Spring NY
19 One way or another, I'm gonna win ya
One way or another, I'm gonna win ya
“Sabe quando a construíram?”.
Anna não respondeu. Observava, mais interessada do que de fato deveria estar, o trânsito parado e o aglomerado de pessoas sob as marquises molhadas. Suas sobrancelhas se apertavam de forma que pareciam conversar, entregando o quão longe seus pensamentos deveriam estar vagando. A garota só voltou para o planeta quando sentiu um beliscão na coxa esquerda.
“Construíram o que?” Perguntou “O que você construiu?”.
“A Catedral, Anna” Elsa respondeu aparentando impaciência.
Os olhos de Anna se arregalaram, com um brilho de descrença e seus lábios rapidamente se separaram para verbalizar a quão absurda era aquela afirmação. De repente, como se seu cérebro tivesse voltado a trabalhar depois de um curto-circuito, entendeu do que Elsa falava. Seus olhos deixaram a mulher loira e percorreram a janela do carro até avistar a estrutura da grande Catedral neogótica de São Patrício, logo ao lado. Sequer tinha notado o quão tinham – ou não, percorrido do caminho proposto, enquanto perdida nas próprias ideias abstratas. Tinham atravessado todo o Central Park pela 5th Av. que agora estava completamente suspensa, de tanto veículo e neve suja.
“Já li sobre ela, quando tive aula sobre arte gótica...” Anna começou, enquanto suas íris caminhavam a estrutura gloriosa que chegava a ter 100m de altura, chegando a ser por algum tempo, uma das maiores estruturas da cidade de NY “Se não me engano foi construída na metade do século XIX, contando com o apelo popular. Acho que houve uma feira de arrecadação e muitos pobres contribuíram na grande vaquinha católica de época”.
“É bonita” Elsa sorriu, parecendo satisfeita com a curta explicação. A fila de carros andou um pouco e logo trataram de acompanhar.
“Acho meio sinistro, nunca fui fã declarada do gótico” Anna deu de ombros “Todas elas, na verdade. Não me sinto diferente se penso em Notre-Dame de Paris. Sei que são um grande marco humano e da construção, da arte, da arquitetura, mas olhe pra ela... É grande, rígida, pesada e sua coleção de anos também é meio bizarro. Consegue imaginar quantas pessoas passaram por essas paredes morrendo de amargura, fome ou fugindo da guerra? Quantas lágrimas foram derramadas nesse chão, enquanto pediam perdão por algo totalmente fora do alcance de suas mãos...?”.
A mulher loira balançou a cabeça de forma negativa, puxando a mão esquerda de Anna para si e beijando-a, da forma mais cálida possível.
“Fazia tempo que não a via divagar assim, Anna”.
Anna sorriu, sentindo a ponta do seu nariz vermelha.
“Acha que vamos atrasar muito?” A garota deixou as palavras deslizarem pela língua de uma maneira tão lenta e cuidadosa, que parecia conversar com uma criança que mal falava ‘mamãe’. Desde que tinham parado no engarrafamento, queria perguntar, mas receava abrir um espaço negativo.
“Hm” Elsa gemeu baixinho, constatando pelo retrovisor o quanto tinham progredido na última meia-hora. Parecia cogitar seriamente aproveitar qualquer ruela estreita para dar meia-volta e rumar em direção a seu apartamento. Seu coração a dizia, porém, que magoaria depois Anna e Esmeralda se essa fosse sua decisão depois de tudo “Posso cortar caminho pelas quadras até achar uma pista que esteja andando. Devemos pegar vários sinais fechados e talvez mais engarrafamentos, isso pode até nos atrasar mais do que continuar aqui, mas ao menos estaremos andando. O que acha?”.
“Acho que eu adoro meu metrô, nessas horas” A garota ruiva aspirou despretensiosa. Não pretendia desconfiar das atitudes de Elsa, àquela altura do campeonato, mas sabia que perderiam a vaga do dia se atrasassem mais ainda – e quem poderia garantir que não era exatamente esse o plano da loira? “Não podemos estacionar em qualquer lugar perto de alguma estação?”.
