Notas iniciais
Eu precisei alterar o número dos capítulos. Adicionei o "Prólogo" como Capítulo 01, então, este seria o Capítulo 03 na numeração antiga. Desculpem o transtorno~

Ele se lembrava nitidamente do modo como seus tênis pisaram sobre o piso de madeira da entrada do apartamento. O ploc úmido foi tão audível e a sensação tão clara que por um instante Gokudera achou que estivesse descalço, sentindo diretamente a ruína de sua casa. A água corria por todo o local, saindo e formando um desagradável caminho até a escadaria. Ali, ela criava uma espécie de cascata, caindo com barulho pelos degraus e atingindo o andar de baixo. Eu achei que tivesse visto um arco-íris.

Não havia anoitecido quando ele retornou para seu apartamento, depois das aulas.

As mãos dentro dos bolsos da calça, um cigarro dançando entre seus lábios e uma música barulhenta nos fones de ouvido provavelmente o distraíram da bizarra cena. Entretanto, ao parar literalmente em frente ao prédio, o cigarro caiu de sua boca e os olhos verdes se arregalaram devagar. O fone pousou em seu pescoço e cada passo dado até seu apartamento foi uma mistura de incredulidade e medo. Os vizinhos estavam todos em frente ao local conversando entre eles. Havia muitos lamentos e reclamações e um deles soltou a mais elementar e realista questão, que se aplicava a todos incluindo Gokudera: O que fazer?

O rapaz de cabelos prateados precisou apenas de cinco minutos para retirar o essencial: duas malas, uma contendo suas roupas e a outra suas dinamites. Em nenhum momento houve preocupação com suas armas, visto que elas eram guardadas em uma mala feita com o mesmo material que as caixas pretas dos aviões, e que me custou os olhos da cara, diga-se de passagem.

O que ficou para trás não era extremamente necessário e ele retornou à frente do prédio um pouco desorientado e sem saber o que fazer. O responsável pelo local estava cercado pelos moradores e o Guardião da Tempestade ouviu os pedidos de desculpas que seguiram à explicação. Aparentemente, houve um problema com a caixa d'água e o cano principal não suportou a pressão. Como resultado, os apartamentos do último andar foram literalmente invadidos pela água e seriam necessárias duas semanas até que o problema fosse solucionado.

Ele não permaneceu para ouvir o resto da história, afastando-se com suas malas e pensando em seu próximo passo. O dinheiro que tinha poderia cobrir dois ou três dias em um hotel, mas jamais seria o bastante para algumas semanas. Os pensamentos o levaram até uma praça e ali, sentado em um dos balanços, ele se pôs a analisar suas opções.

Os cigarros foram acessos e fumados até o final, sendo substituídos imediatamente por outros. O fraco sol se pôs e a frescura da noite apenas servia para lembrá-lo de que seu tempo não era ilimitado e que era preciso encontrar uma solução provisória, pelo menos para aquela noite. Eu não tenho escolha, ele ergueu-se após um período de tempo que pareceu longo e desconfortavelmente penoso, e apagou o último cigarro no cinzeiro portável que estava dentro da mochila, somente por esta noite...

O imponente prédio do colégio Namimori erguia-se diante de seus olhos como uma das Sete Maravilhas do Mundo. O céu negro e estrelado ao fundo dava ao lugar uma espécie de beleza mística, como se Gokudera houvesse andado e andado por dias até finalmente ter encontrado seus oásis particular. A ideia de retornar ao antro de ensino não lhe agradava, porém, entre dormir na rua e passar a noite na sala do Comitê Disciplinar, a escolha era óbvia. Eu preciso ser cuidadoso para não ser visto. Felizmente Hibari se formou e não corro o risco de encontrá-lo pelos corredores.

