Ele leu, releu e leu novamente até se dar conta de que estava na mesma página. Sua cabeça estava apoiada em sua mão, que por sua vez utilizava o braço do sofá para manter-se naquela posição. Havia uma grossa manta sobre suas pernas, e seu figurino naquela noite consistia em um conjunto de moletom negro que deixava o verde de seus olhos em evidência. Os cabelos prateados batiam-lhe nos ombros, protegendo a nuca dos malefícios da temperatura fria. Do outro lado da janela, o céu escuro e sem estrelas denunciava que a manhã seguinte seria gelada e afastava mais uma vez qualquer esperança de calor e aconchego.

E, pela quinta vez desde que se acomodou no sofá, Gokudera suspirou.

Não foi um curto e involuntário suspiro, daqueles que passavam despercebidos. Ele sentiu o ar entrar e sair de seus pulmões, frio e cansado. O livro em suas mãos foi fechado e colocado ao lado e os olhos pousaram na tela da televisão, estudando o retângulo negro e ponderando se talvez a cura para aquela inércia não fosse um drama ou até mesmo um anime. A coragem de levantar-se e procurar o controle não foi suficiente para fazê-lo mover-se e o rapaz de cabelos prateados escorregou pelo sofá, deitando-se e enrolando-se na manta. O nariz aspirou a lã e suas bochechas se tornaram vermelhas ao lembrar-se quem normalmente a utilizava para dormir. O cheiro de Yamamoto estava em toda a casa.

O Guardião da Tempestade permaneceu imóvel e não ousou fechar os olhos. Se eu fizer isso sei que irei me arrepender. A língua umedeceu os lábios e ele sentiu o gosto da nicotina vindo do cigarro que fora fumado há menos de vinte minutos. Aquele era seu gosto, seu cheiro, e não remetia a nenhuma lembrança desagradável. Entretanto, Gokudera sabia que depois do jantar ele iria inevitavelmente escovar os dentes e então um turbilhão de lembranças o fariam desejar um novo cigarro. Eu até comprei uma pasta de dente com sabor de frutas, mas não adiantou. Todas as vezes que sua língua sentia o gosto da menta era como reviver aquela noite.

Aquele foi seu primeiro beijo.

Nunca, em todos aqueles seus 17 anos, ele havia tido contato tão íntimo com outro ser humano. Tendo que se virar sozinho desde que deixara a casa de seu pai, ele não teve muito tempo para pensar nesse tipo de coisa. Uma ou duas vezes alguma garota chamou sua atenção, mas não o bastante para fazê-lo aproximar-se. Para o Braço Direito, construir aquelas paredes era muito mais importante do que procurar companhia e quando a natureza pedia alguns minutos privados ele sabia muito bem como se virar sozinho.

Porém, como todo homem, Gokudera tinha suas fantasias românticas, que envolviam encontros no parque, mãos seguradas na roda gigante e um beijo tímido com gosto de algodão doce enquanto assistiriam aos fogos de artifício. E o que eu consegui? Um beijo forçado por um idiota viciado em baseball, com gosto de pasta de dente e vindo de uma das pessoas que eu mais detesto. I-na-cre-di-tá-vel!

A vida era cruel, no entanto, nada era mais cruel do que o modo incansável com que sua mente adorava repetir aquele momento, fosse em sonhos ou durante o dia. O que deveria ser esquecida como a pior situação de sua vida era tão constante que mesmo que quisesse seria impossível esquecer, principalmente porque, no fundo, ele não havia odiado o beijo.

A realização veio depois que a surpresa desapareceu. Quando sua mão atingiu o rosto de Yamamoto, a dor pareceu acordá-lo e trazê-lo de volta à realidade. Todavia, o instante que abriu seus olhos foi quando o moreno deixou o quarto, os ombros curvados e a visível expressão de arrependimento. Até aquele momento ele não havia levado os sentimentos do amigo a sério. Eles eram apenas... palavras. Palavras bonitas ditas no terraço do colégio e que voaram junto com a brisa que soprou naquele fim de tarde. Elas não possuíam forma ou cor ou significado.

O beijo, por outro lado, deixou claro que o Guardião da Chuva não estava brincando ao se confessar. Indiferente de quaisquer que fossem suas opiniões pessoais, a partir daquela noite seria impossível negligenciar aqueles sentimentos. Eles eram reais e pesados e foram capazes de fazê-lo esquecer-se do mundo por um breve instante. Quando os lábios se encontraram, parte dele achou que estivesse sonhando. Seu mundo tornou-se devagar, longe, como se outra pessoa vivesse aquela realidade. A persistente língua de Yamamoto invadiu sua boca e tudo passou a acontecer rápido: seus próprios lábios se moveram e seu corpo tremeu quando as línguas se encontraram. Ele nunca havia tocado outro ser humano antes, então como explicar a independência de seus movimentos? A certeza de que sua língua deveria dançar ao mesmo ritmo?

A dança acabou e não houve mais música.

O rapaz de cabelos prateados viu-se sozinho no quarto e seus joelhos cederam após alguns segundos, encontrando o futon. Por alguns minutos seus olhos se conservaram encarando o vazio, os ouvidos escutavam as incansáveis e altas batidas de seu coração enquanto as bochechas vermelhas completavam o patético conjunto. O corpo tombou para o lado e seu rosto afundou-se no travesseiro e ali permaneceu pelo resto da noite. O sono veio em algum momento, pois ele acordou na manhã seguinte com o despertador do celular. Estranho. Eu não me lembro de tê-lo colocado para despertar. Yamamoto fez isso...

