Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring
2 Capítulo 02
"Eu estou apaixonado por você, Gokudera," as palavras foram ditas com o mesmo tom de voz habitual, "por favor, seja meu namorado."
Os olhos verdes seguiram a reverência e continuaram sem piscar.
Cada palavra ecoava em sua mente várias e várias vezes, e ele sentiu como se o tempo houvesse parado e que fossem os únicos capazes de se movimentar. As sobrancelhas juntaram-se devagar, resultando na mais lógica linha de raciocínio que o momento pedia.
"Do que você está falando, idiota?" Gokudera retirou o cigarro dos lábios, jogando-o ao chão por puro capricho.
"Meus sentimentos. Eu te chamei aqui para dizer meus sentimentos."
"Depois que terminarmos aqui eu gostaria de conversar. Você poderia me encontrar no terraço?" A pergunta feita depois das aulas martelou novamente, deixando-o ainda mais ansioso. O que era aquilo? Quando Yamamoto disse que gostaria de conversar, em nenhum momento aquela situação passara por sua mente. Eu achei que ele quisesse falar sobre o Juudaime ou a máfia... o que há de errado com esse idiota?
"Seus sentimentos?!" As mãos pegaram o maço de cigarros do bolso de trás da calça, colocando um novo cigarro em seus lábios e acendendo-o de maneira desajeitada. Suas mãos tremiam e seu coração batia rápido. "Mas que merda de sentimentos são esses?"
"Eu estou apaix—"
"Eu ouvi!" O rapaz de cabelos prateados atirou o novo cigarro ao chão, pisando com mais força e dando um passo à frente. "O que é isso? Você é gay, Yamamoto?"
"G-Gay...?" Ele não sabia o que dizia. Quando a confissão passou de uma brincadeira sem graça para uma impensada verdade o Guardião da Tempestade viu-se em uma situação inédita em sua vida. Eu já escutei declarações de garotas, mas é a primeira vez que um rapaz se confessa para mim. Se isso não bastasse, é o idiota do Yamamoto! "N-Não... eu gosto de garotas..."
"Mesmo?" Aquela irritante contradição o enervava. Ele gosta de mim? Ele gosta de garotas? Ele está se divertindo à custa do meu desespero? "Então por que eu acabei de ouvir dessa sua maldita boca que você quer me comer?"
"Comer você?" As sobrancelhas de juntaram e seu interlocutor pareceu ofendido. "Por que você está falando desse jeito? Eu nunca dis—"
"Então você não quer?"
"N-Não como você diz..."
"Mas você quer, não é?" Gokudera aproximou-se, agarrando o casaco de inverno e olhando-o nos olhos. Ele queria ter certeza do que ouvira, pois gostaria de acreditar que tudo não passava de um mal-entendido. "Depois de todo esse tempo você vem me dizer que gosta de homens? E ainda por cima de mim, maldito?"
Não houve resposta. O moreno apenas olhava-o de volta sem um pingo de receio ou arrependimento. Não havia sorrisos, brincadeiras tolas ou tentativas de aliviar a tensão. Ele não está brincando... Seus olhos arregalaram-se e todos aqueles anos de convívio passaram diante de seus olhos. Impossível... Eu sou um homem, ele tem consciência disso? Ou melhor, somos dois homens... o que está acontecendo?
O rapaz de cabelos prateados não tinha ideia do que fazer. Brigas, inimigos, adversidades mortais... ele enfrentaria o mais temido dos vilões sem hesitar, mas não era bom com conversas sérias e sentimentos. Ele explodia e depois perguntava, e aquele era seu lema de vida e nada no mundo o faria mudar. Eu nunca gostei desse idiota, mas nos últimos anos eu me acostumei à sua presença. Ele estava sempre próximo e o Juudaime o considera um amigo então eu relevei e o suportei. Não mais...
"Eu sempre soube que tinha algo em você, mas gay? Você é patético, Yamamoto." A mão soltou a jaqueta e ele deu um passo para trás, olhando-o com desprezo e decepção. "Nunca mais apareça na minha frente. Eu não quero estar no mesmo ambiente que você além do necessário. Quando me ver por aí finja que não existo, porque é exatamente isso que farei com você. Apaixonado? Por mim? Para o inferno tudo isso! Eu não me apaixonaria por você nem em um milhão de anos."
O Guardião da Chuva o olhou e sorriu.
Por um instante Gokudera não acreditou no que seus olhos lhe mostravam, uma vez que tinha plena consciência do que acabara de dizer. Entretanto, Yamamoto sorriu e a frase seguinte foi acompanhada por uma polida reverência:
"Obrigado por sua resposta, Gokudera."
