Spring NY

17 Try this trick and spin it


Parte IV — Winter

Try this trick and spin it

A transição outono-inverno podia ser amarga aos olhos de quem não apreciava a baixa temperatura que perduraria até meados de março. Era preciso se despedir das árvores coloridas de cobre e do romantismo do outono, do café em terraço e pôr-do-sol marcante. Quando o inverno chegasse, era preciso se atentar às roupas e a umidade, manutenção do sistema de aquecimento e até mesmo o sal que o Serviço de Limpeza jogava sob as calçadas a fim de derreter o mais rápido possível as placas de gelo e neve – o sal pode manchar os calçados de couro que a população nova-iorquina tanto adora.

Anna não gostava do inverno.

Nascida e criada no extremo sudeste do país, estava acostumada com invernos amenos e que raras vezes alcançavam graus negativos. Quando a garota presenciou sua primeira nevasca, pôde constar o quão assustadora podia ser a natureza. Ventos cada vez mais cortantes. Era disforme, mas também belo. O frenesi da época natalina, decorações, feiras e mercados de rua, patinação, bonecos de neve no Central Park.

Sorriu, sem humor, para o grupo de jovens que tentava atender. Comemoravam a vitória sob um time de basquete de Atlanta e por isso conversavam alto, tomavam SevenUp e flertavam entre si. No meio disso, Anna tentava fazer seu trabalho. O que aparentava ser o líder da matilha tinha um corte de cabelo estilo militar e ombros largos.

Uma das garotas presentes na grande mesa era loira, mas de um tipo diferente dos fios claros de Elsa. De qualquer forma, lá estava Anna lembrando da namorada. Havia se passado três semanas desde que pedira a mulher em namoro e de lá pra cá, pouco haviam se visto. Aos poucos Elsa estava voltando ao trabalho junto à Komplett e Anna tinha uma grande carga de atividades acumuladas dentro da faculdade – e porque não, do restaurante também.

O dia atual, contudo, era o dia marcado. Anna havia combinado dormir na casa da namorada porque não teria aula na manhã seguinte. Durante o fim de semana planejara diferentes formas de abordar o convite à terapia com Elsa, de forma que não parecesse estar forçando entrada junto a vida particular da outra. Queria deixar claro que era uma pessoa confiável e de total abertura. Estava disposta a ouvir todas as dores da mulher, aceitar, abraça-la. Inferno, se Elsa dissesse ter matado alguém e pedisse ajuda para se livrar do corpo ou depor a favor de si no tribunal, Anna o faria. De qualquer forma, se tudo saísse como planejado, voltaria para casa com o dever cumprido e um sorriso no rosto.

“Ruivinha” O líder da matilha sorriu “Três pratos da casa”.

Perto do fim da tarde, Kristoff entrou no restaurante e sentou em uma das primeiras mesa, para duas pessoas. A garota entendeu a aparição do amigo como mando divino. Quando seu horário de pausa surgiu, o chamou para conversar na sala de descanso dos funcionários.

“Vamos lá, Anna, sem mistérios” Kristoff levantou a sobrancelha.

“É sobre Elsa, sempre há mistérios” Respondeu, sentando no sofá cor-de-creme “Quer dizer, eu a amo e ela é inteligente, bonita, sedutora e merda, tão sexy! Mas não é sobre isso que te chamei pra conversar, Kriss. Como comentei contigo semana passada quero sugerir terapia à ela e não sei como”.

“Oh Anna” O garoto sorriu, caminhando até ela e se sentando “Você anda me deixando pouco a par da sua vida romântica. Qual é da parada da terapia?”.

Anna franziu o cenho, julgando ser verdade a afirmação. Sempre contava tudo, sem excitações, para Kristoff. Desde as angústias aos momentos de felicidade mútua. Mas aquela conversa não dizia respeito somente sua ‘vida romântica’, mas a vida de um terceiro elemento totalmente fechado.

“Na verdade, não te contei tudo porque... Me pareceu muito íntimo dela” Anna coçou a nuca, deixando o olhar perdido na mesinha de centro “Estava conversando com Esmeralda sobre o comportamento de Elsa e nós concordamos que ela deveria receber auxílio de um profissional. Tipo um psicólogo ou psiquiatra se for preciso. Mas sei lá, não é fácil chegar em alguém, sobretudo Elsa e aquele maldito sorriso-de-estou-certa e abordar isso”.