O inevitável encontro, no dia seguinte, foi o mais evitável possível. Havia um mentiroso bilhete sobre os onigiris, avisando que sua companhia havia saído antes por causa do treino. O Guardião da Tempestade encarou o pedaço de papel, coçando o abdômen por baixo da blusa e sem se dar conta de que estava completamente descabelado. Mentiroso, eu sei que você não tem treino hoje. Ele amassou o bilhete e o colocou no bolso, seguindo para o banheiro e esperando que um banho quente e um delicioso café da manhã fossem suficientes para prepará-lo para o que aquele dia poderia lhe oferecer.

Pela primeira vez desde que entrou no colégio Namimori Yamamoto não compareceu à aula. A carteira ao seu lado permaneceu vazia da primeira à última aula, preocupando Tsuna e exigindo que o Braço Direito fizesse o possível para garantir a seu precioso Chefe que não havia nada de errado e que o idiota provavelmente passou o dia jogando baseball. O retorno para casa foi semelhante à ida ao colégio: a mesma insegurança e o mesmo temor do desconhecido. Ele gostaria de ter resolvido aquele problema durante o dia, mas quanto mais se aproximava da casa dos Yamamoto, menos confiante ele se sentia.

O moreno o esperava. Ele levantou-se do sofá ao vê-lo entrar e Gokudera sentiu como se todos os seus músculos houvessem travado. O Guardião da Chuva vestia o uniforme do colégio e caminhou o suficiente para que fosse ouvido, porém, mantendo distância. O olhar que seguiu o silêncio foi inquietante. Havia um estranho e pesado ar entre eles e as mudas palavras diziam muito e nada ao mesmo tempo. A tarde no terraço retornou à sua mente e foi impossível não se recordar daquelas palavras. Ele as falaria mais uma vez? A pessoa à sua frente repetiria a confissão? A ansiedade crescia em seu peito e, quando o amigo finalmente entreabriu os lábios, Gokudera tremeu.

"Eu quero me desculpar propriamente pelo que fiz ontem," a voz realmente séria de Yamamoto não lembrava em nada o som que deixava sua garganta ao rir. Nem no dia em que ele se confessou. Naquela tarde sua voz possuía uma evidente ternura que desapareceu por completo. Quem é essa pessoa? "Foi imperdoável e não sei o que dizer para me desculpar. Eu não vou fingir que nada aconteceu, e sei que é difícil de acreditar no que direi, mas prometo que nunca mais te tocarei novamente. Eu cometi um erro e espero que o que tenha acontecido não interfira nos seus planos de continuar a viver aqui. Eu te coloquei em uma situação constrangedora e por isso eu sinto muito."

Uma polida reverência seguiu aquelas palavras e mais uma vez os olhos castanhos estavam sobre ele, vigilantes e fiscalizadores. O rapaz de cabelos prateados sabia que era sua vez de tomar a palavra, fosse para retaliar ou desculpá-lo, porém, não conseguiu. A voz havia desaparecido de sua garganta e de repente falar tornou-se a mais penosa das tarefas, restando somente menear a cabeça em positivo. O gesto pareceu ser o suficiente, pois o moreno abaixou-se e pegou a mochila que estava ao chão e deixou a sala sem oferecer sequer um segundo olhar.

E, a partir daquele momento, o primeiro beijo de Gokudera se tornaria somente mais uma lembrança... ou foi isso que ele imaginou...

Na prática, eles se beijavam todas as noites ou em todos os momentos em que ele deixava que sua mente vagasse para o infinito. Aqueles preciosos instantes em que a realidade tornava-se relativa e o mundo dentro de sua cabeça parecia muito mais interessante. Esses eram os momentos em que o Guardião da Chuva esgueirava-se por detrás das linhas de suas lembranças e aqueles rápidos segundos passavam diante de seus olhos como um looping infinito, levando estranhas sensações e fazendo-o despertar de repente, olhando ao seu redor e corando com os truques que seu cérebro lhe pregava.

De um dia para o outro o idiota viciado em baseball era tudo o que ele pensava. O passar do tempo não mudou aquele fato, embora Yamamoto fizesse o possível para manter-se distante. Os dois continuavam a ir juntos ao colégio, no entanto, a caminhada era feita no mais puro silêncio. Durante as aulas o bom humor retornava e por algumas horas Gokudera esquecia-se do enorme abismo entre eles e sentia como se nada houvesse acontecido. As brincadeiras, as brigas e as discussões eram as mesmas, contudo, quando chegava o momento de se despedirem de Tsuna os olhos castanhos se abaixavam e os risonhos lábios davam lugar a uma fina e dura linha.

Em sua última semana na casa dos Yamamoto, o rapaz de cabelos prateados não o viu sorrir uma única vez.

Ele abriu os olhos devagar, piscando longamente enquanto sua consciência retornava. Um distante ruído chegou aos seus ouvidos e ao sentar-se no sofá o Guardião da Tempestade se deu conta de que havia cochilado. O livro continuava ao seu lado, mas havia uma segunda manta sobre ele. Os sons tornaram-se mais audíveis e o Braço Direito levantou-se, enrolando-se à manta e caminhando enquanto arrastava-a ao chão. As luzes da cozinha estavam acessas, denunciando de onde vinha o barulho. Os pés cessaram os movimentos ao chegarem à divisa entre o corredor e a cozinha e os sonolentos olhos verdes pousaram na pessoa parada próxima a pia e que bebia um copo de leite.

