Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring
5 Capítulo 05
"A sopa está pronta," ele desligou o botão do fogão e seu corpo deslizou até o armário do lado da geladeira, pegando as tigelas e saindo da cozinha após enchê-las com a sopa miso. A mesa estava parcialmente arrumada, esperando somente os pratos serem postos.
"Mais cinco minutos." O comentário soou alto do cômodo ao lado. "Você pegou os hashis?"
"Sim~"
Yamamoto espreguiçou-se antes de voltar à cozinha, esperando ser útil de alguma maneira.
Gokudera estava em frente ao fogão, virando as omeletes e parecendo incrivelmente concentrado em tal tarefa. Os cabelos prateados estavam presos em um discreto rabo de cavalo e em sua cintura havia um avental negro que tornava difícil que seu uniforme fosse manchado. Os olhos castanhos se encheram com a visão e seus lábios formaram um tolo meio sorriso. Ele havia se acostumado àquela cena, mas não se cansava de sentir-se afortunado por ter a chance de poder vê-la todas as manhãs.
Há uma semana o Guardião da Tempestade chegou à sua casa, porém, a sensação era que ambos coabitavam há anos. Inicialmente, Gokudera mostrou-se tímido e um pouco contrariado. O caminho da casa de Tsuna foi feito em silêncio e sua companhia só abriu a boca ao parar em frente a Tsuyoshi, na entrada do restaurante. O pai riu ao ouvir a polidez com que era tratado e bateu várias vezes nos ombros do rapaz, afirmando que era um prazer tê-lo e que ele poderia permanecer pelo tempo que quisesse. Gokudera corou e disse que trabalharia para merecer aquele teto, mas tudo o que meu pai fez foi rir.
A casa dos Yamamoto não era grande, o suficiente para comportá-los adequadamente. O restaurante ficava na parte de baixo e em cima existiam os demais cômodos. O rapaz de cabelos prateados dividiria o mesmo quarto que o moreno e já havia sido colocado um futon ao lado da cama, além de roupa de cama e cobertores extras. As malas foram deixadas em um canto próximo à escrivaninha, no entanto, ele declinou a sugestão de arrumar suas roupas em uma parte vazia do guarda-roupa.
A adaptação levou mais tempo do que o Guardião da Chuva esperava, ainda que ele tentasse ao máximo fazê-lo sentir-se em casa. Gokudera nunca foi uma pessoa de muitas palavras, contudo, nos dois primeiros dias, que coincidiram com o final de semana, ele só abriu a boca para atender aos clientes no restaurante. Ele fez questão de acordar cedo no sábado e até ajudou na limpeza. Embora um pouco sério e sem muita paciência, os clientes pareceram gostar de ver um rosto novo entre as mesas, principalmente os mais antigos, que não perderam tempo em fazer piadinhas sobre "o novo filho de Tsuyoshi".
No meio da semana, entretanto, o Guardião da Tempestade foi o primeiro a acordar e surpreendeu a todos por ter preparado o café da manhã. Yamamoto precisou dar o melhor de si para não deixar transparecer sua felicidade por aquele gesto, visto que provar uma refeição feita por seu amor não correspondido era um de seus sonhos pessoais. As omeletes estavam deliciosas e o arroz com o tempero ideal, a ponto de ele sugerir que revezassem o preparo das refeições. A proposta foi aceita e fez com que o moreno sentisse que só precisaria de mais alguns dias para que a estranheza de seu hóspede terminasse.
Os esforços deram resultado e naquela sexta-feira eles já agiam como se não houvesse nada mais natural do que dividirem as tarefas. Gokudera trouxe os dois pratos com as omeletes, sentando-se e começando a comer após agradecer pela refeição. Ele está com pressa e não quer deixar Tsuna esperando. O Guardião da Chuva sorriu, acostumado ao favoritismo e sem se importar realmente com aquele tipo de coisa. Poucas palavras foram trocadas durante o café da manhã e elas envolveram a limpeza da sala depois das aulas e os treinos de baseball. Nós voltamos juntos para casa, então na maioria das vezes Gokudera é quem me espera.
Aquele hábito começava a tornar-se rotineiro e parte dele temia apegar-se demais àquela vida, já que a estadia do amigo tinha prazo de validade. O Braço Direito havia falado com o dono do imóvel na terça-feira e soube que em duas ou três semanas seria possível retornar ao prédio. Devido ao incidente, todos os moradores foram agraciados com dois meses de aluguel e a promessa de que tal incidente não voltaria a acontecer.
