Spring NY
14 And life has a funny way of helping
Notas iniciais
And life has a funny way of helping
“Ontem, dia 28 de setembro, completou treze anos desde que a China explodiu a última variante da bomba atômica: a bomba de nêutrons, em 1988. Esta, com cerca de 45% mais radioatividade, foi projetava para matar o maior número de pessoas em um raio de 10km, causando o mínimo de dano possível à prédios e construções. Foi um marco dentro da corrida armamentista, encerrada em 1993, com dois tratados de redução de armas estratégicas”.
O apresentador do telejornal das 18h tinha uma quantidade exorbitante de maquiagem no velho rosto. Enquanto corria os olhos rapidamente entre os cartões de notícias, suas rugas ficavam mais evidentes. A gravata roxa com listras brancas só não gritava mais atenção que a própria notícia, estampada na televisão de tubo, com repetidos vídeos da explosão em formato de cogumelo ao lado da bandeira nacional chinesa. Não demorou para a notícia acabar. Logo estava anunciando que Britney Spears havia assinado um acordo promocional de milhões de dólares com a Pepsi e em novembro lançaria um novo álbum.
Pela quarta vez consecutiva Elsa mudou de roupa. A ocasião era – como quase todos recentes – algo inédito em sua vida adulta. Tinha visitado o cinema muitas poucas vezes em seus quase trinta invernos. A primeira, em meados dos anos oitenta, tinha ido assistir A Hora do Pesadelo 4 com seu primeiro namorado. O filme se mostrou uma decepção, assim como o jovem rapaz e seu Ford Escort MK3. Ela ainda conseguia sentir a oleosidade da pipoca na ponta dos dedos e do áudio desproporcional da sala de cinema. Em suma, o resumo da ópera: Elsa não tinha nenhum traje descontraído para este momento específico.
Após o almoço corriqueiro no McDonald’s da 6th avenida, ambas as mulheres não souberam como agir. Enquanto Elsa não tinha forças – sentia-se envergonhada pelos meses sem fornecer notícias -, Anna preferiu não forçar nada. A loira olhou firme nos olhos verdes e esperançosos de Anna antes de sorrir e passar os braços em volta da garota, de forma protetora, a abraçando com sofreguidão. A ruiva pareceu confusa momentaneamente, retribuindo logo em seguida. Não pareceu notar no quanto Elsa se amaldiçoava internamente por ser tão fraca. Aquela segunda-feira passou tranquila e na manhã seguinte Elsa enviou uma SMS despretensiosa, desejando um bom dia pra moradora do Brooklyn.
Elsa havia aceitado a proposta de Anna. Tinham marcado de ir ao cinema como dito ‘primeiro encontro oficial’. Pareceu-lhe démodé. Mas ao verificar o contexto, não tinha nada de errado começar algo em um cinema. Era bastante comum até, mesmo considerando que Elsa não mais tinha dezesseis anos ou era estagiária. Era certo que teria convidado a garota para a nova exposição de arte contemporânea no Beekman Tower, enquanto tomavam champgne e admiravam o brilho de Nova York. Em último caso, um passeio de gôndola no lago do Central Park em pleno outono.
— hey els. turno acaba em 20min e o filme começa 19h40.
recebida, 18h09.
O Iris dos olhos de Elsa analisaram cada pequena letra antes de se permitir responder. Observou o relógio. Deveria sair ou se atrasariam.
— Estou a caminho. Esperarei-te do outro lado da rua.
— enviada, 18h12.
Elsa lamentou ao se olhar no espelho uma última vez. Não mais tinha tempo para mudar de roupa – mesmo sabe que se tivesse, não chegaria a uma conclusão. Decidida por uma calça de brim e tecido preto, com um corte reto, uma camisa básica e branca – basicamente, seu pijama era a coisa mais descontraída de todo seu guarda-roupa – e um blazer cor de enebro, alongado. Os fios loiros optaram por ficar soltos, escondendo o par de argolas prateada que finalizavam o tom mais casual que Elsa podia arriscar. Agarrou a chave com a logo exposta da BMW, trancou a porta e chamou o elevador.
