Spring NY

4 Don't tell me 'cause it hurts


Don't tell me 'cause it hurts

1°. 2°.

3°. 6°.

15°.

Décimo oitavo andar.

O elevador era uma importante parte da sua rotina. Seu único momento de calmaria em meio à tempestade do escritório. Um espelho limpo de forma quase obsessiva e uma música composta por alguma orquestra latino-americana. Seus amigos mais íntimos.

Mas às vezes alguém subia junto a si.

Elsa sabia que deveria ser simpática com as pessoas que trabalhavam em sua empresa. Desde o terceirizado até as atendentes do CallCenter. Desde criança assistia seu pai administrar a empresa e moldá-la para seguir seus passos no futuro. Conforme os anos Elsa entendeu que tudo era baseado em ameaças, medo e chantagem. Um machismo sem precedentes, onde nas entrevistas de emprego era possível desclassificar uma mulher só por esta ser casada ou ter filhos.

Mas às vezes Elsa não sabia como se portar.

Quando criança fora mais aberta e suscetível a novas amizades, contudo, o destino sempre lhe reservou dor e sofrimento. Ou era isso que Elsa acreditava. 12 de abril de 1979 era a data marcada à ferro e fogo no coração da garota, que até então tinha sete anos de idade.; era o dia da sua apresentação teatral escolar. Seu pai trabalhava em um pequeno escritório no norte de Washington e sua mãe ia e voltava do hospital que Elsa reclamava cheirar a álcool e desinfetante. Era uma quinta-feira e ninguém apareceu à sua apresentação ou para buscá-la no fim da tarde.

Era uma quinta-feira quando ela descobriu que sua mãe não voltaria para casa, pois havia adquirido câncer de pulmão devido à nicotina.

“Senhorita Arendell, bom dia!”

Elsa piscou para a porta travada do elevador, os números eletrônicos piscando. Esmeralda era sua simpática secretária pessoal.

“Bom dia” rapidamente respondeu. Apesar de sua própria política de tratar seus contratados, Elsa não sabia como por em prática muita das vezes. Crescera como uma criança antissocial e distante.

“Seus sócios estão na sala de reuniões”.

Oh, dia de aturar Weselton e Hans. Ótimo.

Veja bem, Elsa era uma mulher bonita, jovem e bem-sucedida, formada e sem filhos. Homens de todas as idades dariam muito por uma noite regada à vinho e sexo com Elsa e isso não era muito diferente dentro do seu ambiente de trabalho. Cochichos deixavam Elsa zonza. Apesar de toda sua presença e postura respeitosa, Elsa ainda era uma mulher e todos os nove homens naquela mesa acreditavam que ela era inferior a despeito disso. Mulheres levam empresas às ruínas. A solução? Casamento arranjado, um empresário sério como marido, alguém que tomaria todas as decisões econômicas.

Eles discutiam entre si, batiam as mãos na mesa, bebiam água para molhar a garganta. Vez ou outro lançavam um olhar malicioso quando Elsa afirmava ou questionava algo. De fato a decisão final era dela e de mais ninguém.

“Devemos investir em novos engenheiros de software e modificar algum sistema operacional mais sofisticado”.

“Lançar mais uma linha de alto custo?”

“Estive pensando em modelos populares” Elsa sobressaiu “Algo duradouro, prático e de baixo custo de produção. Grande parte da América deseja um aparelho desses, mas não há opção no mercado. Podem pesquisar o quanto a pirataria subiu entre produtos eletrônicos. Se firmássemos acordo com o governo sobre o imposto, poderíamos lançar no mercado algo que as pessoas poderiam de fato comprar e-”.

“E qual seria nosso lucro ao buscar produtos de qualidade para gente pobre?” perguntou Hans, o tom alterado, as sobrancelhas apertadas.

Elsa encheu os pulmões de ar.

Talvez transformar o mundo num lugar menos injusto?