A mulher loira pareceu irritada com a proposta e então só ignorou Anna. Quando os veículos a frente deram uma curta brecha de espaço, Elsa acelerou de forma ríspida contra o gelo e subiu o meio-fio, entrando em uma ruela que cortou até a Madison Av., também travada. Não pareceu suficiente para a mulher, que continuou seu frenético zigue-zague entre os carros parados e pequenos becos. Anna olhou pelo canto dos olhos para Elsa e engoliu um tanto de saliva parada na garganta. Queria gritar que não estavam em uma maldita motocicleta – e temia que Elsa respondesse que estavam sim. De uma forma ou outra, milagrosa ou habilidosa, saíram vivas na Park av. que também tinha trânsito visível, mas ainda contava com movimento.
“Não sabia que namorava um piloto de fuga” A ruiva quis espairecer o clima de tensão entre elas, enquanto puxava o cinto de segurança que machucava seu pescoço.
“E nem eu, que era” Elsa desafogou as próximas sobrancelhas tensas, deixando para trás uma ruga vertical avermelhada.
Quando entraram na avenida do prédio, o sinal fechou e novamente voltaram a se sentir impacientes. A mulher loira tamborilava os dedos contra o volante e a julgar por sua expressão, questionava o porquê estava se esforçando tanto. Anna mastigava o interior da própria bochecha, enquanto se concentrar em inspirar e expirar lentamente. Um Fiat verde aproveitou o sinal aberto para abandonar uma vaga em frente a uma pequena filial da Fedex. Estacionaram e ambas fecharam os olhos por alguns instantes, sentindo os ombros tensos.
“Pode ficar no carro se quiser” Elsa propôs com os olhos escuros e fixos no volante “Está frio lá fora”.
“Eu vou junto e isso sequer é negociável” Respondeu a ruiva, enquanto vestia o sobretudo cinzento, suas luvas e touca Knicks. Quando abriu a porta, inspirou o ar gelado e sentiu-se triste. Enrolou mais as mãos e as escondendo dentro do casaco, bateu a porta do carro.
Observou Elsa, rainha da neve e do maldito gelo. Ela usava apenas uma fina camisa de manga longa e preta por baixo do sobretudo azul-escuro. O cachecol mais servia de charme do que para de fato protege-la de algo. Até mesmo sua bota de couro escuro e impermeável era mais sexy que as botas com detalhes borrachudos que Anna usava.
Atravessaram a rua numa corridinha e entraram no complexo. Entraram no elevador que estava parado no saguão e subiram poucos andares. Anna tentou dissipar toda a irritação que estava sentido e segurou a mão da namorada, sussurrando baixinho.
“Hey, vai ser ótimo e eu vou estar ali, logo depois da porta, se precisar de algo. Eu espero, muito, muito que você se sinta confortável pra dizer algo além de ‘bom-dia’ pra ele..., mas não se sinta pressionada, tá bom? Diga o que quiser, da forma que quiser, no tempo que quiser” Pausou “E saiba que você é incrível e muito corajosa de estar aqui e que a amo de todas as formas possíveis de se amar alguém”.
As portas de metal rolaram e enfim estavam no andar do consultório particular do psicólogo Gary L. Black, um dos melhores do distrito de Manhattan, conforme os resultados das pesquisas de Anna e Esmeralda.
Quando entraram, Elsa transvestiu sua máscara de mulher bem-educada e culta e sorriu de forma simpática para a secretária. Disse seu nome e entregou sua identificação, e a mulher logo indicou a porta de mogno escuro. Elsa observou a porta e girou os calcanhares, virando-se novamente a ruiva.
“Vou entrar, Anna” Anunciou séria.
“Sim” Anna respondeu baixinho, dando um passo à frente para abraça-la. Sentiu os ombros rijos e a postura perfeita de Elsa e conteve o riso. Certamente faria um comentário sarcástico se a situação não fosse tão frágil “Vai ser ótimo e eu estarei exatamente aqui quando sair”.
Elsa entrou na sala, com uma leve batidinha na porta.