Yamamoto sabia que seus sentimentos com relação ao acontecido eram conflitantes e aquilo o fazia perder o sono durante as noites, sentindo-se desmerecedor da amizade de Gokudera por desejar que ele nunca mais deixasse aquela casa. Meu coração bate rápido todas as vezes que estamos sozinhos em meu quarto. Eu achei que houvesse superado aquele amor, mas tudo o que precisei foram alguns dias para ter certeza de que ele é a pessoa que realmente amo.
Os pratos foram lavados e secados e em minutos os dois deixavam a residência pela porta do restaurante. Tsuyoshi limpava o local com seus ajudantes, acenando alegremente aos vê-lo sair. O rapaz de cabelos prateados apertou o passo antes de virar a esquina e ele moveu-se na mesma velocidade, rindo ao vê-lo irritado com a sua pseudo-demora. Deixar Tsuna esperando estava fora de cogitação e, mesmo que soubesse que chegariam muito antes e precisariam esperar, seria tolice perder a chance de passar algum tempo na companhia daquele que se tornara tão querido em seu coração.
Os dias eram basicamente iguais quando estavam no colégio e pouca coisa realmente se sobressaia. As matérias o faziam bocejar e cochilar, sendo acordado na maioria das vezes por alguma borracha voadora ou cutucão com a régua. O Guardião da Tempestade o olhava com ira, ameaçando-o com gestos um pouco obscenos e prometendo que se ele atrasasse Tsuna as coisas ficariam complicadas. O moreno, em particular, sabia que aquela delicadeza era responsável por manter suas notas nos eixos, já que as sessões de estudos iniciaram-se naquela semana. Por ser seu último ano como capitão do time de baseball, ele tinha uma grande responsabilidade não apenas com os colegas mas consigo mesmo.
Naquela tarde, todavia, não haveria grupo de estudos e ele dedicou-se por completo aos treinos. O próximo jogo oficial aconteceria em algumas semanas e havia certos movimentos e jogadas que poderiam ser melhoradas. Gokudera seria um dos responsáveis pela limpeza da sala, portanto os dois estariam livres quase ao mesmo tempo. Não havia sol quente ou clima abafado para desanimar os rapazes e o Guardião da Chuva divertiu-se durante as horas que passou correndo e rebatendo bolas. O tão esperado banho foi acompanhado por risadas e brincadeiras tolas e ele deixou o vestiário sentindo-se limpo, revigorado e... surpreso.
Ela desencostou-se na parede e ambos ficaram frente a frente, encarando-se e conservando-se naquele confuso silêncio. Yamamoto juntou as sobrancelhas, coçando a nuca e pronto para perguntar quem era sua nova companhia, mas ela fora mais rápida, dando um passo à frente e fazendo uma polida reverência que foi acompanhada por um pedido para uma caminhada. Ele pensou em consultar o relógio em seu pulso, porém, achou que seria muita indelicadeza de sua parte. A resposta foi sorridente e positiva e ele sugeriu que dessem a volta pelo ginásio.
O moreno nunca foi realmente popular, pelo menos em sua opinião.
Seu jeito e personalidade atraíam as pessoas, no entanto, havia no colégio garotos que possuíam uma verdadeira legião de fãs. Não somente garotos. A passagem de Dino como professor foi um verdadeiro furacão. Eu quase pude ver os corações pelos corredores. Ele, por sua vez, acostumou-se com a atenção que recebia e já colecionava algumas declarações, apesar de somente uma delas ter sido aceita. Os motivos não foram os mais honestos e o Guardião da Chuva não se orgulhava de tê-la aceitado unicamente para ter certeza de seus sentimentos. O tal do namoro durou um mês, e o mais longe que chegaram foi um longo beijo de despedida ao anunciar que gostaria de terminar o relacionamento.
Sua história amorosa aconteceu no primeiro ano do ensino médio e desde então não houve ninguém em sua mente e coração além do amigo. Como todo rapaz de quase dezoito anos, Yamamoto não negaria que sentia falta de contato com outro ser humano, contudo, não era de sua índole se envolver superficialmente com alguém apenas para alívio físico. Seus momentos íntimos aconteciam, fosse no banho ou antes de dormir, mas não envolviam corações partidos e substituições. Nenhuma garota merece estar com alguém pela metade. Se for para me envolver que seja por inteiro.
Eles caminharam até o limiar entre o ginásio e a terceira entrada do colégio. Havia algumas árvores espalhadas e o som das folhas fazia barulho ao serem carregadas pelo vento. Algumas vozes e risadas eram ouvidas ao longe e foi naquele local que a garota pediu que parassem, questionando se ele havia recebido sua carta.