“Nome. Empresas com produtos populares tendem a crescer no mercado internacional mais que o comum. Nossos produtos da mais alta linha são pirateados na Índia e China. Por que não dar a oportunidade das pessoas de fato comprarem nosso aparelho original?”

“E se isso afastar os compradores mais exigentes?”

“Por que afastaria?” Elsa questionou, apertando a sobrancelha.

“Oras” Weselton debochou “Eu não iria querer ter um celular da mesma marca que minha empregada doméstica ou que o porteiro”.

O clima da sala de reunião pareceu esfriar quando uma nuvem fechou o sol e escureceu o ambiente. O olhar de indignação de Elsa sobre Weselton, um velho empresário de peruca grisalha, era notável.

“Oh... Acho que podemos amadurecer ambas as ideias” cortou John Smith, um dos mais jovens da sala ao lado de Elsa e Hans “Que tal terminarmos a reunião por hoje?”.

Todos pareciam de acordo.

Se levantaram e saíram aos poucos, deixando Elsa e Hans para trás. A mulher loira sentia a textura fina do papel em suas mãos, repassando o quanto aquilo tudo era frágil e como poderia fazer um pequeno e dolorido corte na ponta de seu dedo. Hans se aproximou, encostando-se a grande mesa de madeira, encarando Elsa de perto. Ele era alto, ruivo e com um sorriso simpático; com 33 anos representava a empresa de sua família. Ambicioso e genioso. Definitivamente o tipo de homem que Elsa mantinha distancia.

“Vejo que anda bem ocupada” disse em um sopro.

“Minha rotina” Elsa afirmou de forma séria, sem encará-lo.

“Encontrei seu pai noite passada, em um restaurante. Disse que você anda bastante tensa e me pediu para convidá-la para jantar.”

Lá vamos nós mais uma vez... Quando meu pai vai entender que eu não quero me casar e ter crianças? Os tempos são outros!

“Ele inclusive recomendou um bom restaurante aqui perto”.

Elsa sentiu sua nuca doer, pensando em uma forma simpática de ignorar o convite. Mentir que tinha uma festa de gala para ir, um casamento, visitar alguém no hospital. Qualquer coisa era melhor que sair com Hans e sua pinta de conquistador barato, que claramente usava de seu dinheiro para levar qualquer uma para cama.

“Veja, ele acaba de me mandar uma mensagem perguntando qual sua resposta”, disse observando o Pager em suas mãos. O sol voltou a iluminar a sala de reunião e Elsa observou as sardas de Hans, escondidas sob uma fina camada de base bege.

Seu Pager também apitou com mensagem de seu pai: aceite o convite de Hans! É um bom rapaz.
11PM25. Recebida.

Uma tremenda invasão de direitos e privacidade. Até que ponto aceitaria situações do gênero para não decepcionar seu pai? Firmou em mente, que, da próximo vez que encontrasse Agnnar, teria uma séria conversa a respeito disso.

Elsa só concordou com um balançar de cabeça.

Hans segurou sua mão, dando um beijo demorado nas costas.

“20h”.

Onde estava sua vida pessoal?

Nas mãos de Agnarr Arendell. Um homem ríspido, de origem norueguesa e que após a morte de sua esposa, Iduna, dedicou sua vida ao trabalho. 18 horas diárias. Com o peso de não ter conseguido pagar um bom tratamento à sua mulher na época, enriquecer foi seu ponto central depois de 1979. Enriqueceu, mas com o gosto amargo de que era tarde demais para si e sua única filha. Após a virada do milênio compadeceu-se ao tempo e decidiu se aposentar. De fato nunca largou o serviço e sempre se intrometia nas decisões de Elsa.

Hans saiu da sala de reuniões com um vitorioso sorriso.

Documentos. Carimbo. Assinatura. Mancha de tinta na ponta dos dedos.

A tarde arrastava o tempo.

Perto das oito horas, Elsa cogitou pedir à Esmeralda avisar que estava gripada, com febre, com algum vírus qualquer que assolava a cidade.

