Spring NY
13 We're caught in a trap
Notas iniciais
We're caught in a trap
“Sacrifique o próprio bom-senso e encontre redenção?”
“Não é como se fosse algo novo, querida” Esmeralda franziu o cenho. O olhar perdido da cigana percorria de forma vagarosa, tanto as pequenas bitucas queimadas quanto as marcas das cinzas que manchavam o carpete “Elsa nunca aparentou perceber que o bom-senso também é válido quando o assunto é você mesmo,” molhou os lábios “Nunca pareceu considerar usar em prol de si própria. Cansei de vê-la renunciar ou ceder algo que havia batalhado tanto para conseguir... Sempre tive a impressão que seus olhos perdiam o brilho quando algo saía totalmente do seu controle e ela tinha que abaixar a cabeça. Acho que Elsa tem muita coisa reprimida dentro de si e que uma hora, tudo isso vai desabar sobre sua cabeça”.
Anna se permitiu fitar bem o rosto da mulher que dormia em seu colo. O semblante passivo e a respiração ritmada não lhe entregava; a trilha quase imperceptível traçado pelas lágrimas salgadas de culpa, porém, denunciava uma pequena noção do quão sobrecarregada Elsa estava. A garota escorregava de forma suave e gentil os dedos no couro cabeludo da outra, hora massageando, outrora sentindo sua textura fina.
“Eu não...” Anna mordeu o lábio inferior; algo não queria sair e também se negava a voltar ao lugar de origem “Cheguei a conhecer esse lado dela. Sempre aparentou ser, meio que a dona da situação. A postura de Elsa sempre me pareceu confiante” sorriu de lado, mesmo que sem vontade “Sempre pareceu tão forte”.
Esmeralda engasgou com a água, tossindo repetidas vezes.
“Nós não estamos conversando direito, Anna” a mulher de fios pretos estalou os dedos da mão esquerda “Elsa é uma mulher forte. Todo mundo é, entende? Temos que considerar o quanto Elsa foi e está sendo forte de manter tanta coisa assim. Nenhuma de nós conhece a origem das suas dores, mas isso não quer dizer lá muita coisa. O nosso trabalho aqui é saber quando apoiar suas decisões ou não. Ajudá-la a tomar rumos certos e as rédeas da própria vida”.
Anna concordou, sentindo suas sardas do rosto queimar de vergonha.
“Apoio o fato de ter largado a empresa, apesar de me atingir diretamente, mas não apoio ela ter começado a fumar” Esmeralda concluiu o pensamento segurando um filtro amarelado no centro entre os dedos “Não a julgo”.
“Não é como se ela não soubesse o quanto o tabaco faz mal”.
Não mesmo.
Anna constatou suas pernas formigarem, mas evitou ao máximo mexê-las. Os músculos tensos e a má postura da coluna indicavam o quanto o cansaço havia se tornado algo inevitável. Após receber a mensagem de Esmeralda, imediatamente a garota ruiva se desculpou com todos os três amigos presentes – e loucos de pó –, tomou fôlego sobre a própria embriaguez e trilhou em busca de seus pertences. Não informou o porquê de estar antecipando seu voo de volta à NYC aos seus pais – que não aparentaram preocupação com a situação – e nem mesmo se importou com o valor quase cem dólares mais caro da passagem aérea no horário comercial. As quase três horas lhe pareceram uma perpetuidade sem perdão, como um castigo divino. Esmeralda lhe esperava no portão de desembarque; ela tinha um olhar mais rígido que Anna tinha imaginado.
“O que me conta parece totalmente oposto à Elsa por quem me...”.
Sua voz findou, se perdendo na escuridão do cômodo.
A mulher loira gemeu, se virando e envolvendo a cintura de Anna.
“Parece assustada” a cigana suspirou, tirando o salto alto dourado “A questão é mais simples que isso: você deve ajudar Elsa a encontrar seu equilíbrio. Se você ama uma parte, aprenderá a amar a outra também. De forma harmoniosa e balanceada”.
Anna sentiu seus olhos marejarem.