“Hmm” Kristoff sacudiu a cabeça de maneira positiva, apesar de não parecer tão pensativo “É bem íntimo mesmo, mas você sabe que eu jamais contaria nada disso pra ninguém. E sendo bem honesto, Anna, você acabou montando um complô. Somos três, agora, reunidos e conversando sobre o que é ou não melhor pra uma quarta pessoa! É quase um clubinho de escola, com ideais diferentes, menos malignos e tal”.

Anna sabia e ainda assim revirou os olhos.

“Não faça eu me sentir mal a essa altura do campeonato, Kriss”.

“Certo, desculpe” Levantou as mãos em sinal de paz “Qual o plano?”.

“Marquei de dormir no apartamento dela hoje” Anna contou, ajustando o nó do avental “Só queria uma forma de abordar isso tudo da maneira mais casual possível. Não deve ser nada legal você estar assistindo um programa qualquer na TV e alguém surgir falando ‘então, acho que você tem alguns problemas de autodestruição e precisa de ajuda’, sabe?”.

“Opa, opa, como você chegou a essa conclusão?” Kristoff franziu as sobrancelhas e a olhou firme “Quer dizer, nunca vi marcas nos braços de Elsa”.

“Ela mais bebe e fuma que qualquer um que eu conheça”.

“Ah”.

Um silêncio se instalou no cômodo. Sabia que Kristoff estava pensando seriamente sobre as informações recebidas. O silêncio, porém, só fez Anna se questionar se estava transformando uma simples conversa em algo grandioso e dolorido demais. Talvez simplesmente devesse falar e tornar tudo simples.

Quando a pausa de Anna terminou, Kristoff se levantou.

“Tenho que ir. Escute, acho que quem precisa se acalmar é você. Sei que está ansiosa e quer ajudar Elsa, mas seja só... Você. Direta, fofa e tudo mais”.

“Argh” Anna suspirou, pulando fora do sofá.

Ele caminhou até a garota ruiva e abraçou.

“Apenas tenha calma e não se afobe. Quando faz isso, começa a devanear e isso pode sufoca-la ou assusta-la. Fora isso, vai dar tudo certo” Concluiu, dando um beijo no topo da cabeça ruiva.

Anna retribuiu o abraço e quis se prender àquelas palavras.

Pelo resto do expediente a garota ruiva sentiu a ansiedade corroer seu estomago. Perto do horário que havia combinado de Elsa busca-la, mandou uma SMS avisando que iria de táxi, porque tinha que passar em um caixa eletrônico. Da 11th av. para Flatiron era pouco mais de trinta minutos de caminhada, passando pelo centro da cidade. Anna achou melhor assim. Se despediu de Amber com um aceno e saiu, trajando um grosso sobretudo marrom, touca verde sob os fios acobreados, cachecol laranja e luvas pretas. Antes de atravessar a rua colocou os fones-de-ouvido e deu play no álbum do Pixies.

As ruas continuavam lotadas apesar da garoa fina e da temperatura da casa dos 9°C. O tempo cada vez pior, o sol demorava surgir na manhã e se sumia rápido no horizonte. O sistema de aquecimento a vapor no subsolo de toda Nova York estava ligado e deixava tudo um tanto bizarro, meio caótico, meio Gotham City. Ou até meio balada paulistana. Anna caminhou devagar, parecendo querer adiar a situação ao máximo possível. Observava com calma as decorações natalinas e de repente pensou com quem deveria passar o natal, já na próxima terça-feira. Suspirou. Mais um problema em busca de resposta.

Quando chegou ao grandioso prédio no distrito de Flatiron, a BMW azul-Oxford estava devidamente estacionada. Anna entrou, desejou boa-noite ao porteiro Jim e chamou o elevador, que não custou aparecer.

O trajeto do térreo ao 29° andar foi angustiante.

Hora pensava estar abusando e ultrapassando as barreiras do seu papel como namorada-de-poucas-semanas; outrora pensava que estava sendo sensata e fazendo a coisa certa; e depois, pensava que estava exagerando em se preocupar tanto com aquela conversa e que qualquer amigo podia abordá-la. Quando o elevador parou e se abriu, a porta do apartamento de Elsa sorriu maligna para Anna, como se soubesse que a garota estava quase se arrastando.

Sacou o próprio chaveiro e destrancou a porta. Sentiu um rubor subir às maçãs do rosto. Não tinha parado para pensar sobre o fato de ter recebido a chave da casa de outra pessoa. A porta abriu devagar e somente a luz da cozinha estava acesa, um cheiro de molho branco e noz moscada. Encheu os pulmões de ar antes de pisar na casa e fechar a porta atrás de si.

