Spring NY

2 Take me to the place where you go


Notas iniciais
Não disse no capítulo anterior, mas digo agora: escutem as músicas em seus determinados momentos! É mágico! O nome do cantor/banda e a música de todo o capítulo estão nas notas finais, caso queira deixá-la carregando. Boa leitura ~

Take me to the place where you go

A rotina pós-trabalho de Anna era cansativa.

Uma caminhada até o coração da lotada Times Square, uma fila para passar a catraca do metrô e quarenta minutos balançando dentro do vagão, pensando no que comeria quando chegasse ao seu humilde apartamento. Descia na estação Clinton-Washington, no Brooklyn. Mais dez minutos de caminhada. Boa noite George. Três andares de escada e então sua cama já bagunçada da noite anterior. Choramingava. Lembrava-se que tinha atividades a serem feitas, louça à lavar. Enquanto a cafeteira trabalhava, Anna tomava banho. Depois de tudo, dormiria poucas horas para acordar cedo e tomar um ônibus até o campus.

Mas lá estava ela.

Uma e meia da madrugada, ainda em seu ambiente de trabalho.

Anna e a mulher cujo sequer sabia o nome, bebiam dominicana. Um drink a base de suco de laranja e rum escuro. Era nítido que a garota estava levemente alterada, alegre. Claramente era fraca com bebidas de alto teor alcoólico. A mulher mais velha, porém, mantinha sua pose, sã.

Anna a olhou pelo rabo do olho. Sentia-se mais leve e contente. Certamente não estava bêbada.

Só alegre. Mas será que isso não é um pensamento de bêbado?!

“Eu...” a ruiva começou, soltando uma mistura de suspiro, desespero e riso preso. Tentava se controlar para não parecer uma louca psicótica “tenho que ir para casa. Tenho aula amanhã cedo”.

A outra levantou as sobrancelhas em tom de surpresa.

“Quantos anos tem, Anna?”

“Vinte e três” arrastou melodicamente a voz “e sequer sei o que estou fazendo da minha vida”

Como se algum de nós soubéssemos...

“Acredito que nenhuma de nós está em condição de dirigir, não é mesmo?” a mulher comentou em um tom divertido enquanto dobrava o punho do jeans alheio.

“Dirigir?!” a garota não escondeu seu riso. Rapidamente ficou tão vermelha quanto seus fios cor de cobre “não dirijo nada, nadaaaa. Sou capaz de atropelar idosos no supermercado”.

“Você consegue achar sua casa?” questionou, com uma ponta de preocupação. As pontas dos dedos massageavam a própria nuca em um gesto de desconforto impedido.

Anna estagnou pensativa, analisando a situação. Seu copo pra lá de vazio e sua consciência escandalizada. George e seu pequeno apartamento deviam estar se questionando sobre o sumiço da garota. Desde nova Anna sempre puxou mais para o lado de garota boêmia. A faculdade e o serviço de meio período viriam pisar em sua vidinha e lhe largar um basta.

“Hm... Claro”.

“Então devemos ir” afirmou enquanto sacava três notas cuidadosamente dobrada. As depositou em cima do balcão e reuniu todos os copos e taças em um canto do mesmo “pegue suas coisas”.

Autoritária...

“Mas está chovendo!” protestou a ruiva sem equilíbrio, levantando-se de supetão “vamos chegar feito patinhos”.

Sua manifestação fora totalmente ignorada. Anna não gostava exatamente daquela situação, pois se sentia um tanto quanto impotente, assim como quando criança. Seus pais sempre ignoravam suas decisões e protestos, afirmando haver outro caminho mais lógico.

Raios, todos os caminhos são lógicos! Não é porque alguém pensa diferente de mim que eu não posso estar certa. Quero um artigo cientifico que prove que não tem problema sair nessa garoa fina, com um vento gelado desse.

“Anna?”

“Ah, claro! Vamos, vamos!”

Sua mente estava razoavelmente nublada e seu estomago roncava baixo. Sua última refeição havia sido um pacote de Doritos há cerca de três horas. Enquanto recolhia sua mochila e pertences do armário, uma flecha imaginária raspou sua orelha.

Ela vai pra minha casa?!

O Time Square necessitava de remédios para insônia. A noite era simplória, mas gritava por clamor. Barulho, luz, buzina, tele-entrega, talvez um super-herói voando e topando com uma velhinha pedindo socorro.