Fumante quase compulsivo, Gokudera aprendera naqueles anos como burlar a segurança do local, além de saber onde estavam as entradas secretas. O ginásio era a última parte do colégio a ser fiscalizado, então foi naquela direção que ele seguiu. O muro daquele lado era encostado a uma árvore de cerejeira e, com exceção das malas voando de um lado para o outro, não houve nada extraordinário e o solo escolar pareceu recebê-lo de braços abertos. As sombras projetadas pelo próprio edifício serviam-lhe de abrigo e tudo o que ele precisou foram dois clipes de papel e a porta dos fundos foi aberta com um click. Finalmente...

Um leve arrepio percorreu-lhe a espinha ao cruzar o primeiro corredor. Havia algo extremamente sombrio em visitar aquele local durante a noite, no entanto, o rapaz de cabelos prateados esforçava-se para não deixar que aqueles detalhes atrapalhassem sua decisão. A Sala do Comitê Disciplinar ficava no último andar, à esquerda, e o caminho era iluminado por seu aparelho celular. Não havia conversas, risadas ou discussões. A vida que emanava pelos corredores durante o dia dava lugar ao silêncio e escuridão, que o faziam tremer dos pés à cabeça ao menor ruído. Pense na rua, pense na rua, pense na rua, pe...

Ele parou. Se suas contas estivessem certas, aquela era a escadaria que levaria ao quarto andar e seu objetivo estava literalmente há alguns passos. Contudo, ao contrário dos sons naturais escutados durante a subida, o barulho de alguma coisa caindo no andar acima fez com que seus músculos se paralisassem e o medo o fizesse sentir um nó em sua garganta. Gokudera não estava sozinho.

As vozes vieram logo após o barulho e as luzes do quarto andar se acenderam lentamente, fazendo-o temer por sua vida. U-Um fantasma? U-Uma bruxa? Vamos, vamos, mexam-se pernas! Ele tentou bater em suas coxas, mas elas não obedeciam. Os olhos verdes ergueram-se quando as vozes tornaram-se audíveis e daquele ângulo, entre uma escadaria e outra, ele seria facilmente visto. Se o segurança me pegar aqui eu terei de explodir meu caminho para escapar. M-Mas se for um fantasma... Uma gota de suor frio escorreu por sua nuca, coincidindo com um brusco movimento no quarto andar.

"Eu já disse que não!" Uma das vozes parecia extremamente irritada. "Eu não irei embora até que ele apareça."

"Não seja tolo! Está frio e você ficará gripado!" O dono da segunda voz juntou-se ao da primeira e a sombra de ambos tornou-se visível daquele ângulo. "Ninguém vai vir aqui, Kyouya!"

O Guardião da Tempestade juntou as sobrancelhas, sem saber o que deveria fazer. Seu fantasma e sua bruxa tornaram-se velhos conhecidos e, infelizmente, a realidade era definitivamente pior. Ele enfrentaria sem problemas a mais horripilante das criaturas noturnas, todavia, Hibari Kyouya era uma história completamente diferente. O mais forte dos Guardiões. Gokudera não era estúpido o suficiente para encará-lo de mãos vazias. Suas dinamites estavam na mala, em sua mão esquerda, e Hibari o deixaria inconsciente antes mesmo de conseguir lembrar-se da senha que trancava a maleta. Eu preciso sair daqui... Ele sabia que eu viria para cá.

Dino tentava persuadir o moreno, que continuava irredutível. O rapaz de cabelos prateados afastou um pouco o corpo, ganhando novamente os movimentos e pronto para retirar-se sem ser notado. Porém, a paciência de Hibari pareceu chegar ao limite e seus famosos tonfas foram sacados e partiram para cima do Chefe dos Cavallone. A pouca coragem desapareceu e ele não conseguiu se mover, esperando ver Dino voando pelo quarto andar depois de uma bela surra.

"Kyouya!"

O louro desviou-se de alguns ataques até render seu agressor. Hibari pestanejou, tentando acertá-lo de qualquer forma, mas Dino parecia ter totalmente o domínio da situação, o que o surpreendeu. Ele é rápido. À primeira vista o Haneuma parece apenas mais um idiota, mas ele sabe exatamente o que está fazendo.

