Spring NY
16 You're with me yet
You're with me yet
E como reprise, um dejávu, a noite despencou.
Dentre os mais altos arranha-céus cinzas e cobertos de fuligem, a estrela-da-luz se despedia de mais um dia na América do Norte, forte e disposto a nascer entre as montanhas russas. A transição outono-inverno parecia disciplinada naquele quase fim do ano de 2001. Uma insistente garoa fina durava mais de horas todo fim de tarde, enquanto a brisa se transformava em um vento rígido e áspero. As temperaturas estavam caindo gradualmente. Logo a bola do One Times Scare despencaria de seus 43m de altura e mais logo ainda, o natal obrigariam a todos enfeitarem suas janelas e vitrines.
O Eight Legend incluso.
Elsa observou Anna de longe. A caminho da sede da Komplett, a mulher loira havia decidido dobrar duas esquinas de forma antecipada, a fim de ficar retida no demorado sinal vermelho da 11th av. De longe conseguia ver Anna conversar animada com um rapaz alto de cabelos escuros e cavanhaque feito. Ele segurava a escada enquanto Anna pendurava um emaranhado de luzes douradas na entrada e no teto da área externa.
Elsa desfrutava a vista privilegiada da jovem em um dia normal. O Eight Legend devia ter atualizado o uniforme dos funcionários, constatou Elsa. Anna usava uma camisa social cinza de tecido fino, com as mangas em ¾, junto com um avental preto. O cabelo alaranjado estava trançado e descia suas costas como um rio flamejante e voraz.
A cena foi riscada quando Elsa se assustou com a pesada e barulhenta buzina do carro vermelho atrás de si e um quase xingamento. O sinal estava verde e ela ainda parada. Um último olhar em Anna e a garota olhava diretamente pra si. Devia ter reconhecido o carro. O sinal fechou novamente, mas Elsa sentiu suas orelhas arderem de vergonha e arrancou, entrando na principal. Anna sorria, divertida. De fato poderia ser legal desconcertar alguém.
Elsa parou na sua vaga reservada, em frente à sede da Komplett. Um alto prédio de arquitetura moderna e slogan chamativo. A mulher loira se sentiu distante do espaço-tempo atual. Estava voltando a trabalhar aos poucos, conforme conseguia remover os obstáculos. De casa, mandava e desmandava, através de longos corpos de e-mail’s, beeps e telefonemas. Julgava não estar pronta para a rotina de escritório novamente. A sala da presidência ainda a esperava e Esmeralda havia subido de cargo para representá-la o melhor possível. As reuniões, porém, a estavam matando. Nenhum representante era aceito por seus sócios.
Suspirou.
John Smith passou pela porta rotatória, com o celular junto ao ouvido, enquanto arrumava sua grava fora do lugar. Esmeralda não demorou muito. Quando surgiu, parecia irritada. Jogou sua bolsa marrom no banco traseiro e tirou com rigidez o casaco florido que usava. Encostou a nuca contra o apoio do banco, contando lentamente — e em outra língua -, até três.
“Sabe Elsa, sou uma cigana muito bem criada. Se tenho residência fixa é porque sou livre e reconheço meus deveres de cidadã. Eu jamais desejaria a morte de ninguém, mas se eu não apertar o pescoço do Hans ou do Weselton até o fim do ano, é possível que eu aperte o seu”.
Elsa tomou fôlego para responder, até que se deu conta das palavras proferidas pela mulher ao lado. Franziu o cenho em sinal de confusão e por fim achou sensatos ficar calada. Talvez acionar a ambulância de forma antecipada.
“Não sei como você dava conta de ficar na mesma sala que aquela corja de urubus sarnentos tantas vezes ao mês. Querem encerrar a linha K e transformar os poucos avanços que conseguimos desde a saída do seu pai em uma piada. Querem que a Komplett seja reconhecida no mercado como uma marca de exposição, que estejamos em camisas, bonés e pingentes de prata. É ridículo, Elsa” Esmeralda deixou seu corpo tombar para frente, encostando a testa contra o painel cinzento da BMW “Não estão satisfeitos com as vendas da linha popular e nem com o retorno que temos recebido com o patrocínio do Brooklyn Nets”.