A garoa não era capaz de atravessar o jeans grosso da jaqueta recém adquirida pela mulher, que caminhava com as mãos no bolso e olhar felino. Por outro lado, Anna usava um moletom azul escuro grosso e macio, além de um cachecol felpudo e uma touca preta. Não era exatamente o suficiente, já que os pelos do pescoço sardento estavam ouriçados, assim como a ponta de seu nariz gelado.

O álcool as mantinha quente por dentro e o incomodo vento do norte era um problema temporário. Na estação de metrô Anna usou seu MetroCard, enquanto a loira pagou um acesso. O primeiro trem da linha Dois que surgiu, reconfortou o coração de uma Anna congelada. Ambas se reencostaram em um banco de pintura descascada, nos fundos do vagão.

Anna se encolhia nos braços da outra, discretamente roubando o pouco calor existente naquele pequeno pedaço de perdição. Ambas estavam com os cabelos úmidos. A ruiva sussurrou algo que a outra não prestou atenção, antes de tirar o Discman da mochila velha e rasgada. Passou um dos fones de ouvido à mulher e pôs um em seu próprio.

Não sabia que CD estava ali. Só deu play.

— Take me to the place where you go.
Me leve ao lugar que você vai.

— Where nobody knows if it's night or day.
Onde ninguém sabe se é noite ou dia.

— But please don't put your life in the hands.
Mas, por favor, não ponha a sua vida nas mãos.

“Oasis é muito bom” afirmou com um sopro de voz. Fechou os olhos ao observar aquele trágico momento de sua vida.

Trágico, porém belo.

“Não costumo ouvir muito música...” a loira esfregou o ombro da garota “mas é bom mesmo”.

Sabe-se como detectar um momento de felicidade plena na vida de alguém? Pergunte. Provavelmente ele dirá que não sabe, mas seu inconsciente o levará para algum lugar em seu passado, para uma memória aleatória em que este simplesmente estava feliz. Não era porque estava ganhando um presente, não era por estar em um parque de diversões caro. Automaticamente você lembrará de uma tarde, largado no sofá, um programa de TV aleatório. Anna tinha esse sentimento às vezes e sabia que este momento se tornaria uma dessas lembranças plenas.

Plenas.

Tremia levemente quando arrastou seus dedos até a nuca da mulher que lhe abraçava firme. Sentiu a textura fina dos fios loiros e um suspiro subiu-lhe a garganta. Aproveitada a oportunidade, uma rápida olhada ao seu redor e o vagão quase vazio. Soltou um pequeno riso quando uniu seus lábios gelados aos da loira, que correspondeu numa dança lenta.

Ao beijar alguém com maior intimidade, sente-se a pessoa. Não uma formação social e tampouco uma formação física. A própria pessoa. Anna compreendeu um pouco mais do mundo da outra ao experimentar seus lábios e como a loira os mexia, capturando sua língua e se desvencilhando para depositar selinhos no canto da boca da ruiva.

Acho que isso passa do socialmente permitido num vagão, mas afinal, que droga de vida. Como essa maldita pode beijar tão bem?

ESTAÇÃO CLINTON-WASHINGTON, anunciou a voz eletrônica vindo do além. Anna guardou seu Discman e segurou as mãos da outra, a puxando suavemente para fora do trem. Do lado de fora, o tempo havia dado trégua e o tempo estava parado. Imersos na escuridão do céu sem estrelas ou luar. Nenhum carro ou pessoa nas calçadas. A caminhada de pouco mais de dez minutos foi apressada e logo chegaram ao prédio.

“Boa noite, George”.

“Boa, Anna”.

Três andares de escada. No segundo, perto do corredor do apartamento de Anna, a mesma parou de repente e balançou a cabeça.

“Algo errado?”

“Não sei seu nome” a ruiva disse com a voz dura. Um traço de arrependimento pelo tom, mas se manteve. Virou para a loira, que estava um degrau abaixo de si, olhando diretamente nos olhos que mais pareciam um mar isolado. Ajeitou a gola jeans da outra, enquanto esperava uma resposta. Reparou num colar dourado dentro da camisa social.

“Elsa” sorriu a mulher, apertando a cintura delgada da garota “Elsa Arendell”.

Arendell, eu já ouvi esse nome em algum lugar, não?

“É um prazer, Elsa” Anna sorriu. Elsa segurou o rosto da garota, de forma delicada e lhe depositou um selinho.

“Prazer o meu, Anna”.

Porta n° 25. Finalmente salvas do frio sinistro, da chuva e das roupas úmidas. Rapidamente a pasta de couro e a mochila foram escoradas à um canto qualquer. As roupas geladas largadas no chão, uma pequena tremulada de ambas. Anna sentia-se cansada, além de sóbria.