Sábias palavras, mas por em prática será fácil assim? O que me assusta não é ter medo de não amar Elsa quando conhecer todos seus lados, claro que não é isso! Sou tão estúpida... Como não pude notar o quanto ela carregava? No quanto estava quebrada e machucada por dentro... Toda vez que me abraçava por trás ou sussurrava algo em meu ouvido, eu... Eu não a conheço tanto quanto achei que conhecia, acho...
A mulher mais velha se levantou, caminhando – quase deslizando, de tão brando – até a cozinha. Não se demorou e logo retornou com uma garrafa de vinho pela metade e duas taças de cristal. Parecia bem acostumada com o apartamento de Elsa. Anna recusou o álcool e pediu um copo d’água. A ressaca da madrugada anterior lhe batia a porta; sua boca seca e a cabeça doída exigiam uma ducha quente e uma noite de sono descente.
Não teria nada disso tão cedo.
Era mais que tarde da noite. De novo.
Esmeralda segurava a taça de vinho seco entre os dedos, balançando e vendo o líquido dançar. Em respeito ao sono de Elsa, ambas havia decidido por conversar com as luzes apagadas e somente as luminárias verticais das paredes estavam acesas, ofertando uma luminosidade confortável aos olhos. A mulher de cabelo cacheado levou o líquido à boca, solvendo o amargo, e o misturando ao batom vermelho anil. Era nítida sua expressão de satisfação. A garota sabia que Esmeralda não buscava esconder o cansaço decorrente do dia agitado, assim como si própria. Sabia também que Esmeralda provavelmente iria recorrer a várias xícaras de café, enquanto Anna compraria uma lata de 473ml de Redbull – ou gramas de pó de guaraná – para se manter em pé e produtiva dali poucas horas, completamente ligada e transtornada na chamada da classe e nos pedidos de James.
“Ela é sua chefe... Não pode tirar o dia de folga?” A garota ruiva sorriu, como quem quisesse descontrair. Bocejou logo em seguida, coçando os olhos.
“Se Elsa e eu nos ausentarmos ao mesmo tempo, não teríamos cargo pra voltar no dia seguinte” A cigana tirou o lenço vermelho que segurava as madeixas escuras “Terei que segurar por enquanto”.
Anna assentiu, imaginando o porquê de duas pessoas tão importantes para uma grande empresa pensarem assim; concluiu que era um assunto minimamente delicado e inapropriado para a atual circunstância.
Os olhos da garota caíram sobre a robusta saia de algodão rosa da mulher a sua frente e em como estes faziam par com a camisa de cetim verde, coberta de lantejoulas. As Iris de Esmeralda chamavam bastante a atenção de Anna: eram de um verde profundo e escuro – faziam jus ao próprio nome da mulher -, diferente dos seus que eram mais claros e tendiam ao verde lunar, com uma exposição maior das pupilas pretas. Quando não severo, o olhar de Esmeralda eram, literalmente e naturalmente sedutores [de cigana oblíqua e dissimulada]. A garota ruiva sentiu as maçãs do rosto avermelhar, mas não buscou repreender tal pensamento. Qualquer um sã consciência da realidade em sua volta chegaria àquela conclusão. Não era crime observar o rosto de ninguém.
Ela pigarreou, limpando a garganta. O relógio analógico no seu pulso marcava quinze para as sete. Logo o sol avermelhado surgiria no horizonte, tirando todos os nova-iorquinos e canadenses dos seus confortáveis colchões; tirando a todos do abraço consolável do seu parceiro. Seguiu os traços do rosto de Elsa uma vez mais, confirmando o quão estava ansiosa pra mulher loira acordar, sorrir e lhe beijar. Se fosse um bom dia, até uma brincadeira sacana poderia surgir em meio a uma conversa sobre ovos estrelados.
O sentimento de receio voltou a correr suas veias e Anna sentiu uma quantidade menor de oxigênio chegando ao cérebro. Se a situação não se desenrolasse como imaginava – ou seja, se ela se mantivesse como estavam horas atrás – não saberia como interagir. Ou pelo menos achava que não. A garota sabia o quanto era ruim quando se tratava de acolher e consolar alguém, mesmo que esse alguém fosse Elsa em toda sua complexidade. Sentia-se ansiosa pelo momento da loira acordar, assim como se sentia igualmente apavorada.
Sentiu-se um pouco egoísta, afinal.
Abriu o zíper do moletom cinza.