A ruiva soltou todo o ar que sequer sabia estar retendo. Sua tensão se dissipou um pouco. Buscou o celular no bolso do sobretudo e tirou as grossas luvas da mão para digitar para Esmeralda a vitória do dia.
— ela entrou, graças a deus.
enviada, 9h47min.
A garota parou para contemplar a sala que estavam: enormes janelas davam para o prédio logo a frente, mas pesadas persianas verticais a impedia de bisbilhotar o que faziam no prédio vizinho. O chão era de um fino carpete cor de algodão cru, impecavelmente sem nenhuma dobra – salvo que as botas de Anna o tinham marcado de neve suja. Sentiu as maçãs do rosto avermelharem. O teto era alto de marcado de suaves LEDs brancos. A secretária do outro lado do monitor usava um uniforme preto e fino, coque e brilho nos lábios.
Anna pousou seus olhos no relógio da parede e sabia que o tempo demoraria passar. Cogitou em dar uma volta no complexo, mas temia que a loira saísse e ela não estivesse lá como prometido. Bufou. Deveria ter trago seu Discman ou um livro, talvez até um bloco para rabiscar. O aquecedor da sala logo a lembrou como era sentir calor e então tirou seu casaco. Também tinha uma televisão com um discreto aparelho de canais a cabo do outro lado da sala. Imaginou se a secretária cederia o controle. Na mesinha de centro, umas poucas revistas de fofoca do mês e balinhas de menta.
Se lamentou de novo, de uma forma ruidosa e continua, igual a um adolescente e puxou seu celular, para começar a jogar Snake. O recorde salvo era de Kristoff e nunca tinha conseguido batê-lo. Na primeira rodada, matou a cobrinha já na segunda bolinha; na terceira, chegou na metade do próprio recorde e na oitava, voltou a morrer na segunda bolinha. Determinada, ajeitou-se na cadeira e acertou sua posição, inclinando-se sobre o aparelho e respirando profundamente antes de dar play. Sabia que o número máximo de pontos possíveis de se alcançar no jogo eram cinco mil, que o recorde de Kristoff eram 3.900 e que Anna sempre morria antes do próprio, que era 3.200. Completamente focada, seus olhos corriam toda a extensão da tela esverdeada e previa o movimento antes de executa-lo. Sequer prestava atenção na velocidade ou na contagem de pontos. A cobrinha já estava enorme quando Anna visualizou que tinha alcançados 3.450. Sorriu em vitória. Continuou de 50 em 50 pontos, lentamente, cuidadosa...
“Moça, o controle da televisão está na gaveta da mesa de centro” Ouviu a voz da secretária, que lhe roubou a atenção por breves segundos. Quando voltou, ainda estava no jogo e a cobrinha parecia correr mais que ansiosa em direção a parede. Anna tomou um susto, seus olhos arregalaram e a ponta do dedo escorreu para salvá-la, mas nada foi o bastante. Seu novo recorde era 3.650, visualizou desolada. Quase derramou uma lágrima.
“Agradeço” Sorriu, falsa “Aonde é o banheiro?”.
“Esta porta” Indicou.
A garota entrou, segurando um grito de frustração dentro de si. Lavou o rosto com água morna e se observou no espelho, recordando a razão de estar ali. Imaginou Elsa sentada com as pernas cruzadas em um macio sofá marrom, cheio de almofadas, e do outro lado, um homem velho e barbado, acenando a cada frase e anotando tudo a mulher dizia. Anna voltou a sentir-se ansiosa. Estaria Elsa contando os minutos para ir embora, também?
Quando saiu do banheiro, aceitou o café que a secretária – com nome de Harley ofereceu. Ligou em um baixo volume na MTV, que exibia a prévia do novo reality show do ano, sobre a vida cotidiana de Ozzy Osbourne, esposa e filhos. Depois da explosão do pop adolescente com as Spice Girls, Backstreet Boys e NSYNS em meados de 1997, de pouquinho em pouquinho o canal de música voltava as caras novamente para o rock. Para a sorte de Anna, sábado pela manhã passavam clipes: Shaggy ainda estava em alta e a garota gostava da batida, apesar de não tanto das letras. U2, Avril Lavigne, Evanescence e Nickelback também tocaram e apesar de Anna curtir, já estava murchando de tédio na cadeira, novamente. Seu celular vibrou e ela viu ser Esmeralda.