As vozes tornaram-se baixas demais para os seus ouvidos e os sussurros foram acompanhados pela aproximação de Dino, até que ambos ficassem frente a frente. O Guardião da Tempestade engoliu seco e por um instante ele esqueceu-se do motivo que o levara até ali. O italiano ergueu uma das mãos, tocando o rosto de Hibari com uma estranha gentileza e deixando escapar um baixo gracejo que acompanhou um meio sorriso. Perto... muito... perto.

Gokudera acordou de seu estupor com o alto e oco som que a mala fez ao cair ao chão.

O entorno tornou-se presente e sua mente voltou a pensar ao se dar conta de que um erro idiota tinha dedurado sua presença. Não houve tempo para raciocínios profundos ou planos mirabolantes. Sua mão agarrou rapidamente a mala, no entanto, assim que voltou a erguer o rosto, uma gigantesca sombra estava sobre ele, empunhando um mortal par de tonfas. Era o fim.

"Não, Kyouya!"

Uma grande e pesada mão o empurrou para trás e ele sentiu a parede de concreto em suas costas ao cair sentado. Dino estava à sua frente, o chicote em mãos e evitando o certeiro golpe de Hibari. Ele é rápido... O moreno o olhava com os olhos pequeninos e maldosos e dali o rapaz de cabelos prateados sentiu sua sede por sangue.

"Saia da frente, Cavallone, ou eu vou morder os dois até a morte!"

"Ninguém vai ser mordido até a morte!" O louro não parecia bravo, somente energético. "Abaixe os tonfas e vamos conversar."

"Não há conversas. O herbívoro invadiu o meu território e merece ser punido."

"O colégio não é mais seu território. Você já é um aluno formado, Kyouya!"

"Tolo, essa cidade é meu território," Hibari colocou mais força no golpe e Dino recuou um passo para trás, "não, todo o Japão me pertence!"

Uma baixa risada escapou pelos lábios do italiano e então seu chicote negro dançou. A luz que vinha do quarto andar era suficiente para iluminar parcialmente aquela área, então foi fácil ver a belíssima dança e a maneira como ele enrolou-se nos tonfas, juntando-os e puxando-os das mãos de seu dono. O Guardião da Nuvem tentou empurrá-lo, contudo, não havia mais para onde correr, pois, no instante em que os tonfas tocaram o chão, o chicote já prendia seus braços e o impossibilitava de mover-se, restringindo-o como um cachorro raivoso.

"Certo, agora vamos conversar."

"Eu não tenho nada a dizer." Hibari tentava livrar-se do chicote.

"Gokudera," Dino ignorou seu arredio pupilo e seus olhos cor de mel brilhavam naquela semi escuridão, "é verdade que você não tem para onde ir?"

"S-Sim..." As palavras soaram trêmulas e ele endireitou-se rapidamente, erguendo-se e recuperando sua dignidade. "Como você sabe?"

"Eu sei tudo o que acontece nessa cidade, herbívoro." O Guardião da Nuvem apertou ainda mais os olhos, "eu sabia que você correria para cá com o rabo entre as pernas."

Gokudera gostaria de rebater aquela implicação, mas não conseguiu. Ele realmente estava sem um teto para passar a noite e o colégio Namimori foi facilmente sua primeira opção. Eu já deveria ter imaginado que Hibari descobriria. Eu fui descuidado. A ideia de que alguém descobrira seu plano antes que ele pudesse surtir efeito o deixou enfurecido. Fosse uma situação real eu poderia colocar a vida do Juudaime em risco.

A frustração fez seu rosto tornar-se quente e as malas foram pousadas ao chão. Sim, ele era uma pessoa orgulhosa e teimosa, que dificilmente daria o braço a torcer, entretanto, haveria algum meio de sair daquela situação sem precisar ajoelhar e implorar para passar a noite no colégio?

