Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring
7 Capítulo 07
"... moto."
"..."
"Ya..."
"..."
"YAMAMOTO!"
O sobrenome foi acompanhado por um empurrão e ele escorregou do banco, caindo sentado e olhando ao seu redor como se acordasse de um sonho. Acima, dois grandes olhos negros o fitavam e uma das sobrancelhas estava erguida.
"Desculpe..." Yamamoto levantou-se e bateu a poeira da calça. "Eu me distraí."
"De novo? Essa é a terceira vez na última meia hora!"
O moreno pediu novamente desculpas e prometeu que não se desviaria do foco. Seu olhar voltou ao campo e naquele momento ele se deu conta do quão errado era estar ali quando sua mente estava em um local completamente diferente. Eu não consigo parar de pensar nele. O time de baseball fazia um jogo-treino contra um colégio vizinho, mas o Capitão não era parte do time. Sua função era observar a partida e ver daquele ponto de vista o que poderia ser mudado para os jogos da semifinal. Entretanto, desde a última sexta-feira não havia nada em sua mente além de Gokudera e o beijo trocado na casa de Tsuna.
O acontecimento havia sido tão extraordinário que naquela noite ele pegou no sono quando o dia já começava a nascer. Todas as demais horas foram passadas encarando a parede do seu lado do quarto, enquanto sua mente tentava processar o que havia acontecido. Eu não conseguia acreditar que havíamos nos beijado outra vez. Meu corpo simplesmente se moveu.
O toque em seu rosto foi definitivamente o catalisador e parte dele tentava entender porque o amigo não o havia explodido com seus fogos de artifício. Depois do fiasco em sua casa, o Guardião da Chuva havia finalmente aceitado que seu amor estava fadado ao fracasso e ao esquecimento. O rapaz de cabelos prateados jamais o aceitaria e o soco recebido doeu muito mais em seu orgulho do que em sua face. Porém... A imagem diante de seus olhos sumira e um forte golpe acertou-lhe na nuca. Ele desculpou-se por se distrair mais uma vez, no entanto, seus ombros se encolheram e foi impossível não suspirar.
"Por mais que eu entenda o que você esteja passando, nada mudará se você não conversar com o rapaz." A voz soou mais baixa.
"Eu não acho que seja uma boa ideia. Ele já deixou claro que não tem o mesmo interesse."
"Quando?"
"Há alguns meses..."
"Pelo que você me contou, ele parece diferente do cara que te deu o fora." Ela suspirou. "Eu não acredito que estou aconselhando o garoto que eu gosto a investir em outra pessoa. O que eu sou?"
Yamamoto riu e desculpou-se, coçando a nuca e sentindo-se tolo. Rina também riu, empurrando-o e voltando a encarar o campo. Vê-la sorrir significava mais do que ele poderia explicar e se não fosse por sua amizade o moreno não saberia como lidar com aquela situação. Há algumas semanas ela havia se confessado, contudo, seus sentimentos foram rejeitados. Eles provavelmente não teriam se encontrado novamente se não fosse um aleatório jogo de baseball. O Guardião da Chuva decidiu assistir ao campeonato entre as universidades, pensando em arejar as ideias e esquecer um pouco a rejeição de Gokudera. Rina estava sentada na arquibancada, torcendo animadamente para o time da casa.
Os dois se viram, cumprimentaram-se e, ao final do jogo, estavam rindo e conversando como velhos conhecidos. O irmão mais velho de Rina jogava para a universidade que sediava a partida e ela era fã de baseball. Yamamoto foi guiado até os vestiários e conheceu os demais jogadores, além de ser prensado e apertado por desconhecidos que pareciam animados em tê-lo um dia no time.
Depois daquele dia a amizade com a garota aconteceu de maneira natural e quando o inevitável assunto da confissão retornou, ele não teve meios de negar ao ser questionado se havia alguém em seu coração. Rina não se abalou ao ouvir que meu interesse era outro rapaz. Eu não mencionei Gokudera, mas ela apenas deu de ombros e disse que sua situação era impossível. Quando perguntei se não achava estranho, Rina suspirou e disse que seu irmão mais novo também gostava de outros garotos.