Informações demais para pouco cachê de processamento, certamente.
“Hans diz ter conversado com seu pai sobre uma possível venda da sua parcela da empresa.”
Elsa sentiu uma pontada na nuca e mordeu a parte interior da sua bochecha. Desde que se reconhecia como adula era acionista da Komplett, sempre encabeçando a administração em nome de Agnnar. Seus quase 57,6% de ações sempre pareceram incomodar os demais sócios, mas não ao ponto de se organizarem em um complô contra si.
“Se Hans de fato conversou com o meu pai, o que não seria uma surpresa, seus planos são mais baixos que imaginamos. Não ficaria surpresa se meu pai entrasse em contato pra falar sobre a venda ou sugerir que um casamento somaria ambas as partes. Juntos, Hans e eu teríamos quase 70% das ações e ele estaria na linha de comando, como meu pai sempre quis desde que se conheceram. Seria o ápice da vida aposentada de Agnnar Arendell”.
Elsa tateou o bolso do blazer de forma inconsciente.
Mas não passou despercebido por Esmeralda.
“Como vamos lidar com eles?” A cigana questionou cansada, segurando o olhar escuro e rígido sob Elsa.
“Bem, eu... Não acho que seja o momento certo pra resolver isso. Acho que já temos problemas demais pra organizar o feriado de amanhã”.
Esmeralda desfrutou do momento, rindo, parecendo mais tensa ainda.
“Acho que é o seu pescoço que vou ter que apertar mesmo”.
O feriado de Ação de graças dos Arendell podia ser tudo, menos algo alegre com purê e ave assada. Logo em seu primeiro ano da universidade, Elsa havia decidido que era mais proveitoso passar o feriado junto com sua amiga [namorada] que com seu pai e amigos empresários. Agnnar não aceitou o fato, negando à Elsa a opção de escolha. Uma briga inflamada resultou em nunca mais um Arendell se juntar à outro durante o feriado em questão. E dentro de quase doze anos, a tradição de sequer se ligarem perdurou.
Nos últimos três anos Elsa tinha passado o feriado sozinha. Do alto da sua sacada, podia ouvir o desfile e o raro silêncio nova-iorquino no anoitecer. Costumava ter poucos aviões e poucos apartamentos acesos – o seu, inclusive mantinha-se apagado. O sol estava pondo cada vez mais cedo e o frio parecia mais insistente a cada dia. Enquanto escutava Streets Of Philadelphia na voz de Bruce Springsteen, Elsa costumava imaginar as novas nevascas e assovios que os deuses mandariam através do inverno.
2001 era um novo milênio e o novo sempre traz possibilidades, inclusive para Elsa e sua tácida tradição. Esmeralda não tinha o costume de celebrar feriados cristãos e, considerando que seus pais estavam longe, tinha aceitado jantar com Elsa. Anna argumentara que seus pais e seu primo-irmão viajaram para ‘algum-lugar-perto-de-cuba’ e que por isso, teria que encontrar ‘alguém-tão-importante-quanto-eles’ para o ocasião. Kristoff tinha planos de passar com a família, no Queens, até Anna o convencer do contrário. Amber estava brigada com os pais, que não aceitavam a gravidez da filha mais nova.
Elsa estava preocupada. Em um espaço muito curto de tempo sua vida tinha dado uma volta de 360° e ela já não era nem a filhinha de Agnnar Arendell e tampouco a amante rica e sedutora da cidade que não dava seu nome depois da transa, a fim de evitar complicações. O tempo corria.
Enquanto guiava o carrinho de compras, Esmeralda riscava a caderneta e escolhia os produtos conforme a lista combinada com Anna. A dita lista, combinada por e-mail, contava com engradado de cerveja, batatas pré-fritas, balas de goma açucarada e pringles de cebola.
