano, Naasir, porque sempre lhe dava um pedaço extra de torta quando estava se sentindo triste.

Ehlena sempre achava que amava pessoas demais. Mas nunca conseguiu imaginar o tipo de amor que a mãe nutria pelos filhos. Era algo tão incrível e assustador. Lyanna era capaz de jogar uma carroça em chamas em cima de alguém pelos filhos – ou até mesmo pular em cima de uma. Ehlena não sabia o que era amar ao ponto de entregar a sua vida pela de outra pessoa.

Voltou da terra dos sonhos quando ouviu o pai limpando a garganta. Virou o rosto levemente, mesmo sabendo o que encontraria ali. O par de olhos azuis a encarou com severidade. “Não deveria estar em outro lugar?” e arqueou uma das sobrancelhas.

Ehlena assentiu e seguiu seu caminho pelos corredores abertos e arejados da fortaleza, seguindo as pedras cor de areia, devido ao por do sol que chegava ali, até seus aposentos, onde encontrou Ellys enlouquecida em meio a tanto tecidos, rendas e jóias. Ela riu, parada na porta do quarto, e a risada infantil e atrevida foi o que chamou a atenção da septã.

A mulher já passava de seus cinqüenta anos, tinha a pele um pouco manchada pelo sol das terras da tempestade, usava sempre uma roupa escura e escondia os cabelos – o que fazia Ehlena imaginar como eles seriam com freqüência. Uma vez lhe dissera que eram tão vermelhos quanto os de sua tia Catelyn.

Mas o que mais a impressionava eram os olhos. Castanhos, quase um âmbar, com pontos esverdeados perto da íris. Sempre lhe passavam sabedoria e conforto, como os da mãe.

“Pelos sete, vejam quem decidiu aparecer para organizar essa bagunça.”

Ehlena parou de rir e torceu o nariz, olhando a velha ama do degrau acima do piso. Desceu o degrau com um pulo e correu até onde a ela estava, voltando a estampar um sorriso no rosto.

“Mas olhe pra você, menina, está com o cabelo todo desgrenhado e vestido sujo!” ela ralhou, mesmo sabendo que aquilo não adiantaria.

Qual era mesmo o seu poder, quando o pai era o primeiro a colocar um arco nas mãos da filha?

“Jon que provocou.” Ela deu de ombros, passando a mão pelos cabelos e desfazendo a trança, soltando os grampos e passando os dedos por entre as mechas onduladas.

“Você precisa parar de culpar seu irmão por tudo.” Alertou, enquanto as duas começavam a mexer nos vestidos de seda e organza sobre a cama.

Ehlena não era uma garota que gostava muito de mexer com jóias, ou ficar sentada em um circulo em silêncio, bordando e fingindo satisfação. Ela gostava de falar e não via problema em falar sobre qualquer assunto. Competia com Jon em tudo e o maester sempre se surpreendia com seus conhecimentos e sua curiosidade.

Quando Ellys chegou a Ponta Tempestade foi um choque ver uma garota tão curiosa, agindo como um menino, correndo para cima e para baixo atrás do irmão mais velho. Embora os pais exigissem um certo decoro e delicadeza, ela ainda era permitida fazer o que quisesse. Alguns anos mais tarde, Ellys parou de se preocupar com a quantidade de “por quês” que a menina falava, e passou a prestar atenção em como ela tinha talento com a agulha e como era dona de uma personalidade extremamente cativante.

De repente, tudo que os outros pudessem ver como “defeitos” passavam despercebidos quando ela sorria e agia como uma lady perfeita.

“Eu gosto desse.” Ouviu a menina dizer, quando já haviam guardado praticamente todas as suas coisas.

A mulher se virou e observou enquanto a menina estendia um longo vestido de seda creme, com alças trançadas e um leve decote. Tinha as barras dobradas e adornadas por fios dourados, que desenhavam folhas perfeitas.

“É muito bonito. Mas talvez simples demais para as comemorações do dia do nome de seu tio.”

Ehlena segurou o tecido em frente ao corpo e sorriu. “Não gosto de chamar a atenção, de qualquer maneira.” E começou a rodopiar pelo quarto, cantarolando, como se estivesse valsando.

A ama riu, deliciada com a felicidade da garota, o que a fez rir também, enquanto continuava a cantarolar, rodopiar e evitar os móveis.

“Talvez devesse chamar um pouco a atenção. Já está em idade.”

A garota parou de rir e deixou o corpo bater contra a parede, de costas para a ama. Apertou o vestido sobre o corpo e baixou os olhos. Odiava quando Ellys tocava no assunto. Não era algo que gostasse de falar. Abandonar Ponta Tempestade era um assunto doloroso. Pensar que não veria mais os irmãos, que perderia toda a infância de Johna. Era uma crueldade com ela.

“Não quis lhe tirar a alegria.” A ama apressou-se em dizer. “Mas é algo que deve começar a pensar, criança. Não ficará aqui para sempre.”