"Sabe qual o seu problema, Yamamoto?" Rina apontou para o rebatedor que assumiu o posto. "Você é muito gentil... com todo mundo! Sakamoto-kun, por exemplo. Semana passada você deixou que ele faltasse em dois treinos, mesmo sabendo que precisaria dele para este jogo."
"S-Sakamoto está tendo alguns problemas em casa..."
"Todos temos problemas! Ele está tentando uma bolsa na Universidade K, não? Se não treinar, jamais conseguirá entrar. Você precisa ser mais impiedoso, Yamamoto. As pessoas se aproveitam da sua bondade e indecisão, como esse garoto..."
"Ele não é assim."
"Ele pode não ser, mas por quanto tempo continuará a empurrar a situação com a barriga? Já faz mais de uma semana! Como você pode beijar alguém e agir como se nada tivesse acontecido por uma semana inteira?"
A verdade por trás daquelas palavras era tão inegável que ele não ousava refutar. Rina era extremamente direta e não fazia cerimônias quando queria dizer alguma coisa. O moreno havia se acostumado com aquele jeito de ser e sentia-se um pouco encurralado, mas gostava de ter por perto alguém que o trouxesse de volta à realidade. Ela poderia ter aparecido antes de eu ter me confessado. Talvez as coisas tivessem seguido outro caminho.
Durante aqueles dias nenhum deles disse nada e o assunto do beijo nunca foi mencionado. Gokudera deixou a casa de Tsuna antes que ele acordasse e na segunda-feira ambos agiram como se nada tivesse acontecido. Com a temporada de baseball no auge era impossível encontrar tempo para conversarem a sós, e os dias se passavam e se acumulavam sem que ele conseguisse pensar no que deveria fazer para obter a resposta para a pergunta que vinha martelando em sua mente.
O jogo terminou e Namimori saiu vitoriosa, embora por muito pouco. O Guardião da Chuva conseguiu focar-se nos minutos finais e, com as observações de Rina, pôde notar o que precisaria ser mudado e melhorado para o jogo oficial. Os jogadores se cumprimentaram e agradeceram pela partida e o Capitão juntou-se a eles para a celebração. A real comemoração aconteceria em uma sorveteria e por algumas horas ele sabia que conseguiria esquecer um pouco sobre aquele outro assunto e focar-se no momento presente. A garota despediu-se com um aceno e, ao vê-la se afastar, foi difícil não ponderar que tudo seria mais fácil se ele fosse capaz de se apaixonar por ela. Infelizmente, seu coração estava totalmente preenchido por certo garoto de cabelos prateados que adorava fogos de artifício.
x
O final de semana foi tão atarefado quanto ele esperava. O time se reuniu no sábado e no domingo e as mudanças começaram a surtir efeito. As semifinais seriam em duas semanas e era preciso dar o melhor de si para atravessarem aquela inédita classificação, visto que era a primeira vez que o colégio Namimori chegava tão longe em um campeonato.
Havia chances reais de vitória, além da oportunidade de receber convites de universidades que estivessem procurando por novos talentos. Yamamoto, entretanto, ainda ponderava a respeito dos convites que recebera e sentia-se indeciso com relação ao futuro. Ele sabia que teria de tomar uma decisão, mas tinha consciência de que ela precisaria ser adiada, pelo menos até o final do campeonato.
O restante do domingo foi utilizado para fazer a lição de casa e o moreno cantarolava baixo enquanto resolvia os exercícios. Devido às sessões de estudo na casa de Tsuna, alguns pontos haviam ficado claros e era fácil ver os resultados dos ensinamentos espartanos do Guardião da Tempestade. O amigo, por outro lado, só passou a ser o foco de seus pensamentos na hora de dormir. Ele deitou-se em sua cama, enrolado em dois cobertores e encarando o teto do quarto. A cena o fez lembrar-se da véspera do dia de sua confissão e em como seu coração batia rápido ao imaginar-se expondo aqueles sentimentos.