“Esses garotos, amigos da Anna, tem quantos anos?” Esmeralda levantou o questionamento, apertando as sobrancelhas e crispando a boca, como quem tivesse lido algo impossível de se acreditar.
“Acredito que entre vinte e três e vinte e quatro” Respondeu.
“Não acredito que amadurecemos tanto em questão de sete anos, apensar. Para que diabos usariam gomas e cereais de milho na Ação de graças? Acho que eles confundiram o feriado, Elsa. Devem achar que é halloween, porque não é possível que isso seja sério”.
Esmeralda claramente estava levando tudo muito a sério, também.
A mulher voltou a caminha e Elsa voltou a segui-la em silêncio, se perguntando se teria sido uma boa ideia trazê-la para fazer as compras do jantar. Procurou – e dessa vez de forma consciente – o cigarro no bolso do casaco. Sua carteira tinha acabado. Quando jogou uma carteira extra de Kent dentro do carrinho e compras, a embalagem entrou em contraste com a caixa de cereal matinal. Elsa se sentiu velha e abatida. Quase um velho texano.
Talvez fosse mesmo halloween.
A atendente do caixa passou as compras, fingindo não reparar que era uma estranha mistura de Jack Daniel’s, ervas frescas e balas de goma. Um peru médio já temperado e uma torta de abóbora pronta. Elsa e Esmeralda podiam ter sete anos a mais de contrate com os jovens convidados, mas nenhuma das duas eram excelentes cozinheiras.
A mulher loira esperou Esmeralda descer do carro e acenar um ‘até logo’ para então acender seu terceiro cigarro do dia. Com o vidro do carro aberto, acelerou, sentindo a nicotina preencher seus pulmões e a brisa fria limpar seu rosto. Já era tarde e o banco traseiro da BMW lotado de sacolas de supermercado deveria significar algo para ela. Porém, como nem tudo são flores, seus pensamentos estavam inteiramente voltados para Hans Thomas. E por mais doído que fosse pensar assim, estava passando a cogitar a ideia de aceitar o casamento arranjado. Seu pai não desistiria. Quem sabe aquele não era o penoso caminho para alcançar a paz interior.
[seu pai se orgulhará].
Em casa, Elsa armazenou tudo e se sentiu mais cansada que em um dia inteiro de serviço de escritório. Abriu a Jack Daniel’s sem sequer pensar no amanhã. Metade do copo sem gelo. Na varanda, acendeu outro cigarro e sentiu o gosto do ferro e do fogo descerem amargos sua garganta. A garoa fina estava molhando levemente os fios loiros e grudando o tecido da camisa em seus ombros, mas ela não parecia se importar o suficiente para voltar para dentro de casa. Se sentou no chão molhado.
Ele nem sempre tomou decisões ruins... Quem sabe essa não é uma daquelas razoáveis. A Komplett é mais que uma herança dele. É algo em que eu acredito de verdade, é algo completo. Entregá-la nas mãos sujas de Hans seria como declarar publicamente sua ruína. Nosso slogan seria manchado e nossa política também. Por outro lado é importante pensar se ela é mais importante que um pouco de paz na minha vida. É asqueroso pensar em Hans colocando um anel em meu dedo, mas se isso trouxesse felicidade ao meu pai... Eu talvez aceitasse. Se eu deixasse como condição manter minha hierarquia, meus projetos... Ou se eu a vendesse a qualquer outro sabixão de Nova York, quem sabe.... Oh deus, Hans e toda sua corja de irmãos britânicos. Prefiro me enterrar viva em um terreno baldio a me chamar Elsa Thomas.
Em um curto instante, Elsa se imaginou Elsa Miller e riu, nervosa. Há muito não sentia algo como sente quando está com Anna. Um estranho nervosismo e uma profunda vontade de se esforçar para agradá-la. Pensar que deveria, seriamente, escolher entre Hans e Anna beirava o ridículo de tão óbvia que era a resposta. Misturar sua vida profissional com sua vida amorosa tinha era um grave erro difícil de reparar. Agnnar era um homem difícil.