Caminhou de forma sorrateira, como um grande gato laranja. O áudio do fone-de-ouvido parecia estourar agora no apartamento silencioso. Quando entrou na cozinha, observou Elsa de costas para si, junto à pia, cortando o que parecia ser um pimentão amarelo. Where is my mind? começou a tocar e Anna sabia não ser a música ideal e mesmo assim não conseguia tirar o aparelho dos ouvidos ou pausar o Discman.

“With your feet on the air and your head on the ground”.
Com seus pés no ar e com sua cabeça no chão

“Try this trick and spin it”.
Experimente este truque e gire

Elsa se virou ao fim da primeira estrofe. Apoiou o quadril contra a pia e cruzou os braços, um sorriso convencido no rosto. Usava uma social cor-de-vinho com as mangas dobradas em ¾, morrendo em uma calça de brim preta. O cabelo loiro e trançado se destacava contra roupa escura.

Anna limpou a garganta.

“Your head will collapse but there's nothing in it”.
Sua cabeça vai quebrar, mas não há nada dentro dela

“And you'll ask yourself”.
E você se perguntará

Quem deu início ao movimento de reaproximação dos corpos foi Elsa. Sorrateira, sorria de forma devassa quando deixou as mãos escorregaram na cintura da jovem, os lábios e hálito quente de encontro a curva do pescoço gelado de Anna. O perfume fresco. Anna ainda estava nervosa.

[where is my mind?]

[way out in the water, see it swimming?]

Havia frango, molho branco e conhaque em cima da bancada.

Anna havia pendurado o sobretudo úmido e guardado os demais apetrechos-contra-inverno, uma vez que o apartamento de Elsa contava com um perfeito sistema de aquecimento. Elsa nunca tinha sido do tipo falante e Anna estava mais pensativa do que nunca.

“Anna” Chamou a atenção. Parecia incomodada “O que há?”.

A maldita hora chegara. Apesar de não conseguir identificar o motivo de tamanha ansiedade, Anna sabia disso. Seu coração a alertava, quase gritando que a garota estava andando sobre gelo fino e que deveria tomar cuidado.

“Anna, está me deixando aflita” Elsa tornou a sorrir. Seus dedos tomaram rumo o rosto de Anna e puxando o queixo da garota, Elsa a obrigou olhá-la de volta. Anna buscou recuar, mas sabia que os olhos azuis a liam quase que com perfeição. Sabiam que tinha algo, minimamente, errado.

“Elsa” Suspirou, se rendendo e olhando firme nos olhos da mulher “Nós nunca conversamos sobre sua vida, sua relação com seu pai, mas acho que você já passou por tanta e tanta coisa na vida. Quando nos conhecemos, você disse que estava tão cansada do seu cotidiano e desde então não consigo parar de imaginar a carga que você carrega e, sabe... Acho que seria bom você buscar alguma espécie de ajuda, um apoio profissional, quem sabe”.

“Apoio?” Elsa piscou, mas seu sorriso ainda estava lá “Oh Anna, não preciso ajuda especializada. Vou lidando devagar com minhas coisas e–”.

“Por favor” Anna segurou a mão da namorada “Quero tanto te ver feliz, verdadeiramente feliz, mas não posso continuar fingindo que sou cega, porque não sou. Às vezes você some, fica pensativa e tão na sua... às vezes não responde minhas mensagens por dias. Às vezes bebe e fuma mais que um homem da década de cinquenta. Sei que tem se esforçado para voltar ao trabalho, mas acho que tudo se tornará mais fácil se você estiver... Mentalmente bem, primeiro. Entende o que quero dizer?”.

Gelo fino.

“Anna” O sorriso enfim havia desaparecido “Está tudo bem”.

“Não, Elsa, não está e você sabe disso!” A garota ruiva aumentou o tom de voz, apesar de não ser intencional “Confie em mim. Acredito no seu julgamento e na sua forma de lidar com as coisas e sei que é um absurdo o meu pedido, considerando que nos conhecemos há menos de um ano. Mas você não se cuida, Elsa. Juro que tudo isso pelo seu bem e nada mais. Não quero te magoar, só quero que... Perceba que há uma resposta, um caminho, uma saída, quem sabe, mais fácil”.

As sobrancelhas de Elsa estavam franzidas, irritadas e os olhos azuis presos no copo de conhaque sob a mesa. A comida intocada e o guardanapo perfeitamente dobrado. Os ombros encolhidos. Anna soube identificar que não era um bom sinal, mas pouco sabia de como responder.