Ehlena se virou aos poucos e mordeu o lábio inferior. “Ouvi o maester comentar algo com o senhor meu pai...” seus olhos se distanciaram um pouco da ama, em direção a janela, como se pudesse fugir. “Falou algo sobre Robb..”

“Estaria em família. Estaria segura no norte.” Ellys concordou com um sorriso.

Ehlena suspirou. Gostava de Robb, com certeza. Ele era engraçado e leal, e não era nem um pouco difícil de se olhar. E adorava quando iam ao Norte, gostava da neve sobre a pele, dos cheiros frios, dos lobos uivando à noite. E fazia sentido. Seu pai não parecia inclinado a deixá-la ir para qualquer lugar. Se ela fosse para o norte, estaria segura no meio da família.

Mas não podia ir. Não queria ir a lugar algum. Talvez viesse a se tornar uma septã, dedicar a vida a Fé nos Sete. Poderia ficar em Ponta Tempestade e ajudar a criar os filhos dos irmãos. Não parecia tão ruim e ela duvidava que o pai a proibisse, caso expressasse sua vontade de seguir a fé.

Os pensamentos da garota foram cortados quando o ouviu. Virou-se em direção da voz e viu o garoto de cabelos escuros e olhos cinzentos entrando em seu quarto. Um sorriso irônico logo se formou nos lábios de Ehlena e ela deixou para trás os pensamentos sobre seu futuro tão incerto.

“Hm. Então veio pedir desculpas?” ela provocou, caminhando em direção a cama para deixar o vestido sobre ela.

Ellys rolou os olhos e abriu a boca para falar algo, mas acostumada com as implicâncias dos irmãos, apenas abanou a mão no ar, dispensando qualquer assunto. A morena sorriu para sua septã e virou-se rapidamente para o irmão. Jon a encarava com o mesmo sorriso irônico que ela exibia.

“Desculpas? Eu não tive culpa de nada. Você que é péssima de pontaria.” Ele deu de ombros, desviando o olhar dela, as mãos seguramente para trás de seu corpo.

Os olhos azuis de Ehlena se estreitaram em direção ao irmão, colocando suas mãos para trás, as costas, como ele fazia. Lentamente ela caminhou para ele, com intenção de dar a volta e espiar o que ele tentava esconder, mas Jon era mais rápido que ela – e já haviam jogado aquele jogo antes.

“Vamos lá Jon, o que está escondendo?” desistiu antes mesmo de iniciar o jogo, um pouco exasperada demais.

Aparentemente, ainda tinha que se banhar e trocar o vestido antes que pudesse descer para o jantar e estava começando a ficar impaciente com a viagem do dia seguinte até Tormentamaré.

“Bem, já que você é tão péssima com o arco...” ele mal se interrompeu quando ela chamou seu nome, indignada. “Achei que seria elegante e cavalheiresco de minha parte se lhe trouxesse um presente.” Ele estendeu a mão, revelando uma máscara dourada.

Ehlena se aproximou, tomando o objeto em mãos e observando os delicados e intrincados arabescos pintados de negro na mascara. As cores da Casa Baratheon de Ponta Tempestade. Passou o indicador sobre os pequenos raminhos e sorriu genuinamente para o irmão.

“Como saberia que eu não faria a minha?”

“Você nunca faz.” Jon rolou os olhos. “Eu conheço você, garota. Há 16 anos. Não se esqueça.”

Imitando o gesto que tanto havia recebido nos últimos minutos, a garota rolou os olhos e jogou os braços em volta do pescoço dele, sendo amparada pelos braços fortes antes que despencasse os dois no chão.

“Estou feliz que soube escolher algo bonito.” Ela riu antes de beijar sua bochecha.

Jon bufou, indignado, e a cutucou na barriga, fazendo-a se encolher rindo. “Você não sabe ser agradecida, não? Deveria tê-la deixado sem a máscara!”

“Não!” protestou com o fôlego curto, escapando do irmão e correndo na direção de sua septã, postando-se atrás da mulher. “Ela combina com o meu vestido.”

O moreno fez uma reverencia zombeteira enquanto a septã se afastava, levando a mascara consigo e murmurando sobre como nunca se acostumaria com o senso de humor daqueles dois – o que acabou por fazê-los rir novamente.

“Se a bela donzela não precisar mais de meus serviços, este cavalheiro irá se retirar e deixar que você lide com toda essa... Seda.” Falou um tanto quanto confuso com os diversos vestidos dispostos pelo quarto.

Ehlena assentiu e deixou que o irmão chegasse até a porta antes de chamá-lo novamente. Ele parou no batente da porta, olhando rapidamente por cima do ombro. “Obrigada.” E o sorriso que trocaram, dessa vez, não foi zombeteiro.


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Conheça o cast: 1, 2 e 3.

Notas finais
Então, o que acharam? *--*
Vou ficar aguardando a review de vocês, pra ver se eu realmente devo continuar. :3
obrigada!

xoxo