Meses depois do ocorrido, seu coração ainda batia rapidamente ao pensar em Gokudera, todavia, as tristezas que seguiram a confissão criaram pequenas fissuras em seu peito, o que tornava impossível nutrir a mesma animação e otimismo. A recordação do beijo ainda era doce em seus lábios, mas o Guardião da Chuva tentava ao máximo não deixar-se iludir. Ele já havia sido machucado uma vez e temia investir e ouvir uma segunda rejeição ou pior, talvez o rapaz de cabelos prateados ficasse tão saturado com sua persistência que achasse que o melhor a fazer era que se afastassem. Perder sua amizade parecia tão doloroso que a simples menção o fazia desistir automaticamente de uma nova conversa.
Gokudera é realmente uma pessoa misteriosa. Eu gostaria que ele fosse mais claro com seus próprios sentimentos. Por trás dos olhos fechados ele podia relembrar com mais vivacidade o beijo trocado na casa do Décimo. O Guardião da Tempestade tinha um beijo um pouco desajeitado, o que o fez pensar que talvez não tivesse muita experiência. A ideia foi suficiente para fazê-lo corar, sentindo-se honrado por ter sido capaz de envolvê-lo daquela maneira. Nós nos beijamos e nos tocamos e eu pude senti-lo realmente em meus braços. Foi... incrível.
Um baixo toque chegou aos seus ouvidos, porém, ele precisou de alguns segundos para conseguir identificar a origem. A mão esquerda esticou-se, tateando a cômoda à procura do aparelho celular. O objeto dançou entre seus dedos e quase caiu ao chão antes de ser levado até a orelha que estava livre.
"Alô..." A voz soou rouca e um pouco sonolenta. Ele estava naquele estado de quase sono.
A pessoa do outro lado não respondeu de imediato e por um instante Yamamoto suspeitou que a ligação houvesse sido um engano. Talvez seja para o restaurante.
"Yamamoto...?"
Os olhos castanhos se abriram e seu corpo sentou-se na cama imediatamente. A mão apertou o celular e todo o sangue de seu corpo pareceu estar concentrado em suas bochechas.
"G-Gokudera?"
"Você estava dormindo?"
"Somente deitado, aconteceu alguma coisa?"
Uma nova pausa. Havia alguns ruídos ao fundo que o fizeram acreditar que Gokudera não estivesse em seu apartamento.
"Eu não sabia. Eu achei que você estivesse acordado... o restaurante está aberto..."
"Hoje é aniversário de um cliente antigo e ele escolheu o restaurante para comemorar," o moreno piscou longamente e franziu as sobrancelhas, "como você sabe que o restaurante está aberto?"
Seu corpo projetou-se à frente antes de ouvir a resposta.
A cortina foi afastava e palavras não seriam capazes de descrever o que ele sentiu ao vê-lo parado do outro lado da calçada do restaurante. O rapaz de cabelos prateados vestia calça jeans e uma jaqueta de couro, e somente as pontas de seus cabelos eram visíveis através da touca negra. Uma das mãos foi erguida e o Guardião da Chuva tremeu ao retribuiu o gesto, tocando o vidro da janela.
"Você estava dormindo, então conversaremos am—"
"Um minuto!" Ele colocou-se de pé e apressou-se em livrar-se da calça do pijama. "Eu desço em um minuto."
"Não é importante, nós pode—"
"Gokudera," Yamamoto parou e aproximou os lábios do aparelho celular. Seu coração batia tão rápido que chegava a doer. "Por favor."
Não houve resposta, a princípio, mas a ligação não foi encerrada. Uma baixa respiração provou que havia mais.
"Amanhã, depois da aula, no terraço."