Enquanto dirigia seu telefone tocou. Não era Anna, mas também não era uma chamada indesejada. Esmeralda parecia abatida do outro lado da linha, perguntando sobre a noite e sobre como estava Anna. Elsa foi sincera ao argumentar no quão estava ansiosa. Havia estragado as coisas uma vez e agora tinha que se redimir da melhor maneira possível. Por quase três minutos conversaram até a conversa morrer afogada quando a cigana comentou que Hans, durante a última reunião mensal dos sócios, havia questionado o afastamento da presidente e a ausência de comprovantes que atestassem sua saúde física e/ou mental.
Uma porra de uma pedra em meu sapato. Se eu pudesse dar cabo no Hans e em todos aqueles homens, Deus sabe que não pensaria duas vezes.
Estacionou exatamente no mesmo lugar que da primeira vez que havia buscado Anna. Desligou as lanternas do veículo, somando-se à escuridão da rua – que tinha um dos postes de iluminação pública queimada. Suas mãos suavam frias quando observou atentamente o Eight Legend. Era relativamente cedo, considerando que faltavam quase dez minutos para o fim do expediente de Anna, às 18h30. Bateu o fundo da carteira de cigarros contra o painel do carro, com a intenção de fazê-los se soltarem um dos outros. Acendeu o KENT no próprio dispositivo do carro e tragou devagar, abrindo a janela do carro para a fumaça circular. A queima da nicotina brilhava solitária dentro do carro. Seus músculos relaxaram, seus olhos arderam e sua garganta ficou seca e irritada.
Anna enfim apareceu na porta do restaurante, se despedindo de alguém antes de deixar a porta de vidro fechar automaticamente. Vestia seu costumeiro jeans claro e lavado, uma fina regata bege – que não cobria totalmente sua barriga – e uma camisa de manga longa, de um alaranjado desbotado e amassado. Sorria bastante e parecia particularmente contente com a pessoa de quem se despedira. Verificou ambas as pistas antes de atravessar com uma corridinha rápida.
Elsa amassou a ponta do cigarro contra o cinzeiro e fechou a gaveta. Abriu mais o vidro da porta e desceu, a fim de dar um tempo mínimo necessário para que a fumaça circulasse antes de Anna entrar.
“Boa noite” Anna soprou baixo, como quem esperando uma resposta esquiva ou arisca. Arrumou a alça da mochila no ombro. Nenhum movimento brusco veio de ambas as partes, que pariam julgar tudo muito frágil. Algo se alastrou lentamente dentro de Elsa, enquanto analisava o ser incrivelmente verdadeiro e belo em sua frente.
“Muito boa noite, ó meiga donzela” Elsa riu, dando um passo em frente e tomando a primeira decisão difícil da noite: contato físico “Vim buscá-la em sua humilde carroceria para livrá-la desta noite escura e agitada”.
A menina ruiva levantou as sobrancelhas, aspirando uma feição de surpresa. Uma surpresa agradável, porém. Abriu os braços para receber o abraço de Elsa, que aspirou lentamente o perfume juvenil de Anna, agregado ao aroma de cerveja escura e pimenta. Algo semelhante à amaciante de roupas também era nítido na larga camisa.
“Humilde? Minha cara senhorita, se uma puta BMW é humildade não quero descobrir o que é riqueza”.
Como senti falta do seu senso de humor, Anna...
“Madame, terás esta noite somente do bom e do melhor” Elsa fez uma longa pausa, enquanto prestava referencia, cruzando as pernas e abaixando o dorso. As mechas finas de seu cabelo loiro cobriram seu rosto, enquanto o pequeno pingente dourado em seu pescoço se mostrava evidente, a fim de participar da peça.
Súbito.
Um beijo no topo da cabeça deixou Elsa atordoada. Levantou surpresa, com o rosto a esquentar vagamente.
“Vamos, Elsa”.
Anna rodeou o automóvel e entrou.
