Spring NY

15 [Yes, it shows]


[Yes, it shows]

O asfalto negro parecia não ter um fim alcançável.

As faixas de sinalização brilhavam em contato com as luzes vermelhas, laranjas e verdes do semáforo, que assinalava para absolutamente ninguém. As esquinas e ruelas, vazias, solitárias e quietas. As sombras não provocavam nada além do sentimento desconhecido de calmaria. O clima não era frio e tampouco era quente; parecia estático, doído – como se o próprio planeta Terra esteve adormecido. Longe dali, uma canção familiar – talvez Tears For Fears.

Anna percorria feito viajante: devagar, passo após passo, sem rumo e junto ao acostamento. Seus tênis Nike estavam surrados, com o solado quente em contraponto com o chão quase úmido. Era fim de tarde e a limiar deste mundo com o próximo tinha insólitos tons sépia, rosa e amarelo. Como num clipe oitentista, numa antiga televisão 14’, com chuviscos e fantasmas, a poeira subia, fazendo seus olhos lacrimejarem.

A melodia se aproximou e a garota aproveitou para olhar para trás.

Reconheceu o som sutil do motor inflamado.

Quando abriu os olhos, de fato lacrimejava.

Esforçou-se para manter o sonho gravado na mente. Este trazia consigo um agradável sentimento que caminhava da boca do estomago até sua nuca, a fazendo sorrir e fechar os olhos uma vez mais. Era algo como uma nostalgia pouco vivida por si. O céu de seu sonho era árido e a canção estava na ponta da língua. Conhecia a canção, assim como o carro e o motorista. Não conseguia distinguir nenhum com exatidão, porém. Por fim, concluiu ser uma réplica do cenário de Billie Jean, com sombra e brilho mais baixos que a saturação.

O clarão avermelhado da iluminação pública transpassava a persiana do pequeno apartamento, escancarando uma noite inacabada nas ruas do Brooklyn. A garota ruiva não se deu ao trabalho de buscar os ponteiros do relógio, uma vez que sabia que tinha se esquecido de trocar as pilhas.

Sentiu um pesar agradável no peito quando deixou suas íris rolarem até o rosto da mulher que dormia junto a si. A bochecha contra seu ombro, a respiração compassada e abafada, os fios loiros em desordem. O dorso nu exposto. Não aparentava sentir frio, mas mesmo assim Anna concluiu que o melhor a ser feito era puxar o grosso cobertor sobre ambas novamente. Permitiu a ponta dos dedos acariciarem a extensão das costas da mulher.

Outubro havia chego sorrateiro. Faltando pouco mais de um mês para o inverno nova-iorquino, Anna costumava recordar o sol quente de Jacksonville. Uma vez mais, era comum se perguntar os motivos que a levaram à NYC e não para o Centro-Sul do país.

Segurou o pulso de Elsa e deitou vagarosamente a cabeça da mulher no travesseiro. Ela resmungou um pouco, mas manteve-se dormindo. Ao se levantar, a garota ruiva deu-se conta da própria nudez; vestiu uma camiseta amarela, um casaco de lã cinza e uma manta xadrez por cima dos ombros. O assoalho gelado doeu ao toque do solado do pé quente.

Na cozinha, observava o vapor d’água subir, aquecendo o cômodo. Encostada contra a geladeira continuava a trabalhar suas memórias. Queria descobrir o nome da canção reproduzida em seu sonho. Dentro de uma caneca de interior branco e exterior verde – com figuras de pequenas girafas -, Anna preparou seu chá de hortelã. Queimou a ponta da língua e se segurou para não gritar alto em frustração.

Parecia um bom início de manhã.

“Bom dia...” Anna sussurrou contra a orelha da mulher loira “Estou saindo para a faculdade, Els”. A resposta da mulher loira se limitou a um rosnar baixo. Anna sorriu calorosamente antes de aconchegar um beijo na testa de Elsa. Tomou um copo d’água antes de sair.

