Spring NY

3 You mystify me


You Mystify Me

A janela do quarto estava entreaberta e a persiana mal fechada. Do lado de fora, a manhã ainda estava escura e densa quando o despertador decidiu acordar Anna. A televisão chiava em um canal que só teria programação depois das 7AM. Cuidadosamente a garota colocou a cabeça para fora do cobertor abafado e quente, respirando o ar gélido de mais um dia. Desligou o aparelho que bipava na cabeceira da cama. Chorou um pouco.

Posso me levantar e pular da janela. Se fizer direitinho, três andares são o suficiente para morrer.

Contragosto era a palavra do dia.

Levantou-se ignorando o protesto de todos os seus músculos doídos. Sentiu o chão gelado mais do que gostaria.

Nota mental, comprar pantufas. Ou um tapete... Seria interessante.

Abriu a porta do quarto e ainda de olhos fechados, caminhou até a cozinha. No espelho do corredor, sequer se assustou com seu cabelo desastroso. Ligou a cafeteira e encostou-se junto ao balcão de mármore, esfregando os próprios braços.

Eu não fiz café ontem à noite, mas que merda! Todo dia um atraso diferente Anna, assim você não vai terminar a faculdade nunca.

Uma baixa enxaqueca estava atingindo a garota ruiva, que contou nos dedos a falta de comprimidos. Há mais de uma semana ela tentava se lembrar de comprá-los, mas sempre se esquecia.

Talvez devesse tomar um chá de camomila.

Não tem camomila aqui, aaaaaa.

No costumeiro silêncio do pequeno apartamento, Anna ouviu um gemido de negação baixo. Apertou as sobrancelhas em uma feição de desdém. Voltou a fazer o caminho de seu quarto e na ponta dos pés, pôde ver a mulher loira se remexer entre as cobertas, do lado oposto ao que Anna havia dormindo. De forma automática, Anna travou. Apertou a ponta do próprio nariz, ouvindo o som e o cheiro do café quente se espatifando contra o vidro trincado da cafeteira.

Oh, claro... Elsa. Oh, meu deus, ela está nua...

Silenciosamente o despertador piscava quase seis horas. Sua aula começava as oito e o professor de História da Arte Antiga e Medieval detestava pessoas que se atrasavam, entrando pela porta dos fundos de cabeça baixa. Resumidamente, ele detestava Anna.

Anna concordou que precisava, por mais que não quisesse, se arrumar e sair rumo à faculdade. Possivelmente Elsa também deveria ter um horário de trabalho, em um micro escritório rodeado de gente ao telefone.

Será que eu deveria acordar ela? Ela não teria bebido e dormindo na casa de uma estranha se tivesse algo importante pro dia seguinte... Como odeio ter que tomar decisões pela manhã...

Deixou um suspiro exausto cortar sua garganta, enquanto se decidia por uma ducha rápida. Reparou nas marcas de mordidas, principalmente em seus ombros curtos. Saiu somente com uma toalha ao redor do corpo. Seu rosto queimando de vergonha, torcendo para Elsa não acordar com o barulho. Vestiu um jeans preto e um moletom velho e desbotado com as inicias do campus. Penteou os fios grossos e rebeldes, ainda molhados e resolveu por não trançá-los. Na TV com volume mudo, a apresentadora mostrava o clima previsto para Nova York, naquele começo de manhã: mínima de 5°C e máxima de 11°. Talvez devesse vestir mais algumas camisas.

Calçou uma meia furada e encheu os pulmões de ar, com o cheiro do café tomando o ambiente. Estava na hora de acordar Elsa.

Caminhou sem pressa, pedindo para tudo aquilo ser ilusão da sua pequena mente insana. Quando tocou levemente o couro cabeludo da mulher, sabia que era mais que real. Elsa abriu os olhos lentamente e novamente Anna sentiu-se despencar na imensidão do céu azul.

Mas não tão azul quanto ontem... E sim mais marcante. Parece um simplório olhar de fúria, ou quem sabe...

“Hmm...” Elsa murmurou.

Luxuria. Estou metaforicamente caindo pra cima.

“São quase sete horas, Elsa. Você tem algum compromisso?” perguntou Anna, sentindo a boca seca. Evitou olhar para os ombros e as costas nuas, com hematomas avermelhados. Chupões nada discretos.

“Onde estamos?” questionou ainda de olhos fechados.

Anna balbuciou. Seu coração custou a entender a situação, falhando uma batida e deixando de importar oxigênio suficiente ao cérebro da ruiva, que travou por um milésimo de segundo.

Onde estamos?! Sua loira malditaaaa.

“Quer dizer” Elsa pigarreou, após reparar o brilho nos olhos âmbar da outra garota desaparecem “da cidade. Se não me engano, Brooklyn, certo?”.