A mulher mais velha limpou a garganta e fechou os olhos quando uma brisa fria atingiu seu rosto. Era diferente das costumeiras brisas nova-iorquina: não tinha gosto de asfalto ou cheiro de CO². Pareceu vinda do mar, de alguma ilha distante, a mando de algum deus nórdico ou grego para lhe oferecer auxílio naquela ínfima noite.
Abriu a porta do carro se sentindo mais leve.
“Então senhorita” começou “Infelizmente esqueci meu chapéu de chofer, mas estou às ordens”.
Anna riu, tampando a boca com as costas da mão. Elsa não podia deixar de reparar no quanto Anna e sua essência lembrava uma tarde de um domingo azul [e foi justamente pra ela que eu escrevi meu primeiro blue].
“98 da Broadway, por gentileza” a garota assumiu seu papel “Só dobrar na 10th avenida e seguir reto”.
“Nosso destino?”.
“AMC Lincoln 13”.
Elsa deixou o freio de mão livre e deu partida no carro. Enquanto dobrava na 10th avenida, observava Anna pelo canto dos olhos. A garota anotava algo em seu caderno, usando um pequeno lápis de escrever.
“Amber está grávida, Elsa. Não é incrível? Descobriu ontem de madrugada. Parece que já tem algo em torno de quatro semanas”.
“E você já se sente a maior tia, certo?”.
“Claro! Estive pensando em como será organizar as primeiras festas de aniversário e as roupinhas! Estávamos nos planejando sobre o dinheiro. Vamos precisar pegar hora extra, mas eu realmente não me importo muito. Principalmente quando ela já não puder mais trabalhar e eu então puder cobrir ela. Kristoff vai adorar a notícia também”.
Elsa cerrou os olhos, escutando atentamente os planos de Anna. Sua felicidade era nítida e legitima, apesar de Elsa considerar os diversos pontos negativos que era assumir de tal forma uma criança. Sabia também que sua percepção de mundo econômico era bem diferente dos de Anna e Amber. Elsa nunca tinha se preocupado em trabalhar enquanto estava na universidade para pagar a própria; nunca se preocupou com aluguéis; nunca se preocupou em escolher entre um livro, gasolina ou jantar. Mesmo assim, estaria minimamente preocupada se a situação de criar e cuidar de uma criança fosse consigo. Era bonita a determinação de Anna.
“Não precisam se matar de tanto trabalhar Anna” atraiu a atenção da garota ruiva pra si “Posso ajudá-las. Não é nenhum sacrifico para mim”.
“No limite do aceitável, podemos considerar” a garota balançou a cabeça de forma negativa. A loira não entendeu exatamente, mas considerou melhor concordar.
Os cinemas nova-iorquinos eram na beira da esquina, logo, estacionamentos não eram dos tipos comuns ou fáceis. O acostamento estava lotado de ambos os lados da rua. Quase 600 metros a diante acharam um pequeno espaço que coube a BMW 750-2000, logo em frente uma loja de departamento.
Caminharam lado a lado e apesar do silencio, pareciam confortáveis. Atravessaram a pista quando o sinal fechou. O grande letreiro luminoso marcava 16°C*. A tendência era chegar aos 13°C até o fim de setembro.
O LOEWS THEATRES era um prédio relativamente baixo se comparado aos demais. Tinha grandes e chamativos letreiros vermelhos, três entradas e cartazes dos lançamentos exibidos por LED’s vermelhos e luzes amarelas. As três vias da pista começavam a tumultuar. A bilheteria tinha uma fila relativamente grande, que caminhava rápida.
“Qual nosso filme?” A loira indagou, parecendo incomodada com o calor repentino que o ambiente emanava. O cheiro de manteiga e o barulho característico do milho estourando misturado às pessoas que conversavam relativamente alto. O cinema nunca mudou e talvez nunca fosse mudar.
“Então...” Anna agarrou o pulso de Elsa e passou a brincar com a palma da mão da mulher loira “Ainda não escolhi”.
“Mas não disse que ele começava às sete?”.
Anna sorriu travessa e tirou do bolso do jeans uma nota de dez dólares, colocando na mão da mulher e fechando os dedos de Elsa lentamente. Afastou-se, gritando que ia ao banheiro.