O moreno mordeu o lábio inferior, tentado a largar tudo e descer, mesmo de pijama, para saber o que era tão importante para fazê-lo deixar sua casa e aparecer de repente em frente ao restaurante. No entanto, parte dele estava com medo do que aquilo pudesse significar e foi essa dúvida que o impediu de ser mais espontâneo. O baixo "Certo..." deixou seus lábios quase como um suspiro e a ligação foi encerrada. O Guardião da Tempestade ergueu o rosto uma última vez antes de enfiar as mãos nos bolsos e seguir pela rua. Aquela imagem jamais deixaria suas lembranças e ele permaneceu à janela até vê-lo desaparecer na primeira esquina.
O dia seguinte passou como um borrão. Ele lembrava-se de pedaços, fragmentos de conversas e ações que pareciam não ter muita importância. Os três amigos seguiram juntos ao colégio e se conservaram lado a lado durante todo o dia. O almoço foi feito na sala de aula, pois o terraço não era um dos melhores locais naquela época do ano. O Guardião da Chuva riu e se divertiu, mas tudo estava diferente. Seus olhos não cruzaram com os de Gokudera uma única vez e não houve menção da ligação feita na noite passada. O amigo, por sua vez, parecia o mesmo, sem demonstrar nenhuma pista sobre o assunto daquela conversa.
O último sinal marcou o final das aulas, contudo, não para os alunos responsáveis pela limpeza da classe, incluindo ele próprio. O rapaz de cabelos prateados colocou a mochila nas costas, afirmando que acompanharia Tsuna até sua casa. Yamamoto nada disse, e somente naquele instante os dois finalmente se encararam. O momento foi rápido, mas o bastante para que ele tivesse certeza de que Gokudera voltaria.
Os alunos esvaziaram a sala, ele espreguiçou-se antes de ficar em pé e seus olhos castanhos fitaram o céu nublado através da janela. Embora estivesse com medo do que ouviria, a curiosidade em saber o teor daquela conversa era infinitamente maior. Eu nunca gostei de mal-entendidos ou meias palavras. Uma das garotas ofereceu-lhe uma vassoura e Yamamoto puxou a própria bochecha antes de começar a varrer.
Os três lances de escadas nunca pareceram tão longos. A cada andar ele sentia a temperatura cair um pouco mais e, ao atingir o topo, foi como se uma rajada de vento o atravessasse, invadindo sua pele e arrepiando-o. Sua companhia já havia chegado, recostada à grande e encarando o visor do celular. O moreno aproximou-se devagar, vendo sua respiração descompassada transformar-se em fumaça ao deixar seus lábios. O Braço Direito guardou o celular no bolso e ergueu os olhos. A seriedade em seu rosto abalou imediatamente qualquer otimismo que Yamamoto pudesse ter.
Poucas coisas na vida eram capazes de fazê-lo sentir-se encurralado. Aquele momento entraria fácil para a lista e foi com certa relutância que ele continuou a caminhar. Fosse qualquer outro dia e qualquer outra circunstância, o pedido para uma conversa a sós em um final de tarde seria aceito de braços abertos, entretanto, depois de tudo o que haviam passado seria um pouco inocente de sua parte acreditar que aquela conversa fosse ter uma conclusão positiva.
A cada passo o moreno sentia como se aquela fosse a última vez que teriam a chance de estarem sozinhos. A tensão foi tanta que ele decidiu colocar as mãos dentro do bolso da jaqueta do colégio, já que não sabia o que fazer com elas. Quando o último passo foi dado suas emoções estavam tão bagunçadas que ele parou de sentir frio. Tudo o que importava era o que viria em seguida.
Gokudera desencostou-se da grade e virou-se. Os dois amigos ficaram frente a frente, separados por uma distância de cerca de cinco passos e foi impossível não se recordar do dia de sua confissão. É engraçado como podemos viver uma mesma situação, mas com sentimentos tão diferentes. Naquela tarde eu estava tão feliz... Ambos estavam com as mãos nos bolsos e partiu do amigo a iniciativa para a conversa. A mão direita deixou o conforto da jaqueta e os dedos tocaram os fios prateados, colocando a franja atrás da orelha.