Não pareceu convincente falar que estava com dor de dente.

Elsa desceu todos os andares pela escada, tentando adiar aquele encontro o máximo que podia. Vestia uma calça brim escura e uma camisa social preta. Ao passar pela porta giratória do prédio, viu Hans encostado em sua Lamborghini Diablo.

Diablo é um nome bastante sugestivo ao dono. Incrível como ele não veio de helicóptero.

“Está frio. Quer meu casaco?” Hans ofereceu a jaqueta de couro marrom legítimo.

Elsa apenas negou, com um sentimento de déjà vu na boca.

“Agnarr disse que prefere algo mais caseiro” o homem disse, se observando no retrovisor do carro “Difícil, mas nada impossível”.

De forma drástica e dolorosa, Hans tomou um caminho conhecido.

Ah, como Elsa torceu por uma colisão de veículos, uma batida tão violenta que os impedisse de chegar ao destino.

11th Avenida de New York City.

Elsa mordeu o interior da bochecha quando Hans estacionou em frente ao Eighth Legend. Seu coração se apertou e diminuiu de ritmo, suas mãos geladas. Depois daquele dia que pegara chuva e fora acolhida por Anna, só tinha visto a moça uma vez mais. Há quase um mês. Obviamente aparecer agora acompanha de Hans em seu carro de um milhão seria desconfortável.

Torcia que fosse folga de Anna.

Ambos atravessaram a rua e entraram no ambiente quente, com cheiro de manteiga fresca. Anna os recepcionou, com um olhar surpreso e um sorriso nos lábios, que sumiu de forma quase imperceptível para qualquer um ali.

Mas não imperceptível pra Elsa, que sentiu seu coração doer um pouco.

Torcia que Anna entendesse.

O homem instruiu e afirmou querer a melhor mesa do estabelecimento e que a mesma tivesse uma vela acesa. Haveria um cachê diferenciado para um atendimento diferenciado, afirmou Hans.

Elsa sentiu a boca do estomago doer e ela não soube distinguir o sentimento que tomava conta de seu corpo. Por algum motivo, algo lhe doía tanto que não conseguiu encarar Anna nos olhos. Os ouviu conversar sobre o prato que ela recomendava e o melhor vinho.

“Chave Hermitage 1969”.

Eu não gosto de vinho francês... Eu não gosto dessa situação, eu não quero te magoar Anna... Oh meu deus, o que eu estou fazendo?

Elsa levantou o rosto e observou o rosto sardento da garota, o semblante sério e o queixo erguido. Um brilho de orgulho em seus olhos escuros. Elsa não soube dizer se pela baixa iluminação ou se pela raiva. Ou pelo o que mais. A garota ruiva era o que Elsa tinha mais próxima de uma amiga. Nunca imaginou que alguém iria se importar, se preocupar com um estranho encharcado numa noite fria.

Anna era especial.

A garota ruiva se afastou da mesa, com uma ruga de expressão em sua testa e os ombros tensos.

Aposto que está pensando no quanto sou uma filha da puta, Anna... Eu não queria que nada disso estivesse acontecendo. Por que eu não consigo falar com ela? Por que não posso levantar agora mesmo e me explicar?

De repente, Anna parou do outro lado da loja. Parecia ignorar o que o cliente à sua frente dizia da mesma forma que Elsa ignorava o que Hans dizia. Seus olhos se encontraram de forma dolorida. Algo tocava no alto-falante e novamente: ambas sabiam; partilhava o sentimento de ódio gratuito aos ser que lhes assistia e insistia em colocar músicas ambiente.

Don't speak, i know what you're thinking.
Não fale, eu sei o que você está pensando.

So please stop explaining, i don't need your reasons.
Então, por favor, pare de explicar, eu não preciso das suas razões.

Don't tell me 'cause it hurts.
Não me diga porque isso magoa.