— Ela já saiu?
recebida, 10h22min.
Anna pressionou o botão para responder ao mesmo tempo que a porta do consultório se abriu e sua magnífica namorada loira, alta e de olhos capazes de perfurar o coração de qualquer desavisado por aí, surgiu. Enquanto se despedia de Black, Anna aproveitou para digitar um rápido ‘Sim’ para Esmeralda. Catou seu sobretudo, desligou a televisão e esperou Elsa na saída, feito criança ansiosa para ir ao Burguer King. Elsa agradeceu à Harley e disse que ligaria para marcar uma nova consulta, assim que possível.
O elevador estava parado no subsolo. Anna não conseguia ler a expressão facial de Elsa e também não quis aparentar estar tentando. Sentia-se quase possessa para perguntar como tinha sido, mas receava ser cedo demais para tal. Não queria deixar a mulher loira desconfortável. Pensou em soltar qualquer piada sobre a Fedex ou a calvície precoce do rapaz que falava no celular no elevador, mas também achou melhor não. Quando abandonaram o complexo, uma forte rajada de vento as atingiu e Anna choramingou. Olhando para o céu, sentiu saudade de casa.
Anna sentiu-se incomodada e até mesmo constrangida pelo silêncio que perdurou até entrarem na BMW. Sabia que aquele era o jeito de Elsa e que devia acostumar-se se queria viver com a mulher o restante de sua vida.
“Demorei muito?” A mulher indagou.
“Não, não, fiquei assistindo televisão, mal vi o tempo” Mentiu “Como foi?”.
“Hm” Elsa suspirou, sem muito interesse no assunto “Como achei que seria. Me perguntou o motivo que tinha me levado até lá, se de fato eu acreditava que precisava estar lá, se eu sabia exatamente o que me afligia, quem era você”.
Anna sentiu suas orelhas esquentaram e seus olhos buscaram apoio no hidrante vermelho do outro lado da rua. Evitava pensar na ideia de que Elsa poderia reclamar de si para outrem, ao invés de resolverem entre si.
“Sabe, muitas coisas serão difíceis de falar, mas...” A mulher pausou, observando os próprios nós na mão. Seus olhos também pareciam conflitantes, como se a boca não concordasse em proferir as palavras que seus pensamentos indicavam “Vou continuar tentando. Obrigada por isso, Anna”.
Anna retribuiu o olhar de carinho e se inclinou – voltando, uma vez que o cinto de segurança a manteve no lugar. Elsa sorriu e se aproximou para beijar Anna. A princípio, um selinho sem nenhuma outra espécie de intenção, depois, o beijo se tornou uma lenta dança mais romântica que desejosa. Quando os lábios pararam, não se afastaram. Anna viu o peso dos olhos azuis sob os seus e sentiu-se feliz e amada. Eram tão intensos quanto eram gentis. Demonstravam toda a gratidão, que talvez, Elsa não soubesse como demonstrar perfeitamente.
“Estou tão feliz que até poderia furar minha dieta para tomar um sorvete!”.
“Isso é uma indireta?” Elsa ligou o carro, enquanto observava o retrovisor.
“Não, não, foi da boca pra fora. Mas se quiser me pagar algo quente...”.
“Uma chupada?” A mulher indagou, expondo seu mais sacana sorriso.
“Eu...” Anna voltou a sentir embraço, apesar de gostar da rara Elsa-boca-suja. Limpou a garganta antes de continuar “Quer ir para casa?”.
“Outros planos?”.
“Nada em mente. Quer caminhar pelo píer e beber um café?”.
“Lá deve estar congelando, Anna. De uma maneira que o café não vai dar conta. Aliás, sequer faz sentindo você querer ir até lá”.
“Eu sei o quanto você gosta de frio” Anna respondeu com um biquinho, fingindo chateação “Só quero demonstrar todo o meu amor por você, mas Elsa Arendell é igual um gato arisco. Sempre que me preparo para pular em você e beijá-la, encher de carinho, você dá umas desviadas calculadas. Horrível. Acho que devíamos terminar”.