"Gokudera..." A voz de Dino pareceu acordá-lo. Havia um embaraçoso meio sorriso em seus lábios. "Não há necessidade de você se rebaixar, eu cuidarei disso."

"Você?" Ambos os Guardiões falaram em uníssono.

"Meus homens estão hospedados em um hotel no centro da cidade. Se desejar, eu posso fazer uma ligação e você poderá passar os dias que precisar em um confortável quarto." A proposta fez borboletas rodopiarem em seu estômago, mas alguma coisa em seu peito dizia que aquilo era bom demais para ser verdade. Havia mais. "Ou você pode falar com seu Chefe. É função dele zelar pelo bem-estar da Família e certamente será um pouco triste se ele souber através de outra pessoa sobre o seu infortúnio."

O conselho estava mascarado debaixo daquelas camadas de gentileza. O Guardião da Tempestade não duvidava que o louro estivesse falando sério ao oferecer-lhe um quarto, mas foi fácil entender a verdade por trás das palavras. Eu sou realmente estúpido. Na maioria das vezes esqueço que o Haneuma é Chefe de uma poderosa Família.

As mãos voltaram a segurar as duas malas e ele projetou-se à frente, fazendo uma polida reverência antes de dar as costas. Hibari resmungou e sua voz foi ouvida até que o primeiro lance de escadas desaparecesse. Gokudera saiu do prédio e seguiu até a parte de trás para refazer o caminho que o levara até ali, sentindo um misto de frustração e derrota. Eu sinto muito, Juudaime. Eu sinto muito por ser quase tão idiota quanto os demais Guardiões!

x

O silêncio era tão pesado que até mesmo respirar tornou-se uma tarefa difícil. Suas pernas já estavam dormentes devido à posição, e seus olhos fitavam a mesma parte do tapete como se ali houvesse a resposta para todos os seus problemas. A pessoa do outro lado da mesinha parecia ainda mais desconfortável, mexendo-se vez ou outra e tão impossibilitado de se comunicar quanto ele mesmo.

"E-Eu realmente não vejo problemas em te hospedar por esses dias, Gokudera-kun." A trêmula voz de Tsuna soou como música aos seus ouvidos.

"Eu agradeço a sua generosidade, Juudaime, mas ficarei satisfeito em importuná-lo apenas por esta noite." Seus olhos finalmente se ergueram. Eles estavam decididos. "Amanhã eu prometo que encontrarei outro lugar para ir."

"Mas é perigoso, e-e aqui você ficaria mais à vontade..."

Esse é o problema. O rapaz de cabelos prateados havia aparecido à porta do Décimo pouco antes da hora do jantar. O caminho do colégio àquela conhecida residência não era longo, porém, era uma história diferente quando se carregava duas pesadas malas. Tsuna o recebeu com surpresa e o incidente foi relatado em poucos segundos ainda na soleira. O Juudaime me olhou um momento e esboçou um caloroso meio sorriso. Segundos depois eu estava sentado na mesa de jantar saboreando uma deliciosa torta de carne preparada por Nana.

As explicações aconteceram depois da sobremesa e na presença de Reborn. Se na versão Arcobaleno o terrível Tutor já o intimidava, era simplesmente impossível descrever a sensação de ter a versão adulta e assassina sentada na cama e olhando-o enquanto limpava um de seus revólveres. Tsuna insistia em tê-lo como companhia até que as reformas no apartamento terminassem, no entanto, o Guardião da Tempestade estava decidido a partir na manhã seguinte. Sua função ali era somente comunicar ao Chefe o que acontecera. O problema continuava sendo seu e ele seria o único a resolvê-lo.

"Gokudera está certo, Tsuna." A voz grossa de Reborn calou os dois amigos, que se viraram para encará-lo.