“Ahhh...” Anna soltou a respiração presa.

A mulher loira levantou o tronco, não parecendo se importar com seu corpo exposto. Pressionou os lábios na bochecha da mais nova, que tremeu a o toque febril da ponta dos dedos da outra. O ar parecia rarefeito e Anna reparou em sua própria garganta seca.

“Vou chamar um táxi para me deixar no trabalho, Anna. Pago a corrida até sua faculdade”.

“Está ótimo” Anna desviou o olhar quando Elsa passou a caminhar até o banheiro. Com a porta encostada era possível ver a loira analisando o estrago feito a unhas em sua pele alva noite passada “Estudo na Fordham, mas uma corrida até Beltmont é mais que o suficiente”.

Anna abriu a geladeira, recuperando um pedaço de sanduíche de queijo de três dias envolto em papel alumínio. O café estava amargo, uma vez que seu açúcar havia acabado. A ponta do nariz da ruiva estava gelado e vermelho, um dos motivos pelo qual Anna detestava o estado de Nova York. Sentia uma saudade indescritível da Flórida.

“Anna” chamou Elsa, enrolada em uma pequena toalha lilás “Minhas roupas?”.

“Então...” soprou a garota “Aquelas?” comicamente, um amontoado de pano úmido.

“Exatamente...”

“Eu posso te emprestar algo! Claro que não é nada chique e pode ser que esteja bastante amassado, mas você pode usar até seu apartamento e...”.

Elsa sorriu.

Claro que suas roupas convencionais são brim e social e eu só tenho moletom e jeans. Deus, como essa mulher foi pra cama comigo?!

“Tenho um jeans que fica comprido pra mim. Sempre que uso tenho que dobrar a barra pra não arrastar no chão. E uma camisa social um tanto quanto mais larga que uso para dormir, serve?”

“Deixe-me ver”.

Na humilde opinião jovem de Anna, Elsa estava 40% mais sexy.

Apesar de amassada, a camisa social ficara bem e o jeans azul numa altura aceitável em seus calcanhares. O salto de Elsa era preto e discreto, dando um ar sério ao visual. Por fim, a mulher voltou a trançar seus fios loiros.

“Aceita um café?”

Apenas diga que não, diga que não!

“Claro”.

“Talvez esteja um pouco amargo e talvez... um tanto aguado”.

Alguém me deixe na jaula dos tigres e jogue a chave fora...

Anna localizou seu molho de chaves e buscou mentalmente se estava esquecendo-se de por algo em sua mochila. Calçou seu tênis e chamou sua companhia inusitada para sair.

Elsa não parecia tão certa que era hora de ir. Com as mãos firmes e mais alguns centímetros de vantagem, segurou Anna contra parede. Beijou seus lábios como se tivessem acabado de se conhecer em uma balada movimentada, com música alta e luzes ofuscantes.

“Anna, você tem cara de vinte e um. Uma pessoa feliz, essas suas sardas, esse seu cabelo laranja. Você é linda, sabe disso?”

Diversas palavras lhe pularam a mente, diversas situações.

Mas nenhum comando chegou à sua boca ou músculos.

“Ah...” sacudiu a cabeça, tossindo contra as costas da própria mão.

O táxi gritou do lado de fora e após um beijo na testa, Elsa se afastou. Desceram as escadas, mas Anna ainda estava um tanto quanto atordoada.

Sem novidades, o trânsito estava inflamado e as ruas lotadas de carros parados. Elsa revirava alguns papéis em sua pasta de couro e Anna questionava-se no que a loira estava pensando.

“Trabalha com o que?” perguntou inocentemente, enquanto sentia o cinto de segurança lhe apertar a cintura.

“Sou presidente de uma multinacional” Elsa levantou as sobrancelhas, como se fosse uma resposta super simples e tranquila.

Talvez fosse mesmo.

“Quantos anos têm?” Anna bateu os dedos contra sua própria coxa, a fim de esconder a surpresa no seu tom.

“Quase trinta Anna. A empresa é herdada. Meu pai se aposentou e passou o serviço pra mim. Não era bem o que eu queria, mas é o que o destino me reservou”.

“Sei...”

“Estuda o que mesmo?” Elsa questionou enquanto lidava com seu Pager preto com detalhes metálicos.

“Algo entre artes cênicas e visuais. Meus pais sempre me atormentaram com a ideia de cursar com mais... ‘sério’, como a básica tríade de Engenharia, Direito ou Medicina. Nunca fui muito chegada”.

“Sou formada em Direito. É um bocado chato se você realmente não quiser praticar a profissão”.

Anna se repreendeu mentalmente, colocando as mãos no bolso quente do casaco. Só acenou e permaneceu quieta, vagante.