O moreno virou-se e cruzou o terraço, retornando pelo caminho que havia feito. Enquanto o observava se afastar, o Guardião da Tempestade permaneceu imóvel, sem saber ao certo como deveria se sentir. Vê-lo distanciar-se depois daquela desastrosa conversa, um sorriso nos lábios e com toda a sua dignidade intacta, fazia-o sentir-se o vilão da história.
Aquele estado durou tempo suficiente para o sol se pôr e foi nessa hora que ele se deu conta de que ainda estava no colégio. Seus olhos fitaram o local e seus ombros se encolheram ao notar que estava completamente sozinho. Frio... O rapaz de cabelos prateados pegou a mochila do chão, colocando-a em um dos ombros e descendo as escadas. Alguns alunos ainda estavam no prédio, outros aguardavam do lado de fora do portão, porém, nenhuma dessas pessoas tinha sequer ideia do turbilhão de emoções dentro de seu peito.
O cigarro foi acesso na primeira esquina, no entanto Gokudera não seguiu para casa. O caminho foi duas vezes mais longo e ele parou em quase todas as lojas de conveniência, simplesmente para observar seu interior. A última parada foi a praça próxima ao apartamento e ali seu corpo jogou-se sobre o banco de madeira, deitando e encarando o céu negro e salpicado por algumas estrelas. Aquele mesmo céu estava ali ontem e estaria no mesmo lugar amanhã. Essas constantes da vida nunca deixavam de surpreendê-lo, visto que eram uma das poucas coisas que não dependiam de sua escolha. Diferente do que aquele idiota me disse.
O Guardião da Tempestade sentou-se no banco, apoiando os cotovelos em seus joelhos e fitando o chão. Por que aquilo tinha que ter acontecido? Por que Yamamoto escolheu justamente aquele momento para dizer aquelas coisas? Tudo estava bem. Há algumas semanas nós almoçamos no restaurante para comemorar seu aniversário e na semana passada fomos à piscina porque o Juudaime estava animado para nadar. Quando começou? Ele já tinha essas ideias quando me pediu um abraço de aniversário? Por quê? E por que agora? Por que eu?
Ele suspirou e ficou em pé. Quanto mais pensava a respeito menos sentido encontrava no que acontecera naquele final de tarde. O clima fresco não ajudava em nada e apenas o fazia lembrar-se do arrepio que sentiu ao ouvir a confissão. Eu preciso de um banho quente e um bom cigarro e então poderei pensar com tranquilidade. Deve existir alguma explicação lógica para isso e eu tenho de encontrá-la esta noite ou como iremos nos encarar amanhã?
O sentido, contudo, não estava no banho quente, ou no cigarro fumado próximo à janela da sala ou no jantar composto de dois Cup Noodles e um copo de suco. Também não estava no programa de variedades que ele assistiu ou nas dinamites que foram limpas e organizadas por níveis de explosão. E por várias vezes o rapaz de cabelos prateados viu-se perdendo o foco no que fazia, começando a relembrar o que acontecera e sentindo-se pior. O que começou como um pequeno incômodo no fundo de seu estômago ao vê-lo dar-lhe as costas e ir embora não demorou a se transformar em culpa.
A rejeição era esperada, claro. Não havia meios de o moreno ter subido até aquele terraço esperando uma resposta positiva; entretanto, a humilhação foi gratuita e desnecessária e, ainda que o Guardião da Tempestade se arrependesse das palavras assim que elas deixaram seus lábios, sua personalidade teimosa e explosiva jamais teria evitado que fossem proferidas. Aquele era quem ele era... e essa a pessoa que Yamamoto disse que ama?
O último pensamento aconteceu quando ele já estava deitado. O quarto era pequeno e apertado para a cama de casal, a cômoda e o guarda-roupa. Seu pai lhe enviava mensalmente uma gorda quantia para que ele vivesse confortavelmente, mas o dinheiro nunca era aceito, portanto, Gokudera vivia com o "salário" que recebia da Família e aquilo era mais do que suficiente.
Ele também está deitado, encarando o teto e pensando no que aconteceu? Os olhos verdes piscaram longamente, cansados e preguiçosos. Manter-se acordado exigia uma força de vontade que infelizmente ele não tinha, todavia, recusava-se a dormir sem ter tomada uma decisão. Eu o chamei de gay e disse coisas horríveis porque fiquei irritado. Eu achei que Yamamoto estivesse me pregando uma peça e aguardei até o último minuto para que ele começasse a rir, mas a gargalhada não veio. Se ele gosta de garotos isso não é problema meu, mas gostar de mim...