Os mesmos olhos. Ele engoliu seco ao lembrar-se dos olhos cor de mel que o fitaram na escadaria do colégio Namimori. Tanto Dino quanto Reborn estavam nesse mundo há mais tempo do que ele e certamente suas experiências naquele ramo da vida os ensinaram a não amolecer diante das dificuldades, independente de quais fossem. Como Braço Direito do Décimo Chefe da Família Vongola, Gokudera carregava em suas costas a responsabilidade de amparar Tsuna no que fosse preciso e se ele não possuísse a capacidade de lidar com aquele problema como poderia triunfar perante os inimigos?

Com um teto certo para protegê-lo naquela noite, o rapaz de cabelos prateados sentiu-se muito mais confiante e acreditava que no dia seguinte seria capaz de encontrar uma casa provisória. Ele estava certo de que não iria ao colégio, contudo, preferiu omitir tal informação. Eu buscarei algumas imobiliárias e alugarei um apartamento pequeno para passar essas duas semanas. Eu não tenho muitas faltas e estou em dia com a matéria, então acredito que minha ausência no colégio não vá causar transtornos.

Tsuna não parecia tão calmo e seu incômodo em ver o melhor amigo em uma situação difícil era quase palpável. Todavia, nenhum deles voltou a tocar no assunto e a noite encerrou-se após um longo banho. Um futon foi colocado ao lado da cama do Décimo e o Guardião da Tempestade agradeceu incansavelmente a Nana pela hospitalidade.

O boa noite trocado entre os amigos foi baixo e, ainda que houvesse se virado, ele sabia que não conseguiria dormir devido à preocupação com seu destino e no que faria caso o plano da imobiliária fracassasse. Entretanto, sua mente estava ocupada com outros assuntos, pois, todas as vezes que fechava os olhos, ele recordava-se da cena da escadaria, tudo o que havia visto e ouvido e, principalmente, do momento em que os lábios de Dino tocaram os de Hibari.

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O primeiro "não" não foi capaz de abater seu espírito. O segundo o fez sentir-se um pouco menos animado. O terceiro o deixou parcialmente irritado e a partir da quarta negativa Gokudera teve certeza de que estava com sérios problemas. Havia apartamentos para serem alugados, porém, nenhum deles por um preço acessível ou para um menor de idade. Em dois locais ele achou ter visto a casa provisória perfeita, mas os "todavias" e os "entretantos" acabaram murchando aquele doce sonho de um novo teto pelas próximas semanas.

A pior parte não ficava por conta das negativas. Tsuna mostrou-se extremamente otimista e, ao deixar a casa do Décimo naquela manhã, ele sentiu-se revigorado e pronto para qualquer empecilho que a vida pudesse lhe oferecer. A realidade, no entanto, era diferente e quando o final do dia chegou e ele se deu conta de que precisaria retornar e contar ao Chefe o que aconteceu, o gosto em seus lábios era qualquer coisa menos doce.

O rapaz de cabelos prateados viu-se na mesma praça da noite anterior, sentando-se no mesmo balanço e brincando com o cigarro em seus lábios. Aquele havia sido um dia frio, contudo, somente com o pôr do sol foi possível sentir os efeitos reais daquele final de outono. A paisagem era praticamente marrom, com um ou outro jardim que tentava sobreviver às mudanças climáticas. Desde que saíra da casa do pai sua vida foi uma série de mudanças e ele jamais achou que um dia encontraria um lugar para chamar de seu. O apartamento em que vivia há anos não era exatamente o que poderia ser considerado um "lar", mas o mesmo não poderia ser dito sobre Namimori. Aquela havia se tornado a sua cidade, local onde estava seu precioso Chefe e os poucos amigos.

Amigos... Os olhos verdes piscaram longamente e a figura de um certo idiota viciado em baseball apareceu em sua mente. O Guardião da Tempestade esteve ocupado o dia inteiro e não teve tempo de esboçar nenhum pensamento a Yamamoto. O Juudaime disse que ficaria em casa e passaria o dia olhando anúncios. Ele deve ter avisado que não iríamos ao colégio.