Só Deus sabe como cheguei a tal.
A garoa evoluiu para pingos gordos. O copo vazio e o cigarro no fim.
O inverno está chegando, Elsa.
Sua enxaqueca piorou quando entrou.
Dormiu no sofá, com uma mensagem de texto aberta.
“estou ansiosa por amanhã. durma bem, els.”
recebida, 22h09min.
Acordou no chão, sob o carpete fofo. Dentro de vários minutos permaneceu na mesma posição, imaginando como deveria começar aquele dia em questão. Do lado de fora, o céu estava escuro e nublado. Sua língua tinha um gosto particularmente amargo de álcool azedo.
E o silêncio que um dia fora tudo pra si, hoje, era incomodo.
Se apoiou na mesa do centro, observando a bituca de Kent apagada contra o vidro e a cartela de aspirina.
Seu telefone fico tocou antes que alcançasse a porta do banheiro. A secretária atendeu e Esmeralda afirmou através da voz eletrônica que chegaria as 16h para ajudar na preparação do que faltava. Elsa apertou os olhos pra enxergar o relógio digital do outro lado do cômodo: faltavam pouco mais de trinta minutos para as quatro da tarde. Elsa espirrou, quando entrou debaixo da ducha quente. Se sentia revigorizada toda vez que fazia isso. Ainda tinha duas marcas levemente arroxeadas, na altura da cintura, da última vez que estivera com na casa da garota ruiva.
Ela está ansiosa por hoje. Se levante Elsa, se vista bem e faça um bom purê de batatas com queijo.
O pensamento era egoísta para consigo mesma, mas lhe forneceu momentos de paz. Enquanto na ducha, sequer lembrou da cicatriz. Haviam marcas mais importantes que outras – pelo menos naquela circunstância.
Logo Esmeralda batia à porta. Havia trago baguete fresca, frutas secas e vinho tinto. E apesar de Elsa não parar de mordiscar os damascos, Esmeralda não precisava saber que aquela era a primeira refeição da loira dentro de uma grande quantidade de horas passadas. Elsa cogitou se deveria conversar e captar a opinião de Esmeralda sob o assunto que tanto lhe atormentava.
“Esmeralda, hm, eu...” Começou, incerta. Tinha muito o que falar e vários meios de abordagem. Esmeralda acenou, afirmando estar ouvindo o que a loira tinha a dizer, mesmo enquanto baria as batatas cozidas no liquidificador “Sei que é absurdo, mas gostaria de saber sua opinião sobre o meu pai”.
A cigana não tirou o dedo do botão do liquidificar, que continuou triturando as batatas sem dó ou piedade. Seus pupilas estavam estranhamente dilatadas, como se ela tivesse olhos castanhos médios.
“Qual coisa sobre seu pai? Ele parece um vilão de desenho infantil, com vários planos mirabolantes e maquiavélicos”.
Elsa riu, enquanto colocava mais um pouco de vinho na taça. Suspirou tomando coragem, antes de continuar sua abordagem.
“O do provável casamento”.
Esmeralda havia terminado com as batatas e agora aquecia uma grande quantidade de manteiga em uma grossa panela de ferro negro. Passou os olhos sob a bancada de mármore branco, em silêncio.
“Bom, acho uma tremenda idiotice e um tremendo desperdício de potencial. Aliás, um tremendo desperdício de mulher, se quer saber” Respondeu, séria e com a voz firme.
Se tratando de Esmeralda, Elsa esperava uma resposta próxima daquela. Esperar, porém, não era o suficiente para não fazê-la corar e sentir suas maçãs do rosto mais quentes. Molhou os lábios para responder, enquanto mantinha os olhos presos e desfocados na própria mão sob a bancada.
“Mas não parece o caminho mais fácil? Menos dolorido, ao menos. Eu continuo minha vida dentro da Komplett, atendo os interesses do homem que me deu tudo, sigo minha vida da melhor forma e....”
“Você está se esquecendo da principal parte”.