“Sorte a dela não precisar trabalhar” Anna resmungou sozinha, sem saber ao certo se Esmeralda mantinha-se acordada. Suas pálpebras lentamente buscavam redenção na escuridão.
“Deveria cochilar, querida” Esmeralda sorriu antes de levantar e unir as mãos acima da própria cabeça; pode-se ouvir a queixa dos próprios músculos, em um estalo “Vou fazer um chá de hortelã para começar a manhã bem”.
A imagem da professora de Literatura Grega Clássica surgiu em sua mente como um curto relâmpago, falando sobre a ementa da aula daquela segunda-feira dolorosa. Anna ainda tinha algumas faltas no currículo para gastar. Um vasto sentimento de felicidade invadiu o peito da ruiva ao se decidir que não faria absolutamente nada de produtivo até às onze horas da manhã.
Fechou os olhos quando o sol apontou o horizonte, rompendo o crepúsculo da madrugada. Encostou a nuca contra o sofá macio e esqueceu sua mão espalmada no tórax de Elsa, passando o pingente dourando entre os dedos, como se um pequeno vício – que não era seu, porém. Ela sorria.
A estrela central do Sistema Solar era uma anã próxima a gigantes como a Sirius A e Arcturus. Anna se sentiu totalmente exposta à grandiosa VV Cephei quando abriu os olhos novamente. A claridade a estava matando. Talvez fosse um vampiro e nem soubesse disso. Gemeu de dor e virou sentindo oposto ao enorme paredão de vidro que parecia absorver o calor. Relaxou os braços e esticou as pernas, se sentindo um tanto quanto grogue. Deu-se conta de onde estava.
O sofá de Elsa sempre lhe daria torcicolo.
A mulher loira já não se encontrava ilhada em suas coxas, assim como as bitucas queimadas não decoravam a mesa de centro. Sentiu a ausência bater instantaneamente: estava sozinha na grande sala de estar. Os únicos barulhos presentes se baseavam no voar de uma mosca irritante e o de um chuveiro ligado. Seu estômago roncou, a fim de fazer parte da grande orquestra da vida. Anna deixou-se cair novamente de cara na almofada, lamentando a tragédia tão linda que era sua vida.
Repentino.
O relance de Elsa completamente nua e entregue a si; as marcas de beijos, mordidas e arranhões que ornavam o corpo da loira numa manhã chuvosa, numa apartamento do Brooklyn. A pele pálida, as curvas traiçoeiras, o olhar glacial e pouco desatento, que derretia tudo em Anna e... Lá estavam novamente.
Elsa estava acordada.
Recorreu aos ponteiros novamente: quase meio-dia.
Os minutos correram como em maratona escolar e subitamente Elsa caminhava pela sala. Um sorriso meliante e um olhar libertino denunciavam a mulher inteiramente sacana e devassa. Os fios loiros estavam molhados e pingavam no tecido da camisa social preta de listras azuis escuras que a mulher usava, aberta, largando totalmente disposto às vistas seu sutiã preto. A calça de brim cinza era justa e de cintura alta, abraçando a cintura da mulher de forma totalmente íntima.
E l s a é u m a p e r d i ç ã o m e u d e u s.
Talvez ainda estivesse dormindo.
Sonhos eróticos podiam ser recorrentes.
Graças a Deus pelas camisas sociais.
A mulher mais velha passou reto para a cozinha, sem sequer cumprimentar a ruiva com palavras verbais. Somente o contato visual bastaria. Quando voltou, tinha um copo d’água pela metade e duas aspirinas em mãos. Seu sorriso permanecia o mesmo. Anna sentiu-se um tanto quanto pervertida diante do fato de não conseguir desviar os olhos dos seios da outra. Ela sentou e se inclinou para frente – próximo demais.
“Hey ruiva” murmurou, usando, pelo menos na concepção de Anna, a voz mais sexy e rouca existente em qualquer universo ou galáxia.
Ok, é um daqueles sonhos que dura a madrugada inteira, me fazem acordar cansada e... Excitada e...
O movimento de Elsa chamou a atenção de Anna, que tomou um breve susto. Agora os lábios finos da mulher mais velha dançavam na maçã do rosto sardento de Anna, que se permitiu suspirar lentamente.