No ônibus, conferiu o celular. Kristoff tinha ficado de encontrá-la na estação de metrô. Enviou uma mensagem para Amber, perguntando como iam as coisas naquela fria manhã. Por último e não menos importante, confirmou o encontro marcado com Esmeralda, na cafeteria à meia quadra do Eight Legend, perto das 17h40m. Leu rapidamente um capítulo do livro de romance policial que estava parado na sua mochila há algum tempo. Já em frente à Fordham, sorriu e acenou ao rapaz que tocava flauta doce em troca de umas moedas. Comprou café para si e Kristoff.

O primeiro período do dia passou vagaroso. O horário duplo com a professora brasileira Maria Rodrigues era rentável. A mulher sorria abertamente enquanto explicava anatomia e detalhes de músculos específicos, no corpo do modelo nu. O rapaz parecia desconfortável. Anna traçava linhas sólidas e confiantes, gastando o grafite do lápis HB. Não prestava muita atenção, porém. Perto do meio-dia, duas amigas de classe, Alisson e Sidney a chamaram para almoçar.

“Ele tava sem jeito, né?” Alisson comentou “Acho que era a primeira vez que ficava pelado na frente de tanta gente”.

“Ele se chama Tommy e é do Departamento de Letras” Sidney revelou, levantando as sobrancelhas de forma maliciosa. Brincava com a colher e com o pote de mouse de limão “Tem uma bela bunda, isso sim”.

Anna não concordava tanto. Voltou à atenção para seu suco de laranja, enquanto conferia seu telefone celular no bolso da jaqueta. Vez ou outra, ainda pensava no sonho quase esquecido já.

“O que acha Anna?”.

“Do que?” A garota voltou a focar os olhos nas amigas. Por poucos instantes havia perdido o rumo da conversa das garotas. Sorriu amarelo quando reparou no olhar fixo e insistente de Sidney em cima de si.

“Vamos atrás do Tommy. Quem tiver a melhor lábia, leva”.

Anna engasgou com o sanduiche de queijo e tomate.

Certamente não estava afim do Tommy de Letras.

“Deixo essa pra vocês” Anna sorriu, pigarreando.

“Hmm” Sidney cutucou Alisson “Ela já deve ter compromisso. É algum gatinho bronzeado de Miami? Ou aquele loirinho com quem você anda...?”.

Anna voltou a rir, colocando o guardanapo na boca. Sentiu seu rosto avermelhar e o ar lhe faltar um pouco. Era comum as pessoas imaginarem ela e Kristoff como um casal, o que, para a própria garota, era absurdo. A situação trazia menos embaraço que as demais podiam imaginar. A garota ruiva se levantou, e segurando a bandeja, acenou um ‘adeus’ antes de desejar boa sorte. Por dentro, ria feito uma bruxa maligna da feição de fracasso das amigas fuxiqueiras.

Quando – uma vez mais -, no ônibus, Anna observou a tela do celular: nenhuma SMS. Sentia-se ansiosa para conversar com Esmeralda, uma vez que a mulher poderia ajudá-la a compreender questões específicas acerca do comportamento recente de Elsa. Mesmo no dia anterior, Anna não soube distinguir o que os olhos azuis da mulher loira queriam lhe dizer. Ela apareceu em seu apartamento, era quase meia-noite. Estacionou sua luxuosa BMW em frente ao simples prédio do subúrbio do Brooklyn e sorriu quando Anna abriu a porta, pega de surpresa. Quando Elsa a beijou, lentamente, pôde sentir o gosto da nicotina e do Martini cravados na língua da mulher.

Em outubro, o Eight Legend começava a servir seu cardápio especial outono-inverno: caldos, sopas e torradas, acompanhados de café de grão árabe e doces de queijo com geleia. Naquela quinta-feira, o aroma de caramelo e açúcar não combinava com o de bacon. James estava de bom-humor quando entregou a tigela de caldo de ervilha para Anna deixar na mesa 12. Amber tremia um pouco, considerando que estava lutando para largar os cigarros mentolados, devida à gravidez. Ciara chamava atenção do recém-contratado barman, que adorava andar com a gravata afrouxada.