"Ouça, Ya..."
Ele recuou por puro instinto ao vê-lo dar um passo à frente. Aquele simples movimento pareceu ter despertado alguma coisa no Guardião da Tempestade, que arregalou os olhos e calou-se no mesmo instante. O vento voltou a soprar, desfazendo o esforço que ele tivera em colocar a franja atrás da orelha. Entretanto, não houve tentativa de tentar domar o cabelo. Os olhos verdes encararam o chão por algum tempo e Gokudera continuou.
"Eu sinto muito..." A voz naturalmente rouca soou baixa e para qualquer outra pessoa teria sido quase impossível decifrar aquele meio suspiro, mas não ele. Por anos Yamamoto ouviu aquela voz em diversas situações diferentes e seu timbre estava marcado dentro dele. O moreno ousaria dizer que mesmo que fosse colocado em uma multidão aos gritos ele certamente conseguiria identificá-lo. "Pelas coisas que eu disse na última vez que estivemos aqui. Eu realmente sinto muito."
"Você não precisa se preocupar com isso. É passado."
"Mesmo?" A pergunta foi seguida por um significativo olhar e Yamamoto sentiu o estômago dar voltas. Era muito difícil manter-se impassível e sem poder assumir seus sentimentos.
"Eu apenas me surpreendi com o seu passo, só isso." Ele desconversou. De certa forma aquela foi uma meia verdade. O moreno foi pego de surpresa ao vê-lo se aproximar, mas foi por temer o soco que levara em sua casa. Gokudera poderia ser mais baixo e franzino, porém, depois daquele dia ele não faria questão de provar seu punho outra vez.
"Eu não te culpo por isso, não depois de tudo..."
O silêncio voltou a pairar sobre eles e o Guardião da Chuva tirou as mãos dos bolsos, sentindo-se penalizado. Era clara a maneira como o Braço Direito lutava contra si mesmo para estar ali e depois dos minutos iniciais ele começava a entender a razão. Gokudera é uma boa pessoa. Ele até se deu ao trabalho de me chamar aqui para se desculpar. Um longo suspirou chamou a atenção de sua companhia e o largo sorriso, sua marca registrada, finalmente apareceu.
"Eu realmente agradeço por ter me chamado aqui, mas você não precisa se esforçar tanto, Gokudera." Pensar que o rapaz de cabelos prateados não pretendia cortar laços ou afastar-se de sua vida era o melhor desenrolar que ele poderia pedir para aquela história. "Você não fez nada que mereça um pedido tão formal de desculpas e sou eu quem deveria pedir perdão. Eu te machuquei tanto nesses últimos meses que me surpreende que você ainda tenha vontade de estar ao meu lado. Por duas vezes eu quebrei minhas promessas. Eu disse que aceitaria sua decisão, mas na primeira oportunidade que tive eu me aproveitei da situação e, mesmo depois de você ter me colocado em meu devido lugar, eu passei dos limites aquele dia na casa de Tsuna."
A cada palavra Yamamoto percebia o quão injusto e egoísta estava sendo com o amigo. Depois de tudo o que passaram, teria ele qualquer direito de tê-lo ao seu lado? Seria saudável e seguro manter a pessoa que ele tanto amava tão próximo e ao alcance de suas mãos? E eu não sei até quando poderei me controlar. Antes eu apenas imaginava como seria tê-lo ao meu lado, sentir seu cheiro, seu gosto... mas agora que sei, é como se eu fosse uma bomba relógio esperando o momento mais oportuno para explodir. Talvez Gokudera nunca esteja a salvo ao meu lado.
"Acredito que talvez seja melhor se nos afastássemos um pouco. D-Digo, eu continuo gostando de você e não consigo parar de pensar naquela noite e... e eu não quero esquecer seu beijo e..."