A lembrança da noite anterior o fez engolir seco. Aquela foi a primeira vez que ele vira um beijo entre pessoas do mesmo sexo e se a realidade já não fosse chocante o bastante, saber que um dos envolvidos era o temido Guardião da Nuvem tornava tudo infinitamente pior. Em sua mente era difícil imaginar Hibari tendo qualquer relacionamento amoroso, ainda mais com o Chefe da Família Cavallone. Não tão surpreendente... Gokudera abaixou os olhos e não percebeu que suas mãos apertaram a corrente de ferro que prendia o balanço. Haneuma é provavelmente a única pessoa no mundo capaz de aturá-lo. Se eu pensar desse modo, gênero realmente importa?

Por um instante ele nada fez além de admirar a areia que cercava aquela área. Suas bochechas tornaram-se rubras aos poucos e suas pernas o colocaram de pé em uma velocidade absurda. Um novo cigarro foi acesso por mãos trêmulas e o rapaz de cabelos prateados afastou-se do parque com passos largos e pesados. Seu coração batia rápido e era preciso afastar aquela curiosa ideia de sua mente. Eu preciso me focar na busca por um teto! O Juudaime é a melhor pessoa do mundo, mas não posso me impor dessa forma.

O frio tocava-lhe o rosto como as mãos de um inimigo, e ele agradeceu mentalmente por estar naquele final de outono ou seria constrangedor saber que as pessoas que transitavam pela rua poderiam ver seu rosto corado, como se descobrissem o que se passava por sua mente. Já que, por um breve momento, o Guardião da Tempestade perguntou a si mesmo se haveria alguém para ele nessa vida; alguém que o suportasse e não se importasse com suas neuroses e que risse de seus ataques teimosos. E se essa pessoa fosse também um garoto... conhecido.

Tsuna o recepcionou com um largo e caloroso sorriso, convencendo-o a entrar o quanto antes, tomar um banho quente e retirar as roupas geladas. Ele engoliu seco, sentindo-se péssimo por receber tanta atenção e retornar sem nenhuma notícia positiva. Seu orgulho atingiu o ponto mais baixo ao adentrar ao quarto e seus joelhos cederam, encontrando o chão de madeira. O corpo inclinou-se à frente e Gokudera desculpou-se em voz alta por não ter conseguido encontrar um local para passar a noite. O amigo, entretanto, riu baixo e pediu que ele se levantasse, afirmando que imaginou que tal coisa aconteceria e que não se importava de tê-lo como companhia por mais uma noite, ou as semanas que estavam por vir.

"De qualquer forma, Gokudera-kun, eu acho que precisamos de ajuda."

A tal ajuda chegou assim que seu nome foi mencionado.

A campainha ressoou alta e o rapaz de cabelos prateados engoliu seco, endireitando-se ao lado da mesinha de centro. Do quarto eles não conseguiam ouvir o que acontecia no andar de baixo, mas foram totalmente audíveis as três batidas na porta de madeira. Seu coração passou a bater em um ritmo menos calmo e, quando Tsuna levantou-se para abrir a porta, parte dele desejou não ter retornado.

Ele não queria que aquela pessoa soubesse de seu problema. Era embaraçoso e totalmente humilhante imaginar-se sendo julgado por aqueles sempre preocupados olhos castanhos, além de que tinha certeza de que receberia uma gentileza exagerada e que só serviria para irritá-lo.

"Ah! Yamamoto!" Tsuna parecia animado.

"H-Hey," o moreno coçou a nuca, entrando devagar e correndo os olhos pelo cômodo "eu estava preocupado, então vim fazer uma visita..." A expressão mudou em poucos segundos e quando Yamamoto finalmente encarou-o a seriedade estampada em sua face não condizia com sua personalidade. "O que houve?" Ele parecia surpreso. "Você já está indo embora?"