Elsa Arendell estagnou em seu próprio pensamento, com diversos flash’s correndo sua mente. Enquanto a fila andava, constatou ser extremamente fácil participar de reuniões multinacionais onde decidia gastar cinco milhões de dólares em uma pequena mudança de equipamento em algum aparelho eletrônico, mas que era excepcionalmente difícil escolher um filme e gastar mal o suado dinheiro de Anna em algo que ela poderia não apreciar. A bilheteria estava a três pessoas de si. Buscou rapidamente os cartazes de filmes e horários. Achou grandes telões eletrônicos.
C O R A Ç Ã O D E C A V A L E I R O — 19H00
V E L O Z E S E F U R I O S O S – 20H15
A.I I N T E L I G Ê N C I A A R T I F I C I A L – 19H45
T O D O M U N D O E M P Â N I C O – 20H00
F E L I Z C O I N C I D Ê N C I A – 18H40
Duas pessoas.
Meu deus do céu, socorro.
Uma pessoa.
Não se baseando em nome, mas em horários. Em uma lógica racional, Anna deveria sim ter visto a tabela de horários. Coração de Cavaleiro lhe pareceu medieval e sangrento; Elsa nunca gostou muito de corridas, comédia ou romance.
Comicamente não parecia gosta de quase nada, na verdade.
“Boa noite! Qual vai ser?” O jovem atendente tinha os ombros baixos. A tela do monitor refletia em seus olhos azuis.
“Duas para A.I, por favor,”.
Enquanto o rapaz terminava o procedimento, Elsa avistou Anna encostada à parede do lado oposto do salão, acertando o relógio de pulso. O pequeno coração agitado de Elsa se aqueceu com aquela vista privilegiada. Anna era bonita em todos seus aspectos.
A fila para comprar os comes e bebes era menor e menos dolorosa, considerando que Anna estava novamente consigo. A loira cogitava em pensamento se deveria pedir o café que acompanhava queijo brie e geleia de damasco. Anna, por sua vez, cogitava em voz alta sobre pizza ou pipoca. Por fim, Anna foi tradicional e saiu com um balde de pipoca e 1L de Coca-Cola. Elsa se contentou com um pacote de confetes de chocolate colorido e balas de menta.
Aparentemente, o filme era aceito pelo público. A sala lotada denunciava que a crítica andava por bons caminhos. Os lugares restantes se encontravam na segunda fileira, longe do corredor e coladas à parede. Três acentos solitários. Alguém sussurrou sobre ser o filme do ano e que ele deveria concorrer ao Oscar de 2002. A poltrona vermelha de Elsa estava quebrada e não reclinava tão bem.
“Talvez você goste. É sobre tecnologia” Anna comentou.
“Inteligência Artificial já é algo que logo alcançaremos no ramo da tecnologia para massas. Mas ainda é estranho pensar sobre. Construir uma vida com as próprias mãos, peça por peça. Ver surgir um ser racional que não um humano, mas que irá interagir com os humanos de uma forma única...”.
“Até onde as máquinas podem ser máquinas? Tchan! O filme fala sobre isso. Mas acho que deveria assistir Blade Runner, Elsa”.
As fracas luzes de ambiente se apagaram e a tela passou a rodar propagandas que enchiam os olhos de cores. Quando o nome de Steven Spielberg saltou a tela, todos cochicharam algo diferente para seus respectivos parceiros. Anna pareceu ficar animada.
O longa-metragem buscava apresentar justamente o debate discutido inúmeras vezes a cada novo passo da ciência: até que ponto uma máquina é uma máquina? David, personagem principal do filme era um jovem de onze anos, construído para amar e ser amado. Seu amor era real, mas ele próprio não era*. Ficção científica se conciliava ao drama e logo quase toda a plateia se mostrava revoltada e vidrada em diversas situações distintas. O futuro lhes parecia tão belo e magnífico quanto cruel.