Seus olhos se fecharam lentamente e abri-los tornou-se uma tarefa difícil. A imagem no terraço dissipou-se aos poucos, até tornar-se uma paisagem branca à medida que sua mente entrava no mundo dos sonhos. Não houve resolução ou decisão, e seu corpo sentia-se fisicamente cansado devido ao desgaste emocional. Porém, ele sabia que nada daquilo poderia se comparar ao que o Guardião da Chuva estaria sentindo e não haveria pensamento egoísta o suficiente que o fizesse ignorar tal situação. Portanto, ainda que não houvesse chegado a nenhuma conclusão, havia uma única certeza em seu coração: um sincero pedido de desculpas.
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Ele sentou-se como se nunca houvesse estado naquele lugar. Seus olhos correram pelo entorno, tentando lembrar-se da última vez que estivera ali, mas sem conseguir focar-se em uma única lembrança, embora o jantar da última quinta-feira houvesse sido degustado na mesa de número 14. O restaurante sem os clientes, o empurra-empurra dos atendentes e a risada alta e contagiante de Tsuyoshi parecia somente um amontoado de mesas e cadeiras.
Gokudera fora levado até o interior do restaurante depois de ter sido descoberto do lado de fora, andando de um lado para o outro. A desculpa perfeita foi que ele esperava por Yamamoto, mas a verdade era outra. Eu vim me desculpar, mas somente ao parar em frente à entrada que percebi que não tinha o que dizer. Tsuyoshi riu ao vê-lo perder-se nas palavras, convidando-o a entrar e esperar no restaurante enquanto subiria e apressaria o filho.
A espera foi breve, no entanto, suficiente para deixar seus nervos à flor da pele. Com exceção do simples "Eu sinto muito", ele não tinha muito que dizer, e temia que talvez Yamamoto não quisesse recebê-lo. Se ele levar minhas palavras a sério eu nunca poderei me desculpar. Os dedos começaram a tamborilar sobre o balcão, impacientes e tentados a arrastar a porta de entrada, deixando para trás o pedido de desculpas.
Aquilo não seria inédito, já que o Guardião da Tempestade estava acostumado a fugir de situações que o deixassem desconfortável ou cujo final não lhe favorecesse. Sua autoproteção sempre falava mais alto e se fosse pensar profundamente sobre o incidente no terraço aquele foi sem dúvidas um exemplo de seu egoísmo.
Os passos eram baixos, contudo foram ouvidos claramente. Ele colocou-se de pé, respirando manualmente e vendo surgir a última pessoa que gostaria de vê-lo. Se Yamamoto estiver bravo ou sério eu me desculparei e irei embora sem dizer mais nada. O plano para a segunda opção não foi processado a tempo e o moreno apareceu em seu campo de visão, desarmando-o completamente.
"Ah! Bom dia, Gokudera!"
Não havia raiva ou seriedade, mágoa ou ódio. O Guardião da Chuva vestia a mesma expressão simpática e amigável, e já trajando o uniforme do colégio. Aquela visão o fez apertar as mãos em forma de punhos, escolhendo qual deveria ser a primeira palavra a ser dita. Intimamente ele estava pronto para ser enxotado e humilhado, mas era pedir demais tal comportamento de alguém tão gentil como Yamamoto.
"Eu..." Gokudera relaxou os dedos e seu corpo projetou-se à frente, formando uma polida reverência. "Eu sinto muito por ontem."
O moreno entreabriu os lábios e nada disse. Uma parte nele sentia-se aliviado por ter conseguido se desculpar sem ser atrapalhado, entretanto, qual seria a continuação daquele momento? O amigo o encarou, oferecendo um meio sorriso e aproximando-se devagar. A mochila foi colocada sobre o balcão e ele perguntou se poderiam conversar por alguns minutos.
"Eu prometo que não repetirei o que disse ontem."
O rapaz de cabelos prateados tateou a banqueta, sentando-se devagar e não sabendo ao certo como se portar naquele tipo de situação. Yamamoto sentou-se à frente, aparentando a mesma habitual calmaria e não deixando transparecer nada além do mesmo ar relaxado. Os dois se entreolharam e o Guardião da Chuva riu, coçando a nuca e desviando os olhos.
"Obrigado por ter se dado ao trabalho de vir aqui. Eu achei que você não quisesse mais me ver."
Ele vai repetir tudo o que eu disse ontem? A ideia de ouvir-se novamente fez o café da manhã girar em seu estômago. Ele estava ali justamente por isso, não? Logo, não haveria necessidade para lembrar seu erro.
"Eu disse coisas que não deveria e fui mal-educado. E se realmente parássemos de nos falar o Juudaime notaria e eu não saberia o que dizer."
"Ah, esse é o motivo," por um instante Gokudera achou ter sentido um pingo de desapontamento, mas provavelmente fora sua impressão pessoal, pois o moreno continuou, "não precisa se preocupar com isso. Tsuna jamais saberá sobre aquela conversa. Aliás, eu gostaria que você esquecesse o que aconteceu ontem."