Ligou a televisão de tubo 14’ em um canal qualquer.

Passava um filme qualquer.

“Elsa” Anna considerou que o timbre que o nome da mulher reproduzia em sua boca era peculiar.

Rapidamente a loira lhe respondeu com um pigarreio. Provavelmente estava com tanto frio quanto a ruiva. Anna se aproximou de forma sorrateira. Não estava acostumada a jogos de sedução, mas àquela altura do campeonato...

Se não tivesse conhaque naquele lugar, agora eu estaria me perguntando se ela preferia chá com leite ou limão. Devo agradecer James depois.

Elsa ainda vestia sua saia de brim e sua camisa social transparente; seu sutiã provocava Anna, que, relutante, tentava desviar a visão. Poucos passos para frente, Anna encurralou Elsa contra a parede.

Ambas tinham o mesmo olhar febril.

Botão por botão, Anna se entregou naquela prazerosa tarefa. Beijou a curva exposta do pescoço de Elsa, que inconsciente raspou as unhas na cintura sardenta da garota mais nova. Sentiu a pele macia da loira sobre a palma de suas mãos, deslizando, deslizando e deslizando... Anna amava o som sutil daquele contato.

Elsa lhe beijou o alto do ombro, se apoiando logo em seguida para tirar seu salto alto. Não mais 10cm, mas sim 06cm. Anna ainda tinha que olhar pra cima, se quisesse encarar a outra mulher.

A banheira estava pela metade de água quente, com diferentes perfumes.

A luz do banheiro apagada roubava-lhes o sentido da visão e intensificava seus demais sentidos e sentimentos latentes. Elsa conseguia ouvir o barulho da água remexendo quando Anna entrou na banheira de porcelana, assim como conseguia sentir afiadamente os aromas de hortelã-pimenta. Seu corpo tremendo de alívio ao sentir a água aquecida, seus músculos contentes de escapar da noite.

Houve ternura em tudo após isso.

Toques ousados.

Intensidade talvez fosse a palavra certa.

Elsa estava sentada com as costas em contato com a porcelana gelada. Anna entre suas pernas. A loira massageava levemente os ombros da garota e vez ou outra baforava em sua nuca, beijando ou mordendo. A garota ruiva apertava e passava em ambas as coxas da mulher mais velha.

O mamilo vermelho da garota foi alcançado pela mão ágil da mulher. Anna buscou de forma aparentemente desesperada à mão de Elsa, que quando localizada, passou a receber beijos e lambidas nada discretas. Faltou-lhe pudor quando Elsa mordeu sua orelha e segurou seu seio com determinada força, puxando a garota pra si. Suas unhas deslizando, vermelhas e doloridas linhas contra o tórax que subia e descia, clamando ar nos pulmões.

A trança ruiva foi desfeita, liberando os fios grossos cor de cobre.

Anna virou o corpo devagar, ficando frente a frente com a mulher, que sorria na penumbra. Beijaram-se, enquanto seus seios encostavam-se, proporcionando satisfação à ambas. Momento aproveitado, ombros nus, busto nu. Anna explorou toda a parte superior com a boca, enquanto suas mãos conheciam a cintura da loira, reconhecendo um pequeno fio de cicatriz.

Curioso...

Elsa esmagou seus lábios contra os da garota, fazendo-a choramingar com uma mordida que recebeu. Uma pegada mais forte e violenta juntou ambos os corpos como um só. Deslizou sua mão até o núcleo quente e excitado da ruiva, que gemeu em puro êxtase. O cuidado de masturbar Anna com delicadeza, uma vez que sua unha poderia trazer mais desconforto que prazer. Anna rebolava e cravava suas unhas nas costas de Elsa, a fim de não escorregar na banheira. A ruiva mordia o pescoço da loira sem pudor.

Oh, isso vai marcar.

O clímax fez a garota ruiva se retorcer, ofegante, gemendo mais alto por um breve momento. Um grande estrondo de emoção percorrendo seu corpo.

Foi-se a tensão acumulada de meses.

Foi-se o tesão acumulado de meses.

Era possível observar os olhos de Elsa devida uma pequena fresta de luz dourada, que invadia o cômodo. Anna a beijou em tom de desespero.

Um tom de urgência e bem-aventurança.

16 de janeiro de 2017

Notas finais
Música título do capítulo: Don't Look Back In Anger - Oasis