"Embora?" Gokudera juntou as sobrancelhas "Do que diabos você está falando?"

"Suas malas..."

"Sobre isso..." O Décimo mostrou-se presente e sentou-se do outro lado da mesinha. "Algo aconteceu..."

"Juudaime, você não precisa dizer nada para esse idiota." Ele tentou argumentar, ainda que soubesse que seria em vão.

"Eu quero saber, Gokudera." O Guardião da Chuva soou sério, ajoelhando-se em frente a ele.

Tsuna olhou de um amigo para o outro, visivelmente desconfortável.

"Ele talvez possa nos ajudar, Gokudera, d-digo, te ajudar! Nós precisamos de toda a ajuda que pudermos encontrar." O Décimo exibiu um meio sorriso. "Houve um vazamento no prédio de Gokudera e o encanamento estourou. Alguns apartamentos foram inundados, incluindo o de Gokudera-kun. Ele não tem para onde ir."

O Guardião da Tempestade abaixou os olhos, impossibilitado de mantê-los em linha reta.

Não houve comentário e o silêncio tornou-se muito pior do que o pseudo-otimismo. Intimamente, ele queria que o idiota viciado em baseball começasse com sua gentileza para poder ameaçá-lo e expulsá-lo, livrando-se do desconforto de ansiar por sua reação. Ao seu lado, Tsuna parecia incrivelmente relaxado e aguardava uma resposta com um meio sorriso em seus lábios.

"Entendo," Yamamoto quebrou o silêncio.

"Gokudera-kun passou o dia procurando um lugar provisório, mas é muito difícil. Nós ainda estamos no ensino médio e o mundo dos adultos é um pouco complexo."

"Hm..." O moreno umedeceu os lábios. "A caminhada até aqui me deixou com um pouco de sede. Eu poderia pedir um copo d' água, Tsuna?"

O Décimo o encarou e ficou em pé no instante seguinte, avisando que traria refrescos e que os amigos deveriam esperar. Aquela cena irritou Gokudera, que soltou um tsk antes de finalmente erguer o rosto e encarar sua única companhia.

"Tirar o Juudaime de seu próprio quarto. O que você tem na cabeça, idiota?"

"É verdade? Você não tem para onde ir, Gokudera?"

"Seu mald—"

"Por favor, responda."

A resposta atravessada ficou presa em sua garganta, uma mistura de desgosto e humilhação.

"Sim, eu não tenho para onde ir, satisfeito? Isso não é problema seu, então pare de se intrometer onde não deve."

"Eu posso ajudar," Yamamoto pareceu ignorar todas as respostas ríspidas e nem um pouco educadas, "você pode morar comigo... durante essas semanas."

A cena na escadaria do colégio Namimori retornou à sua mente e foi impossível permanecer indiferente. Porém, antes que pudesse recusar aquela proposta absurda seu interlocutor foi mais rápido.

"Moramos somente eu e meu pai. A casa tem dois dormitórios, mas meu quarto é grande o suficiente para comportar um futon. Nós frequentamos o mesmo colégio, portanto, saímos nos mesmos horários." O Guardião da Chuva não gaguejou ou piscou. "E se o problema forem as despesas, você poderá trabalhar alguns dias no restaurante. Meu pai agradecerá a ajuda extra."

Ele pensou em tudo. Todos os meus contras foram rebatidos. Gokudera mordeu o lábio inferior, sentindo-se derrotado. O idiota acabou de ouvir sobre meu problema e já bolou um plano. Ele tentou manter a expressão branca, no entanto, foi impossível. Aquela ideia passou por sua mente quando Tsuna mencionou que contaria a Yamamoto sobre o ocorrido. Conhecendo o idiota, o rapaz de cabelos prateados tinha certeza de que o moreno acabaria sugerindo sua própria casa e, verdade fosse dita, aquele não era um negócio ruim. Ele poderia trabalhar para pagar sua estadia e não se sentiria um completo parasita, o que não aconteceria se ele permanecesse com Tsuna. Contudo...