“O gelo derreteu e inundou minha Coca” Anna choramingou aleatoriamente em determinada altura, o que fez Elsa rir e alguém duas fileiras a frente soltar um ‘shhh’.
Após pouco mais de uma hora e meia de filme, Anna pareceu cansar da posição e encostou a cabeça no ombro da mulher mais velha. Buscou na mão de Elsa o pequeno pacote de confetes e os comeu devagar. O ar-condicionado da sala de cinema era rígido e Elsa cogitou questionar se Anna sentia frio. O pensamento logo se perdeu durante uma cena do filme. Pouco tempo após, o ombro de Elsa já formigava e os confetes haviam acabado. A mulher reuniu pouca coragem, mas conseguiu passar o braço pelos ombros da garota, que se aconchegou com o queixo próximo à clavícula rígida de Elsa. E, por algum motivo curioso, Anna segurava e apertava o pingente do pescoço de Elsa de forma despretensiosa e desatenta. A mulher mais velha se esforçou para controlar a quantidade de ar que entrava e deixava seus pulmões, enquanto seus dedos deslizavam e enrolavam nos fios grossos da nuca da garota.
Os guardanapos e o pacote vazio de confetes agora jaziam dentro do baldo de pipoca debaixo da poltrona. Anna chupava uma das balas de menta de forma silenciosa. Quase no fim do filme, Elsa pôde sentir os lábios quentes e o hálito mentolado no seu pescoço, logo abaixo da sua orelha direita. Ela sabia o quão gelada estava sua própria pela e no choque térmico que ambas receberam. Fechou os olhos e deixou um suspiro lento escapar. Sua boca seca e a saliva parada. Anna sussurrou algo muito devagar contra a pele pálida. Elsa acompanhou cada pequeno movimento dos lábios da garota. Elsa ficou inteiramente arrepiada. Não soube o que a garota disse e somente concordou.
Era doloroso o contato.
E também a falta dele.
O filme terminou, enquanto as letras brancas subiam e a luz ambiente acendia. Anna beijou uma última vez o pescoço de Elsa, como quem se despedia da escuridão. Espreguiçou-se na poltrona. O copo de Coca-Cola pela metade só de água. Elsa pigarreou ao observar o quanto a regata de Anna subia enquanto ela levantava os braços. Estava com a boca seca.
Precisava de um cigarro ou de água.
Ou talvez de um beijo. Não sabia ao certo.
Não vou me sujar fumando apenas um cigarro...
Na saída tumultuada da sala, um jovem de cabelos tingidos de um vermelho vívido gritava alto com seus amigos. Eventualmente ele virou pra Elsa e lhe disse algo baixo. Elsa, porém, estava longe e não escutou e nem acompanhou o movimento dos lábios finos. Anna o empurrou, parecendo irritada. A circunstância logo morreu quando ele e seus amigos foram embora e agora Anna tagarelava sobre como o filme era maravilhoso e que o livro deveria ser tão bom quanto.
“Ele estreou no meio do ano. Queria assistir desde então” Anna comentou enquanto lavava as mãos e comia mais uma bala de menta.
“Costumam ficar tanto tempo em cartaz assim?”.
“Só quando arrecadam muito” riu.
A chuva mergulhava impetuosa em direção ao asfalto do lado de fora do cinema. O relógio de pulso de Anna marcavam 22h28. Ambas as mulheres se mostraram desanimadas ao recordar do quão longe o carro estava. Não se tinha muita escolha, porém. O outono podia ser belo, mas traiçoeiro aos que não se atentavam à previsão meteorológica do jornal.
“Fique aqui. Vou correndo, busco o carro e paro do outro lado da via te pegar” Elsa sugeriu, tirando o blazer. O olhar atento de Anna recaiu sob a camiseta branca por dentro da calça preta, que definia bem sua cintura – e em como Elsa podia transformar o item mais largado em algo sério e elegante. “Volto logo”.
“Mas é claro que eu irei contigo” Anna retrucou, rindo, como se o tempo todo a resposta fosse óbvia. “Não vou deixar se molhar sozinha. Viemos juntas e vamos voltar juntas”. Elsa riu ao constatar que esse tipo de frase só era dito em guerras. Discutir com Anna, porém, era perda de tempo.