A calça de moletom era azul escura e ele sabia que eram dois números maiores. Ela não combinava com nenhuma outra peça naquele momento, pois Yamamoto tinha o péssimo hábito de sair do banho sem camiseta. Não era inédito ver o amigo parcialmente despido, mas fora, sem dúvida, a primeira vez que tal cena chamou tanto sua atenção. O Guardião da Chuva era mais alto, cerca de um palmo. Sua pele era naturalmente morena clara e os anos como idiota viciado em baseball transformaram seu físico: os músculos eram bem definidos e rígidos, os ombros largos, os braços fortes e ele parecia mais velho que seus meros 17 anos.

Ao lado daquela pessoa o rapaz de cabelos prateados sentia-se um garoto, pálido e magro, desinteressado em atividades físicas e sem conseguir se imaginar trocando uma boa tragada de seu cigarro por uma hora de corrida. Eles eram tão diferentes, mas tão similares. O bom humor e o mau humor, a espontaneidade e a introversão, a simpatia e a antipatia. Tsuna costumava dizer que os amigos eram duas faces de uma mesma moeda, que ele não conseguia se imaginar sem ter ambos ao seu lado.

Aquele simples comentário nunca fez sentido aos seus ouvidos até alguns dias atrás. Se, enfim, eram realmente tão semelhantes, o que aconteceria a eles dali em diante? Depois dessas semanas dividindo o mesmo teto, haveria meios de desfazer o já feito ou estariam fadados ao constrangimento eterno, cujas conversas cotidianas e esporádicas se tornariam impossíveis e os encontros nunca seriam a sós, mas mediados por uma terceira pessoa que jamais entenderia realmente a estranheza entre eles?

"Desculpe, eu te acordei?" O copo havia sido pousado sobre a pia e Yamamoto limpou a boca com as costas de uma das mãos.

"Não..." Sua voz soou baixa. Ele havia se distraído e não percebeu que sua presença fora notada. "Que horas são?"

"Quase 22h," o amigo o encarou por um instante, que foi rápido demais para ter qualquer significado.

"Eu perdi o jantar..." O Guardião da Tempestade juntou as sobrancelhas. "Era meu dia de cozinhar."

"Meu pai trouxe alguma coisa do restaurante. Ele guardou a sua parte na geladeira."

"Eu levarei comigo."

As palavras deixaram seus lábios sem nenhuma pretensão, porém, somente ao proferi-las ele se deu conta de que eram reais. Aquela seria sua última noite naquela casa e na noite seguinte, em seu velho apartamento, não haveria ninguém para cobri-lo quando ele cochilasse no sofá, ou guardar um pouco do jantar em uma parte especial da geladeira. Em seu apartamento não havia mais ninguém.

O moreno conservou-se imóvel, mexendo no copo vazio. Aquela seria provavelmente a última chance que eles tinham para conversarem a sós. Uma oportunidade que certamente não retornaria e que poderia, não, deveria ser usada para reverter um pouco o peso que aquela última semana possuiu. Eu só preciso me desculpar e dizer que está tudo bem, que aquela noite não passou de mero mal-entendido. Ele entenderá, não...?

A primeira semana naquela casa despertou sensações dentro dele que jamais foram sentidas. O revezamento nas tarefas da casa, as compras feitas com o Guardião da Chuva, em que um segurava a lista enquanto o outro a cesta do supermercado. Ao retornarem para casa, no final da tarde, muitas vezes ambos sentavam no sofá e assistiam alguma coisa na televisão. Por terem personalidades tão distintas, cada um absorvia o que via de um modo diferente e o que começava com um simples comentário terminava em discussões, por sua parte, e risadas por parte de Yamamoto.

Após o beijo, o Braço Direito do futuro Décimo Vongola sentia como se houvesse perdido mais do que um amigo. As tarefas ainda eram revezadas e os dois continuavam a fazer as compras juntos, mas não havia mais conversas ou comentários ou discussões. Às vezes, um deles se esquecia do acontecido e uma pequena faísca surgia, somente para se apagada no instante seguinte. A realidade era dolorosa. Ler no sofá, enrolado em uma manta, tornou-se um dos seus momentos favoritos, ainda que ele jamais admitisse que sentia falta do companheirismo de outrora e da calorosa sensação que o moreno lhe transmitia ao sentar-se ao seu lado, mesmo sem dizer uma única palavra.

Naquele curto espaço de tempo Gokudera aprendeu sobre Yamamoto muito mais do que gostaria. Intimamente ele sempre seria o idiota viciado em baseball, irritante e que sempre tinha uma resposta otimista e bem humorada para dar. Todavia, não era apenas isso. Aquela era sua essência; por baixo das aparências havia alguém dedicado ao pai e aos amigos, uma pessoa que não media esforços em ajudar o próximo e cujos sentimentos eram uma confusa mistura de inocência e seriedade. Essa é a pessoa que o Juudaime sempre viu. A única que poderia carregar o título de Guardião da Chuva dos Vongola. Se não fosse a confissão no terraço, ele tinha certeza de que jamais a conheceria.

"Obrigado," o rapaz de cabelos prateados apertou a manta com mais força em seus ombros, "por me abrigar nessas três semanas."

"Você não precisa agradecer, Gokudera." O moreno coçou a nuca, visivelmente constrangido. "Você teria feito o mesmo por mim."

Os olhos verdes se arregalaram lentamente e o que começou com um desconforto na boca do estômago logo se transformou em um nó em sua garganta. Como aquele garoto poderia dizer aquelas coisas depois de tudo o que acontecera entre eles? Como ele pode ter tanta fé em mim? O Guardião da Chuva ofereceu um meio sorriso e aproximou-se devagar. Por um instante Gokudera prendeu a respiração, sentindo-se consciente da proximidade. A mão esquerda ergueu-se, pousando momentaneamente em seu ombro esquerdo e retirando-se quando Yamamoto se afastou.