“Eu te amo” Anna tentou sorrir, sustentando o olhar na mulher a sua frente. Esperava uma reação diante da declaração, mas esta não veio “Exatamente da forma que é, cheirando a nicotina e tudo. Só acredito que você consegue ser mais e mais feliz e que nós podemos tentar. Devagarzinho e constante...”.

“Não quero pensar sobre isso” Elsa sussurrou. Os punhos cerrados sob a mesa. A mulher então sacou a carteira de cigarros do bolso e tirou uma unidade. Levantou e o acendeu na boca do fogão. Anna assistia a cena com o coração em pulos. Tinha medo que Elsa nunca mais olhasse em seus olhos novamente.

“Mas precisa”.

Ignorando a resposta da mais nova, Elsa caminhou em direção a sala. Anna terminou seu copo d’água e concluiu que era melhor dar tempo – ao tempo e à Elsa. Olhou desanimada a comida fria, mas tinha que terminar a conversa que tinha proposto e começado. Passados três ou quatro minutos, Anna se levantou e caminhou até a sala, quase receosa. A luz continuava apagada e Elsa era mal iluminada sob as luzes dos prédios ao fundo e a ponta quente do próprio cigarro. Parecia irritada e acuada.

“Elsa...” Anna se aproximou.

“Anna, não” Respondeu, a voz baixa e ríspida.

Anna sentia seu coração doer mais e mais.

“Podemos conversar, não precisa ser nada imediato. Só queria que pensasse a respeito e então nós –”.

“Já disse que não!” Elsa gritou “Não preciso de ajuda, que inferno, Anna! Vou resolver tudo, os meus problemas, os da Komplett, os com meu pai, minha mãe, com Hans, com todo o maldito mundo, Anna. Esse é meu fardo, não o seu ou de qualquer terapeuta. Não preciso da merda de ajuda de ninguém”.

Elsa enfim havia rompido. Enquanto sua mão direita encobria seus olhos, ela começou a chorar e soluçar baixo. O cigarro queimava sozinho entre os dedos da mão esquerda e Anna se amaldiçoou, imaginando como haviam chegado àquela situação. A cena cortava seu coração. Queria abraçar Elsa e sussurrar que tudo ficaria bem e que ela podia e devia chorar. Queria contar que nem sempre é preciso manter a pose de pessoa inabalável – apesar de ser assustador ver Elsa expressar seu lado mais frágil.

“Perdão, Els” Murmurou Anna, se aproximando vagarosa.

Elsa soluçou de novo antes de levantar e caminhar até o banheiro. A porta foi batida com uma força desnecessária.

Havia sido desastroso. Nem na pior das hipóteses Anna tinha imaginado que a conversa poderia acabar de maneira tão ruim. Sentou no chão e imaginou como diabos Elsa havia sido criada, como seus pais a tratavam e porque tinha tamanho complexo e responsabilidade de carregar o mundo sob os próprios ombros abatidos.

Sua atenção voltou para o banheiro quando ouviu um baque seco.

“Elsa” Chamou, com a garganta seca. Estava tentando evitar chorar diante do desastre que tinha armado “Por favor, abra a porta”.

Passados quase dez minutos, Anna havia desistido de obter respostas. Encostou as costas contra a madeira firme e deslizou até alcançar o chão, aflita. Seu coração doía tanto quanto sua cabeça e ela sabia que aquilo tudo era sua culpa. Abraçou as próprias pernas, os joelhos de encontro ao queixo. Não sabia como agir. Se deveria ligar para Esmeralda ou Kristoff, ir embora e tentar contato no dia seguinte ou simplesmente dormir ali, no encalce da porta.

“Estou aqui pra você, apenas me deixe entrar” Sua voz tremia, ameaçando, enfim, romper “Não precisa ter medo. Se preferir, posso ir embora também e amanhã nós conversamos”.

Repentino foi o tilintar de vidro estourando.

“Elsa!” Anna saltou, voltando a bater contra a porta e forçando a maçaneta dourada e intocada. Seu coração em pânico mudo “Que diabos foi isso?”.

Quis imaginar ser apenas um acidente doméstico. Sim, a cola perdendo sua virtude e largando o espelho de encontro ao chão. Um feito do destino. Queria idealizar, mas seu cérebro só a guiava aos caminhos mais tortuosos, como Elsa quebrando o espelho, capturando um pedaço fino entre os dedos e–

“Elsa! Meu amor, por favor, abra a porta!” Anna voltou a bater o punho. Suas lágrimas enfim manchando as bochechas e as sobrancelhas apertadas em uma carranca de medo e aflição “Me diga o que aconteceu aí, Elsa!”.