"Eu espero que considere minha proposta, porque eu falo como um amigo preocupado." O Guardião da Chuva calou-se, como se escolhesse as palavras. "Se o que está te impedindo de aceitar minha ajuda é o que aconteceu no terraço naquele dia, por favor, esqueça. Já faz meses e eu mal me lembro das coisas que te disse. Tudo mudou e eu ofereço minha casa sem esperar nada em troca."

Gokudera sentiu seu estômago dar voltas. Durante todos esses meses ele temeu que aquele final de tarde fosse novamente mencionado, mas a sensação foi bem diferente do imaginado. Então ele já esqueceu, hm? O Guardião da Tempestade coçou a nuca, percebendo que aquela era sua chance de parar de incomodar Tsuna, além de poder se virar sem precisar depender totalmente de outras pessoas. E ele disse que aquele dia não significa mais nada, então não há problema.

"Seu pai, ele não se importaria com isso?"

"Não. Na verdade, ele ficaria feliz em recebê-lo, mas se quiser posso telefonar e pedir permissão."

A resposta foi um simples gesto com a mão, que coincidiu com a chegada de Tsuna.

O moreno pediu licença, retirando o telefone celular do bolso e saindo, mas não sem antes pegar seu copo de refresco. O Décimo pousou a bandeja sobre a mesinha de centro, sentando-se um pouco tímido e desculpando-se por ter tomado uma decisão que não envolvia sua vida.

"Você sabe que eu te receberia de braços abertos, porém, não vou insistir que fique, Gokudera-kun." O sorriso parecia um raio de sol, iluminando as nuvens de seu coração e fazendo-o sentir-se melhor apesar da situação. "Mas eu mentiria se dissesse que não ficarei muito mais tranquilo sabendo que você estará com Yamamoto. Nós somos amigos, hm? Amigos se ajudam em momentos como esse."

Você é muito gentil, Juudaime! Esse mundo não te merece! Gokudera deu um gole em seu refresco, sem saber o que deveria dizer. Parte dele ainda estava relutante em aceitar a ajuda de Yamamoto, pois isso o tornaria automaticamente em dívida com aquela pessoa. Por outro lado, ele não ousaria importunar o Décimo Vongola por mais uma noite, ainda que seu Chefe afirmasse que sua presença ali não seria um incômodo.

O Guardião da Chuva retornou após a curta ligação e não pareceu tímido ao anunciar que o pai não se importava e que já estava esperando seu hóspede naquela mesma noite. Gokudera brincou com o restante de suco ao fundo do copo de vidro antes de bebê-lo, virando o rosto na direção de Tsuna e oferecendo um discreto meio sorriso.

"Obrigado pela ajuda, Juudaime." O agradecimento foi seguido por uma polida reverência quando suas mãos e testa tocaram o piso de madeira. "Hoje eu não sou digno de ser considerado seu Braço Direito, mas prometo que darei o meu melhor e um dia me tornarei um homem capaz de caminhar com minhas próprias pernas."

"O-Obrigado, Gokudera-kun."

Ele levantou-se e foi inevitável não encarar Yamamoto, que pareceu um pouco nervoso ao sentir-se observado. O rapaz de cabelos prateados juntou as mãos ao lado do corpo e pendeu um pouco o dorso à frente, agradecendo pela hospitalidade e avisando que a partir daquele momento ele estaria em seus cuidados. O moreno riu, afirmando que não era preciso tanta cerimônia e prontificando-se a ajudá-lo com as malas.

A última coisa que o Guardião da Tempestade viu ao deixar a casa do Décimo foi o acolhedor sorriso de seu Chefe, que o fez ter esperança de que aquele período difícil passaria em um piscar de olhos.

Gokudera, entretanto, não fazia ideia de que aquelas semanas mudariam sua vida para sempre.

Continua...