“Você é muito dramática” Elsa balançou a cabeça de forma negativa “Além do mais, que espécie de nova-iorquina é você que vai à pontos turísticos?”.
“Sou da terra do sol, eterna turista em Nova Iorque” Respondeu e cruzou os braços “Tem alguma outra ideia?”.
“Na verdade, estamos perto do meu escritório. Que tal nos trancarmos na sala da presidência, que oh, pasme, é minha sala e eu te pagar essa chupada?”.
“Seria ótimo se sua namorada não tivesse acordado atrasada e estivesse sem café da manhã até então” Anna se lamentou de forma exagerada, “Mas claro que nós podemos estacionar em qualquer lugar sem movimentação para me pagar o que me deve, sem problema algum. Não sou exigente”.
“Bom, aparentemente não conhece sua namorada o suficiente” Elsa levantou as sobrancelhas, como quem estivesse ofendido.
“O que quer dizer?” Anna cruzou os braços e Elsa mordeu o lábio inferior, se aproximando vagarosa, até alcançar a orelha de Anna.
“Se fosse para transar em público, não nos esconderíamos. Seria aqui e agora” A mulher disse séria, enquanto sua mão acariciava a perna de Anna “Uma pena que até eu conseguir te tirar essa coleção de roupas que você está usando, já seria noite. E pra sua sorte, aqui perto tem uma cafeteria parisiense com um ótimo barista. Podemos resolver, pelo menos uma das tuas questões. É perto, nós podemos ir a pé e-”.
“Mas nem fodendo, Els, olha esse frio lá fora!” A garota ruiva gesticulou.
“Que exagero, Anna” A mulher sorriu, ligando o carro.
E talvez Deus estivesse assistindo ao drama da garota ruiva, ou o karma simplesmente existisse para sacaneá-la: ao não encontrar vaga próxima da cafeteria, tiveram que estacionar o carro a duas quadras de distância e de fato caminhar até ela. Andavam juntas, com os braços dados, debaixo de um céu nublado e dos quase -2ºC negativos da cidade. Sem surpresas, a cafeteria estava lotada. Elsa escolheu um macchiato de grão médio e amargo e Anna um cappuccino com dobro caramelo e chocolate, além de dois cookies. De volta ao carro, Anna sorria igual de satisfação com o aroma e calor do falso-café.
“O que escolher açúcar, açúcar e café diz sobre você?” Elsa brincou, acionando as travas do carro.
“Hmm” Anna pareceu pensar de forma séria na pergunta. Não seria verdade dizer que ela era doce e apreciada por maior parte da população, enquanto Elsa era amarga e tristonha igual seu café-médio “Que eu tenho o paladar infantil e você de um idoso amargurado que voltou da guerra?”.
“É assim que você traduz a personalidade a minha persona?” Elsa solveu um gole “Sabe que às vezes aprecio chás, sucos e até uma torta doce, né?”.
“Tudo sem ou com o mínimo de açúcar possível” Anna pouso os olhos em Elsa “O que leva alguém a fazer isso? Seria uma forma de se autodepreciar?” Pensou em voz alta, mas então calou-se. Ficou quieta alguns momentos, sentindo o vapor da bebida esquentar seu nariz gelado e suas bochechas. A brincadeira tinha saído de forma despretensiosa, mas julgava não caber para Elsa naquele específico momento de suas vidas. Sentiu-se idiota.
“Me des...” Anna murmurava baixinho.
“Na verdade” A mulher loira a cortou, balançando os ombros “Acho o doce, muito doce, se é que isso possa fazer sentindo pra você. O açúcar e seus derivados costumam roubar o sabor dos outros alimentos, igual ketchup. O sabor é o mesmo em tudo que você os adiciona arbitrariamente”.
“Você não tá falando sério” Anna virou completamente o corpo para o banco do motorista, apoiando o antebraço no seu próprio encosto “Eu realmente namoro alguém que não gosta de ketchup? Logo vai revelar que não gosta do natal também. Cuidado onde estamos indo com esse papo, hein”.