“Hey” Amber sussurrou, como quem estivesse em um campo de guerra.

Anna olhou por cima do ombro.

“Venha cá, Anna, rápido”.

Quando Anna se aproximou, Amber segurou seus ombros. Suas mãos estavam geladas e ela de fato tremia.

“Eu não aguento mais, Anna! Minha garganta está seca, meu corpo está fraco e eu sinto como se tivesse sessenta e três anos. Meu filho vai nascer já rindo da mãe, por que...”.

“Hey, hey” Anna olhou firme nos olhos negros, segurando o rosto de Amber entre as mãos. “Calma”.

“Anna, estou a ponto de pirar. Sinto o cheio de cigarro em todo lugar que vou. Ele parece me perseguir, e...” A garota ruiva apertou as sobrancelhas. Também havia sentindo o cheiro da nicotina. O Eight Legend não aceitava que seus clientes fumassem dentro do estabelecimento já havia algum tempo.

“Amber, tem que ser forte. Tome um gole d’água, um copo de leite ou masque um chiclete de menta”.

A morena a fuzilava com o olhar e Anna sentiu-se em um verdadeiro campo de batalha. Quando Amber desistiu e se afastou de Anna, a garota ruiva puxou com força o oxigênio, enchendo os pulmões e soltando o ar lentamente, como num exercício de yoga. Sim, seu uniforme estava cheirando a cigarro. A situação mais provável para a resolução do caso era que Elsa havia levantando durante a madrugada para fumar com a janela aberta – onde também, Anna deixava a roupa secar. Não se incomodava com o cheiro e tampouco que outras pessoas fumassem. Cada qual com seus vícios. O que de fato a incomodava, era pessoas próximas de si, com quem partilhava vínculos afetivos, tragando a própria vida, lentamente. Não gostaria de ver um de seus pais fumando, por exemplo. Não estava zangada com Elsa, mas não sabia como conversar e convencer a outra a largar o vício. Amber tinha uma boa razão. Qual haveria de ser a de Elsa?

A umidade caiu junto da temperatura. Perto do horário combinado, as pessoas caminhavam com as mãos metidas nos bolsos dos casacos. Anna caminhava tão despreocupada quanto em seu sonho. Desviava das pessoas com calma, evitando esbarrões.

O Central Park Coffee era rústico e quente e estava lotado. As paredes eram verdes com riscas brancas e pretas. O teto baixo, cadeiras de madeira clara. Em cima da mesa, tinha um pequeno girassol. Esmeralda acenou para si, sorrindo. Suas roupas eram semelhantes às habituais de Elsa: social branca e blazer escuro. Um pingente vermelho brilhava num colar prateado, que fazia par com as grandes argolas que a cigana usava.

“Anna” Sorriu de forma calorosa, levantando a abraçando a garota “Fico feliz que tenha vindo. Pedi chocolate para você”.

“Também fico feliz” Anna respondeu, se sentando “Como vai?”.

“Estou cansada, Anna. Trabalhar com aquele bando sem o auxílio de Elsa é um desafio, mas nada que me abale muito a fé. E você?”.

“Na rotina de sempre”, sorriu.

“E Elsa?”.

Esmeralda era sincera e aparentava preocupação. Estava disposta a poupar ambas de assuntos pouco relevantes para o caso que buscavam solucionar. Anna suspirou antes de responder.

“Pouco a vi nos últimos dias. Apareceu na minha casa ontem a noite, ela... Parecia um pouco abatida na verdade. Acho que parou em algum lugar beber antes de chegar lá”.

Era uma constatação que Anna não queria compartilhar com Esmeralda, mas que se mostrou necessária. A cigana nunca pareceu do tipo que julgaria alguém, seja por aparência ou atitude. Diante da informação, Anna sentiu-se um tanto quanto mal; a ideia se encontrar com Esmeralda para debater a vida de Elsa, sem conhecimento da mesma, parecia do tipo traição.