Por um momento o moreno permaneceu quieto, tentando se lembrar de tal acontecimento. O envelope rosado surgiu em algum canto de sua mente, colocado dentro do armário e em cima de seus sapatos. O envelope que Gokudera pegou do chão. Seu conteúdo fora descoberto ainda naquela noite, enquanto ele se preparava para arrumar a cama para dormir. Ali havia algumas linhas cheias de belos sentimentos que infelizmente não poderiam ser retribuídos. E isso foi há semanas...
"Eu sinto muito," o Guardião da Chuva deu a única resposta que poderia. Qualquer coisa além daquelas três palavras seria uma mentira.
"Existe alguma chance de eu te fazer mudar de ideia?" A garota não parecia tímida ou reprimida. Ela vestia o habitual uniforme do colégio, entretanto, o laço estava arrumado como uma gravata mal ajeitada e suas mãos estavam dentro da jaqueta. Seus cabelos eram curtos e a franja estava presa em uma presilha.
"Eu temo que não." Yamamoto riu com aquela ousadia. Ele estava acostumado às confissões baixas e envergonhadas. "Eu gosto de alguém."
"Entendo... Na verdade, eu não entendo, mas não há nada que eu possa fazer." A contrarresposta soou divertida e arrancou uma gargalhada. "Eu não posso te forçar a sair comigo, mas precisava ouvir diretamente que não tenho chance."
Eu gosto dela, é engraçada. A despedida foi um aceno e cada um seguiu seu caminho. O moreno então consultou seu relógio, apressando-se por ter passado da hora marcada. Ele e o rapaz de cabelos prateados se encontravam na entrada do colégio pontualmente às 17h e seguiam juntos para casa. Tsuna passou a voltar com Kyoko e Chrome, e seu hóspede não gostava de voltar sozinho para um local diferente de seu apartamento.
O Guardião da Tempestade terminava de apagar seu cigarro quando Yamamoto apareceu. Ele desencostou-se do muro e começou a andar, perguntando o que deveriam fazer aquela noite para o jantar. A ajuda no restaurante se limitava aos finais de semana e durante o restante dos dias eles mesmos preparavam as refeições. Hoje é meu dia de fazer o jantar. Hm... o que devo preparar? Ele pediu sugestões e sua companhia ponderou um pouco antes de sugerir omurice.
"De novo?" O Guardião da Chuva juntou as sobrancelhas. Ele não se importava em comer omurice novamente, mas nas duas últimas vezes aquele fora o prato preparado.
"Se você não quer sugestões então não pergunte, idiota."
"Eu não acho ruim," ele riu, colocando as mãos atrás da cabeça, "mas parece que você realmente gostou do meu omurice, Gokudera~"
"Você é um idiota!"
Gokudera passou a andar com mais pressa e o moreno preferiu não provocá-lo, especialmente ao notar suas bochechas coradas. Eu sei que tenho mais uma ou duas semanas, mas é um pouco triste saber que um dia terei de dizer adeus a essa vida e a esses momentos. Não houve muita conversa no caminho de volta, e eles chegaram ao destino quando o sol se punha. O restaurante já estava aberto, desse modo, ambos adentraram pela entrada lateral, indo direto ao segundo andar. O responsável pelo jantar sempre era o primeiro a tomar banho, porém, ele passou a vez ao afirmar que havia se banhado no vestiário.
O arroz foi colocado na máquina e o Guardião da Chuva trocou-se tranquilamente. O omurice era de fácil preparo e ele teria tempo suficiente para arrumar suas coisas. O amigo apareceu na cozinha somente para avisar que havia deixado o banho e seguiu diretamente para o quarto. Yamamoto, por um breve instante achou-o demasiado sério e polido, no entanto, acreditou estar consciente demais de sua presença. Dividindo o mesmo teto, era impossível não perder-se em certas fantasias cotidianas, embora soubesse que seria o único machucado quando aquelas semanas terminassem e Gokudera retornasse à antiga morada.
O jantar foi servido após trinta minutos. O rapaz de cabelos prateados parecia cansado ao sentar-se, colocando a franja atrás da orelha antes de comer e não criando nenhuma oportunidade para diálogo. As desconfianças do moreno tornaram-se reais no decorrer da refeição, e nos minutos finais ele se dedicou a um breve flashback mental a procura de alguma palavra ou atitude que pudesse tê-lo chateado ou ofendido. A busca não lhe rendeu nada além de curiosidade, contudo, sua chance de questioná-lo nunca aconteceu. O Guardião da Tempestade levantou-se, avisando que cuidaria da louça e saiu sem dizer mais nenhuma palavra e deixando-o sozinho com o restante de seu suco e pensamentos.