Ambas sabiam que ninguém lhes devia nada e que nenhum pacto fora firmado naquela noite. Talvez isso fosse o que mais doía. Era precipitado. O que estavam fazendo com suas vidas?

“O amor é uma porta aberta” Hans gesticulava com as mãos “Nós dois temos bastante em comum, Elsa”.

Claro que temos tudo em comum, as costeletas fora de moda com toda certeza. Doze irmãos mais velhos também.

Elsa não podia deixar de revirar os olhos de vez em quando. Brincar com a taça de vinho que sequer havia experimentado. O prato à sua frente com salmão e brócolis já frios. Hora ou outra Hans se mexia desconfortável na cadeira à sua frente. Tentava segurar uma de suas mãos, mas a loira era mais rápida. Elsa corria os olhos pelo restaurante, mas não viu Anna novamente.

“Boa noite” disse outra atendente, com um sorriso no rosto “Gostariam de algo mais?”.

“Onde está a outra garota que estava nos atendendo?” Hans questionou.

“Ela está ajudando nosso cozinheiro com alguns mantimentos em lata” sorriu a moça.

“Só nos traga a conta”.

Hans deixou tudo pior quando deixou um riso de deboche escorregar os lábios.

“Pobre garota... Deve ter se sentindo intimidada e correu se esconder”.

Novamente um gosto amargo na boca de Elsa.

Acho incrível ela não pedir para nos retirarmos depois dele oferecer um cachê diferenciado. Não gosto de imaginar que Anna tenha que conviver com esse tipo de abuso diariamente e ficar calada.

Mesmo ao sair, Elsa não pôde encontrar Anna novamente. Sentia seu estomago queimar de raiva. Queria ir para casa e ligar para Anna, se desculpar pela situação vergonhosa, se desculpar por não tê-la abraçada, se desculpar por não ter vindo vê-la mais vezes.

Mas não tinha seu número de telefone.

Hans parou em frente ao prédio de Elsa, em Flatiron.

“Então, posso subir tomar um café?”

Como ele consegue ser tão asqueroso?

A mulher levantou a sobrancelha e o olhou, desejando boa noite. Tentou abrir a porta do carro, mas este ainda estava travado.

“Vamos lá, Elsa... Você precisa melhorar sua vida social”, disse com o semblante calmo, enquanto ligava o ar quente do carro.

“Eu não estou atrás de um relacionamento, Hans. Meu pai que insiste nisso”.

“Ele sabe o que é melhor pra você”.

Ninguém sabe.

“Você parece uma pessoa muito solitária, Elsa Arendell. Deveria se soltar um pouco... Conhecer melhor as pessoas...” Hans se aproximou sorrateiro.

A mente de Elsa demorou processar o que estava para acontecer. A loira rapidamente desviou o rosto, sentindo os lábios de Hans em sua clavícula apertada. A mão ríspida do homem segurava seu pulso e ela podia sentir o aroma do vinho francês.

“Você pode se surpreender, Elsa” ele afirmou, destravando o carro.

“Pena que minha vontade de te conhecer esteja perto de 00%, Hans. Boa noite”.

Um lance eterno de andares até seu apartamento no vigésimo andar. Elsa abriu a porta e manteve a luz apagada, até alcançar o sofá no centro do cômodo. O silêncio tomou conta do seu corpo e a mulher manteve seu olhar fixo para além da parede de vidro. Os prédios grandes, a iluminação tardia, carros indo e vindo, o céu negro. Aquilo lhe dava uma parcela de realidade.

Enxaqueca.

Oh Anna, você deve me odiar tanto agora. Será que devo ir à sua casa? Você abriria a porta para mim, Anna? Provavelmente você me mandaria pra àquele lugar, não é mesmo? Universitários nunca tiverem um bom vocabulário...

Sua cama lhe parecia distante.

Anna também parecia.

30 de junho de 2017

Notas finais
Música título do capítulo: Don't Speak - No Doubt