"Por favor..." O rapaz de cabelos prateados ergueu uma das mãos e abaixou o rosto. O arrependimento por ter dito aquelas palavras foi quase palpável. "Pare..."
"Desculpe..." O moreno passou as mãos pelos cabelos e sentiu os olhos brilhando em lágrimas. "Eu não falarei mais sobre isso, nunca mais, eu prometo!"
"Como você pode falar essas coisas tão... diretamente?" O Guardião da Tempestade ergueu o rosto absurdamente corado. "C-Coisas como sentimentos e b-be-beijos?"
"Por muito tempo eu apenas os imaginei. Eu nunca realmente pensei em me confessar a você. Eu achei que estava satisfeito te amando de longe, mas eu estava errado. Quanto mais próximo eu me tornava, mais difícil era voltar ao que eu costumava sentir."
Gokudera passou a mão na nuca e olhou ao redor como se procurasse por algo. O tom pálido retornara às suas bochechas, todavia, os olhos possuíam um brilho diferente.
"O que você me falou naquele dia me deixou muito bravo. Eu achei que você estivesse brincando. Parte em mim se sentiu traída, por que depois de anos você decide me dizer aquelas coisas? Eu? Um cara?" Ele encarou o céu que ainda possuía a claridade do dia. "Mas depois eu percebi que você estava falando sério. Você não estava me usando ou tirando sarro..."
"Eu nunca faria isso."
"Eu sei, está bem?!" O tom de voz tornou-se mais alto e os olhos verdes mais agressivos. "Eu desejei que fosse apenas uma brincadeira, uma loucura de momento e que com o tempo acabaríamos esquecendo aquilo. Mas... você..." As mãos fecharam-se em forma de punhos e ele cerrou os dentes. "Você me fez pensar naquelas coisas... coisas que jamais passaram pela minha cabeça e agora..."
"E agora...?" Yamamoto não notou que havia dado um passo à frente. Os sons das batidas de seu coração eram altos o bastante para roubar-lhe toda a atenção.
"Agora eu não consigo parar de pensar nisso! Em você e no que fizemos na casa do Juudaime..."
Ele não sentiu os passos, apenas se deu conta de que havia andado ao parar em frente a Gokudera. Os dois se entreolharam, expressões diferentes, no entanto, sentimentos tão similares que seria impossível não perceber que falavam a mesma língua, que aquelas eram as mesmas emoções. O Guardião da Chuva lutava contra a vontade de trazer à tona aquelas palavras e tornar real a maior dúvida de sua vida. Seria possível? Ele ousaria?
"Eu quero perguntar, mas não o farei, pelo menos não agora." Toda a coragem que ele possuía fora direcionada ao que viria em seguida. "Eu só quero ter certeza de que estamos falando sobre a mesma coisa, porque eu não sei se suportaria um mal-entendido. Naquela noite, na casa de Tsuna, você odiou? Quando eu te beijei e te toquei, você se sentiu enojado e com vontade de me bater?"
O rapaz de cabelos prateados precisou erguer o rosto para poder encará-lo diretamente devido à diferença de altura.
"U-Um pouco... de vontade de te bater."
"Mas você não detestou o que fizemos, não é?" O moreno virou um pouco o rosto para o lado. Sua voz era um misto de provocação e alegria.
A resposta foi um simples menear de cabeça. Para Yamamoto, contudo, aquilo significou o mundo. Os meses de tristeza e rejeição pareceram insignificantes perto daquela quase inexistente demonstração de carinho e reconhecimento. Eu realmente amo essa pessoa! Uma de suas mãos esticou-se, segurando a de Gokudera e a erguendo o suficiente para que os dedos se entrelaçassem. O Braço Direito mantinha-se imóvel, visivelmente tenso e lutando contra aqueles novos sentimentos.
"Uma chance. Tudo o que eu peço é uma chance, alguns dias ou semanas para que você entenda o que está sentindo. Se depois desse tempo você perceber que não sente o mesmo, então esqueceremos essa história." Ele não sabia explicar de onde tirava coragem para fazer aquela proposta, mas tinha certeza de que se não tentasse acabaria se arrependendo pelo resto da vida. "Se existir qualquer dúvida em você, Gokudera, por favor..."