Elsa sabia que sim.
“Meu pai parece não se importar com essa parte. Talvez eu também não devesse. E quem sabe não seja tão ruim”.
A manteiga queimou, subindo uma fumaça cinzenta pelo cômodo. Esmeralda desligou o fogo, parecendo se conter para não jogar a manteiga quente, a panela ou o próprio fogão semi-industrial na cabeça de Elsa. Respirou fundo – fundo até demais -, antes de cruzar a cozinha em passo lentos e decididos. Alcançou Elsa e a segurou firme pelos ombros.
“Me escute, por favor” Esmeralda disse, com o tom baixo e manso. A cigana segurou o queixo da loira, obrigando-a a fazer contato visual. Pela primeira vez Elsa reparou na tênue diferença de altura entre ambas – Esmeralda era relativamente mais alta.
E de fato os olhos de Elsa eram um mar tempestuoso e solitário.
Ao mesmo tempo que os de Esmeralda lembravam uma densa floresta, da qual nunca se sabe o que pode ou não sair.
“Você é forte. O suficiente para não precisar vender seu corpo e sua alma à um babaca qualquer. Seu pai só é bem sucedido financeiramente e você também já é. Se não quer abrir mão da Komplett, faça seu trabalho, mas não cogite caminhos tão tortuosos. Não é entregando sua paz e você encontrará... Sua paz. Reconheça quem você é e o que você já conquistou. Olhe ao redor e prese pela sua liberdade. Pense em Anna ou seja lá quem você ame. Pense que você ainda tem tudo pra crescer espiritualmente” Esmeralda concluiu, com um sorriso sincero e preocupado. Afastou os fios loiros e beijou a testa da mulher “Você é minha chefe, Elsa, mas a considero minha amiga também e prezo pelo seu bem estar. A escolha sempre foi e sempre será sua. Considere minhas palavras e lembre-se que no final, eu vou apertar o pescoço de alguém. Seja o seu, o do Hans ou o do Agnnar”.
Elsa a abraçou firme, descansando o queixo no ombro da cigana.
“Obrigada”.
Já era noite quando terminaram de monta a mesa. O peru temperado com pão, laranja, mel e pimenta estava no forno para se manter aquecido. À mesa, os engradados de cerveja, o vinho do porto, o jack daniel’s e uma jarra com água. A torta de abóbora com chantilly e canela polvilha, o purê de batatas, um vidro com ervilhas frescas e um com molho de cramberry, damascos e frutas vermelhas secas e uma travessa de pringles e batatas fritas.
Elsa e Esmeralda soltaram o ar juntas, aliviadas.
“É, mas a água e a cerveja devem voltar pra geladeira”.
“Vou tomar banho. Trouxe roupa?” Elsa anunciou.
“Trouxe sim, mas vá na frente”.
Eram 21h30 quando Anna, Amber e Kristoff chegaram. As luzes da entrada da casa estavam apagadas e somente as luminárias principais da sala de jantar estavam acesas. A princípio, as paredes de tons neutros e as lâmpadas rústicas pareciam em desacordo com a vista panorâmica da parede vidro do outro lado. O céu, negro e nebuloso, os lembrava que o outono estava para terminar. Anna vestia uma calça escura e justa, um sapato igualmente escuro e fechado, uma camisa de mangas longas verde e um colete cor de creme. Kristoff usava uma jaqueta de plumas azul e volumosa, além de uma touca vermelha na cabeça. Amber estava de vestido cinza e jaqueta de camurça, sua barriga ainda não aparentava seus quase três meses de gravidez.
Anna sorriu de forma calorosa quando deixou os olhos verdes caírem em uma Elsa de jeans azul, regata preta e um discreto relógio de couro no pulso. A ruiva abraçou a mulher forte, a beijando de forma apaixonada. Elsa não tinha o costume de receber recepções acaloradas como aquela. Esmeralda, que tinha um pano de seda rosa entre seus fios negros e volumosos e uma longa saia roxa, também abraçou Anna forte. Tinha se afeiçoado à garota mais jovem.