Os passos descalços ecoavam pelo chão de madeira e pararam somente quando a porta do quarto foi aberta. O Guardião da Tempestade abaixou os olhos até fechá-los, permanecendo imóvel por alguns segundos até seguir também para o quarto. Naquela noite, nenhum deles disse mais nada e na manhã seguinte ele partiu antes que o amigo acordasse. A despedida com Tsuyoshi fez seus olhos brilharem em lágrimas e foi difícil controlá-las quando o dono do restaurante o abraçou e disse que esperava vê-lo em breve.

Gokudera perdera as contas de quantas casas havia morado naquela curta vida. Ele nunca se sentiu saudoso, visto que não tinha tempo o bastante para se apegar às quatro paredes. O rapaz de cabelos prateados havia deixado a casa do pai e por anos sua vida limitou-se unicamente a esconder seu paradeiro. Casas, apartamentos e espeluncas. Independente de sua moradia, nunca houve aquela morna sensação de pertencimento. No começo, suas noites eram passadas em claro, sentado embaixo da janela enquanto encarava a porta de entrada na espera dos homens que ele sabia que o pai enviaria. As poucas horas de sono sempre o faziam acordar de sobressalto, suando frio e temendo não estar realmente sozinho.

Por anos ele não soube o que era descanso real. As noites só se tornaram menos penosas ao deixar a Itália. Com o tempo Namimori se transformou em sua cidade e, depois de conhecer Tsuna, o Guardião da Tempestade pôde finalmente ter uma noite completa de sono. A partir daquele dia, manter-se ao lado do futuro Décimo tornou-se tão natural quanto respirar. Era seu dever zelar pelo bem-estar de seu Chefe, portanto, não era de sua alçada pedir proteção. Aquela era sua função, seu trabalho. No entanto, desde que começou a morar com Yamamoto ele experimentou uma inquietante sensação que o fazia encarar o teto do quarto durante as noites e imaginar se algum dia voltaria a senti-la.

Pela primeira Gokudera se sentiu realmente seguro.

Ele entrou no taxi e seus olhos automaticamente encararam a janela em cima do restaurante e, por um instante, achou ter sentido que alguém o observava. O momento não durou o suficiente para que pudesse verificar e o veículo afastou-se, virando a esquina e fazendo-o ter certeza de que, independente de quais caminhos sua vida tomasse, ele havia experimentado o que era sentir saudades de um lar.

x

A neve começou a cair na primeira semana de dezembro.

O rapaz de cabelos prateados estava sentado em uma das poltronas de seu apartamento quando notou os pequenos flocos que caíam. Alguns deles criaram uma fina camada sobre o parapeito, mas a grande maioria formaria pequenas montanhas nas calçadas. O inverno era uma de suas estações favoritas, especialmente por saber que poderia hibernar durante os finais de semana, enrolado em grossos edredons, além de comer tangerinas enquanto estivesse bem acomodado embaixo de um kotatsu.

Há uma semana ele havia retornado ao velho apartamento. As infiltrações foram arrumadas, o piso da cozinha trocado e Gokudera ganhara dois meses livres de aluguel, que serviriam para adquirir uma pólvora egípcia que ele namorava há meses. No restante, as posições dos móveis estavam iguais e parte dele sentia como se nunca houvesse deixado aquele lugar. A outra, contudo, era responsável por mantê-lo acordado até tarde da noite, virando de um lado para o outro da cama e sentindo falta do futon e da respiração ritmada vinda da pessoa sobre a cama.

Depois de deixar a casa dos Yamamoto, o Guardião da Tempestade teve bastante tempo para lembrar-se de tudo o que aconteceu naquelas três semanas. A presença do amigo tornou-se menos constante devido aos treinos e em alguns dias os dois se viam apenas durante as aulas. Nos anos anteriores ele se esforçava para conseguir sair do treino no horário do almoço para comer conosco. Hoje ele simplesmente não aparece. Pensar nos motivos por trás daquela mudança o enfurecia, não somente por ele, mas porque Tsuna parecia sentir falta do idiota.

Se a ausência no almoço não o incomodava tanto, o mesmo não poderia ser dito sobre a nova companhia que era vista com o moreno e começava a tornar-se motivo de falatório pelos corredores. A mesma garota que ele avistara confessando-se atrás do ginásio tornara-se companhia frequente do Guardião da Chuva. Eles eram de salas diferentes, mas estavam sempre conversando e às vezes voltavam juntos para casa. Algumas garotas da classe se aproximaram do Braço Direito, curiosas e em busca de qualquer pedaço de informação que pudesse confirmar suas desconfianças. Porém, ele nada sabia, ou melhor, não procurou saber.

A maior parte de seu tempo era passado no colégio, logo, não havia muitas oportunidades para sentir-se solitário. No entanto, as horas em seu apartamento perderam um pouco a magia e várias vezes ele pegou-se caminhando de um lado para o outro, inquieto e lembrando-se vivamente da casa dos Yamamoto, seus corredores e os sons que seus pés faziam ao tocarem o chão de madeira. Não havia sentimentos românticos ou saudade amorosa. Em seu peito habitava uma aconchegante saudade de companhia, de ter alguém para conversar e discutir. Esses sentimentos eram novos e ele não os sentiu quando vivia com o pai; e por serem inéditos, Gokudera não fazia ideia de como se comportar.