“Elsa não tem problemas com álcool, então não se preocupe Anna” A cigana tinha a feição amável e cortês “Sempre foi do tipo que bebe de forma habitual. Nunca a vi bêbada ou chateada por não conseguir uma tequila ao fim do dia. Nosso foco tem que ser voltado aos motivos que a levaram a fumar e o próprio hábito, que você bem sabe, não faz bem. Temos que convencê-la a visitar um especialista e... Você sabe; diagnosticar se ela tem algo”.

“Como assim?” Anna solveu o chocolate amargo, sentindo o líquido quente preencher seu estomago.

“Não podemos fingir que nada aconteceu. Elsa está ao poucos se isolando mais, se fechando. Reclusa na própria casa. Nunca foi de muitos amigos, mas ao menos tentava. Torço para que não seja nada grave que tenhamos força para ajudá-la, mas... Acredito que algo fora do nosso alcance a incomoda, sabe? Romper contigo foi um grande baque e ela melhorou muito a postura depois que vocês voltaram a se falar. Ela apareceu há dois dias na empresa e subiu até sua sala e demorou sair. Acredito que só tenha saído porque trocou alguma palavra com Hans ou Weselton, um de seus sócios. Seu pai também não lhe oferece tanto apoio quanto acho que ela merece”.

Anna acertou sua coluna, mas não soube o que responder.

“Temos que a fazer notar que estamos lá por e para ela”.

A conversa não durou muito além.

Anoiteceu rapidamente. O céu tinha uma coloração alaranjada e suja. As nuvens estavam baixas e absorviam a cor e tom da iluminação pública. Na entrada do prédio, Anna sentiu o peito aquecer ao reparar na BMW estacionada. Deu boa noite ao porteiro antes de subir as escadas. Estava contente e nervosa. Sabia que Elsa provavelmente a esperava na sala, série, sedutora e atraente; com um olhar frio e tentador. Assim era Elsa. Teria que conversar com ela, porém.

De fato teria.

Abriu a porta e se surpreendeu ao descobri-lo no escuro.

Buscou o interruptor e acendeu a luz da sala. Não havia ninguém na cozinha e tampouco no sofá, que tinha as almofadas e mantas bem esticadas. O banheiro estava em silêncio e o quarto igualmente quieto. Anna sentiu uma solidão sem igual. No quarto, deixou a mochila em cima da cadeira e revirou os olhos, notando a cama bem arrumada.

“Elsa?”.

Anna não queria pensar demais. Pensar muito significava pensar em atitudes [fatais] absurdas que Elsa poderia tomar em algum momento extremo. Era difícil acreditar que sua mente a estava levando a imaginar aquele tipo de coisa. Anna recusou todas e quaisquer imagens que sua imaginação poderia agregar. Não aceitaria a urgência que seu peito já demonstrava. A racionalidade estava ficando vagarosamente longe.

Elsa nunca aparentou tal desejo.

“Elsa?”.

Uma pequena dor incomodou sua garganta. A vaga ideia de perder Elsa uma vez mais nublou sua razão. Sua cabeça doía como se tivesse virado uma dose de gim amargo.

Vamos, pense, seja racional Anna. Não há sentindo ela vir até minha casa, estacionar a porra do carro chique dela aqui e ir embora, voltar pra casa... Tentar algo contra própria vida, ela não pode... Por que ela arrumou a casa? Ela pode simplesmente ter ido tomar um café, ou... Ido até Manhattan de táxi. Às vezes não estava a fim de dirigir, às vezes foi dar um murro no nariz do Hans, às vezes... Elsa, você não pode...

A porta da sala abriu e Anna olhou para trás.

Um alívio sem precedentes. O calor voltou às suas mãos.

“Boa noite” Elsa assoviou, guardando a chave no bolso do sobretudo marrom. Carregava um jornal debaixo do braço e um livro na outra mão.