O táxi estava novamente parado. Uma das principais pontes que conectava o Brooklyn à NY, a Brooklyn Bridge, parecia prestes a desmoronar. O tempo voltou a escurecer e uma chuva fina atingiu a janela escura do carro, borrando a paisagem de automóveis amarelos e cinzas. O motorista tirou um pequeno livreto de palavras cruzadas do bolso e ligou a rádio.

“A cidade mais populosa dos Estados Unidos amanheceu sob uma densa nuvem de chuva! Recomendamos que usem seus carros e saiam de guarda-chuva, para não molhar a maleta e o seu Giorgio Armani! Fiquem agora com Cranberries, esses irlandeses que não param de fazer sucesso no país do tio Sam!”.

Anna sentiu seu coração bater contente, pois tinha certo carinho pela banda irlandesa. Sunday, do álbum de estreia de 1993 tomou conta do veiculo rapidamente.

Elsa tossiu, guardando o Pager.

— When you walked into the room, It happened oh so soon.
Quando você andou dentro do quarto, aconteceu oh tão logo.

— I didn't want to know.
Eu não queria saber.

— Does he really have to go?
Ele realmente tem de ir?

(You mystify me, you mystify me, you mystify me)

Anna cantarolava baixinho, observando o grande borrão que era a rua. Elsa encostou a cabeça no ombro da loira. Parecia bastante cansada.

“Sua presença é maravilhosa, Anna. Se soubesse o quanto é pesado o ambiente que convivo...”.

A ruiva se virou para olhar enquanto a outra sussurrava. Queria que Elsa soubesse que estaria ali para qualquer situação. Anna acreditava que, se de fato Elsa tivesse algum amigo ou namorado/a para falar das dificuldades de seu cotidiano, jamais estaria se abrindo para uma garçonete estranha que conhecera em um restaurante.

De fato o mundo nunca pareceu se importar com o problema de ninguém.

“Minha mãe gosta de falar sobre a aura das pessoas e como podemos conhecer o verdadeiro âmago através do clima que fica no ar. A sua é maravilhosa, Elsa. E eu quero que saiba que estarei aqui sempre que precisar”.

O céu de Nova York nunca pareceu se importar com ninguém.

Os pneus voltaram a rodar.

Wall Street parecia cada vez mais próxima e Anna batucava em sua mente uma maneira discreta de pedir o número da mulher mais velha.

Quando de fato chegaram à Manhattan, Anna sabia que o coração histórico do Distrito Financeiro nunca faria parte de sua vida. O táxi parou bruscamente subindo o meio fio. Elsa o instruiu a deixar a garota onde ela quisesse e o pagou com algumas notas cuidadosamente dobradas.

“Anna, você é incrível” sussurrou contra o ouvido da garota “nunca mude”. Dito isso, Elsa a beijou no canto da boca. Fechou a porta do carro e atravessou a rua em passos largos.

“Pra onde?” resmungou o motorista.

Mas Anna sentiu um tiro fatal rasgar seu peito. Quase quarenta minutos pensando em diversas estratégias e no fim nem mesmo um ‘nós nos vemos por aí?’.

No percurso restante Anna não lembrou que deveria comprar açúcar na volta do serviço; não pensou no professor de História da Arte Antiga e Medieval e sequer se lembrou de que esquecera seu MetroCard em cima da divisória de mármore da cozinha.

Elsa era um sonho em sua agitada mente.

Uma tempestade.

E quem sabe fosse só drama. Não era como se a mulher estranha fosse o amor da sua vida. Elsa deveria ter diversos pretendentes ricos, presidentes de empresas que ofereceriam o melhor cappuccino dos EUA, que gentilmente seria recusado pela loira que diria de forma elegante que preferia expresso.

15PM. O céu cessara um pouco e o Eight Legend da 11th avenida estava movimentado.

Purê de batatas e filé mignon, por favor.

Martini sem azeitona, por favor.

Torta de morango com queijo quente, por favor.

“Parece abatida” Amber comentou “Tá resfriada?”.

“Muitos trabalhos da faculdade, só isso” Anna respondeu despreocupada.

De um arranha-céu há alturas clandestinas.

Delas caíam a noite e era possível admirar os raios alaranjados e verdes do pôr do sol entre os prédios. Um ar de melancolia tomou o ambiente. Tocava alguma música que Anna não soube reconhecer.

Sentou-se para ver Elsa entrar novamente pela porta.

Enxuta e com um tímido sorrido de canto.

Talvez não fosse preciso colocar cartazes nos postes de Nova York, com um retrato falado da loira e letras garrafais de ‘PROCURA-SE’.

“And now I tell you openly,
you have my heart, so don't hurt me”.

Notas finais
Música título do capítulo: Sunday - The Cranberries