As noites eram sem dúvida as piores partes. Seus sonhos nunca pareceram tão confusos e não foram poucas as vezes em que ele acordou de sobressalto, abrindo os olhos e olhando ao seu redor somente para constatar que estava realmente sozinho. Mas é diferente da época em que eu fugi de meu pai. Agora, eu não acordo com medo. Agora, eu me sinto sozinho... realmente sozinho.

A cena da escadaria do colégio Namimori retornava com frequência, mas nem sempre se tratava de Dino e Hibari. Com o passar dos dias as faces mudaram e em uma noite o rapaz de cabelos prateados chegou a cair da cama ao se dar conta de que era ele e Yamamoto compartilhando um longo e passional beijo. A imagem o assombrou até a manhã seguinte, já que ele não ousaria fechar os olhos e correr o risco de ver-se novamente nos braços do moreno.

Havia uma grande diferença entre suas reações atuais e aquela que tivera no terraço do colégio. Quando ouviu a confissão, um turbilhão de sentimentos criou uma tempestade dentro de seu peito, fazendo-o sentir raiva, decepção e ultraje. O beijo roubado, todavia, fê-lo perceber que o Guardião da Chuva não era um mero pervertido, e que seus sentimentos eram diferentes da superficial luxúria que ele fez questão de acusá-lo. As intenções por trás daquelas emoções poderiam conter a necessidade por contato físico, mas Gokudera mentiria se afirmasse que o interesse do amigo era puramente sexual. Yamamoto realmente se importava com ele e isso o assustava.

O Guardião da Tempestade apertou a alça da mochila, dando-se conta de que estivera parado na soleira da porta de Tsuna pelos últimos cinco minutos. Seus dedos estavam gelados e apertaram a campainha de maneira desajeitada e por um tempo desnecessário. Passos apressados soaram do outro lado e um conhecido rosto abriu a porta, encarando-o com seus grandes olhos verdes e emoldurados em uma face redonda.

"Tsuna! Tsuna!" A voz de Lambo soou estridente. Apesar de estar com dez anos completos, o garoto conservava a mesma personalidade inquietante. "É o cabeça de pol—"

O tapa calou-o, mas deu início à sessão de choro. O Braço Direito retirou os sapatos e adentrou, sorrindo alegremente ao ver o Décimo recebê-lo no meio da escadaria. Os dois trocaram breves cumprimentos e Gokudera seguiu ao lado do Chefe e amigo, receoso em fazer a próxima pergunta. Por sorte, Tsuna poupou-lhe o trabalho.

"Yamamoto já está aqui. Ele não foi ao treino hoje!"

Eu sei. O rapaz de cabelos prateados umedeceu os lábios antes de entrar no quarto, lançando um casual e despreocupado olhar na direção daquele sentado ao redor da mesinha. Yamamoto acenou ao vê-lo, agradecendo pelo "cérebro" do grupo ter chegado e afirmando que ele e Tsuna haviam tentado estudar, porém, faltava alguma coisa. As respostas certas, você quer dizer!

"Eu vim ajudar o Juudaime. Você está aqui de favor!" Ele deixou a mochila deslizar até o chão e puxou a almofada para o outro lado, ficando próximo de Tsuna.

"D-Desculpe por fazê-lo vir até aqui, Gokudera-kun. E você ainda teve de ajudar na limpeza da sala..." Os olhos de Tsuna marejavam em lágrimas e agradecimento.

"Juudaime, por favor! Ajudá-lo é parte essencial do meu trabalho como seu Braço Direito! Eu vivo para servi-lo!!"

A sessão de estudos havia sido combinada antes do novo horário para limpeza. Ao ver seu nome na lista, e justo para o dia escolhido para estudarem Matemática e Física, o Guardião da Tempestade afirmou que se o Décimo não se importasse ele iria depois da tarefa. Tsuna ainda tentou persuadi-lo a remarcar, mas Gokudera foi contra a ideia. Ele sabia que o amigo precisava de ajuda com aquelas duas matérias em especial e jamais o deixaria na mão. A presença do moreno ali era somente um bônus, pois suas notas não estavam tão ruins.

Os garotos abriram os livros e cadernos e o Braço Direito prendeu os cabelos em um charmoso rabo de cavalo. Estava frio, porém, era difícil se concentrar com a franja caindo-lhe ao rosto. Os óculos para leitura foram retirados da mochila e ele começou a explicar a equação desde o básico. Os dois "alunos" mantinham os olhos fixos e atentos, visivelmente presos na explicação. Vez ou outra um deles fazia alguma pergunta, que era respondida de acordo com a pessoa: para o Décimo havia elogios para sua incrível e estonteante inteligência, enquanto Yamamoto recebia "tsk" com mais frequência do que seria necessário.

Nana apareceu apenas uma vez, trazendo sanduíches e chá para os três. Não houve pausas e por três horas ele pôde dedicar-se à lógica, sem preocupar-se com emoções variáveis e sentimentos que jamais poderiam ser explicados por fórmulas ou equações. Quando as lapiseiras foram pousadas, os amigos se espreguiçaram ao mesmo tempo, jogando-se para trás e relaxando. Seus olhos então fitaram a janela pela primeira vez, surpreendendo-se pelo que viam, ou melhor, pelo que não viam.

"Juudaime, que horas são?" O Guardião da Tempestade sentiu o estômago dar voltas. Ele tinha um mau pressentimento. Aquilo já havia acontecido antes.

"Hm..." Tsuna arrastou-se até o aparelho celular que estava sobre a cama. "Quase 21h. Nós estudamos por todo esse tempo?"

"Eu preciso ir embora."