"Não é assim tão fácil idiota! Não é todo dia que um cara aparece do nada e te diz aquelas coisas." As sobrancelhas se juntaram. Se ele fechasse os olhos seria possível reviver aquela cena por completo.
"Desculpe se criei uma lembrança ruim, mas eu precisava da sua resposta. Eu sentia como se não conseguisse seguir em frente sem resolver aquele assunto."
"Você fala como se estivesse pensando nessas coisas com frequência. Não exagere, Yamamoto. Você, o quê? Acordou um dia e decidiu que gostava de mim? Foi no começo do ano? Nas férias de verão? Porque eu juro, eu esperava tudo, menos isso."
"Na verdade, já faz alguns anos..." Yamamoto coçou uma das bochechas e desviou os olhos, levemente embaraçado. "Acho que desde quando começamos a brincar de máfia."
O rapaz de cabelos prateados estava com os lábios entreabertos, porém, não sabia o que falar. Eu não esperava por isso. Quando decidi me desculpar esta manhã eu tinha uma vaga ideia de quando tudo isso pudesse ter começado, mas ouvir que esse idiota gosta de mim desde que nos conhecemos é simplesmente impossível. O que eu devo dizer agora? Os olhos verdes desviaram-se e o Guardião da Chuva desculpou-se de novo, encarando-o por um instante e ficando em pé.
"Eu sabia que você viria se desculpar, Gokudera," Yamamoto passou a mochila pelo ombro e apertou sua alça. "E isso é uma das coisas que eu gosto em você. O Gokudera que eu conheço jamais teria dito aquelas coisas sem se arrepender e, quando penso sobre isso, mais certo eu estou de que me apaixonar por você era inevitável. De qualquer forma, desculpe se criei uma situação constrangedora e fui egoísta ao expor meus sentimentos. Saiba que não pretendo repeti-los e gostaria que não se afastasse de mim. Eu prometo que não o atacarei ou nada disso. Nada irá mudar."
O Guardião da Tempestade levantou-se surpreso pela conversa ter sido muito mais curta do que o esperado. Na verdade, nós dois estamos envergonhados demais para longos diálogos. É melhor assim. Sua resposta foi um simples menear de cabeça e sua companhia fez sinal para que saíssem pela entrada do restaurante. A temperatura parecia ter caído ainda mais desde que entrara e seu rosto afundou-se na jaqueta, xingando tudo e todos por ser obrigado a ir ao colégio em um dia tão frio. As primaveras não deveriam ser mornas e alegres? Porque eu estou com roupa de inverno e deprimido?
O moreno riu como de costume e ambos iniciaram a caminhada em direção à casa de Tsuna. Aquele caminho tornara-se tão habitual que nenhum deles se dava ao trabalho de fazer perguntas. O silêncio também era velho amigo, e Gokudera utilizou aquele tempo para pensar um pouco mais sobre sua situação. Na noite anterior ele esteve cansado demais para analisar certos pontos que agora pareciam incrivelmente claros.
O idiota viciado em baseball era popular. Irritantemente e absurdamente popular.
Desde que entraram no ensino médio, Yamamoto passou a ser conhecido como "Capitão" pelos corredores do colégio Namimori. Aquela distinção não trouxe somente respeito, como também garotas que não perdiam nenhum de seus jogos, torcendo com afinco. Muitas deixavam cartas de amor em seu armário ou se confessavam entre as aulas. Todavia, Gokudera nunca o viu com nenhuma delas e aquele detalhe começava a fazer sentido se fosse adicionado à equação. Então ele estava falando a verdade quando disse que gosta de mim há anos.
Era realmente difícil acreditar nesse tipo de coisa. Um rapaz que poderia ter a garota que quisesse de repente se confessa a ele e pede para agir como se nada tivesse acontecido? Se a confissão por si não fosse suficiente, era impossível não questionar os reais motivos que se escondiam por trás daquelas palavras. Yamamoto disse que precisava falar para seguir em frente. Mas para onde?
O Guardião da Tempestade mordeu o lábio inferior, juntando as sobrancelhas e sentindo-se ainda mais confuso. Havia tantas coisas que ele gostaria de saber, mas tinha consciência de que provavelmente aquele assunto não voltaria a ser mencionado.
A brisa fria o fazia fechar os olhos, torcendo para que Tsuna houvesse se agasalhado ou acabaria pegando outro resfriado. As ruas eram cruzadas, sinais atravessados e, quanto mais caminhava ao lado do moreno, mais certo ele estava de que algumas coisas quando ditas jamais poderiam ser esquecidas. E eu terei de discordar do idiota. Tudo mudou.
Continua...
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