Elsa desviou o olhar de maneira exagerada e teatral.
“O que esperava afinal, de alguém de trinta anos que dirige uma BMW, Anna? Com certeza alguém que não fosse divertido, não é?”.
“Não imaginei nada” Anna apertou as sobrancelhas, como quem buscasse memórias no próprio arquivo mental “Quanto a vi pela primeira vez, só consegui ficar puta porque meu expediente tinha encerrado. Mas então você usava um longo sobretudo, era gostosa e alta, tipo uma agente do FBI, e parecia irritada. Resolvi te atender para não correr o risco de levar um tiro e tal”.
“Eu parecia uma agente do FBI?” A mulher não pôde conter a risada, mordendo o lábio “Eu tinha acabado de deixar uma reunião na empresa. Talvez eu realmente estivesse irritada ao ponto de atirar em alguém, se tivesse uma arma. Ou pedras nos bolsos”.
“Bom” Anna começou “Por você sempre estou disposta a correr o risco”.
“E isso é algo bom?”.
“Era pra ser” Anna fechou a cara “Idiota”.
O tempo passou um tempo assim, enquanto Anna comida seus cookies.
“O que te levou a entrar no Eight? As luzes estavam apagadas e o restaurante claramente fechado”.
“Mal pensei, na verdade. Estava bastante chateada” Elsa recostou no banco novamente, olhando para o teto do carro “Só repetia como mantra ao universo que eu achasse um conhaque quente. Quando sentei ao bar, só pensei se você seria capaz de ouvir minha voz. Quando vi seu rosto, porém...” Elsa descansou os olhos azuis nos verdes de Anna “Seus olhos e sua expressão. Você é linda, Anna e no dia então... Me senti contemplada pelos deuses”.
Anna sorriu e então limpou a garganta.
“Como se chama?” Anna tentou imitar uma Elsa de quase um ano antes. Com o teatro armado, o rosto de Elsa exibiu confiança.
“Anna Miller” Elsa disse, sentindo cada sílaba deslizar pela língua. Ela continuou, porém “Anna é um nome... prazeroso de pronunciar. Poderia me ser um pouco de uísque, Anna?”.
“Não acredito que fui pega tão fácil” Anna balançou a cabeça de forma negativa, rindo “Você dizendo a palavra ‘prazeroso’ foi tão aveludado e sensual que eu quase me derreti do outro lado do balcão”.
“Não consegui o mesmo efeito agora?” Sorriu.
“Bom, o que posso dizer... Aquela Elsa era mais misteriosa” Anna respondeu com maldade na voz e só conseguiu receber um tapa em resposta, “Mas foi de longe uma das noites mais românticas que tive na vida. Bebi, ouvi Oasis no metrô e transei com alguém que eu quase não soube o nome. Aliás, por que não se apresentou quando eu falei meu nome, também? E por favor, não me venha com o papinho que seu sobrenome é famoso demais e que se eu soubesse, só dormiria contigo por dinheiro, porque isso é mentira. Porque eu dormiria contigo pelo seu dinheiro e pelo seu corpo também”.
“Isso nunca se passou pela minha cabeça” Elsa terminou o café “Só queria ser anônima em tudo que fizesse, inclusive ao ficar contigo. Não vou te falar que fiquei com poucas mulheres, porque seria mentira. Mas até então eu não tinha estado na casa de nenhuma delas e sequer sabia seus nomes, tanto quanto não sabiam o meu. Acho que sempre fui um tanto quanto vaidosa nesse sentindo, mas pensando agora, era idiota. Eu era...” Ela pausou “Talvez eu seja frustrada com o trabalho e isso atrapalhe minha vida no geral. Aquele dia foi um ponto fora da curva. Queria beber até o amanhecer contigo, mas quando disse que precisava ir para casa, me senti responsável por você”.
“Você poderia ter chamado um táxi”.
A mulher loira parou por um instante e seus olhos entregaram para Anna a confusão que ela viveu. Talvez nunca tivesse passado em sua mente, a opção.
“Admita, Els, me queria desde o começo”.
“Você é uma convencida” Não deu brecha.