Ele não sabia por que enfiava os materiais dentro da mochila com tanta pressa. Suas mãos tremiam levemente e seu coração batia rápido. O nervosismo o fazia cometer erros tolos, como trocar seu livro pelo do Décimo ou derrubar o estojo no chão, o que lhe fez perder ainda mais tempo pegando as canetas. Seu corpo colocou-se de pé em menos de um minuto e ele teria simplesmente se despedido com um aceno e ido embora se a porta não fosse aberta com violência, fazendo-o dar um passo para trás. Reborn o olhou de cima, a sombra do chapéu deixando-o ainda mais intimidador. Em suas mãos havia uma pilha de roupas, cuja visão o fez sentir uma gota de suor frio descer-lhe pelas costas.

Um déjà vu. Eu já vivi essa situação antes... ano passado, no meio do inverno. Gokudera estava acostumado a passar a noite na casa de Tsuna, no entanto, lembrava-se vivamente daquela noite em particular. Os três ficaram jogando videogame até tarde e a hora de ir embora coincidiu com o início de uma rigorosa nevasca. Nana nos proibiu de ir e eu e o idiota viciado em baseball passamos a noite aqui, jogando videogame até o meio da madrugada e comendo Pocky.

"Onde você pensa que vai?"

"P-Para casa." Ele nunca teve problemas em lidar com a versão Arcobaleno do Tutor, mas encarar a versão adulta era uma história completamente diferente.

"Não, não vai." O Hitman aproximou-se de Tsuna e entregou a pilha de roupas de modo nem um pouco gentil. "Nana preparou uma troca de roupa para os dois e toalhas limpas. Está nevando."

"Eu ficarei bem!" Gokudera sorriu nervoso, caminhando na direção da saída e sem olhar para trás. "E-Eu te vejo amanhã, Juu—"

Ele nunca conseguiu dar aquele quarto passo. Uma grande e pesada mão o puxou pelo ombro, fazendo-o cair ajoelhado. A ponta do revólver encostou-se à sua bochecha e somente um dos olhos de Reborn era visto, pois o outro se omitia na sombra que a aba do chapéu projetava.

"Você está dizendo que não vai aceitar a gentileza de Nana?" O rapaz de cabelos prateados não ousaria responder, então apenas meneou a cabeça em negativo. "Ótimo, então estamos conversados."

Reborn levantou-se, guardando a arma na cintura e virando metade do corpo. A mesma pergunta foi feita a Yamamoto, contudo, a resposta foi uma alta e sonora gargalhada acompanhada de um animado "Eu não perderia uma festa do pijama por nada nesse mundo!" O tom despreocupado com que aquelas palavras foram proferidas fez Gokudera sentir-se tolo. Seu rosto estava corado, o coração batia rápido e ele odiava-se por precisar admitir que estava demasiado consciente da presença do idiota viciado em baseball.

x

Ele não era uma pessoa religiosa, mas rezou naquela noite para que a neve parasse de cair. Seus olhos encaravam a janela, sérios e pesados, esperando que alguma oportunidade surgisse para que pudesse retornar para casa. Passar a noite na casa de Tsuna sempre era uma honra, entretanto, naquela ocasião tudo o que ele desejava era voltar para seu velho e solitário apartamento, enrolar-se em um grosso cobertor depois de um banho quente e passar a noite assistindo a séries policiais enquanto fumava e bebia chocolate quente. Imaginar-se dividindo o mesmo quarto que Yamamoto parecia uma tarefa difícil, para não dizer impossível, ainda mais porque sabia que ambos dormiriam próximos.

O moreno, por sua vez, não parecia incomodado. Seu bom humor não havia mudado e ele e o Décimo se divertiam enquanto faziam planos mirabolantes para as férias de verão. Reborn, que havia retornado após o jantar, assistia a tudo da cama, limpando seu revólver e jogando água fria nos planos ao mencionar que com a formatura viria também a maioridade e isso significava que Tsuna seria oficialmente o Décimo Vongola. A ideia pareceu assustá-lo, e as risadas deram lugar a comentários negativos que eram facilmente afastados pelo otimismo do Guardião da Chuva, que afirmava que um final de semana na praia não atrapalharia o "jogo de máfia".

As esperanças de Gokudera caíram por terra quando Nana entrou no quarto acompanhada por I-Ping e trazendo os futons. Eles haviam tomado banho e jantado e não havia mais nada a fazer além de dormir. Seus olhos ainda fitaram a janela uma última vez, somente para ter certeza de que havia feito de tudo para evitar aquela situação.

"E-Err, bem, se possível, eu gostaria de dormir na sala."

Ele tirou os olhos da janela e encarou a direção de onde vinha a voz. Yamamoto coçou a nuca, desculpando-se e dizendo que por ser mais alto e encorpado ocuparia muito espaço e que ele e Gokudera acabariam dormindo em um local muito apertado.

"Eu realmente não me importaria em dormir no sofá, se não for pedir muito."

O Guardião da Tempestade mordeu o lábio inferior, fechando as mãos em forma de punhos e sentindo o delicioso jantar de Nana revirar em seu estômago. Ele está fazendo isso novamente. A gentileza do moreno acertava diretamente em seu orgulho, fazendo-o sentir-se mal por seu egoísmo. Ele provavelmente percebeu que eu estou desconfortável com a ideia de dormirmos lado a lado e não se importa em se sacrificar. Idiota!

O mesmo havia acontecido depois do beijo. O Guardião da Chuva voltou a dormir em seu quarto a partir da noite seguinte, mas só se recolhia depois que Gokudera já estava deitado e evitava que ficassem sozinhos no cômodo. Ele saía quando eu entrava, procurava alguma coisa para ocupar-se quando voltava do banho e, se por ventura nos encontrássemos em algum corredor, o incômodo de Yamamoto era tão real que eu conseguia sentir a tensão emanando de seu corpo.