“Ok, vamos então”.
Considere: 600 metros não eram pouca coisa. Pouco depois da metade do caminho já não corriam no mesmo ritmo. As gotas gélidas e gordas lhes atingiam com força anormal e ambas tiveram que esperar o sinal fechado para atravessar a avenida. Quando enfim avistaram o carro, já estavam tão molhadas que não se importavam mais em só andar. Anna dava cada passo de cabeça baixo e braços cruzados, parecendo sentir muito frio, encolhida e enrugada, feito velhinho.
O alarme da BMW piscou tênue em meio a tantas luzes e letreiros. Entraram no carro e por dois longos minutos ninguém disse nada. A franja de Anna pingava no seu colo, enquanto diversos riscos de água marcavam sua testa e pescoço. Não demorou para que a ruiva lembrasse e reclamasse que teria que lavar roupa no dia seguinte.
“Mas trabalhamos com o que temos certo?” Anna suspirou. Um grande telão da TOSHIBA exibia um clipe de Alanis Morissette, trajando uma touca vermelha e dirigindo um carro de pintura desbotada. A neve gélida presa no retrovisor e um sol morno adentrando o vidro. Em letras garrafais, ‘FM 91,7’ estava inserido no clipe. Anna ligou o rádio e girou seu botão até sintonizar a fim de acompanhar o vídeo. Elsa seguia cada movimento com os olhos, apesar dos fios loiros colados no rosto.
“Well life has a funny way of sneaking up on you”
Bem, a vida tem uma maneira engraçada de aprontar com você;
“Aliás” Anna começou, resgatando a atenção de Elsa “Bela camiseta, Elsa”, sussurrou de forma devassa, sem tirar os olhos do tecido quase que transparente e completamente colado ao corpo da mulher mais velha “Pobre moça, passa por tudo e mais um pouco pela patroa”.
“When you think everything's okay and everything's going right”
Quando acha que está tudo bem e tudo está dando certo;
Para Elsa, o jogo que ela própria havia começado parecia bastante distante daquela própria noite, assim como parecia tão próximo do tempo. Ela deixou uma gargalhada escapar antes de molhar os próprios lábios e responder.
“Minha senhorita, sempre estarei ao seu dispor, para o que der e vier” murmurou devagar, aproximando o próprio rosto ao da garota mais jovem. O frio havia deixado de ser interno e agora era só um pequeno detalhe físico.
“Qualquer coisa?”.
Uma noite e meia.
Anna sorria quando Elsa sentiu o hálito mentolado quente e mentolado uma vez mais. Repassou devagar por ambos os olhos escuros de Anna, devida à baixa iluminação. Os fios ruivos molhados destacavam as sardas da pele ouriçada da moça. A mão esquerda de Elsa se concentrou em segurar forte o volante, enquanto a direita acariciava a maçã do rosto de Anna, que havia fechado os olhos ao toque a outra. Quando sua mão alcançou a nuca da garota, a tensão implodiu e elas se beijaram de forma quase violenta.
Lhes pareceu necessário e de caráter de urgência após quatro meses de desejo constante.
Dedos confusos pareciam participar de um concurso de tango sofrido, deslizando para dentro do tecido encharcado das camisetas. O blusão alaranjado de Anna já havia sido jogado no carpete úmido do carro e uma das alças da fina regata bege rapidamente estava banalizada no cotovelo de Anna, deixando seu ombro exposto às mordidas indecentes de Elsa.
Ninguém ali se importava de saber se estava ou não infringindo alguma lei do estado de Nova York. Se tinha alguém passando ou alguma câmera filmando. Sequer chegou-lhes tais pensamentos.
Estavam sós e nenhuma sabia exatamente onde iriam parar.
“And life has a funny way of helping you out when you think everything's gone wrong and everything blows up in your face”
E a vida tem um jeito engraçado de ajudá-lo quando você acha que tudo está dando errado e tudo explode na sua cara.
21 de abril 2018
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