Rapidamente, a ruiva abraçou a mulher mais velha. Seu abraço era forte e apertado, como se tivesse medo que Elsa escorregasse de si. Aconchegou o nariz contra a curva do pescoço da loira, aspirando seu perfume.

“Anna? Tudo bem?” Elsa riu, espalmando o livro contra as costas da garota, retribuindo o abraço “O que há?”.

“Senti saudades” Anna respondeu, deixando os lábios contra a pele fina do pescoço da mulher que arrepiou diante do toque. Beijou rapidamente o rosto de Elsa, antes da própria Anna se sentir incomodada com a porta aberta e os vizinhos passando. A garota bateu a porta e fez cara feia.

Elsa sentou no sofá, tirando os óculos de grau que estavam pendurados na gola da camisa. Seu cabelo loiro estava novamente trançado, enquanto poucos fios cobriam sua testa e orelhas. Tirou o sobretudo, deixando ele no braço do sofá. Parecia bem e calma.

“Seu chuveiro não estava aquecendo mais e eu sei que você não gosta de água fria. Comprei um novo e mandei instalarem” Elsa comentou despreocupada “Como foi seu dia?”.

Deixe meus batimentos normalizarem primeiro, Elsa.

“Quase entre numa aposta pra ficar com o cara que posou nu na aula de anatomia humana” Anna discorreu, buscando observar a expressão de Elsa, que seguia inalterada e paciente.

“Era bonito?”.

“Hmm... Loiro, alto, olhos azuis...”.

Elsa riu, balançando a cabeça negativamente.

Anna sentou no colo da mulher mais velha, deixando os joelhos abraçados ao quadril de Elsa. Segurou os ombros da outra, enquanto se perdia na escuridão dos olhos azuis.

“Talvez eu estivesse te procurando” Anna disse.

“Não precisa me procurar em ninguém” Elsa retrucou.

“E ele nem era um advogado sexy” Anna encostou o queixo no ombro da mulher, com ciência do seu hálito quente.

“Ele estudava o que?” Questionou.

“Letras. Deve ser aluno de licenciatura, sei lá”.

“Hm...” Elsa zombou “E não acha professor, sexy?”.

Anna cogitou seriamente, antes de reparar no sorriso largo de Elsa.

“Meu deus, Elsa, você já ficou com um professor?”.

A mulher mais velha brincou, desconversando rapidamente, beijando a garota e abraçando sua cintura.

Anna certamente queria ficar naquilo pra sempre, mas tinha um trabalho que deveria entregar no dia seguinte. Quando conseguiu se desenvencilhar dos fortes braços, suspirou.

“Tenho uma atividade pra hoje”.

“E qual seria?” Elsa resmungou.

Conversar contigo...

“Esboçar a parte dorsal humana e nomear os principais músculos dos ombros, costas, braços e...” A voz de Anna morreu aos poucos. Era evidente que estava cansada e louca para dormir abraçada e enrolada em Elsa.

“Pensei que estudasse artes e não fisioterapia, Anna”.

Anna revirou os olhos, sentindo-se contente com a presença de Elsa. Sua aura estava bastante diferente da do dia anterior.

“Precisa de uma modelo?” Elsa questionou devassa. Aproximou-se uma vez mais de Anna, a abraçando e mordendo sua mandíbula devagar. Suas mãos a guiando numa dança lenta “Amo suas sardas, sabe? Na minha próxima encarnação vou querer ficar com outra garota ruiva”.

Anna socou o braço da mulher mais alta, que riu e fingiu sentir dor.

Debaixo do chuveiro, Anna constatou que a pressão da nova ducha era assustadoramente melhor que a do seu antigo equipamento. Voltou a se questionar em como abordaria Elsa, que parecia já tão distante dos próprios problemas. Parecia não ter fumado ou bebido álcool, além de estar radiante. Dizia ter almoçado no restaurante que ficada a duas quadras dali.

Anna deixou a água quente atingir os fios vermelhos, escurecendo-os. Fechou os olhos e, por algum momento, se perguntou por que não havia deixado tal tarefa com Esmeralda, que tinha muito mais pulso que si própria.