"Está tudo bem," ele deu um passo à frente e pegou um dos futons da mão de I-Ping, "eu não me importo. É apenas por hoje."

O Braço Direito não sabia se aquela fora a decisão mais sábia, porém, seu orgulho jamais permitiria que o idiota se sacrificasse outra vez. O amigo poderia achar que o estava poupando, no entanto apenas o fazia sentir-se inútil e fraco, como se não fosse capaz de encarar a situação de frente. Bem, parte dele realmente gostaria de não precisar lidar com aquele problema, mas o que poderia ser feito naquela altura do campeonato? A reação de Yamamoto não o surpreendeu e os olhos castanhos o fitaram com seriedade, e ele deu de ombros, agradecendo Nana pela atenção e segurando seu futon.

Reborn desejou um silencioso boa noite, deixando os garotos arrumarem suas camas.

Eles já haviam passado algumas noites na casa de Tsuna, contudo, aquela foi a primeira vez que não houve conversas ou brincadeiras durante a arrumação. Como sempre, Gokudera ficaria próximo à cama e entre os amigos. Yamamoto mantinha a expressão séria e pareceu visivelmente desconfortável ao juntar os futons. Ele está nervoso.

O rapaz de cabelos prateados sentia um pouco de timidez por estar naquela situação, mas seu nervosismo havia passado. Quando Reborn entrou no quarto com as trocas de roupas, ele realmente cogitou fugir do Hitman e aventurar-se nas ruas geladas de Namimori. Ao lembrar-se de seu desespero, o Guardião da Tempestade sentia-se ridículo por dar tanta importância para algo tão simples. É somente uma noite. O que poderia acontecer?

O cansaço parecia geral, e o dia do colégio somado à sessão de estudos acabou roubando o entusiasmo dos amigos, que apenas trocaram olhares e se deram conta de que estavam exaustos. A única parada foi para escovar os dentes e usar o banheiro e a ordem foi decidida com uma partida de jan-ken-pon. Yamamoto saiu vitorioso, entretanto, o Braço Direito se recusou a aceitar tal resultado, ameaçando-o e dizendo que Tsuna tinha o direito ir primeiro. A escolha — além de ser a mais óbvia — mostrou-se certa, pois, ainda que houvesse sido o último a escovar os dentes, ao retornar para o quarto o Décimo já dormia profundamente.

"Eu vou apagar as luzes."

A janela do quarto estava fechada, porém, a cortina fora aberta para que o cômodo recebesse a luz da noite. O cômodo não era grande e com a pouca claridade era possível ver seu caminho e evitar os objetos que estavam pelo chão e que resultariam em uma bela queda. Gokudera pulou as pernas de Yamamoto, indo acomodar-se em seu futon e encolhendo-se todo após enrolar-se nos cobertores. O corredor estava gelado e ele ansiava por um pouco de calor para ajudá-lo a dormir. Eu geralmente fumo antes de ir para cama, mas precisarei lidar com isso.

O sono não veio como esperado, ainda que seu corpo implorasse por descanso. Ele virou-se no futon, ficando de barriga para cima e encarando as sombras que se projetavam no teto. Há um ano mais ou menos nós estávamos na mesma posição, mas tudo era diferente. Era engraçado, para não dizer trágico, como a vida era capaz de mudar em um curto espaço de tempo. Dormir na casa de Tsuna sempre significou conversas e brincadeiras até altas horas da noite. Nós jogaríamos e depois conversaríamos e dormiríamos somente porque não havia mais nada a ser dito. Até mesmo nessa hora havia desavenças, pois Gokudera achava que o moreno ocupava muito espaço, e acaba empurrando-o e assumindo parte de seu futon. Tudo mudou agora.

O último ano do ensino médio mostrou-se mais difícil do que o esperado e, além das matérias obrigatórias, havia reuniões da Família e o peso que o Décimo carregava em suas costas. Reborn o lembrava quase diariamente sobre o futuro dos Vongola e que tudo seria decidido quando Tsuna completasse 18 anos. Se a vida profissional não era um mar de rosas, o mesmo poderia ser dito sobre sua vida pessoal. Estar ali, lado a lado com o Guardião da Chuva, fazia-o pensar que no ano seguinte cada um provavelmente seguiria seu próprio caminho e noites como aquela aconteceriam com menos frequência. Yamamoto recebeu diversos convites para jogar em várias universidades. Ele nunca teve nenhuma obrigação com a Família, então acredito que sua escolha seja óbvia.

O pensamento o surpreendeu, principalmente porque era a primeira vez que ele permitia-se pensar sobre seu futuro. Desde que conhecera Tsuna, o rapaz de cabelos prateados sabia qual seria seu caminho e não tinha dúvidas ou medos de entregar-se de corpo e alma para os Vongola. Os demais Guardiões e suas posições nunca roubaram sequer segundos de pensamentos, pois parecia natural que permanecessem com a Família. Hibari Kyouya, por exemplo, embora continuasse a usar o discurso de que não fazia parte dos Vongola, jamais deu as costas quando o Décimo precisou. Todavia, aquela regra poderia ser aplicada a Yamamoto? De todos os Guardiões, o moreno sempre foi aquele com um pé na realidade e cujo envolvimento parecia o mais fácil de ser rompido. Ele e Sasagawa. Eles sempre tiveram escolhas.