Anna nunca tinha se sentindo tão impotente até então. Suas mãos tremiam, molhadas de suor frio. Seu coração disparado e uma persistente dor na nuca e na boca do estomago, os pelos do braço arrepiados. Pensou nas diversas formas de ter acesso ao cômodo que Elsa havia se trancado, mas sabia que seria quase impossível para alguém da sua estatura arrombar a grossa porta de madeira e suas dobradiças impecáveis. Passou em sua mente chamar Esmeralda ou o Serviço de Emergência, a polícia. Mas todas deixariam Elsa mais e mais acuada e ela sabia disso.

“Por favor” A garota chorou, com os punhos levantados e a testa encostada contra a porta “Me diga que ainda está aí”.

Houve mais um duro período de silêncio e aquilo era um golpe fatal. Anna sentia seu estomago virar do avesso, a ansiedade bater um nível assustador, a garganta fechada, um gosto amargo na boca. Quando virou contra a porta, determinada a ligar para o Serviço de Emergência, escutou o clique seco da fechadura. Correu e enfim a maçaneta redonda girou. Seus olhos verdes vasculharam o cômodo que cheirava a nicotina e então, encontrou Elsa.

A mulher loira estava encostada na parede contrária à pia. Suas pernas não pareciam firmes o suficiente para mantê-la na posição atual. Os olhos opacos e escuros, manchas de lágrimas nas bochechas. Anna observou a gola da camisa amarrotada e então desceu o olhar sob a figura posta da loira, até visualizar o punho direito de Elsa, pingando sangue contra o porcelanato branco.

Certamente era uma das cenas mais espinhosas que Anna havia presenciado na vida. Não seria exagero dizer que era horrendo e assustador. Ali estava a mulher que amava, inerte e sangrando. O alívio que sentiu, porém, de encontrar Elsa respirando não era algo possível de ser medido em curta escala.

Correu e abraçou a mulher. Não houve cuidado com o ferimento ou com os vários cacos de vidro não chão, só desespero. Nada importava. Tinha que sentir Elsa em sua plenitude, quente, viva, pulsando, sob o próprio tato. Anna respirava pesado, tentando ventilar as próprias informações e angústias. Dentro de quase um ano jamais imaginou ser capaz Elsa Arendell quebrar a tal ponto e de tal forma.

“Olhe para mim” Anna limpou a garganta, soltando o abraço e levando ambas as mãos às laterais do rosto da outra “Olhe pra mim”.

Elsa focou em Anna, parecia esgotada.

“Perdão Anna... Não queria te preocupar ou... Te fazer sofrer”.

“Vai ficar tudo bem, meu amor” Anna sentiu o choro subir novamente a garganta e mordeu o lábio, a fim de evitar quebrar. Ficou na ponta dos pés para beijar a testa de Elsa “Você vai ficar bem, vamos apenas... Limpar sua mão e descansar. Dormir, esquecer de tudo, certo?”.

Anna tirou o cigarro já apagado da mão esquerda de Elsa e entrelaçou a mão da mulher na sua, a guiando até o sofá. Preferiu ligar apenas as luzes de apoio da sala, para não incomodar a mulher com exposição demasiada. Deixou Elsa sentada no sofá e voltou para o banheiro, pegar o necessário para fazer os curativos no punho da mulher loira.

O espelho central do banheiro tinha pouco mais de um metro e meio de altura e um tanto menos de largura. Agora, tinha um buraco no centro e diversas rachaduras em sua extensão. O chão estava inteiramente coberto de finos cacos de vidro. Anna abriu o armário, separando analgésicos, pinça, álcool, gases, esparadrapo e spray-antisséptico. O ideal seria lavar o ferimento com água corrente e sabão neutro, mas tirar Elsa do banheiro havia sido necessário. Sua coluna arrepiou ao se dar conta do trabalho que lhe aguardava: a remoção de vários e pequenos pedaços de vidro de dentro da carne de Elsa.

Sentiu-se enjoada.

Quando voltou para sala, Elsa continuava na exata mesma posição. Anna suspirou e evitou encarar os olhos nublados e sem-emoção da outra. Aquilo a perturbava mais do que a assustava. Era extremamente errado.