Teria coragem.

O shampoo cheirava a amora.

Vestiu uma camiseta branca e manchada, além de um short cinza. Quando saiu do banheiro, com uma toalha nos ombros, o frio teve menor impacto que Elsa de costas pra si, lidando com a alça do sutiã. A iluminação precária, advinda do único abajur de lâmpada amarela aceso. A atividade de Anna não necessitava de modelo, mas...

“Sente na cama” Anna sentiu sua boca seca, e pigarreou antes de continuar, com a voz autoritária “Tire a roupa”.

Era uma atividade, em folha A4, contudo, Anna buscou uma tela branca, em tecido. 55x40cm. A ajustou no cavalete e separou o lápis HB, pedaços de carvão vegetal e tonalidades de tinta acrílica. Pensou em acender a luz, mas aceitou que a cena era apreciável e cativante.

“Abaixe a cabeça e deixe sua trança por sob o ombro direito” Anna mandou baixo e sério “Se apoie no braço direito, deixando o ombro e o trapézio subir. Coloque sua mão esquerda na nuca, pra salientar o deltoide e...”.

Anna perdeu a voz, observando a cintura de Elsa contra a iluminação. Cada curva, cada fio arrepiado, cada filete de cabelo iluminado. Tossiu antes de começar o esboço. O lápis corria delicadamente o canvas.

“Respire fundo, Elsa. E não mude de posição”.

Na posição que a mulher havia decidido se sustentar, era possível observar o contorno do seu seio. Anna o esboçou com a ponta dos dedos, correndo os olhos ligeiros e afiados pelo corpo da outra. Cogitou, se deveria usar o carvão vegetal ou a tinta acrílica. Havia salientado os músculos visíveis, principalmente do ombro e antebraço. Desenhou o colar dourado.

Decidiu pelo carvão.

Enquanto riscava o tecido, ouviu Elsa resmungar.

“Foi você quem se ofereceu” Anna retrucou ríspida. A tensão sexual na sala só parecia aumentar, quando observou Elsa soltar o ar com maior intensidade.

As sombras do desenho ganharam forma conforme o contorno surgia. O fundo era quase negro, enquanto os dedos sujos de Anna esfumaçavam a pele cálida, gravada em sua retina. A trança loira se mostrava um desafio.

Havia terminado. Observou por um bom momento o desenho, apesar de não expressar em voz alta. Certamente era um dos quadros que retinha mais ternura e luxúria que Anna havia feito. O tipo de obra que você não gostaria de ter guardado na gaveta após romper ou perder a pessoa. Anna era a artista e Elsa, além de sua modela, era sua amante. Uma entrega quase poética.

Aspirou quando ligou o micro-system na tomada. Anna sorriu, uma vez mais, antes de deixar seus dedos sujos de carvão deslizar pela extensão do braço desnudo de Elsa. Cantarolou baixinho no ouvido da mulher, que finalmente podia deixar o braço descansar contra a cama.

“Aqui é o controle de solo para Major Tom, você realmente conseguiu”.

O CD pausado automaticamente começou a rodar.

Well I can't forget this evening.
bem, eu não posso esquecer-me dessa noite.

Sua mão alcançou a cintura exposta da mulher, deixando manchas negras. Apertou vagarosa, sentindo a textura daquela terna pele.

You always smile but in your eyes your sorrow shows.
Você sempre sorri, mas a tristeza se revela em seu olhar.

Anna fechou os olhos, beijando e sentindo a densidade de Elsa, que havia se entregado ao abraço quente da ruiva. A pele de Elsa era, como Anna constatou, semelhante à um gole de licor: doce e aveludada, passeando no contorna da língua quente.

I can't live, if living is without you.
Eu não posso viver, se for para viver sem você.

Anna havia desistido de descobrir a canção esquecida de seu sonho. Poderia dormir em paz, em busca de novos sonhos e novas canções.

20 de julho de 2018