“Me sinto mal de tê-las feito comprar pringels” Anna riu, enquanto mastigava um pedaço da baguete “grande parte da lista era sacanagem”.
“Nós notamos” Esmeralda respondeu séria “Mas não vimos problemas”.
“Anna provavelmente queria um dia de Ação de graças igual aos episódios de Friends” Kristoff gargalhou, abrindo mais uma lata de cerveja e colocando no próprio prato mais um pedaço da coxa do peru.
“Se fosse no apartamento provavelmente seria mesmo” Amber concordou “Todos íamos finalizar a noite dividindo torrada com manteiga”.
A mulher loira encheu mais uma vez sua taça de vinho, sem muito interesse no que os garotos falavam. Anna parecia bastante a vontade, rindo e comendo três tipos de batata com cerveja.
“Cara” Kristoff recomeçou a conversa com as mulheres mais velhas. Ele aparentava estar mais solto e menos intimidade que no começo do jantar “O tempero desse frango tá sinistro. Quem temperou?”
Ambas se encararam.
“Foi comprado no” Esmeralda começou.
“Foi a Esmerald” Elsa cortou e terminou.
Um curto silêncio e Kristoff tomou mais um gole na cerveja.
“Depois te passo a receita, Kris” Elsa piscou. O garoto pareceu decepcionado e demorou um pouco para aceitar. Quando aceitou, sorriu satisfeito consigo e pegou mais um pedaço.
“Como estão as coisas no restaurante, meninas?” Esmeralda iniciou outra conversa, a fim de fugir do clima silencioso estabelecido.
“Difícil. A cada dia James está mais rígido” Amber sacudiu o garfo “As pausas estão cada vez menores e o cheiro das plantas, cada vez pior”.
Anna tombou a cabeça.
“Mas a Ciara aumentou nossa pausa de quinze para vinte minutos”.
“Sequer notei, de tão insignificante”.
Anna revirou os olhos para a amiga.
“Você sabe o motivo” Anna disse.
“Não comece, Anna”.
“Qual é o motivo?” Kristoff se intrometeu.
“Ela está tentando deixar de fumar desde o começo de outubro”.
“Anna!”
“O que é? Você não tem motivos pra se envergonhar”.
Elsa se endireitou na cadeira, acertando a coluna e sentindo a nuca doer. Pegou mais uma concha do molho de cramberry.
“Eu gosto de fumar e acho uma terrível injustiça a proibição”.
“Você sabe que essa merd” Anna pareceu bastante inflamada. Quando olhou para Elsa, diminuiu o tom “Sabe que não faz bem para o bebê. Nem sei porque ainda reclama”.
Elsa sabia o quanto Anna odiava cigarros, pois poucas semanas antes a tinha visto jogando metade da sua carteira no vaso sanitário e dando descarga. Anna, porém, não imaginava o quanto ambas partilhavam o mesmo ódio pela nicotina e todas suas meio milhão de substâncias cancerigênos.
“É difícil, mas continue com os chicletes” Esmeralda aconselhou.
A conversa estava fadada a morrer.
Amber se adiantou cortando o primeiro pedaço da torta de abóbora com creme e voltando a conversar com Kristoff e Anna sobre a faculdade de veterinária e suas disciplinas inciais. Esmeralda dizia estar satisfeita e pediu licença para atender uma ligação. Elsa se levantou e caminhou até a varanda, torcendo para ninguém notar sua ausência à mesa. O vento continuava gelado, e ao longe, ainda era possível ouvir o desfile que acontecia no centro da cidade. Elsa acendeu seu cigarro e tragou fundo.
Fechou os olhos lentamente, seus músculos relaxando e sua boca seca. A dopamina sendo liberada vagarosamente.
“Els” Anna sussurrou quando escorregou a grande porta de vidro para o lado. Caminhou silenciosamente, abraçando a cintura da mulher e encostando todo o corpo contra as costas de Elsa, que sentiu e agradeceu mentalmente o calor inesperado e bem-vindo “Está frio aqui”.