“De qualquer maneira, aquele dia foi muito importante na minha vida. Conhecer essa bela mulher, com essa tonalidade duvidosa de cabelo, postura rígida e sóbria e roupas que sempre me lembram o que tem por debaixo delas. Aliás, você é advogada, meu deus, quão clichê é você ser tão erótica assim? E ao mesmo tempo... A pessoa mais amável e carinhosa que eu pude conhecer?”.
A declaração deixou Elsa sem resposta. As maçãs do seu rosto esquentaram de repente.
“Sabe, eu realmente te amo”
“Mesmo depois de tudo que fiz” A voz de Elsa sumiu, como se tivesse vergonha de lembrar de tudo que tinham passado.
Anna observou suas próprias mãos nuas, ainda segurando o cappuccino.
“O que passou formou o que somos agora”.
Com essa frase, o silêncio tomou conta poucos instantes. A mulher loira se aproximou até suas mãos quentes alcançarem o rosto de Anna e o polegar carinhosamente deslizar sobre seu maxilar. Beijou Anna, que retribuiu calidamente.
“Obrigada, Anna” Elsa afastou os lábios e Anna sorriu “Mais uma vez”.
“Vamos para casa” Voltou para sua posição.
“Certo, mas antes” A ruiva disse animada “Vou ligar em uma rádio que eu gosto. E a música que estiver tocando, você aprenderá a cantar, ok?”.
“E que espécie de jogo injusto é esse? Você já deve saber todas”.
“Exatamente” Anna piscou.
“Então quando chegarmos na minha casa, vou pegar o livro mais próximo, abrir em uma página qualquer e você decorará o primeiro parágrafo”.
“Mas. Você só tem livros sobre leis...”.
“Exatamente” Elsa piscou de volta “Pegar ou largar”.
“Ok” Anna concordou com um biquinho “Lá vai...”.
“Qual o número da estação?”.
“Vou sintonizar”.
“Mas e se você passar por uma música difícil e me sacanear falando que era a rádio escolhida desde o início”.
“Eu jamais o faria, Els...”.
Já tinham voltado ao trânsito quando Anna começou a percorrer as rádios. Passou por músicas country, pop e gospel do Bronx. Até que de fato parou em uma que pagaria para ver Elsa cantar:
— And you’re a very sexy girl, that’s very hard to please, you can taste the bright lights, but you won’t get ther for free;
E você é uma garota muito sexy, difícil de satisfazer, pode até experimentar luzes brilhantes, mas não chegará lá de graça.
“Você não tá falando sério” Elsa a olhou pelo canto do olho “O que é isso?”.
— In the jungle, welcome to the jungle, feel my serpentine, i wanna hear you scream;
Na selva, bem-vindo à selva, sinta minha serpentina, eu quero te ouvir gritar.
“Isso” Anna sorriu e sentiu-se maldosa. Então pensou novamente “Isso infelizmente não é a rádio que eu tinha em mente. Mas eu realmente daria tudo para vê-la cantando Guns e rebolando um pouquinho. Quer dizer, eu SÓ seria a garota mais sortuda do mundo, sabe? Só isso mesmo, uma coisinha básica...” Anna sorriu, observando o rosto passivo da outra “A próxima é a rádio escolhida. Seja lá o que estiver tocando, é sua música”.
— I'm gonna meetcha, meetcha, meetcha, meetcha, one day, maybe next week, I'm gonna meetcha, I'll meetcha, ah;
Vou te encontrar, te encontrar, te encontrar, te encontrar, um dia, talvez semana que vem, vou te encontrar, vou te encontrar.
“Oh, isso é ótimo!” Anna comemorou e começou a balançar a cabeça “Vai ter que cantar essa música pra mim e se bêbada o suficiente, dançar também”.
“Vai sonhando”.
— One way or another, I'm gonna find ya, I'm gonna getcha, getcha, getcha, getcha, one way or another, I'm gonna win ya;
De um jeito ou de outro, eu vou te achar, vou te pegar, te pegar, te pegar, te pegar, de um jeito ou de outro, vou ganhar você.
“Já estou sonhando, Els”.
“Quieta”.
01 de agosto de 2020.
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