“Que este sonho nunca acabe...” A loira respondeu ao suspiro.
A psique de Anna subiu uma montanha e desceu de paraquedas.
“Senti saudades” a garota ruiva proferiu, evitando – e falhando – a angústia que escaparia da sua garganta. Seu peito pesou ao ver o sentimento de culpa estampado e refletido no olhar escuro de Elsa.
“Também”.
Era a brecha que necessitavam. O ápice que as fizesse sentar e, após quase quatro meses sem contato, conversarem seriamente sobre o que estava afligindo Elsa, o porquê de Anna ter se afastado e o que exatamente tinham, seja sexualmente ou sentimentalmente falando. Era a situação para deixarem tudo em panos limpos e agirem como duas adultas que eram e...
“Vamos ao Burger King?” Anna e seu riso ansioso.
Elsa piscou duas vezes, rapidamente. Parecia se divertir com o quadro que estavam pintando, mesmo que torto.
Mas seja possível.
“Filosofia fast-food” constatou suavemente, segurando o queixo da garota e encostando sua testa à da ruiva. Fechou os olhos brevemente. Anna não conseguiu realizar o mesmo, sentindo seu coração doer. Sentiu a respiração quente de Elsa contra seus lábios e de forma inconsciente apertou os mesmos, engolindo em seco “Mas acredito que não tenha Burger King fácil em Flatiron. Podemos ir ao McDonald’s, entupir nossas veias e morrer daqui poucos anos”.
Elsa rompeu a proximidade dos rostos e Anna se sentiu traída. A mulher mais velha se levantou, abotoando a blusa. Ambas as mãos de Anna suavam e tremiam; as aspirinas estavam meio que derretidas. Parecia nojento. Ela as enfiou na boca e tratou de engolir a água o mais rápido possível. Perguntou de Esmeralda e Elsa confirmou o quanto tinha agradecido à cigana e que a havia mandado para casa, descansar; se esta tinha acatado a ordem, já eram outros quinhentos.
Mesmo sob a manifestação dos seus músculos, Anna foi obrigada a levantar. Lavou o rosto, sentindo-se o resto de um humano que algum dia existiu. Procurou na sua bagagem de mão a roupa mais prática e socialmente aceita, mas, ou se tinha, ou se tinha outro. Um tênis de cano médio branco – e sujo -, uma camiseta amarela desbotada – nem era possível distinguir o que era a estampa mais – já relativamente curta para o corpo da jovem e por cima, uma jaqueta masculina de camurça marrom. Elsa tinha colocado um sapato baixo e bem polido.
As ruas de Nova York eram exatamente o que os filmes do Spider-Man buscavam representar. Tumultuadas e com altos prédios com escadas de emergência. Comicamente, muitos nova-iorquinos tinham a tão clichê camiseta I ♡ NY. O McDonalds mais próximo ficava nas 686 6th Av. Caminharam não com muita pressa, apesar do sol sob suas cabeças. De vez em quando a garota ruiva buscava encarar a mulher mais alta pelo canto do olho. Anna havia deixado sua bagagem de mão e Elsa só andava com a carteira no bolso do blazer, que parecia dois números maiores que o da loira.
Na esquina de duas quadras, um homem de estatura mediana se exibia com um macacão duplo e brilhante, branco. Sentando em um pequeno banquinho improvisado, tocava seu violão híbrido ligado à caixa de som. O som do microfone era tão alto quanto o topete moldado a gel em sua cabeça. Costeletas tão grandes que podiam assustar uma criança.
Era estupidamente real ser atingido por uma música de Elvis Presley.
We're caught in a trap, i can't walk out,
Caímos em uma armadilha, não posso escapar,
Era muitíssimo clichê.
Anna começou a rir [de desespero].
Because I love you too much, baby,
Porque eu te amo muito, meu amor,
Elsa não comprimiu a situação e sorriu nervosa. Tinham parado para assistir a performance do homem que fazia de tudo para engrossar o tom e sequer haviam se dado conta do ato.
“Elvis não morreu!”, alguém do outro lado da rua gritou.
A música ficava cada vez mais rápida, buscando seu ápice.
We can't go on together, and we can't build our dreams, on suspicious minds... Let's don't let a good thing die.