Yamamoto sempre fazia as tarefas escolares depois do jantar, e não mudou aquele hábito mesmo preocupado com a mudança repentina em Gokudera. Ao contrário dele, o amigo já havia feito grande parte dos exercícios e permaneceu sentado na mesinha de centro somente o tempo necessário para terminar de conferir seus resultados. O relógio marcou pouco mais de 21h quando dois leves toques soaram à porta, acompanhados pelo risonho rosto de Tsuyoshi.
"Eu fechei o restaurante e estou de saída. Tranque bem as janelas, Takeshi."
"Certo," ele sorriu largamente, "divirta-se, pai."
A resposta foi um animado aceno e o Chefe da família voltou a fechar a porta, ainda que seus passos fossem audíveis pelo chão de madeira. Uma vez por mês, pelo menos, Tsuyoshi saia para encontrar alguns velhos amigos. Esses encontros eram feitos em uma das residências e da última vez foi responsabilidade dos Yamamoto receber o grupo. O moreno, em especial, apreciava aquelas ocasiões, pois adorava ouvi-los conversar. Havia uma espécie de sabedoria mística em escutar pessoas que viveram muito mais do que ele e que continuavam próximas apesar dos pesares. E, sempre que via o pai e os amigos, era impossível não pensar se um dia ele também viveria para ter os amigos por perto.
Gokudera havia se levantado há algum tempo e se deitado na cama enquanto folheava uma revista sobre música. O Guardião da Chuva tentava não distrair-se, imaginando se conseguiria dormir naquela noite. A primeira vez que ele fez isso eu passei basicamente a noite em claro. O travesseiro tinha o cheiro de Gokudera e eu não conseguia pensar em outra coisa. Ele não se orgulhava de ter saído do quarto às pressas no meio da madrugada para alguns minutos íntimos no banheiro. O peso em sua consciência assolou-o no dia seguinte e ele mal conseguiu encará-lo.
Era por volta de 22h quando Yamamoto espreguiçou-se, fechando o caderno e sentindo-se cansado. Ele não tinha certeza de que acertara os exercícios e sabia que precisaria implorar para que o rapaz de cabelos prateados desse uma olhada em suas respostas, mas sua mente já não funcionava a todo vapor e seu corpo pedia um merecido descanso. O amigo havia colocado o futon ao lado da cama e trocara a revista por um catálogo sobre fogos de artifício. O moreno avisou que iria escovar os dentes e fechar a janela da sala, parando antes de abrir a porta ao perceber que sua companhia havia se sentado. Seu corpo virou-se por instinto, como se sentisse que aquela era a coisa certa a fazer.
"Gokudera, você está bem?" A pergunta soou natural. Enquanto estudava ele esqueceu-se dos olhos sérios durante o jantar, mas a questão deixou seus lábios sem um segundo pensamento.
"Eu estou bem, na verdade, ótimo." Havia uma estranha ironia naquelas palavras. "Se eu soubesse disso antes teria evitado muitas dores de cabeça."
"O que você sabe?" Yamamoto não compreendia.
O Guardião da Tempestade ergueu o rosto e em seus olhos verdes havia desafio. Seu pé apoiou-se no colchão e ele levantou-se, indo esticar os cobertores.
"Você estava mentindo, não? Naquele dia, no terraço, aquelas palavras não foram assim tão sérias. Você só queria alguém para passar o tempo."
O moreno sentiu as sobrancelhas se tornarem juntas e tensas. A mão que estava na porta esticou-se e ele não notou que segurara o braço de sua companhia, puxando-a próxima o suficiente para que fosse ouvido.
"Do que você está falando?"
"Você. Você gostar de mim não passou de uma brincadeira de mau gosto, não é?"
"Por que você está me lembrando disso?" Seu coração bateu rápido ao recordar-se da rejeição. As noites mal dormidas, as lágrimas derrubadas em seu travesseiro e a tristeza que o abateu retornaram como um desagradável arrepio.
"Eu te vi hoje com aquela garota da sala B." Gokudera desvencilhou-se do braço com força, dando um passo desajeitado para trás. "Foi ela que te enviou aquela carta naquele dia. Uma garota bonita."
"E-Eu não sei..." Ele sentiu-se mal ao ouvir aquilo. "Como você sabe essas coisas?"
"Eu te vi sair do vestiário com a garota. Eu estava fumando por aqueles lados." O rapaz de cabelos prateados soou displicente. "Você tem sorte, Yamamoto. Se tudo o que você queria era uma namorada então missão cumprida."
"Ela não é minha namorada..."
"Eu não ficarei por muito tempo, provavelmente mais uma ou duas semanas no máximo, mas diga se eu estiver atrapalhando."