Sentou-se no chão e com o auxílio de um pote limpo, encharcou a pequena pinça de álcool e separou as gases e o spray em outro canto. Quando segurou a mão direita de Elsa, engoliu uma grande quantidade de saliva parada na boca. A subida vontade de chorar tornou a surgir e Anna se esforçou para reprimi-la. Queria ir embora, estava cansada. Não era hora de se mostrar sentimental, porém. Era necessário estar ali de corpo e alma para ajudar Elsa a superar os próprios demônios, fossem eles físicos ou não.

Começou o processo de forma dolorosa. Talvez doesse mais em si que em Elsa. Cada micro fragmento de vidro que tirava era acompanhado e banhado em sangue quente. Quando removido iniciava-se uma nova onda de pequenas hemorragias, que faziam o sangue de Elsa percorrer seus dedos e manchar o carpete. Toda a extensão do punho e dos dedos tinham hematomas roxos e avermelhados. O maior fragmento de vidro que Anna conseguiu tirar fez um rastro considerável, que precisou de três gases diferentes para estancar.

Tudo vai ficar bem, Anna continuava a sussurrar pra si.

Mas até ela duvidava disso, às vezes.

Vez ou outra, encharcava uma gases de spray e limpava o ferimento, se certificando que não restavam fragmentos e sangue seco. Cada vez mais os cortes fundos e arranhões leves surgiam. O pior havia se concentrado entre o dedo anelar e médio. Anna terminou e então cobriu o ferimento de gases e emendou com esparadrapo. Beijou a ponta dos dedos da mulher.

Sentiu-se mal, pois sabia que agora teria que tratar de um ferimento maior que era a própria Elsa. Olhou as próprias mãos com pequenas manchas de sangue e sabia que seria árduo. Provavelmente, uma das coisas mais difíceis que havia feito na vida. E estava sozinha. Forçou um sorriso torto quando levantou o rosto pela primeira vez desde que havia sentado no chão e se surpreendeu ao ver Elsa cochilar. As costas contra o acolchoado do sofá e o queixo de encontro com o próprio ombro.

Anna sentiu alívio, mas mesmo assim não pôde evitar as lágrimas. Doía tanto imaginar que Elsa se detestava ao nível de socar o próprio reflexo. Sentia-se pior ainda por se dar conta do quão pouco sabia da história de vida e das dores da pessoa que amava. Quando o choro cessou, levantou. Estava tão exausta emocionalmente quanto Elsa, mas ainda assim caminhou até o banheiro e começou outro serviço de limpeza. Na cozinha, organizou tudo. Evitaria quaisquer que fossem as lembranças da maldita noite na manhã seguinte.

Sentia-se exausta e tudo que queria era ir para a própria casa, banhar-se e esconder-se sob as cobertas quentes. Não queria tantos problemas. Não queria pensar no quanto Elsa guardava consigo, no quanto ela não confiava em Anna e no quanto ela não temia por si própria.

No quarto, conseguiu um lençol fino, que colocou sob Elsa. Se certificou que o aquecedor estava em uma temperatura agradável. Resolveu tomar banho na esperança que a água arrancasse de si não só as manchas de lágrimas e sangue, mas também o peso da responsabilidade. Passando pela sala, notou Elsa acordada, examinando sua mão envolta no curativo. Os olhos azuis passaram a encarar os verdes de Anna – esgotados, mas expressivos como no dia em que se conheceram. O peito de Anna se aqueceu com a visão. Sim, eram quase aqueles olhar suaves que a haviam conquistado há algum tempo.

“Vamos dormir, Els”.

Elsa soltou o ar que estava segurando. Aparentemente esperava um discurso inquieto e estressado. Anna tinha total noção que a outra não gostaria de conversar sobre o incidente agora – e nem tão cedo. Ambas caminharam até o quarto e Anna se aconchegou primeiro na cama, recebendo Elsa entre os braços. Sentiu-se grata, enfim, por estar exatamente onde estava. Os fios de Elsa eram macios e faziam quase cócegas no pescoço da garota.

“Oh Anna, o que eu faria sem você?” Elsa questionou, baixinho.

“Muita coisa” Anna respondeu, sentindo os olhos cederem, vencidos ao cansaço. Começou a passar os dedos na nuca da mulher, sentindo a textura fina dos cabelos loiros “Porque você é incrível e nada menos que isso. Mas sempre estarei aqui. Sempre me terá".

Elsa pareceu rir de descrença e logo silenciou novamente.

“Garota, você é especial pra caralho”.

Anna sabia disso.