Não podemos continuar juntos e não podemos construir nossos sonhos com mentes desconfiadas... Não vamos deixar uma boa coisa morrer.
Uma Ford Ranger azul e suja de lama buzinou, enquanto a motorista, uma mulher de cabelos curtos e loiros batia palmas. Elsa e Anna acordaram dos suas respectivas realidades paralelas. Elsa riu até adquirir um tom vermelho escarlate no rosto e se engasgar, tossindo bruscamente. A mulher loira dobrou os joelhos e Anna ficou de joelhos na calçada suja, buscando acalmar a mais velha que não conseguia parar de rir mesmo passando mal. As pessoas ao redor ameaçaram aglomerar e Anna nunca havia se sentindo tanto em um filme de comédia romântica ruim.
[I can't walk out]
Elsa e sua roupa social não pareciam tão adeptos ao cardápio do McDonald’s, Anna concluiu. A loira sequer sabia o que era o Bigmac. Concluída a etapa de convencer Elsa de que um junk-food completo era pouco, a garota ruiva pediu o dobro de batata-frita e dois Milk-shakes de chocolate com baunilha. O hambúrguer viria com cheddar em quantias normais. Era certo que iriam morrer um dia, de qualquer forma.
O ambiente certamente cheirava a gordura – com recheio de capitalismo, como dizia Esmeralda. Crianças corriam astutas de um lado para outro e certamente o atendente do caixa estava pra lá de cansado do estabelecimento 24H. O barulho da caixa registradora e das dezenas de notas fiscais sendo rasgadas. O sol estava a pino quando o pedido chegou. Elsa só se atreveu a tomar o Milk-shake, deixando anotada a reclamação que o canudo de plástico era fino demais pra cumprir tal tarefa.
Ok... devo chamá-la pra ter uma data comigo! Um encontro de verdade! Nós não conseguimos sair desse vai ou não vai porque nunca saímos realmente como um casal buscando se conhecer. Se isso não acontecer, vamos viver eternamente nessa amizade colorida... Mas, pra onde eu chamaria essa mulher de terno, totalmente séria e sexy... Além da minha cama e... Foco, Anna! Sua carne não é tão fraca assim.
“Podemos ir ao cinema qualquer dia” Anna expressou sua vontade guardada há algum tempo. A mulher do outro lado da mesa apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na palma da mão, buscando demonstrar total interesse no que Anna tinha pra fizer. Anna apertou a ponta do nariz diante do olhar reto da sua mais nova observadora.
“O que está passando de bom?”.
“Coração de Cavaleiro, Velozes e Furiosos e... Pecado Original. Não sei se é teu tipo de filme, então eu aceitaria um não como resp...”.
“Pecados me interessam” A loira sorriu abusando da libido.
Anna sentiu as maçãs do rosto queimarem e um curto arrepio percorrer sua nuca e morrer no topo da sua cabeça. Os pelos queimados dos seus braços sardentos ouriçados. Passou a língua nos lábios secos e tomou um gole do Milk-shake que demorou passar pelo canudo,
De
Forma
Totalmente
Constrangedora.
A personalidade agitada e dominante de Elsa parecia mais afiada que nunca. Eufórica a um ponto que já não era possível ser controlada.
Minutos após, tomou fôlego suficiente para formular uma questão.
“Qual seu tipo de filme, Srta. Arendell? Diga-me um filme que já assistiu e realmente gostou, chamou sua atenção etc.”.
Anna cruzou as mãos atrás da própria cabeça, enquanto esperava uma resposta. Elsa parecia estar uma reflexão densa, como quem buscava em um armário lotado de arquivos, uma pasta subtitulada ‘prazeres banais’ já largada e perdida no espaço-tempo. Arrumou a gola da jaqueta marrom antes de Elsa estalar os dedos, sorrindo. Tinha achado a pasta nas suas memórias.
“Titanic foi um bom filme, certo? ½ Semanas de Amor também é um filme que me agradou. Acho que poderia passar uma tarde assistindo”.
Oh inferno, não tive saco de terminar Titanic e nem nunca vi ½ Semanas de Amor. Você realmente não colabora comigo, mulher!
“Bom...” Anna recomeçou.
05 de janeiro de 2018
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