"G-Gokudera..."
"Talvez você queira trazê-la para cá. É natural trazer as namoradas para casa."
O Guardião da Tempestade continuou. Suas palavras soavam cada vez mais altas e raivosas, como se destilassem um invisível veneno. As mãos passaram a se ocupar mais uma vez com os cobertores, entretanto, ele parecia ter perdido a coordenação, pois não conseguia abri-los sem bagunçá-los. Os olhos verdes não se erguiam, encarando qualquer coisa que não fosse a pessoa à sua frente.
Yamamoto, por sua vez, mantinha-se imóvel, paralisado. Ele não entendia porque estava ouvindo aquelas coisas e porque o amigo o machucava daquela maneira, fazendo menções a uma garota sem nome e acusando-o de ser leviano com seus sentimentos, além de mentiroso.
O moreno poderia ser simpático, todavia, não era dado a ataques de espontaneidade. Ele poderia não ser o mais brilhante, porém, pensava antes de agir e ponderava o melhor caminho a seguir. Naquela noite racionalidade e respeito foram deixados de lado. As acusações de Gokudera começavam a irritá-lo, principalmente por ter seus sentimentos questionados daquela forma. Eu o amei em silêncio por todos esses anos. Por favor, não aja como se o que eu sinto fosse uma paixão superficial de verão. Para mim, você vale uma vida inteira.
A mão direita voltou a erguer-se, segurando-o novamente pelo braço e puxando-o com toda a força que possuía. O rapaz de cabelos prateados nunca lhe pareceu tão leve, não conseguindo resistir e sendo puxado em sua direção. Yamamoto o segurou pelos braços, apertando-o e erguendo-o o suficiente para que as bocas se encontrassem.
E, então, pela primeira vez ele sentiu os lábios da pessoa que tanto amava.
A língua pediu passagem, invadindo a boca do Guardião da Tempestade e fazendo-o automaticamente deixar de lutar. As mãos em forma de punho, que inicialmente tentaram socá-lo, relaxaram em seu peito e a língua foi de encontro a dele, trêmula e incerta. O gosto da menta da pasta de dente omitia a nicotina e fazia-o ansiar por mais.
Contudo, sua vida não era um conto de fadas e aqueles rápidos segundos lhe custariam caro, começando pelo empurrão que Gokudera lhe deu, afastando-se às pressas e encarando-o com um misto de timidez e ira. As costas de uma das mãos passou por seus lábios, limpando-os do beijo. Yamamoto sentiu o gosto do arrependimento quando a menta começava a se dissipar, mas não teve a oportunidade de desculpar-se. O soco que lhe atingiu o rosto foi forte e certeiro.
O sangue encheu sua boca com gosto de ferro, vindo do interior de sua bochecha cortada. O quarto tornou-se quieto, um silêncio cúmplice e acusador, que servia unicamente para lembrá-lo de que ele mereceu o golpe. Seu rosto voltou à posição original, encarando-o, e foi com olhos cheios d´água que ele fitou o amigo, que tinha o rosto vermelho, mas não parecia bravo.
"Eu sinto muito Gokudera." A lágrima da vergonha escorreu-lhe pelo rosto, porém, foi rapidamente enxugada.
"Y-Yamamoto, eu..." O Braço Direito deu um passo à frente. Sua voz soava rouca e preocupada e seus olhos pareciam assustados.
"Eu realmente... realmente sinto muito."
O moreno deu as costas, saindo do quarto com passos lentos e fechando a porta em seguida. As lágrimas caíram grossas e pesadas, pingando sobre o chão de madeira e fazendo-o sentir-se a pior pessoa da face da Terra.
Estava acabado. O Guardião da Chuva havia feito o que ele prometera a si mesmo que jamais faria. Ao se dar conta daqueles sentimentos, prometeu que os manteria guardados e nunca forçaria Gokudera a aceitá-los. Eu nunca quis machucá-lo. Eu nunca quis que Gokudera me olhasse daquela forma.
O choro foi curto e Yamamoto enxugou o rosto às pressas. Ele não se permitiria aquele momento, aquele choro vitimado. O rapaz de cabelos prateados era o único com direito de se lamentar pelo ocorrido, visto que fora forçado a aceitá-lo. O que eu fiz? Eu o obriguei a beijar outro rapaz quando ele já havia deixado claro que eu o enojava. Arrastando-se até a sala, ele puxou o fino cobertor escuro que forrava uma das poltronas e enrolou não somente o corpo, mas sua vergonha.
Naquela noite, Yamamoto dormiu no sofá após horas de choro e pedidos mudos por perdão.
Continua...
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