O Guardião da Tempestade calou-se e abaixou o rosto. A espera para a resposta foi sem dúvida a pior parte, muito mais intensa e angustiante do que as horas passadas até o momento da conversa. A tola esperança tomava a forma de uma linha invisível em que ele se agarrava com todas as suas forças. Uma palavra. Uma palavra daquela pessoa e tudo mudaria.
"Duas semanas," Gokudera murmurou baixo, mas logo sua voz ganhou força, "eu darei minha resposta em duas semanas."
"Então, por duas semanas..."
"Você pode fazer o que quiser..."
"Q-Qualquer coisa?!"
"Yamamoto, seu idiota!" O chute foi acompanhado por uma energética repreensão.
"Hahahaha eu estava brincando, brincando..." Ele tentava ignorar a dor em sua perna direita. Havia coisas muito mais importantes para se preocupar do que uma canela dolorida. "Mas eu falo sério sobre essas semanas e prometo dar o meu melhor para te conquistar!"
"Eu estava pensando em uma semana, mas você tem o baseball idiota para se preocupar..."
Gokudera deu de ombros, tateando a roupa e pegando o maço de cigarros. Entretanto, uma grande mão o parou, voltando a colocá-lo novamente no bolso.
"O que você pensa que está fazendo, maldito?"
"Você não pode fumar, Gokudera, pelo menos não agora."
As sobrancelhas prateadas se juntaram e ele recuou um passo ao entender o significado por trás daquela frase.
"V-Vamos começar agora?"
"Eu não vou perder um minuto."
Yamamoto sorriu de orelha a orelha. Uma de suas mãos o puxou pela cintura em um único movimento, juntando os corpos e percebendo o quão simples era envolver aquela pessoa. Na noite na casa de Tsuna ele estava tão nervoso que não pôde notar certos detalhes que pareciam claros naquele instante. Gokudera era menor, tanto na altura quanto o porte físico. O moreno estava acostumado a pessoas pesadas, visto que muitas vezes acabava esbarrando em outros jogadores, a maioria com o mesmo porte físico que ele. O corpo em seus braços era masculino, porém, parecia tão quebrável e delicado que seu braço precisou apertá-lo um pouco mais somente para garantir que não escorregasse.
A mão direita tocou a face rubra e o moreno umedeceu os lábios antes de abaixar o rosto. A pessoa em seus braços tremeu, tocando-lhe no peito com as mãos e tentando empurrá-lo, mas sem muita convicção. As bocas se encontraram devagar e, ainda que seu corpo ansiasse por devorá-lo de uma vez, ele sabia que aquela atitude serviria apenas para afastá-lo.
O rapaz de cabelos prateados permaneceu imóvel nos movimentos iniciais, no entanto, não demorou a entender o que deveria ser feito. Os lábios se moviam devagar, como o início de uma dança em que o casal está tímido para esboçar movimentos mais ousados. A língua do Guardião da Chuva pediu passagem e Gokudera suspirou, relaxando automaticamente. A reação não o surpreendeu mais do que a maneira como os punhos se abriram e as mãos tocaram seu peitoral, subindo até os ombros e apertando-os.
O beijo teve a mesma paixão daquele trocado embaixo das grossas camadas de edredom e sua razão dissipou-se nos segundos iniciais. Ele havia desistido de acreditar que um dia pudesse ter um final feliz ao lado de Gokudera, e pela primeira vez desde que se deu conta de que estava apaixonado havia a chance de transformar aquele sonho em realidade.
Então ele lutaria. Daria o seu melhor para fazer com que o Guardião da Tempestade se apaixonasse completamente por ele.
E, quando aquelas semanas terminassem, Yamamoto finalmente faria a pergunta que o assolava há anos: Você me ama, Gokudera?
Continua...
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