“Está” Elsa riu. Quando se virou e encostou contra a grade de proteção, lembrou do quanto Anna era bonita. As sardas travessas eram contraste na pele levemente bronzeada. Os fios tons de cobre brilhavam com as luzes de fundo. Os olhos verdes de Anna pareciam dizer muito mais que o normal.
“Está fumando de novo...” A garota comentou.
“Eu nunca parei. Mas não estou grávida, se te deixa melhor”.
Anna riu.
“Sim, me sinto melhor.” Elsa levou os dedos gélidos até o rosto da garota, apertando seu nariz gelado. Seu cigarro tinha apagado na mão esquerda, mas ela não estava se importando.
Ficaram alguns minutos naquela mesma posição. Elsa olhava para o céu, enquanto Anna se questionava sobre como Elsa era imune ao frio. Elsa então se sentiu confortável o bastante para buscar os lábios azuis da garota mais jovem, em busca de calor e do gosto família da língua áspera.
O vento não perdoava.
Anna não combinava com o inverno.
Elsa segurou delicadamente ambas as mãos da garota, beijando um dedo de cada vez. Sentindo a textura do nó de cada um deles.
“Elsa” Anna sibilou.
Elsa a olhou. Os olhos verdes brilhavam e a garota parecia nervosa, engolindo a saliva parada na boca e molhando os lábios para começar.
“Namora comigo?”.
Elsa sentiu uma familiar tensão recobrir seus ombros. A resposta devia ser automática, mas Elsa sempre pensava em tudo e pensava demais.
“Não é um mau dia para começar um namoro?” Elsa questionou, fingindo brincadeira. Encostou sua testa junto à da garota, mantendo o contato visual que tinham estabelecido.
“Não, é intencional. Então em todos os nossos aniversários será feriado” Ela sorriu, demonstrando se sentir vitoriosa.
“Mas Anna, uma amante fácil como eu? Não acha estranho termos dormido juntas logo na primeira noite?” Elsa voltou a questionar. Já sabia sua resposta, mas queria ver Anna dançar àquela noite.
"Você não é nem pouco fácil depois da primeira noite e mesmo que fosse, é mais fácil você colocar alguém de joelhos, roubar o coração das pessoas e deixá-las, do que ao contrário. Você, Elsa Arendell, é o tipo de garota dos sonhos, que te segura firme e alguém no fundo fica gritando 'cuidado!'. Mas quando você vê, já aconteceu...".
“Não tenho certeza se isso é algo bom” Elsa ponderou, apoiando os antebraços nos ombros da garota e a puxando para mais perto “Me conte mais”.
“Você é do tipo garota má, Elsa Arendell, com seu cigarro e tudo”.
Elsa riu e então se aproximou vagarosa de Anna. Sussurrando baixinho, próximo demais da orelha da garota, cantando uma antiga canção.
“Like a flame you touched my life, felt so good, felt so right”
Como uma chama, você tocou minha vida, me sentia tão legal, tão bem
“Time goes fast, love grows slow...”
O tempo passou rápido, o amor cresceu devagar...
“Não termine” Anna se afastou “Simplesmente não faz sentindo”.
Elsa lhe beijou o canto da boca, diminuindo ritmo da música e segurando a garota pela cintura, como quem começa uma dança romântica.
“You're with me yet, you're in my soul”
Você ainda está comigo, está em minha alma.
Anna suspirou. Elsa não soube reconhecer se era de paixão, cansaço ou qualquer outro sentimento. A ruiva então escorreu o polegar pelo maxilar rígido de Elsa, antes de ficar na ponta do pé e finalizar, no ouvido de Elsa, as partes soltas da música.
“Did it all for love, do it all again”
Fizemos tudo por amor, faremos tudo novamente.
Elsa sentiu sua nuca arrepiar.
“Eu aceito, Anna”.
Tudo isso e mais um pouco, meu amor.
“Feliz Dia da ação de graças, Elsa”.
03 de março de 2019
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