Imaginá-lo deixando a Família não parecia irreal, no entanto, a sensação que tal pensamento o fez sentir não fora agradável. As sobrancelhas se juntaram e ele se deu conta de que sua mão estava sobre seu peito, apertando o pijama na altura do coração. A realização o fez corar, virando-se mais uma vez no futon e tentando ignorar as bochechas rubras. A atitude mostrou-se tola e os olhos verdes se arregalaram ao notarem que estavam sendo observados. Perdido em seus próprios devaneios, o Guardião da Tempestade não notou que a pessoa ao seu lado havia se virado e que o encarava. Yamamoto estava enrolado em seus cobertores, mas era fácil perceber que estava acordado.

O único som ouvido no quarto era a baixa respiração de Tsuna, contudo, Gokudera tinha certeza de que as batidas de seu coração eram tão audíveis quanto uma explosão de dinamites. Seu cérebro pedia para que seu corpo se virasse, entretanto, os músculos não obedeciam e os olhos se mantinham fixos naqueles que o observavam, mesmo que palavra alguma houvesse sido proferida. Por alguns minutos nenhum deles se moveu, perdidos em um instante aparentemente insignificante.

O rapaz de cabelos prateados moveu-se, então, acreditando que seu corpo finalmente ouviria os comandos de sua mente. Errado. Ele não se deu conta de que havia erguido a mão esquerda até vê-la tocar o rosto do moreno. A reação o trouxe de volta à realidade e a surpresa nos olhos castanhos foi recebida como um balde de água fria. O Braço Direito recolheu a mão e escondeu-se totalmente dentro dos cobertores, envergonhado por aquela atitude tão impensada. Por que eu fiz isso?!

Seu coração batia rápido e seria impossível descrever o que sentiu quando uma parte de seu cobertor foi erguida e alguém lhe foi fazer companhia. A escuridão o impossibilitava de ver, mas as respirações denunciavam que estavam perigosamente próximos. A razão o dizia para empurrá-lo, porém, havia algo mais, uma segunda voz que gritava em seus ouvidos para que ele permanecesse. Que aquela oportunidade não voltaria a acontecer. A mão grande e quente tocou seu rosto e a primeira voz desapareceu. As batidas de seu coração tornaram-se ritmadas, como se houvessem encontrado o compasso perfeito. Gokudera umedeceu os lábios e seu corpo moveu-se, assim como a pessoa à sua frente. Seus olhos se fecharam e ele experimentou seu segundo beijo.

Ele foi tão impetuoso e espontâneo quanto o primeiro. O moreno o devorava com os lábios, invadindo sua boca com uma furtiva língua e capturando-a totalmente. No entanto, dessa vez o rapaz de cabelos prateados não o empurrou ou retribuiu a carícia com um soco. Sua própria língua movia-se, desajeitada e apressada. Ao contrário da primeira vez, ele sentiu totalmente o momento e as sensações. O arrepio que lhe subia pelas costas era excitante e quanto mais os lábios se moviam mais fundo ele gostaria de ir.

As mãos do Guardião da Chuva o trouxeram para perto e os corpos se encaixaram. Gokudera sentiu os músculos embaixo da flanela do pijama e as pontas de seus dedos apertaram as costas de Yamamoto ao sentir o joelho tocar-lhe entre as pernas, pressionando seu membro e fazendo sua mente tornar-se totalmente branca. Seu corpo moveu-se devagar, ficando por cima e sem interromper a carícia, enquanto as mãos do moreno subiam por suas costas, sentindo a pele por baixo do pijama e apertando-a com desejo.

Em todos aqueles 17 anos o rapaz de cabelos prateados nunca havia sentido tanto desejo por outro ser humano. Quando estava sozinho em seus momentos de intimidade ele fantasiava com alguma revista ou vídeo erótico, sem pensar realmente em nada além da sensação de alívio. Todavia, o que sentia naquele instante era completamente diferente. Ele ansiava pelos toques, suspirando a cada novo lugar que o moreno tocava ou apertava e sem acreditar que seu corpo movia-se, esfregando-se ao dele e procurando sentir o máximo possível. A vergonha deu lugar à curiosidade e por longos minutos ele perdeu-se naqueles beijos e toques, esquecendo-se de tudo que não envolvesse línguas e apertões.

Os lábios se afastaram quando o Guardião da Tempestade retornou ao seu lugar. As pontas dos dedos de Yamamoto ainda brincaram com sua bochecha, acariciando-a gentilmente antes de se afastar. O moreno arrastou-se para fora do cobertor e ele permaneceu imóvel, ouvindo as batidas de seu coração. A realidade retornou pouco a pouco, fazendo-o corar violentamente e virar-se para o outro lado, quase entrando de baixo da cama de Tsuna. O que eu fiz? Seu corpo parecia estar com febre e os locais onde o idiota havia tocado latejavam. A ereção entre suas pernas levou lágrimas aos seus olhos, sem acreditar que se excitara daquela forma com um mero beijo trocado com outro rapaz... trocado com Yamamoto!

Todas as equações estudadas durante a tarde passaram por sua mente e Gokudera procurou relaxar. Ele se recusava a ir ao banheiro resolver seu problema, então não haveria nada a ser feito além de esperar que seu corpo se acalmasse. Aqueles foram sem dúvidas longos minutos e durante esse tempo o rapaz de cabelos prateados esperou que o desespero e arrependimento o assolassem, mas nada aconteceu. Aqueles conflitantes sentimentos que o dominaram na tarde da confissão e no primeiro beijo não apareceram e a realização o fez encolher-se, abraçando os joelhos e enrolando-se como uma bola.

Ao contrário da decepção e raiva que sentiu anteriormente, naquele momento seu único arrependimento era de não ter ido mais longe.

Continua...